Archive for the 'Vladimir Maiakovski – Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky – Владимир Владимирович Маяковский' Category

Л Б ю

[qua] 8 de novembro de 2017

já virou o relógio. em cinco horas estarei de pé, acordado, bebendo meu mate amargo noite adentro estrada estranha… verde quente erva ventre dentro entranhas. 

já defini qual será meu próximo poema/tatuagem…  será no antebraço direito, o poema Л Б ю¹ de Maiakóvski. esse será simétrico ao esquerdo onde está grafado o poema código, de augusto de campos…

bem na verdade já tive essa sacada faz um tempinho…

sono chegou… bora dormir. amanhã, ou seja, logo mais, daqui umas 4 horas, depois de acordar… será um longo dia.

o dia foi tão longo… com altos e baixos. exausto, mas feliz pelo dia. e editando aqui… quando procurava uma foto do poema código para ilustrar o texto… achei isto aqui:

«Que el poema haga reír y haga llorar como una mujer rubia o un hermoso caballo» Pablo de Rokha²

notas de rodapé

  1. as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)
  2.  extraído daqui> http://poemacodigo.tumblr.com/

хорошо!

[sex] 29 de setembro de 2017

CRI_62260

«A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo»

Vladimir Maiakovsky

el2 (1)***

acordei agora pouco. depois de 3 horas de sono… um cochilo pós janta. tenho médico logo mais… devia estar dormindo agora. mas um tumulto de coisas me abalam.

PENSAR-ME ENQUANTO ARTE. SER TRANSGRESSÃO. NÃO AJOELHAR-ME AO CAPITAL. MANDAR UM FODA-SE… USAR MINHA POESIA E MINHA ENERGIA PARA LIBERTAR-ME.

E NESSA HISTÓRIA DE POESIA/GRITO/NARRATIVA DE RESISTÊNCIA.

Slam Resistência

***

notas avulsas> resumo tedioso da semana alienada… foi tão tensa… que até dora deu roubar chinelo (e coisas que ficam pelo terreno… ela tentado chamar a a atenção… para sair da solidão). e eu me perdi em algum lugar ai nos afazeres, na rotina intensa de dormir pouco, fazer coisas, cuidar de gente… burocracias e demandas externas… esse ultimo mês mais ou menos assim. cheio. eu dando um jeito da minha vida caótica. cuidando de filha, mãe… de mim mesmo.

notas avulsas>

AGIT-PROP: O LUGAR GEOMÉTRICO DAS VANGUARDAS POLÍTICAS E ARTÍSTICAS

atualizando> dossiemayakovski/

Оркестр Чё – Guten morgen, Маяковский

[ter] 19 de julho de 2016
Текст песни Оркестр Чё – Guten morgen, Маяковский
Гутен морген, Маяковский
Зря ты так дыра в груди
Гутен морген, Маяковский
Придти уйти
Гутен морген, Маяковский
Помнишь, виделись во снах
Гутен морген, Маяковский
Облако в штанах
Гутен морген, Маяковский
В 31-й не успеть
Гутен морген, Маяковский
За тебя допеть
Гутен морген, Маяковский
Не нашлось свободных ниш
Гутен морген, Маяковский
Куда летишь?…
Гутен морген, Маяковский
До свиданья Лиля Брик
Гутен морген, Маяковский
Проглоти свой крик
Гутен морген, Маяковский
Зазвучал небесный альт
Гутен морген, Маяковский
…хальт…

música de trabalho

[ter] 21 de outubro de 2014

e a vontade de fazer nada, mais o corpo exausto pelo excesso de ontem… faço um edição na página ‘dossiê mayakóvski, a mais visitada e compartilhada deste blogue, adicionando a tag:  maiakóvski (влади́мир влади́мирович mаяко́вский).

e a trilha sonora da tarde é Tropicália 2;

e a fundamentação filosófica para as aulas de hoje é: «a relação do ser humano com a natureza: o trabalho. i) para existirem, os seres humanos devem necessariamente transformar a natureza. esse ato de transformação é o trabalho. o trabalho é o processo de produção da base material da sociedade pela transformação da natureza. é, sempre, a objetivação de uma prévia-ideação e a resposta a uma necessidade concreta. da prévia-ideação à sua objetivação: isto é o trabalho. vale enfatizar que, para marx, nem toda atividade humana é trabalho, mas apenas a transformação da natureza. veremos mais adiante por quê. ii) ao transformar a natureza, o indivíduo também transforma a si próprio e à sociedade: a) todo ato de trabalho produz uma nova situação, na qual novas necessidades e novas possibilidades irão seguir; b) todo ato de trabalho modifica também o individuo, pois este adquire novos conhecimentos e habilidade que não possuía antes, bem como novas ferramentas que também antes não possuía; iii) todo ato de trabalho, portanto, dá origem a uma nova situação, tanto objetiva quanto subjetiva. essa nova situação possibilitará aos indivíduos novas prévias-ideações, novos projetos e, desse modo, novos atos de trabalho, os quais, modificando a realidade, dão origem a novas situações, e assim por diante. o trabalho e a sociedade. i) todo ato humano tem por base a evolução passada da sociedade, a situação presente concreta em que se encontra o indivíduo e suas aspirações e seus desejos para o futuro. não há ato humano fora da história, fora da sociedade. ii) a objetivação resulta, sempre, em três níveis de generalização: a) o nível objetivo: o objeto produzido passa a ser influenciado e a influenciar toda a sociedade. sua história adquire, assim, uma dimensão genérica: é, agora, parte da história humana, b) o nível subjetivo, que se subdivide em dois subníveis: b1) o conhecimento de um caso singular (como fazer este machado) se eleva a um conhecimento acerca da realidade em geral. esse conhecimento genérico da realidade pode ser aplicado em circunstâncias muito distintas daquelas em que se originou; b2) o conhecimento de um indivíduo se difunde por toda a sociedade, tornando-se patrimônio da humanidade. iii) o trabalho é o fundamento do ser social porque, por meio da transformação da natureza, produz a base material da sociedade. todo processo histórico de construção do indivíduo e da sociedade tem, nessa base material, o seu fundamento.» sérgio lessa e ivo tonet

ps: mas é preciso ir… há trabalho por fazer.

