Archive for the 'Vinicius de Moraes – Marcus Vinicius de Moraes' Category

pergunte pro seu orixá / amor só é bom se doer

[ter] 4 de abril de 2017

exercício noturno (enantiomorfo)

por um truque de luz
na noite longa
pela janela do trem
olho nos olhos
daquele que sente dor

e a sua dor, ali, exposta,
diante de mim, refletida,
é tão nua, é tão minha.

minha dor, meus olhos,
minha jornada adentro
num estranhamento poético.

quiserá que fora só dele,
do homem de olhos castanhos,
essa dor d’alma
essa dor de dente
essa dor do peito
essa dor de se ser gente…

e saber que o outro,
é a dor que tu sentes

Santo Antônio de Lisboa/TISAN. 4 ABRIL.

***

 

exercícios sobre a percepção

I
o poeta contempla poemas
uns grafitados na pedra,
no papel, na parede
outros ainda na fluidez
de sua mente
e uns tantos ainda
não descobertos,
não inventados,
alheios ao letramento

*
II
o poeta, às vezes,
é como um desses
zumbis do cotidiano

o corpo está ali,
quase inerte,
enquanto a mente…

essa viaja
e conecta-se…
presa na rede
imaginária.

Vargem Grande/TICAN – Santo Antônio de Lisboa/TISAN. 4 ABRIL.

***

dessas aleatórias, que alguém canta no busão… e ainda indica para xs amigxs. eu só escuto… e penso: há vida no busão, saravá.

“Pergunte pro seu Orixá / Amor só é bom se doer”

CANTO DE OSSANHA / Vinicius de Moraes, Baden Powell

O homem que diz “dou” não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz “vou” não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou”
O homem que diz “estou” não está
Porque ninguém está quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amorVai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amorAmigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá
Amor só é bom se doerVai, vai, vai, vai amar
Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar
Vai, vai, vai, vai dizer
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

sobre Os afro-sambas de Baden e Vinicius: É, não sou: “Canto de Ossanha” e a Dialética em Forma de Canção, de Isabela Morais
Dialética
É claro que a vida é boa / E a alegria, a única indizível emoção / É claro que te acho linda / Em ti bendigo o amor das coisas simples / É claro que te amo / E tenho tudo para ser feliz / Mas acontece que eu sou triste… (Vinicius de Moraes)
e essa passagem citada em texto de Túlio Ceci Villaça,

Vale conhecer um mito yorubá, contado pelo historiador Reginaldo Prandi, que explica e motiva a afirmação se é canto de Ossanha não vá, que muito vai se arrepender:

Um rei decidiu casar a sua filha mais velha. Dá-la-ia em casamento ao pretendente que adivinhasse o nome de suas três filhas. Ossaim aceitou o desafio. À tarde, Ossaim saiu sorrateiro por trás do palácio. Subiu no pé de obi [nogueira] e se escondeu entre seus galhos. Quando as três princesinhas saíram para brincar, foram surpreendidas por um canto que vinha daquela árvore. Era o canto de pássaro irresistível, de um passarinho das matas de Ossaim. Mas o canto era de Ossaim, imitando o pássaro. O passarinho brincou com as três princesas e conseguiu saber o nome delas: Aio Delê, Omi Delê e Onã Iná, eram estes os nomes das filhas do rei. Sua esperteza havia dado certo. No dia seguinte Ossaim foi ao rei e declamou a ele o nome das princesas. Ossaim, então, casou-se com a mais velha. Sua esperteza havia dado certo. Ossaim desde então é identificado com o pássaro.

simón del desierto

[ter] 21 de abril de 2015

Albert Camus «homem é a única criatura que se recusa a ser o que ele é».

«A revolta encontra em si, um valor, uma essência, um direito. O escravo enfrenta seu senhor porque reconhece algo em si que quer se afirmar, que estabelece um limite e por isso diz não. “Há em toda revolta uma adesão integral e instantânea do homem a uma certa parte de si mesmo” (p. 26). Portanto, antes de dizer não ao senhor, o escravo revoltado necessariamente diz sim para si mesmo. “Aparentemente negativa, já que nada cria, a revolta é profundamente positiva, porque revela aquilo que no homem deve ser defendido” (p. 32).» O homem revoltado – Postagem de Rafael Trindade no blogue Razão Inadequada

