Archive for the 'Zach Condon' Category

exercícios sob a trilha sonora vespertina

[qui] 16 de janeiro de 2014

DOS ELEFANTES

Não começar pelo que lhe é fácil. Lembre-se. Assim morrem os elefantes. Na tarde azul há um branco em forma de balão e o preto em forma de luto ou luta. Há toda uma solidão e um silêncio só. Há o sono acidentado e a dor cinzenta… Dor que um dia cairá tal qual a tempestade. E lá, onde for, longe do que é fácil, emerge no fio sonoro do trompete uma lembrança do que fora uma juventude ou sonhos verdes. E explode – sem poder iniciar – o poema vermelho, o desconforto agudo, o fim crônico. Solitário, como a ilusão tão real que este mundo azul é triste e seco. Seco é o som. É a orquestra em silêncio. Lá longe é tão cá dentro e é tão imenso como o nó da madeira e a dor do músculo esquerdo. Mas aquieta. Espera. Não começar pelo que é fácil… E vem em gritos, entra, atravessa, preenche todos os cantos com este som inteiro. Há tempo e tudo crescerá. Após a chuva cerrar e após o sol – que um dia chegará. E assim, repara o trilho sonoro que comporá o caminho que os teus pés e ouvidos farão. Orquestrarás o esquecimento… Morrerás, frente a frente, como todos os elefantes – imensos e terminais.

[nota – quando conclui isto hoje pela tarde lembrei disto aqui]

DO MAR

Não se caminha sobre o mar à tarde. Voa-se – como só os peixes sabem, refletidos, sobre os fragmentos estelares, estes milhares de brilhos solares, tão filhos do vento e dos meus olhos vespertinos.

nantes

[seg] 27 de setembro de 2010

Este poema que colei na parede do quarto, para me lembrar de algo que às vezes esqueço, é o poema do dia. um dia onde o mar a perder-se de vista num horizonte branco sem fim dá o tom. dia leve, de arrumação interna, do quarto e da vida. dia para relaxar e aguardar.

O hábito de estar aqui agora / aos poucos substitui a compulsão / de ser o tempo todo alguém ou algo. // Um belo dia – por algum motivo / é sempre dia claro nesses casos – / você abre a janela, ou abre um pote / de pêssegos em calda, ou mesmo um livro / que nunca há de ser lido até o fim / e então a ideia irrompe, clara e nítida: / É necessário? Não. Será possível? / De modo algum. Ao menos dá prazer? / Será prazer essa exigência cega / a latejar na mente o tempo todo? / Então por quê? / E neste exato instante / você por fim entende, e refestela-se / a valer nessa poltrona, a mais cômoda / da casa, e pensa sem rancor: / Perdi o dia, mas ganhei o mundo. / (Mesmo que seja por um segundo.)// BRITO, Paulo Henriques. As três epifanias. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 72 // …

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