mas antes, um lembrete… trabalhar com a ‘música de trabalho‘ em sala. letra cá: Música de Trabalho // Legião Urbana // Renato Russo, Marcelo Bondá e Dado Villa-Lobos // Sem trabalho eu não sou nada / Não tenho dignidade / Não sinto o meu valor / Não tenho identidade / Mas o que eu tenho / É só um emprego / E um salário miserável / Eu tenho o meu ofício / Que me cansa de verdade / Tem gente que não tem nada / E outros que tem mais do que precisam / Tem gente que não quer saber de trabalhar / Mas quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / De todo o meu cansaço / Nossa vida não é boa / E nem podemos reclamar / Sei que existe injustiça / Eu sei o que acontece / Tenho medo da polícia / Eu sei o que acontece / Se você não segue as ordens / Se você não obedece / E não suporta o sofrimento / Está destinado a miséria / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / Do pouco que não temos / Quem sabe esquecer um pouco / De tudo que não sabemos // 

o barco do amor espatifou-se na rotina.

[seg] 14 de abril de 2014

«A todos
De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.
Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
Lília, ame-me.
Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.

Como dizem:
……………….. caso encerrado,
o barco do amor
……………….. espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
……………….. …….inútil a lista
de dores,
………….desgraças
………………..  ……. e mágoas mútuas.

Felicidade para quem fica.
V L A D I M I R     M A I A K O V S K I
12/IV – 30.

“Companheiros da VAPP, não me considerem covarde.
É sério, não há o que fazer.
Lembranças.
Digam a Ermilov que foi uma pena ter retirado o lema, tinha que terminar a briga.
Em minha mesa tem 2.000 rublos, paguem o imposto.
O restante recebam do GIZ.
V.M.»

a bala como ponto final

[qui] 10 de abril de 2014

As horas avançam… Chegam! E passam… E toda minha vontade esfacela-se diante da constatação que os planos idealizados não atingiram a {suposta} integridade… Tudo é um tanto precário e um bocado provisório… Eu iria, mas agora já não sei se irei tão longe hoje ou mesmo se irei a algum lugar…

10/04/2014. Em quatro dias farão 84 anos que o poeta da revolução dava como desfecho de seu último poema uma bala como ponto final [lembrar de copiar e colar o poema/bilhete final]. Hoje, como tem acontecido em quase todos os últimos livros que li, derramei algumas lágrimas, senti aquele aperto no peito… aquele sufoco. Enfim, como havia escrito antes “Derramei uma lágrima, li sua carta e conclui a leitura da biografia sobre tu, poeta Maiakóvski”.

E não sei se é por andar as voltas com estas últimas páginas nestas últimas duas semanas, mas ando sentindo-me estranho neste mundo e a rotina exaustiva e violenta do cotidiano me faz permanecer nesta zona de desencanto diante da vida… São as horas intermináveis neste ônibus¹ lotados, nas filas e esperas sem fim nos terminais², na violência no local de trabalho, no sindicato, por parte do Estado, nas relações familiares, na falta de vida digna e feliz para todos que me cercam… Tudo é estúpido demais, alienado e alienante demais… tão burocrático e capitalista que sufoca os sonhos e a capacidade de amar…

E fazendo uma balança destas últimas semanas percebo que não conclui nada do que comecei… Tudo ficou abandonado… Amontoando-se. Eu estou por ali… No meio das coisas.

POST SCRIPTUM (ou p.s. mesmo): por enquanto carrego uma intuição cá, logo era virará um poema. até lá não sei… ando bem perdido. um estranho até para mim mesmo. perdido em meio de tanta violência. triste e raivoso. distante. só e apertado num nó.

*

LISTA DE COMPRAS E PAGAMENTOS – da série rotina familiar: 3 Camisetas de uniforme escolar para Izabel. 1 Kg de Erva-mate Taragui. Incensos. TED entre bancos. Conta de Luz atrasada.

**

***

****

NOTAS DE RODAPÉ

¹ que de omnibus não tem nada. ali eu não me sinto gente.. torno-me um coisa e só de pensar me dá um nojo dessa vida… me sinto violentado todo dia, e não há semana que eu não tenha que publicamente dentro do coletivo chamar atenção do cobrador ou do fiscal? é toda uma insensibilidade, uma desrespeito, uma agressividade constante. Ou eu viro um idiota ou enlouqueço.

² que se tudo der certo no dia eu gasto 3 horas num itinerário que percorre 23 quilômetros em 60 minutos embarcado – 2h são de esperas. mas se der errado serão 4 horas. é quase o tanto que permaneço em sala na escola… Gasto, aproximadamente, por baixo, 10 horas por dia em 4 dias na semana em função do trabalho – preparação de aulas (3h)/traslado (3h)/aulas em sala (4h) – ganho por 20hs.

os ideais de outubro

[dom] 30 de março de 2014

O dia avança em silêncio. Cá dentro atropelam-se os pensamentos. Organizo quarto, mas faltam aulas e cadernos – e para estes últimos ainda busco a solução melhor para o matá-los sem causar trauma nos alunos, já que se mostrou inviável o trabalho com cadernos de campos para uma população de mais de 300 alunos… não consigo dar conta de ler, avaliar e orientar… O que era almejado e o que de fato consigo fazer estão distantes quilômetros. E no programa… Atrasos de toda ordem: O curso ead sobre conselho escolares que deveria ter iniciado… venho adiando, já são 3 atividades… e é bem provável que eu me candidate para o conselho escolar – o que me dá um frio na barriga. Estou insatisfeito e angustiado por estas bandas. E hoje, eu ia sair, fazer uma visita… Mas não fui. Fiquei. Tumulto demais aqui dentro. Fiz faxina.