*

Simão do Deserto (Simón del Desierto) – México, 1965 / Direção: Luis Buñuel / Roteiro: Luis Buñuel, Julio Alejandro / Elenco: Claudio Brook, Silvia Pinal, Enrique Álvarez Félix, Hortensia Santoveña, Francisco Reiguera, Luis Aceves Castañeda, Enrique García Álvarez, Antonio Bravo, Enrique del Castillo / Duração: 45 minutos

*

Por que Você Faz Cinema?«Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de sequências, dó de peito / Para viver a beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público […] / Joaquim Pedro de Andrade e Adriana Calcanhotto»

*

músicas de fundo [ouvidas nesta última hora – porque nos restos dos dias tenho me habitado somente o silêncio da vida  – é uma secura de sol e de som]:

porque hoje é sábado

[sáb] 12 de julho de 2014

o povo acordou cedo. criança em casa dá nisso [meu primo, colega de casa, recebendo seus filhos]. sete horas e todo mundo está de pé…

porque hoje é sábado.

ps: e fui lá na estante e abri na página 145 da antologia poética, publicada pela companhia das letras, e relendo o poema, lembrei que já anotei ele por cá: o dia da criação.

o tempo passa e algumas coisas parecem não mudar. outras mudam tanto. e enquanto tomo coragem para ir ai fora mexer nas coisas… anoto por cá, porque hoje é sábado.

três mil dias e o centenário do poetinha

[sáb] 19 de outubro de 2013

O centenário do Poeta. De todas e todos, foste o primeiro. Aquele que me cruzou o caminho, perpassou este peito que sangra(va) enquanto amava e desamava e amava mais e desamava mais e sofria. Sofria tanto, porque amar não é algo assim tão simples… Principalmente quando és iniciante nesta arte… Sofres bocados. Mas entre a apatia e o sofrimento lá estavas tu, dizendo-me: “soframos… (…) posto que é chama”… O poeta repleto de desencontros e encontros ensinava ao rapaz estes novos caminhos. O poeta e o rapaz, e ainda faltavam 15 anos para este centenário, o primeiro poeta. Foi mergulhando em tua poesia que meus versos infantes nasceram qual um fluxo incontrolável ou uma fenda por onde desaguava no exterior as águas de um oceano profundo e interior todos os sonhos e toda a solidão emergiam, brotavam, sangravam, ganhavam sons, tornavam-se imensos… Era eu-poeta gente posto que sentia e soltava ao mundo meu mundo e cada palavra toscamente grafada era uma barra a menos na prisão do poeta nascente… Na poesia eu encontrava-me no mundo… Sem ela, o mundo me era estranho e violento por demais. Desde então, sem perceber o ponto de transição transmutei-me neste, nem sempre, doloroso verso.

Depois de ti poeta, tantas e tantos, e todos estas e estes me marcaram a carne profundamente, apreendi um tanto com cada – e de cada verso-poesia-poetas eu irmanava.

Mas hoje, poeta, vagando, e pensando, que talvez seja a secura ou uma terra maltratada, mas tenho abandonado a lição que compartilhaste… E não escrevo mais, desaprendo a poesia, mudo o poema…

Sei, apesar de tudo, sabemos: só a poesia é a brecha, a fenda… A forma mais próxima do encontro, neste oceano de desencontros. Sem poesia, tudo é [  vazio  ] demais.

***

Ontem, pela tarde, enquanto reencontrava, nas leituras semanais, outro poeta e pensava sobre a situação que me enfiei, nestes velhos e sujos hábitos, emaranhado-me em nós que imobilizam, sufocam, asfixiam o poeta-poema-poesia e só me sobra o inverso de ti, primeiro poetinha, de tua lição… pelo amor (mas acho que isto não é bem amor) ao medo e pelo medo do amor (e de toda o sofrimento que vem no seu bojo) desamo tudo em mim e a poesia torna-se impossível… não posso (ainda, quem sabe…).

Anotei as palavras sobre o poeta comfus… “Esse ‘quartinho-barquinho’ num apartamento comunal, onde residiam mais cinco famílias e no qual o poeta ‘navegou’ três mil dias’, seria seu último abrigo antes do fatídico tiro no coração.” p. 251

E por agora conto meus pequenos e enfadonhos contos, aguardo a poesia que me libertará… mas dia desse, quando não houverem mais crianças nem cachorros, quem sabe me saco disto tudo, e num tiro tudo desmancharia-se no ar… assim será – mais cedo ou mais tarde.

cartas ao mar

[qua] 3 de abril de 2013

Chove muito.

 

Diz assim na agenda. 02 de abril, terça.
é um doce nome de filha, é um belo nome de amada, lembra um pedaço de ilha, surgindo de madrugada.” Vinicius de Moraes.

E na vitrola toca cartola, 70 anos.
Eu iria escrever ontem, mas o tempo passou e ficou só o rascunho, que dizia assim…

Seg. 1/4. Indo para aula, ouvindo Karina Buhr. Dia medicado ainda.

“E a falta de imaginação me fez lembrar de você
De tarde, se anoitecer, tudo se acaba
E aí crio asas
E aí elas querem voar

Aqui é assim
O que a gente inventa a gente tem

E aí crio asas e aí elas querem voar”

Dom. 31/3. Dia dormido, e depois ouvindo Cartola, Calle 13, Buena Vista Social Club… A medicação me deixa sonolento. A canção tema do texto que comecei a escrever e não envie… nem terminei, seria “Não me ame tanto
Eu tenho algum problema com amor demais
Eu jogo tudo no lixo sempre

Não me ame tanto
não posso suportar um amor que é mais do que
o que eu sinto por dentro
penso”

O poema é confuso, mas tem o rosto da história brasileira: tisnado de sol, cavado de aflições, e no fundo do olhar, guarda um lampejo – um diamante duro como um homem e isso que obriga o exército a se manter de prontidão.” Ferreira Gullar.

Sab. 30/3. Dia de dona Izabel. Estudamos juntos, brincamos juntos e como é bonito vê-la crescer. A canção que tocou na vitrolinha como um mantra foi… (Com direito a Izabel imitando o sotaque delicioso de Karina)  Eu sou uma pessoa má. Eu menti pra você. 

Sex. 29/3. Cinema sozinho.  e a. Foi dia de ficar só. Trilha do dia… a boa e profunda levada de Karina… 

Qui. 28/3. Ufa, feriado. . Cinema para fazer companhia ao Japonês, que ‘tá meio na fossa com seu amor que não dá certo pela moça gaucha. E fazer valer a carterinha de sócio do cineclube. Trilha do dia foi  A pessoa morre depois de tanto verbo
A pessoa morre de fome
Depois de tanto verbo a pessoa morre
A pessoa morre
A pessoa morre

Qua. 27/3. “Há o homem no ar! Suspenso por fio transparente, pendendo entre o amor e o ódio, querendo a chave de si próprio.” Carla Dias.

Tive aulas boas. Estou trabalhando com os estudantes a questão de gênero dentro do sistema capitalista e movimentos sociais no terceiro ano; Poder, estado e capitalismo nos segundos anos; e a imaginação sociológica nos primeiros… Aulas boas. O rosto ainda está inchado, dolorido e estou bem cansado.

Ter. 26/3. Zero grana. Cirurgia. Colirio nos olhos e ao fundo, na via cortando o deserto ao meio, um balão laranja – a visão ‘tá perfeita, mas a boca meio desdentada ainda. Um pouco de dor e bem cansativo o dia. Devia ter pego um atestado e ter ido descançar.

Seg. 25/3. Dia mexendo na terra, podando, fazendo caminhos, plantando grama. e lá pelas 20h dar aula lá no centro.

Dom. 24/3. Dia de maratona, de ver arte, de mergulhar nos sonhos.

Sáb. 23/3. Seu baldecir, Edgar e Karina, Pi, Velha guarda da sociais, Murilo… Tantos abraços, tanta sensação boa. Dia bom – é bom saber que se é querido por tanta gente, mesmo quando ‘cê some e se esconde no meio do mato e não dá sinal de vida, do que sente por dentro, do que espera da vida. O que você espera da vida?

Sex. 22/3… Fica para uma outra vida.

 

Trilha sonora deste posto: CARTOLA 70 ANOS.

afrosambas…

[sáb] 24 de novembro de 2012

08:32 Berimbau. Baben Powel e Vinicius de Moraes

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

8:42 “Escrever é fugir da emoção”. de T. S. Eliot, segundo Ferreira Gullar, no documentário Vinicius de Moraes.

8:53 sei lá... toquinho e vinicius

Tem dias que eu fico pensando na vida 
E sinceramente não vejo saída. 
Como é, por exemplo, que dá pra entender: 
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação. 
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. 
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.