Da leitura de hoje: Página 400. Mikhailov, Aleksandr. Maiakovski, o poeta da revolução.

“Em 1926, Maiakovski percebe que o nepotismo, a corrupção, a mesquinhez, a burocracia perpassam a nova sociedade de cima para baixo. No poema “Proteção”, raivosa e ironicamente, observa como uma rede de ligações necessárias se estende de um simples cidadão, passa pela lixeira e segue, segue, segue até o Comitê Central… Não é um caso, é um sistema. Qualquer organização nesse sistema se apresenta ao poeta como uma “Fábrica de burocratas” que transforma qualquer um, até aquele com pretensões honestas, num zeloso e obtuso fabricante de papéis; apresenta-se como mecanismo do sistema onde muito em breve “Os pios fracos da consciência partidária serão abafados pelo peso dos dias”.
Maiakovski percebe como estavam sendo traídos os ideais de Outubro, como estavam sendo “anuladas as trovoadas e as quebradeiras de Outubro” e como “o comunismo estava sendo… encoberto”. Nas declarações poéticas Maiakovski expressa a crença no partido, na sua força e na capacidade de vencer este mal, mas no coração precipita-se a amargura que minava a crença na justiça social, na vida…”

o jardineiro e as leituras

[dom] 23 de março de 2014

Exausto, e quase catando milho… Transcrevo o que na manhã anotei no papel.

6:47 Acordo e a última imagem do sonho é tu, parada, na porta que acabo de abrir, e há uma criança ao seu lado.

7:03 Aqueço a água. o mate me aguarda.

7:16 O sol chegou, mas é lá do outro lado, no outro morro.

8:21 O sol me atingiu a nuca. enfim, o espaço de cá é dele.

8:30. Retomo, e concluo as 4 páginas que faltavam de Antes de nascer o mundo, de Mia Couto, que me aguardava desde 09/03. e entre leituras, como num instantâneo, brota no meu pensamento essa sensação de que estou retomando e concluindo o que deixei em aberto no ano passado. que me haja tempo nessa vida…

9:00 Retomo “Maiakovski: O Poeta Da Revolução”, livro de Aleksandr Mikhailov que abandonei na estante lá por outubro. Era o livro que eu lia nas segundas no busão, no caminho de ida e volta da escola, e como desliguei-me da escola… o livro ficou ali, esperando… enquanto eu lia os 10 dias que abalaram o mundo e o ano 1 da revolução, para entender um pouco mais o contexto do poeta e da revolução.

10:00. Escrevo tudo isto acima.

23:06. Transcrevo para cá, e vou encerrando este trecho… pensando porque a vida é tão rápida e tão lenta ao mesmo tempo… podei árvores, empilhei pedras e fiz tanta coisa hoje. E para fechar, busco o poema “Sobre isso” na rede e não acho. O livro que tenho de poemas de Maiakóvski, aquele dos irmãos de Campos e Boris Schnaiderman, não tem este poema. Encontro isto. E isto. E acho que é o cansaço por não ter parado durante o dia todo e ter bebido tão pouca água… Que chego estar irritado agora. Dormir é uma necessidade. O corpo exige.

e pra fechar… Literatura Russa.

três mil dias e o centenário do poetinha

[sáb] 19 de outubro de 2013

O centenário do Poeta. De todas e todos, foste o primeiro. Aquele que me cruzou o caminho, perpassou este peito que sangra(va) enquanto amava e desamava e amava mais e desamava mais e sofria. Sofria tanto, porque amar não é algo assim tão simples… Principalmente quando és iniciante nesta arte… Sofres bocados. Mas entre a apatia e o sofrimento lá estavas tu, dizendo-me: “soframos… (…) posto que é chama”… O poeta repleto de desencontros e encontros ensinava ao rapaz estes novos caminhos. O poeta e o rapaz, e ainda faltavam 15 anos para este centenário, o primeiro poeta. Foi mergulhando em tua poesia que meus versos infantes nasceram qual um fluxo incontrolável ou uma fenda por onde desaguava no exterior as águas de um oceano profundo e interior todos os sonhos e toda a solidão emergiam, brotavam, sangravam, ganhavam sons, tornavam-se imensos… Era eu-poeta gente posto que sentia e soltava ao mundo meu mundo e cada palavra toscamente grafada era uma barra a menos na prisão do poeta nascente… Na poesia eu encontrava-me no mundo… Sem ela, o mundo me era estranho e violento por demais. Desde então, sem perceber o ponto de transição transmutei-me neste, nem sempre, doloroso verso.

Depois de ti poeta, tantas e tantos, e todos estas e estes me marcaram a carne profundamente, apreendi um tanto com cada – e de cada verso-poesia-poetas eu irmanava.

Mas hoje, poeta, vagando, e pensando, que talvez seja a secura ou uma terra maltratada, mas tenho abandonado a lição que compartilhaste… E não escrevo mais, desaprendo a poesia, mudo o poema…

Sei, apesar de tudo, sabemos: só a poesia é a brecha, a fenda… A forma mais próxima do encontro, neste oceano de desencontros. Sem poesia, tudo é [  vazio  ] demais.

***

Ontem, pela tarde, enquanto reencontrava, nas leituras semanais, outro poeta e pensava sobre a situação que me enfiei, nestes velhos e sujos hábitos, emaranhado-me em nós que imobilizam, sufocam, asfixiam o poeta-poema-poesia e só me sobra o inverso de ti, primeiro poetinha, de tua lição… pelo amor (mas acho que isto não é bem amor) ao medo e pelo medo do amor (e de toda o sofrimento que vem no seu bojo) desamo tudo em mim e a poesia torna-se impossível… não posso (ainda, quem sabe…).

Anotei as palavras sobre o poeta comfus… “Esse ‘quartinho-barquinho’ num apartamento comunal, onde residiam mais cinco famílias e no qual o poeta ‘navegou’ três mil dias’, seria seu último abrigo antes do fatídico tiro no coração.” p. 251

E por agora conto meus pequenos e enfadonhos contos, aguardo a poesia que me libertará… mas dia desse, quando não houverem mais crianças nem cachorros, quem sabe me saco disto tudo, e num tiro tudo desmancharia-se no ar… assim será – mais cedo ou mais tarde.

resolução 110/2013… ou madera de deriva

[ter] 1 de outubro de 2013

RESOLUÇÃO: Este blogue está chato demais. mas bem na verdade devo ser eu que estou chateado/r. lembrete/resolução: ESCREVER POST NOVO AQUI SÓ QUANDO TIVER COISAS GENIAIS E INTERESSANTES (ou quase). ‘té.

As rotinas seguem cá para te perderes enquanto me procuro:

Dia #1 a origem da palavra; madera de deriva, sala de aula me anima; Dia #2 letra bastão, faço uso dela desde 1995, guardando a cursiva para dias de provas de concursos/vestibulares apenas – e repara que minha letra cursiva não tão feia não; estou [quase] de veisalgia, ontem foi uma sobredose de the pillars of the earth; Dia #3 “é muito provável que o patronímico ibérico -ez seja um fóssil lingüístico.”; Dia #4 após um dia inteiro dormindo… um chá de camomila e mais um pouco de word without end… um mergulho na inglaterra do séc. xiv – guildas, peste negra e guerra dos cem anos… “quão amabilíssimo me eras mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres“; e pela noite, batendo ponto, em reunião com o professorado sobre os alunos, a avaliação dos educandos é uníssono: “ele é legal [eu], mas é difícil acompanhar o seu raciocínio… muita coisa ao mesmo tempo”, ou seja, traduzo aqui: “está uma zona”, usando uma expressão apropriada – mas essa bagunça na exposição dos temas, na organização deles, da sala já é sabida e digo mais… é da vida, da casa, da rotina, do próprio ser… esse cara que muda de ideia a cada dez minuto, não se decide nunca e tudo o cansa muito rápido.  e no final da noite eu não sabia bem o que me abatia, se era estar no meio das pessoas – e festas são rituais que me deixam desconfortável – ou estar sem rumo e ao lado de pessoas estranhas – porque insisto em mantê-las estranhas. Enfim… volto sozinho sempre porque é difícil abrir este peito repleto de cicatrizes profundas. Dia #5 foi assim assim… livre para lavar louça, roupa e fabricar um canteiro, transplantar grama e construir uma escadinha com pedras. Dia #6 O texto é esse: “Certamente a gente só encanta quando se encanta. Se eu não estiver encantado com o meu objeto de conhecimento, eu não posso encantar o outro. No sentido não de fetiche, mas de sedução gnoseológica. Há um jogo de sedução, mas só é sedutor quem já está seduzido. Ou seja, há tanto mais charme quanto mais charme eu achar que há.”  de Mario Sergio Cortella – Nos labirintos da Moral. e cá… Indeciso. Dia #7 Sol da porra, dia lindo, e eu dormindo até o meio-dia. Ouço mais música… tom zé, cartola, jorge drexler, manel, orquestra che são as vozes ecoando neste crânio… Não recebo bem críticas, racionalmente as entendo, mas emocionalmente é mais difícil de lidar com elas, de um lado a compreensão, a analise, do outro o medo e revolta nas entranhas. E hoje, recebo um retorno positivo, um elogio, de um texto que sei que ficou assim assim por ter deixando para o ultimo segundo do ultimo tempo da prorrogação. Talvez meus padrões sejam exagerados e meu animo diminuto… Mas animou-me, o retorno, e é como se precisasse ainda de um reforço externo que chancelasse o meu potencial. Potência ignorada por estar tão descrente de mim e de tudo. É nisto que tenho pensado muito ultimamente… E cambiando de assunto totalmente pergunto como é possível que eu escreva aislado num texto em português, que mania essa de inventar leis próprias e desconsiderar convenções? E cambiando mais e mais… isto aqui é bacana e isto também. 8 horas e 43 minutos para entregar (segundo prazo) a tarefa… e eu nem li nada, vou sair e volto só lá pela oito, vai ser corrido. Hein? /// Ela disse nego / Nunca me deixe só / Mas eu fiz de conta / Que não ouvi, Hein? // Ela disse: – orgulhoso / Tu inda vai virar pó / Mais eu insisti / Dizendo Hein? // Ela arrepiou / E pulou e gritou / Este teu – Hein? – moleque / Já me deu – Hein? – desgosto / Odioso – Hein? com jeito / Eu te pego – Ui! bem feito / Prá rua – sai! – sujeito / Que eu não quero mais te ver // Eu dei casa e comida / O nego ficou besta / Tá querendo explorar / Quer me judiar / Me desacatar /// Compositor: Tom Zé – Vicente Barreto.  Agora são 21:32 e faltam apenas 2 horas e 22 minutos – contagem regressiva – prazo final… E depois narro os encontros-desencontros de hoje, com direito a abraços e olhares, e do final de tarde bonito demais, e da lua nova no céu aberto, e dos olhares – quase – constrangidos, em fuga, e dos olhos perscrutadores. E Ufa [23:54’46]! menos 14 segundos e eu não conseguiria entregar… Dia #8 eu gosto de horóscopo. eu não narrarei os encontros-desencontros de ontem, apenas digo que foi um dia bonito. E as segundas eram de Maiakovski, é bom reencontra-lo. [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado];  [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado]; [editado];  [editado]; [editado]; [editado]; [editado diariamente com anotações diversas – cumprindo assim sua função de ser um weblog, um caderno de apuntamentos, um bloco de notas – enquanto aguardo o momento…]; …