A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer 
Que nada renasce antes que se acabe, 
E o sol que desponta tem que anoitecer.

De nada adianta ficar-se de fora. 
A hora do sim é o descuido do não. 
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão. 
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

9:30 Dona Izabel narrava seus amores, eu lhe contava dos meus.

9:50 (…) A la Molina no voy más porque echan azote’ sin cesar (…)

10:00 Mateava e proseava, descobria os primeiros amores de dona maria, a vó; e redescobria que a primeira garota, ela com 6 e eu com 4, a me namorar fora a sidania.

11:50 teve berinjela recheada no almoço

13:00 estudando

17:00 internet, fiquei em 7º classificação para ACT no ensino regular, 5º no ACT para CEJA, e entre os 30 melhores no Concurso público (apenas 7 vagas na primeira chamada).

17:34 editando este post aqui.

de vagar desde o dia da criação

[sáb] 24 de novembro de 2012

depois das 07:04 sinto como se precisasse me reinventar… recriar… fazer algo importante… fazer algo. [é que resolvi me guardar na estante nestes últimos anos como um livro velho e inacabado e esquecido, aguardando a hora de recomeçar a escrita… um limbo entre todas as projeções não realizadas e todas as precariedades cotidianas… um esconder a matéria atrás do véu da ilusão quando só há ideias… dualista, idealista, trágico, fugitivo da vida… mas é um vício tremendo  ao qual de tempos em tempos me rendo… me afastando… ficando distante… sem sal… sem poesia… e ai… como voltar?]

07:04. Acordo cedo. Tenho adormecido no sofá. E não quero mais ir à cama… Porque ontem foi um tédio, porque hoje tem muito trabalho necessário e acumulado sempre para a última hora do último dia possível, e porque amanhã é o futuro…

antes das 07:04 …

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

(…)

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

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ps: ao publicar isto, numa busca voltei por cá e aproveito e atualizo o link para o documentário de Miguel Faria Jr., do ano de 2005 sobre o Vinicius de Moraes. Lembro que a primeira vez que vi este documentário foi na ufsc, no auditório do ced, e se não falhe a memória no cine ced.

em pleno verão

[sex] 3 de dezembro de 2010

hoje. sentindo-me. fazendo arte e estando. enviei minha parte para o zine. faltam tão poucas linhas para a minha conclusão da licenciatura. e certas experiências do dia-a-dia são intraduzíveis. o perfume da dama da noite. a sinfonia de mil sapos coachando em noite de primavera. um fim de tarde em sambaqui. uma tarde inteira no bosque do cfh, em boas, sonoras e poéticas companhias. as sutilezas de todos os flertes. o jogo dos cães. e a mais honesta das entrega entre dois estranhos: eu e um cão qualquer, destes do cfh. as horas tentando entender a fala de um joão de barro. o debate sobre um texto de illich. o papo no ru. o abraço nos amigos…

quarta-feira, e quinta-feira. um mergulho na casa, na sua arrumação. e um disco de elis. em pleno verão [1970]. e muito caetano, chico, bethânia, gal, lenine, lupicínio

Elis Regina – Em Pleno Verão (1970)