Оркестр Че – Маяковский

[ter] 17 de setembro de 2013

Оркестр Че – Маяковский

МАЯКОВСКИЙ
Гутен морген, Маяковский
Зря ты так дыра в груди
Гутен морген, Маяковский
Придти уйти
Гутен морген, Маяковский
Помнишь, виделись во снах
Гутен морген, Маяковский
Облако в штанах

Гутен морген, Маяковский
В 31-й не успеть
Гутен морген, Маяковский
За тебя допеть
Гутен морген, Маяковский
Не нашлось свободных ниш
Гутен морген, Маяковский
Куда летишь?…

Гутен морген, Маяковский
До свиданья Лиля Брик
Гутен морген, Маяковский
Проглоти свой крик
Гутен морген, Маяковский
Зазвучал небесный альт
Гутен морген, Маяковский
…хальт…

http://translit.ru/

________—

E os russos chegaram. Tenho em mãos a Poesia Moderna Russa – saudade deste livro. Agora é reencontrar estes poetas. E quem sabe reencontrar-me…

E baixei todos os álbuns do Orquestra Che. 

guerra e universo

[qua] 28 de agosto de 2013

tive uma “sacada”. amenizei a dor de não ser o que eu insisto. ser não ser.

passei o “pois agora” e delirei sobre memórias vivas… [afinal, o blábláblá histórico-filosófico é importante, mas sem um exerciciozinho prático, um pouco de poises na história toda… fica meio sem graça]. que o conhecer seja um processo de apropriação e resignificação do concreto, que seja [auto]criação.

e ai faltou luz – e tudo virou um caos. ai pensei… um dia [tudo e todos] vamos nos desfazer. e ai… tanto fez, e nem as cicatrizes na minha face restarão. ossos e códigos.

voltei e li mais um tanto de Maiakóvski: O Poeta da Revolução sob a luz de velas.

***

Prólogo

Tenéis suerte.
La vergüenza no alcanza a los muertos.
Apaga pues
tu odio por los difuntos asesinos.
El líquido más puro
ha lavado el pecado del alma emigrada.
¡Tenéis suerte! Pero yo,
a través de las líneas del frente,
a través del estrépito,
¿cómo sostendré mi amor de ser vivo?
Un paso en falso
y la migaja del más insignificante
de los amores rodará para siempre
al abismo del humo.
¿Qué es
para los que vuelven tu pena? ¿Qué es
para ellos la línea de los poemas?
¡Parados con piernas de madera
ellos ya no querrán otra cosa
que seguir cojeando hasta
el fin de sus días!
¿Tienes miedo?
¡Cobarde!
¡Te matarán!
Tú podrías vivir,
aunque esclavo,
una buena cincuentena de años.

¡Mentira! Sé
que bajo la lava de los ataques seré
el más corajudo el más arrogado.
¡Ah!
¿Qué valiente se negaría a responder
a la llamada del clarín de los tiempos futuros?
Y yo soy en esta tierra
el único heraldo de las verdades en marcha.
¡Hoy exulto!
Sin beber ni una gota
he llegado a la meta de mi alma.
Mi solitaria voz humana
se eleva
entre gritos
entre llantos
en el día naciente.
¡A ver! ¡Vamos, animaos!
Fusiladme, ponedme contra el paredón!
¡No seré yo quien cambie de colores!
¿Queréis
que me pegue un as en la frente para que brille más la meta?

daqui ó: http://gatopistola.blogspot.com.br/2011/02/la-guerra-y-el-universo-por-vladimir.html

***

outros links sobre volodia maiak

http://paxprofundis.org/livros/vladimir/mayakovsky.htm

http://www.culturapara.art.br/opoema/maiakovski/maiakovski.htm

http://www.mauxhomepage.net/desenterrandoversos/desenterrandoversos/maiakovski.htm

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=2244

https://garapuvu.wordpress.com/dossiemayakovski/

olha a minha cara de clint eastwood

[seg] 26 de agosto de 2013

Você não está indo para lugar nenhum. Você está perdido! Você está indo embora! …Você não está vendo que está entre a vida e a morte?! Acorda para dentro!”.

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Chuva Interior

Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.

Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.

Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.

Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

Mário Chamie

direto do filme via lactea

***

“se eu entendesse tudo que sinto, viver seria tão previsível“. a frase não é minha, mas traduz-me tanto nestes tempos. e a sacada acima, do título, também não é minha… é do mesmo filme Surf Surf (Wellington Sari, 2012).

***

Hoje dediquei um tempo à leitura das coisas de Volodia. [ps: uma tarefa após finalizar essa biografia: reler toda obra poética, ao menos].

um trecho de “A nuvem de calças”:

Silêncio.
O universo dorme colocando sobre a pata,
com garra de estrelas,
a enorme orelha.

***

chego em casa e minha porta está escancarada, totalmente aberta. ninguém lá. não há mais a separação entre interior e exterior, é tudo um grande espaço vazio. nesse tempo que passou eu perdi algo… e acordo-me de uma canção de dias atrás… “acontece que já não sei mais amar (…) acontece que meu coração ficou frio”¹. e eu nem sei por quê me sinto assim…

¹cartola.

***

e obrigado por pensar em mim.

meu maio

[seg] 2 de maio de 2011

NÃO vou comentar sobre política ou sobre literatura ou sobre arte ou sobre história ou sobre educação ou sobre cinema ou sobre a crueldade do mundo. NEM FAREI POESIA NESTE CONCRETO TODO. apenas flanarei… porque deu… não é necessária nenhuma explicação: basta saber que o curso vai ficar em modo de espera. o trampo em modo automático. os planos em modo desligado. e futuro em modo aproveite o que der e o que vir de inesperado no dia de hoje. e o resto é cinema, vinho, estranhamentos, abraços, dores e amores desse mundo, dessa gente sofrida…

CANÇÃO DE SÁBADO

Somos nós que fazemos a vida / Como der, ou puder, ou quiser…

CANÇÕES DE HOJE

Free Blood – Never Hear Surf Music Again A.R. Rahman – The Canyon | A.R. Rahman – Liberation Begins | A.R. Rahman – Touch of the Sun|  Bill Withers – Lovely DayVladimir Ashkenazy – Nocturne No.2 in E flat, Op. 9, No. 2Plastic Bertrand – Ca Plane Pour Moi | A.R. Rahman – Liberation in a Dream | A.R Rahman – Acid DarbariA.R. Rahman – R.I.P.A.R Rahman – Liberation | Sigur Rós – FestivalDido – If I Rise | Esther Phillips – If You Love Me (Really Love Me) |

POEMA DO PRIMEIRO DE MAIO:

Meu Maio

A todos
que saíram às ruas,
de corpo-máquina cansado,
a todos
que imploram feriado
às costas que a terra
extenua
Primeiro de Maio!
O primeiro dos maios:
saudai-o enquanto
harmonizamos voz em
canto.
Sou operário
este é meu maio!
Sou camponês
este é meu mês.
Sou ferro
eis o maio que eu quero!
Sou terra
O maio é minha era!

Vladimir Maiakovski.

mineral

[sáb] 12 de setembro de 2009

‘tá uma mistura. mineral. não sei por onde pôr as coisas que me acompanham!?

mas segue a estória rabisca em blocos… s o l  t   o    s

“enquanto tentavam sentir seus pesepelos no chão, na materialidade, tudo o que  suas vistas alcançavam eram nuvens.  nem os pés de flor-na-pele e tampouco os de choro-solto podia-se saber onde estavam e por onde iam. andaram, meio bobos, por ai, hoje.  feitos das substâncias das nuvens. ele chorava, só de olhar. ela sentia, só de ver…  e sem engasgo, só aflitude, um troço estranho destes… que tomam conta de tudo e o que é mineral expande e transborda, borra, afunda…  fica sem tamanho. fica assim, e ninguém suspeitará da nuvem grande passando vagarosamente por estas bandas?! e quando tudo ficar nítido? desanuviado? novamente será que só haverá pedra e sal”.

E da estória é aguardar. e ver para onde irão estes estranhos choro-solto e flor-na-pele quando  alcançarem no olhar as palavras¹ do camarada sol ao jovem poeta da Rosta.

¹¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!

(bлади́мир bлади́мировичi)

nosso tempo

[qui] 10 de setembro de 2009

drummond - arosadopovoNosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido,
apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
Vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas
,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?

crimes?
moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina.
Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,
confiar-se ao que-bem-me-importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

I

Nos porões da família,
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há. mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos
e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,
um verme.

———

/ Teses sobre Feuerbach / Karl Marx / 1845 // Tese 2 / A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica. //  Tese 6 / Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais. / Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente – isoladamente – humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como “espécie”, como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos. // Tese 8 / A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis. // Tese 10 / O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade “civil“; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada. // Tese 11 / Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

Publicado pela primeira vez: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx.

——-

A PLENOS PULMÕES

……………………(Trecho final)

Camarada vida,

……………… vamos,

……………………… para diante,
galopemos

…………. pelo quinqüênio afora.
Os versos

……….. para mim

………………….. não deram rublos,
nem mobílias

……………. de madeiras caras.
Uma camisa

………….. lavada e clara,
e basta, —

…………. para mim é tudo.
Ao

.. Comitê Central

………………… do futuro

…………………………… ofuscante,
sobre a malta

……………. dos vates

………………………. velhacos e falsários
apresento

………… em lugar

………………….. do registro partidário
todos

……. os cem tomos

…………………… dos meus livros militantes.

Dezembro, 1929 / janeiro, 1930 (Tradução: Haroldo de Campos)

svietit

[ter] 25 de agosto de 2009

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal a das gerações passadas- é um dos fenômenos mais característicos e lúgrubes do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Eric Robsbawm

NO LIXO CINZA DO UNIVERSO AO CAMARADAS FUTUROS
e outros textos

Começou assim, no domingo talvez, enquanto caminha sobre as nuvens e o concreto: “meu corpo anda febril“. Pensei, logo, um pouco mais adiante, no camarada da LEF¹ e em seu epitáfio mais eloqüente, que transcrevo a parte final,  “estou em chamas”.

Há um bom tempo não vislumbrava esse tom passionado autonomo a um objeto em particular. Não há algo ou alguém, como motor imediato desta ambiente que pouco a pouco se colore.  É misto in flux de um horizonte futuro a  necessidades vitais neste presente… são os recortes radicais e profundos, os necessários desnudamentos, o  romper desta estéril estrutura num lento enraízar-se… é algo como a opção contida no “slogan” do “poeta e do sol, que luzindo” “no lixo cinza do universo” dá o tom mínimo para nossa constituição substancial… E nada menos! Sem exceção!

Por estes dias de caminha sola, escolha consciente e firme, apesar da dor mutuamente provocada, entre multidões, persisto (…) nesta humilde e honesta vontade de superar limitações profundas.  E tenho gaguejando, suado frio, errado… Bastante! Mas vou firme. Lembro-me de uma percepção, e sua respectiva expressão, que aos poucos, ao longo destes últimos vinte e poucos anos, foi ficando clara… Quando fico só, em espírito, mesmo tendo fisicamente todos aos meu lado, quando fico só, sem o calor do povo e os braços de luta da camaragem, adoeço substancialmente!!