1. Vou deitar e rolar // Não venha querer se consolar / Que agora não dá mais pé / Nem nunca mais vai dar / Também, quem mandou se levantar? / Quem levantou pra sair / Perde o lugar // E agora, cadê teu novo amor? / Cadê, que ele nunca funcionou? / Cadê, que ele nada resolveu? // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu // Ainda sou mais eu // Você já entrou na de voltar / Agora fica na tua / Que é melhor ficar / Porque vai ser fogo me aturar / Quem cai na chuva / Só tem que se molhar // E agora cadê, cadê você? / Cadê que eu não vejo mais, cadê? / Pois é, quem te viu e quem te vê // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Todo mundo se admira da mancada que a / Terezinha deu / Que deu no pira / E ficou sem nada ter de seu / Ela não quis levar fé / Na virada da maré // Breque // Mas que malandro sou eu / Pra ficar dando colher de chá / Se eu não tiver colher? / Vou deitar e rolar // Você já entrou na de voltar / Agora fica na tua / Que é melhor ficar / Porque vai ser fogo me aturar / Quem cai na chuva / Só tem que se molhar // E agora cadê, cadê você? / Cadê que eu não vejo mais, cadê? / Pois é, quem te viu e quem te vê // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu // O vento que venta aqui / É o mesmo que venta lá / E volta pro mandingueiro / A mandinga de quem mandingar // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu /// Baden Powell e Paulo César Pinheiro //// 2. Bicho do mato // Bicho do mato / Nego teve aí / Bicho do mato / Devagar pra não cair / Bicho do mato / Bicho bonito danado / Bicho do mato / Nego teve aí / E disse assim: / Bicho do mato / Quero você para mim / Eu só vou embora / Mas eu só ponho o meu boné / Onde eu posso apanhar / Devagar se vai ao longe / Devagar eu chego lá / Bicho do mato / Nego teve aí / Bicho do mato / Devagar pra não cair // Jorge Ben Jor //// 3. Verão vermelho [instrumental] //// 4. Até aí morreu Neves // Pa, pa, pa, ra pa pa pa pa pa ra pa pa pa ra / Se segura malandro pois malandro que é malandro / Não se estoura / Se segura malandro / Pois um dia há de chegar a sua hora / Vai cantar vai brincar sem fantasia / Você vai chorar de alegria pois ela vai voltar / Pra alegrar o seu coração / Malandro que é malandro não se estoura não / Pa pa pa ra pa pa pa pa pa ra pa pa pa ra / Pois um dia há de chegar a sua hora / Vai cantar vai brincar sem fantasia / Você vai chorar de alegria pois ela vai voltar / Prá alegrar o seu coração / Malandro que é malandro não se estoura não / Porque até aí morreu Neves, até aí morreu / Neves até aí morreu Neves / Até aí morreu Neves / Devagar malandro devagar cuidado / Afobado come crú devagar se vai ao longe / Devagar se vai ao longe devagar também é pressa / Afobado come crú / Devagar se vai ao longe // Jorge Ben //// 5. Frevo // Vem / Vamos dançar ao sol / Vem / Que a banda vai passar / Vem / Ouvir o toque dos clarins / Anunciando o carnaval / E vão brilhando os seus metais / Por entre cores mil / Verde mar, céu de anil / Nunca se viu tanta beleza / Ai, meu Deus / Que lindo o meu Brasil // Tom Jobim e Vinicius de Moraes //// 6. As curvas da estrada de Santos // Se você pretende saber quem eu sou / Eu posso lhe dizer / Entre no meu carro e na estrada de santos / Você vai me conhecer, “é vai me conhecer” / Vai pensar até que eu não gosto nem mesmo de mim // E que na minha idade só a velocidade / Anda junto a mim / Eu só ando sozinho / E no meu caminho o tempo é cada vez menor / A eu Preciso de ajuda // Por favor me acuda, eu preciso de ajuda / Eu vivo muito só, eu me sinto muito só… / Mais se acaso numa curva eu me lembro do meu rumo / eu piso mas fundo, corrijo num segundo não posso parar // Eu prefiro as curvas, as curvas da estrada de santos / Onde eu tento esquecer / Um amor que eu tive / E vi pelo espelho na distância se perder // Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar / As curvas se acabam / E na estrada de santos eu não vou mais passar / Não, não eu não vou mais passar // Roberto Carlos e Erasmo Carlos //// 7. Fechado pra balanço // Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Deve ser bom // Um samba de roda, um coco / Um xaxado bem guardado / E mais algum trocado / Se tiver gingado, eu tô, eu tô / Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô // Eu tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Deve ser bom // Um pouco da minha grana / Gasto em saudade baiana / Ponho sempre por semana / Cinco cartas no correio // Gasto sola de sapato / Mas aqui custa barato / Cada sola de sapato / Custa um samba, um samba e meio // E o resto? // O resto não dá despesa / Viver não me custa nada / Viver só me custa a vida / A minha vida contada // Gilberto Gil //// 8. Não tenha medo // Tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um não, nem um sinal, nem um ladrão, nem uma escuridão, nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um cão, nem um dragão, nem um avião, nenhuma assombração. / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um chão, nem um porão, nem uma prisão, nem uma solidão… / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo… // Caetano Veloso //// 9. These are the songs / Participação: Tim Maia // These are the songs / I want to sing / These are the songs / I want to play / I will sing it every day / These are the songs / I want to sing and play // Essa é a canção que eu vou ouvir / Essa é a canção que eu vou cantar / Fala de você, meu bem / E do nosso amor, também / Sei que você vai gostar // Tim Maia //// 10. Comunicação // Sigo o anúncio e vejo / Em forma de desejo o sabonete / Em forma de sorvete acordo e durmo / Na televisão / Creme dental, saúde, vivo num sorriso o paraíso / Quase que jogado, impulsionado no comercial / Só tomava chá / Quase que forçado vou tomar café / Ligo o aparelho vejo o Rei Pelé / Vamos então repetir o gol / E na rua sou mais um cosmonauta patrocinador / Chego atrasado, perco o meu amor / Mais um anúncio sensacional / Ponho um aditivo dentro da panela, a gasolina / Passo na janela, na cozinha tem mais um fogão / Tocam a campainha, mais uma pesquisa e eu respondo / que enlouquecendo já sou fã do comercial // Edson Alencar e Hélio Matheus //// 11. Copacabana velha de guerra // Nós estamos por aí sem medo, / nós sem medo estamos por aí. / Nós estamos por aí sem medo, nós sem medo estamos por aí… / Qualquer sorte me espera, e a tarde talvez vai me mostrar. / Presiventos na janela e as praças do mundo a me chamar. / Sou mais um na multidão, nas vitrines dos magazans, procurando uma camisa da cor do mar. / Mão no bolso riso lendo e a tarde passando devagar. / Não me encontro na vitrine, não ligo é dificil me encontrar. / Sou só eu na multidão, e eu queria me ver passar / desfilando com a camisa da cor do mar… / Olha eu lá… / Nós estamos por aí sem medo, nós sem medo estamos por aí. / Nós estamos por aí sem medo,nós sem medo estamos por aí… / Qualquer sorte me espera e a tarde talvez vai me mostrar, presiventos na janela e as praças do mundo a me chamar. / Sou mais um na multidão, nas vitrines dos magazans, procurando uma camisa da cor do mar. / Mão no bolso riso lento e a tarde passando devagar, nao me encontro na vitrine, nao ligo é dificil me encontrar, sou só eu na multidão e eu queria me ver passar desfilando com a camisa da cor do mar… Olha eu lá… // Joyce e Sérgio Flaksman ////