E com calma, controlando a ansiedade, sigamos, sentindo esse friozinho, esse vento mariño que toma o ambiente a partir dos vãos, das brechas,  vamos com cunhas, martelos e foices, vamos de espírito agitado, locomotiva, tecendo a propaganda na surdina e no alarde geral! Plasmando na labuta a disciplina coerente e dedicada…

¹ Lieve Front

***

“(…) Por isso, acredito que esse “trabalho de conscientização intelectual” não é destituído de interesse cultural e político. A grande barreira à mudança social procede, inequivocadamente, do cerceamento conservador. Todavia, o pensamento e o comportamento conservadores não se sustentam por si próprios. Eles também são uma resposta histórica à situação e às suas exigências dinâmicas, nos limites de uma sociedade capitalista dependente e subdesenvolvida. A inércia cultural, o isolamento das massas e a apatia política forjam a sua continuidade, sob diferentes roupagens e como uma espécie e fatalidade, pois acabam engendrando o único poder capaz de manifestar-se, de atuar e de “resolver problemas”. Não há como combatê-los e destruí-los sem um esclarecimento prévio dos espíritos, dos que são potencialmente inconformistas e dos que apenas contam como os “condenados do sistema”, mas não sabem como identificar e extinguir a espoliação que sofrem de maneira cruel e permanente. Todos, inclusive os conservadores, “esclarecidos” ou “obnubilados”, precisam tomar consciência do que é o poder conservador no Brasil, quanto ele nos custa, em sacríficios humanos, em iniquidades sociais, econômicas e culturais, em incapacidade de integração e de autonomia nacional, devastação de recursos materiais e humanos, em perversão do patriotismo e em solapamento do nacionalismo, em farisaísmo crônico e em constante participação atrasada do “progresso”, em comercialização das relações de dependência em face do exterior, pela qual se negociam, em troca de nada ou quase nada, as futuras gerações e o porvir da Nação etc. Não temos de converter o “poder conservador” em bode expiatório, para esclarecer o que ele representa, econômica, sociocultural e politicamente, como fator de perpetuação e de revitalização das relações de dependência e do subdesenvolvimento, de intensificação e de agravamento das iniquidades humanas ou de irradiação e de multiplicação das tensões políticas. O impasse histórico crônico, do qual o Brasil não saiu nem com a abolição, nem com a industrialização e a “revolução liberal”, nem com a “aceleração do desenvolvimento”, constitui um impasse do poder conservador. Ele impede que a revolução nacional brasileira se adapte ao padrão da ordem legal vigente e aos ritmos da ordem social competitiva, válida apenas nas relações comerciais. Enquanto ele permanece intocável e soberano, o Brasil será uma grande nação de terceira ordem, com fumos de potência internacional, mas uma republiqueta comandada autocraticamente por pequenas elites egoísticas e hipocritas.
Portante, aceitei os prós e os contras de tarefas intelectuais que me pareciam secundárias e aleatórias (e o são perante o que eu devia e queria fazer como e enquanto sociólogo), porque me situei na posição intelectual dos que solicitavam a minha contribuição. Ele não me queriam ouvir especificamente como “sociólogo” e, ainda menos, em condição política, como “socialista”. Pretendiam ouvir um intelectual de formação sociológica, que falasse leal e fracamente, que discutisse sem ambiguidades e subterfúgios os problemas que nos afligem, como eles se apresentam no aqui e no agora – e dentro de limites nos quais as soluções podem ser procuradas e alcançadas na própria ordem social competitiva. Tanto como sociólogo, quanto como socialista, sei que essa expectativa possui graves inconsistências. Ela própria nasce de mistificações insanáveis. Não obstante, um povo tem o direito de buscar maior segurança e felicidade sem romper todas as barreiras que separam a vida da morte. Uma revolução social não é matéria intelectualista. Enquanto as expectativas se encaminham numa direção moderada e equilibrada, na qual os esforços se concentram em indagações sobre o passado, o presente e o futuro, o intelectual cumpre responsavelmente as suas funções atendendo às inquietações nas formas em que eles se manifestam. Com o tempo as inquietações progrediam por si próprias, se difundem e se robustecem: o que é semente, em um dia é árvore, em outro. Não se pode começar pela colheta dos frutos. A impaciência intelectualista gera belos sacríficios. Contudo ela também provoca confusões e carnificinas inúteis, onde e quando o povo não se impõe como agente válido da história e como uma fonte inexpugnável de alternativas contrárias ao despotismo do poder conservador”
. p. 12-13
Florestan Fernandes. Trecho do Prefácio do Livro Universidade Brasileira: Reforma ou revolução?

***

INTERVENÇÃO NUM DEBATE SOBRE OS MÉTODOS FORMAL E SOCIOLÓGICO¹

O partido colocou em pauta o problema da arte, e este debate é particularmente oportuno.
O problema do método formal não pode ser resolvido academicamente. Trata-se do problema da arte em geral, da Lef.
Os problemas da arte estão colocados atualmente no campo da execução prática, e a êles se liga a questão do método formal. O método formal e o método sociológico são a mesma coisa, e fora disso não existe nenhum método formal.
Não se pode contrapor o método sociológico ao formal, porque não são dois métodos, mas um só: o método formal continua o sociológico. Onde acaba a pergunta “por quê?” e surge o “como?”, termina a tarefa do método sociológico e em seu lugar surge o método formal, com tôdas as suas armas.
É assim em qualquer ramo da produção. Se a moda para êste ou aquêle modêlo de calçado pode ser explicada por razões sociais, para cosê-los é preciso habilidade, mestria, o conhecimento de determinados processos. É preciso conhecer o método de elaboração do material, o método de sua utilização. Tal conhecimento é indispensável também em arte, que é antes de mais nada um ofício, e é justamente para estudar êste ofício que o método formal nos é necessário.
O poeta orienta sózinho os seus canhões. No trabalho poético, o social e o formal estão unidos.
O companheiro marxista, que se dedica à arte, deve ter obrigatòriamente conhecimentos formais. Por outro lado, o companheiro formalista, que estuda o aspecto formal da arte, deve conhecer firmemente e ter em vista os fatôres sociais.
Pecam ambas as partes, quando separam um do outro. O juízo correto aparece ùnicamente quando se compreende sua relação mútua.
Eu tenho sempre prontas minhas objeções contra esta antítese contìnuamente formulada.
Uma obra não se torna revolucionária ùnicamente pela sua novidade formal. Uma série de fatos, o estudo de seu fundamento social, lhe imprime fôrça. Mas, a par do estudo sociológico, existe o estudo do aspecto formal.
Isto não contradiz o marxismo, mas sim a vulgarização do marxismo, e contra esta nós lutamos e continuaremos a lutar.(pp. 237-239)

NOTAS

¹ O debate ocorreu na Sala das Colunas da Casa dos Sindicatos, em Moscou, e a intervenção de Maiakóvski foi anotada por M. M. Korieniev, sendo publicada pela primeira vez no Volume 65 da série Herança Literária e republicada nas O.C., de onde a traduzi.
Estava em preparo então uma resolução do Comitê Central do Partido Comunista (b) da U.R.S.S. sôbre Literatura. Dez dias antes do debate, Maiakóvski participara de uma sessão da comissão literária do mesmo Comitê Central. Semelhantes discussões públicas, antes de uma revolução oficial do Partido, eram comuns no período que precedeu a implantação do stalinismo.
O período em questão, quando se preparava a resolução citada, foi de grande discussões sôbre a política do Partido em relação à arte e À literatura. V., por exemplo, Isaac Deutscher, O profeta desarmada, pp. 215-217.

Debates Literatura – boris schnaiderman A POÉTICA DE MAIAKÓVSKI. 1971.

a flauta-vértebra (Флейта-позвоночник)

[dom] 28 de junho de 2009

Abaixo: dois poetas e duas poesias.

A Flauta-Vértebra (Флейта-позвоночник)
Dedicado a Lila Brik
Prólogo

A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila, veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos na flauta de minhas próprias vértebras.

maiakovski-frontal11915 Vladímir Maiakóvski (Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

(O poema consta de um Prólogo e três partes e foi originalmente publicado em 1915. Após o título, ostenta a indicação “Dedicado a Lila Brik”. Fonte: Maiakóvski. 2006. Vida e poesia. SP, Martin Claret).

 

 

 

 

 

 

 

 


e. e. Cummings /// i like my body when it is with your / body. It is so quite a new thing. / Muscles better and nerves more. / i like your body. i like what it does, / i like its hows. i like to feel the spine / of your body and its bones, and the trembling / -firm-smooth ness and which i will / again and again and again / kiss, i like kissing this and that of you, / i like, slowly stroking the, shocking fuzz / of your electric fur, and what-is-it comes / over parting flesh….And eyes big love-crumbs, // and possibly i like the thrill // of under me you quite so new …

 

A todos vocês,

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.

inspiração na madrugada (A SIERGUÉI IESSIÊNIN)

[qua] 3 de dezembro de 2008

A SIERGUÉI IESSIÊNIN

Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, –
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho –
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no “Posto”
(1)

ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin
(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? –
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
– É o vinho!
– a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.

E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber –
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no “Inglaterra”
(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, –
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento –
onde
o som do bronze
ou o grave granito? –
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas –
“Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço”.
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
(5)
Saltaria
– escândalo estridente:
– Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan
(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso –
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la –
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?

General
da força humana
– Verbo –
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

(Tradução de Haroldo de Campos)

———————————————————————-
1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.

2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).

3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.

4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.

5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.

6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.

publicado no livro: “Maiakóvski – Poemas”
traduzido por Boris Schnaiderman,
Augusto de Campos e Haroldo de Campos
Editora Perspectiva

minha universidade

[seg] 14 de abril de 2008

 

Conheceis o francês,
sabeis dividir,
multiplicar,
declinar com perfeição.
Pois, declinai!
Mas sabeis por acaso
cantar em dueto com os edifícios?
Entendeis por acaso
a linguagem dos bondes?
O pintinho humano mal abandona a casca
atraca-se aos livros
a resmas de cadernos.
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros
folheando páginas de estanho e ferro.
Os professores tomam a terra
e a descarnam
e a descascam
para afinal ensinar:
“Toda ela não passa de um globinho!”
Eu com os costados aprendi geografia.
Não foi à toa que tanto dormi no chão.
Os historiadores levantam
a angustiante questão:
– Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa!
Não costumo remexer o pó dessas velharias!
Mas das ruas de Moscou
conheço todas as histórias.
Uma vez instruídos,
há os que se propõem
a agradar às damas,
fazendo soar no crânio suas poucas idéias,
como pobres moedas numa caixa de pau.
Eu, somente com os edifícios, conversava.
Somente os canos d’água me respondiam.
Os tetos como orelhas espichando
suas lucarnas atentas
aguardavam as palavras
que eu lhes deitaria.
Depois
noite adentro
uns com os outros
paravam
girando suas línguas de catavento
“.

(“Minha Universidade” de Vladmir Maiakowski )
Abertura da nona Semana de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina.

[ http://es.wikipedia.org/wiki/Vlad%C3%ADmir_Maiakovski ]

A extraordinária aventura vivida por Vladímir V. Maiakovski no verão na Datcha¹

[sáb] 3 de novembro de 2007

A tarde ardia em cem sóis

O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!

E grito ao sol:
¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!

E grito ao sol:
¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?

Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostra medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!

Lágrimas na ponta dos olhos
– o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
¿Pois bem,
sente-se, astro!

Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta²,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.

¿O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

1920. Pelo comunista Sovietico Vladímir V. Maiakovski (Tradução de Augusto de Campos)

(1) Datcha: casa de veraneio
(2) Rosta: agência telegráfica russa, para a qual Maiakóvski executou cartazes satíricos de notícias.

 

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