medo de amar ou o sentido da vida é buscar qualquer sentido

[seg] 21 de dezembro de 2009

“O sentido da vida é buscar qualquer sentido”
Carlos Drummond de Andrade

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente
.
Poema de Natal. Vinicius de Moraes

“(…)
O que queremos:
a independência da arte – para a revolução
a revolução – para a liberação definitiva da arte”.
Por uma Arte Revolucionaria Independente. André Breton e Leon Trotsky

Ciudad de México, 25 de julio de 1938

o que é preciso…

[qui] 17 de dezembro de 2009

já foste bebido pela manhã?! // esse azul cedo que tem muito de cinza e de frio é diferente e vem dizendo levante meu amigo vem cá mergulhar neste ar cheio de lágrimas que são as manhãs ainda sem sol / (…) essa polifonia pede pausas. / às vezes penso que só consigo escrever assim como quem desenhasse um cubo com cores de ruído. // entende? /// é! não faz sentido o tanto de medo que andamos (e) sentimos / o que há de ser das próximas horas cheias de desejos e inexatidão? / um borrão certo e ao mesmo passo estas inúmeras interrogações dispostas  entre linhas  /// sabemos que é preciso apaixonar-se de tal forma que vivamos mortos de paixão. ah! poeta… ////////////////////////////////////////////////////////////////.

nas manhãs do sul do mundo

[qui] 12 de novembro de 2009

Quando os discursos ganham corpo e face,
com suas cores e linhas.

a porta range
o mar marejado, canta seu canto de marola,
chuá, como a mão do trabalhador

***

quem sou eu:
Pode ser um sonho louco, mas eu vou achar em algum lugar desta federação alguma substância estranha que substitua a dor no coração e mate esta vontade de voltar.” (Daniel Lucena)

Chega de saudade” (Tom e Vinícius)

o poeta não pariu.

[ter] 20 de outubro de 2009

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

o poeta não pariu.
apenas estancou a dor
entre os ruídos do silêncio
[desta maioria].

eta gente GENTE BONITA
E INTELIGENTE TECENDO DESCASO
ESCARRO, ESCÁRNIO, POUCO CASO
PELO QUE É EVIDENTE…

o que é nítido aos olhos deste exausto poeta. que não pariu, e tão pouco partiu na empresa desta gente bonita e inteligente que cresce ao passo que apodrece tecendo descaso, escarro, escárnio, pouco caso, pelo que é povo.

O POETA NÃO PARIU. Engasgou. morreu.

———————-

não tenho podido sair de casa. ausenta-se alguma substância, que dá viço ao mouro e faz relampejar os olhos. o poeta jaz tímido e reservado. ansioso da ausência de gente e de que tudo terrivelmente termine logo. seu animo. sem saco.

“Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema Dificuldade”

mensagem à poesia

[qua] 30 de setembro de 2009

um presente de alexandra bandoli

Mensagem à poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem… – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso…
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se…
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”

mensagem a rubem braga

[qua] 30 de setembro de 2009

Mensagem a Rubem Braga

Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade
; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento. Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que têm havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo-sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O encontro do cotidiano”

fechado para balanço. volto um dia desses…

[sex] 6 de fevereiro de 2009

“…  E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.” Vinícius de Moraes

Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
Con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
Lo que puedan arrebatarle al amor.

… Y planteo con un verso una verdad. Silvio Rodríguez

Antologia Poética [te sentindo… ]

[dom] 17 de agosto de 2008

Falando de amor,

Se eu pudesse por um dia
Esse amor essa alegria
Eu te juro te daria
Se pudesse esse amor todo dia.

Chega perto
Vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro-canção.

Se soubesses
Como eu gosto
Do teu cheiro teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor.

Chora flauta
Chora pinho
Chora eu o teu cantor
Chora manso bem baixinho
Nesse choro falando de amor.

Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro-canção.

Quando passas
Tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol.

Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro-canção
Lá no fundo do meu coração.

Vinicius de Moraes/Tom Jobim

B2-22

MORAIS, Vinicius de. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

MORAIS, Vinicius de. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

MORAIS, Vinicius de. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

PS: Este livro marcou-me profundamente. Se escrevo hoje, muito devo a este poeta e a este livro em especial, que tive acesso em 1998.

minha namorada

[qua] 11 de junho de 2008

Se você quer ser minha namorada,
Ah que linda namorada você poderia ser
Se quiser ser somente minha exatamente esta coisinha,
Esta coisa toda minha que ninguém mais pode ser,
Você tem que me fazer um juramento,
De só ter um pensamento,
Ser só minha até morrer,
E também de não perder esse jeitinho,
De falar devagarinho,
Estas histórias de você,
E de repente me fazer muito carinho,
E chorar bem de mansinho sem ninguém saber porque,
E se mais do que minha namorada,
Você quer ser,
Minha amada,
Minha amada mas amada pra valer,
Aquela amada pelo amor predestinada,
Sem a qual a vida é nada,
Sem a qual se quer morrer.
Você tem, que vir comigo em meu caminho,
E talvez o meu caminho, seja triste pra você,
Os teus olhos tem que ser, só dos meus olhos,
E os seus braços, o meu ninho,
No silêncio de depois,
E você tem, que ser a estrela derradeira,
Minha amiga e companheira,
No infinito de nós dois.

Minha Namorada
Carlo Lira e Vinicius de Morais

numa paixão de tudo e de si mesmo…

[qui] 28 de fevereiro de 2008

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Soneto de Maior Amor
Vinícius de Morais

Operário em Construção

[dom] 5 de novembro de 2006

Operário em Construção
(Vinícius de Moraes)

o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

rascunhos da vida!

[qui] 20 de julho de 2006

li, entre as palavras do poeta, aquele que o sonho alcançar um dia, palavras que diziam assim:

Oi …

… é um caso sério, nem pra levantar da cama e tomar café junto. Acordei às 09hs30min e a primeira coisa que fiz foi esquentar o almoço …  só senti falta da companhia, a casa estava sozinha. estou com muitas saudades. ontem a noite adorei ficar conversando, gosto muito de conversar contigo. “porque tu me chegaste, sem me dizer que vinhas tuas mãos foram minhas com calma”

reflexões sobre os amigos

[qua] 28 de agosto de 2002

AMIGOS
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências… A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinícius de Moraes

Esse post dedico à todos meus amigos, do tempo do infantil, da escola… Da vida.

Amo todos vocês, pois são parte de mim e os levo neste instante e sempre.

antologia poética de vinicius de moraes

[qua] 26 de setembro de 2001


eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
ausência. vinícius

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