Archive for the 'Renato Russo – Renato Manfredini Jr' Category

mas quando eu estiver morto suplico que não me mate

[sex] 13 de janeiro de 2017

PELA MANHÃ

acordei assim,
sentimental,
meio perdido em mim.
o que é um tanto normal,
um lugar cotidiano.
e me peguei olhando nossas fotos,
um dia desses,
e o que era ontem,
hoje é tão distante.
você tem um sorriso bonito,
vai contente,
meus olhos uma lágrima,
por não poder ser
constante,
por que eu preciso tanto me esconder?
e desses fotogramas,
fragmentos da memória,
desatam um misto de saudade do que fomos,
porque por alguma fração do tempo fomos felizes.
meus olhos quase verdes iam dentro de ti,
eu te amei tanto,
que por um instante
acreditei em mim.
tua graça, tão única,
foi capaz de romper
a minha dura casca
a minha mudez
essa minha tristeza.
essa loucura,
essa mortal insensatez.
e por tudo isto,
te amei.
no instante que fui contigo,
fui muito além do que sozinho
um dia poderei ser.

***

nessa semana tudo ficou em suspensão. lá no fundo da memória emergiu uma canção: «Se fiquei esperando meu amor passar / já me basta que então eu não sabia amar / e me via perdido e vivendo em erro / sem querer me machucar de novo / por culpa do amor / … / Se fiquei esperando meu amor passar / já me basta que estava então longe de sereno / e fiquei tanto tempo duvidando de mim / por fazer amor fazer sentido…»

***

o título vem dessa canção: Sutilmente / Composição: Nando Reis e Samuel Rosa / E quando eu estiver triste / Simplesmente me abrace / Quando eu estiver louco / Subitamente se afaste / Quando eu estiver fogo / Suavemente se encaixe / E quando eu estiver triste / Simplesmente me abrace / E quando eu estiver louco / Subitamente se afaste / E quando eu estiver bobo / Sutilmente disfarce / Mas quando eu estiver morto / Suplico que não me mate, não / Dentro de ti, dentro de ti / Mesmo que o mundo acabe, enfim / Dentro de tudo que cabe em ti / Mesmo que o mundo acabe, enfim / Dentro de tudo que cabe em ti.

PELA TARDE: não se demore por cá, vá.

_____

adendo: pelo meio da tarde lá vou eu. gordo, careca, com dermatite no meio da face, depois de dias esperando, ou seria um mês, determinado para resolver seja lá o que for… mas quando chego, problema 1. descubro que preciso pagar em cash, n]ao tenho cash. mas tem cartão, basta um caixa e um saque. problema dois… fila gigante. problema três… banco fora do ar. problema quatro, sistema voltou…, mas eis que percebo que meu cartão venceu em dezembro. que bosta… agora é voltar e recomeçar amanhã. e visitar o banco segunda.

o lado bom é que enfim resolvi ler agualusa e seu teoria geral do esquecimento.

_____

notaderodapé: hoje é aniversário de meu irmão.

primeiro de maio

[dom] 1 de maio de 2016

Sem trabalho eu não sou nada / Não tenho dignidade / Não sinto o meu valor / Não tenho identidade / Mas o que eu tenho / É só um emprego / E um salário miserável / Eu tenho o meu ofício / Que me cansa de verdade / Tem gente que não tem nada / E outros que tem mais do que precisam / Tem gente que não quer saber de trabalhar / E quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar pra casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / De todo o meu cansaço / Nossa vida não é boa / E nem podemos reclamar / Sei que existe injustiça / Eu sei o que acontece / Tenho medo da polícia / Eu sei o que acontece / Se você não segue as ordens / Se você não obedece / E não suporta o sofrimento / Está destinado a miséria / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / E quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar pra casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / Do pouco que não temos / Quem sabe esquecer um pouco / De tudo que não sabemos

lento pero avanzo

[qui] 11 de junho de 2015

há apenas uma tênue noção de que as coisas estão serenas… mesmo quando tu miras ao redor e tudo está completamente caótico – tuas contas, tua casa, teus planejamentos futuros, a fila de notas soltas esperando serem publicadas… as aulas por serem dadas, os teus horários.

talvez a grande sacada é que neste momento o que importa realmente não é ter tudo exatamente planejado, e catalogado… o que importa é o vir a ser sendo… o estar aqui agora de forma aberta.

o enfrentar o medo de viver… vivendo.

as vezes tu passas tempo demais duvidando de ti mesmo… e as pessoas batem a tua porta e dizem: acorda! e tu estás cansado demais.

neste momento eu estou desperto.

e para esta tarde, dois canções de renato que brotaram enquanto escrevia este verbo e um poema de brecht – que me inspirou a abrir uma janelinha e a escrever aqui.

«Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
Espero, acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim» Se fiquei esperando o meu amor passar. In: As quatro estações. 1989. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo

***

«Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom (…)
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado» Soul Parsifal.  In: A tempestade ou O livro dos dias. 1996. Composição: Marisa Monte / Renato Russo.

***

«Ouvimos dizer. Por Bertold Brecht

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

extraído daqui: http://ocheirodailha.blogspot.com.br/2009/03/brecht-ainda-e-sempre.html

***

lento-pero-avanzo

esta imagem me sintetiza bem. quando eu era pequeno uma forma que meu pai tinha de atacar-nos, e a mim, principalmente, era verbalmente chamando-me de lento, é claro que ele não utilizava a palavra lento… mas sinônimos agressivos e extremamente nocivos para uma criança e adolescente. até o hoje, ele tenta, mas depois de anos de terapia, um faculdade de ciências sociais, de militar em movimentos políticos, e da poesia de manoel de barros… aprendi que a “lentidão” dos caracóis é sábia. e se as vezes, quase o tempo todo, eu sou como estes caracóis… esta é minha dádiva,

«Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou.» Bocó, por Manoel de Barros.

e vale a leitura deste texto aqui: Diálogo entre seres uma aproximação ontológica ao animal na poesia de Manoel de Barros, por Claudia Quiroga Cortez

***

notas soltas: Como Cortar um Chip Para Que Vire um MicroSIM; comentar também sobre o hambúrguer vegetariano de grão-de-bico. e montei minha cama… depois de cinco anos acampando dentro de meu humilde barraco, por opção emocional… agora tenho uma cama. estou me desentocando.

il rosso… i negri

[qui] 9 de abril de 2015

embaralhou. enquanto o mundo lá fora vive, eu me perco nos labirintos de minotauro. e por n motivos as coisas chegaram onde estão. e o que era para ser não é – como a insistência deste teclado em não acentuar as palavras. me perdi e como se estivesse numa passado atemporal encontrei-me nesta foto aqui: boniermitão do sambaqui. e eu não deveria ter dúvidas. deveria estar certo. mas não sou assim. e as vezes eu preciso ficar escondido em mim, ali bem dentro em algum lugar que ninguém há de chegar. não é bipolaridade não… é o necessário mergulho nas profundezas, escuridão do homem.

música de abertura: sereníssima.

«Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E cê vai logo ver o que acontece
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido, mas existem possibilidades
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou – quem sabe outro dia

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo».

música de fundo:

«Estes são dias desleais… […]

III

É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes… […]

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.

IV

– Tudo passa, tudo passará

E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz… »

ps: mas agora chega… amanhã é dia de luta.

 

 

incompleto (ou ‘dear prudence won’t you come out and play?’)

[qua] 29 de outubro de 2014

Introdução: Há dias em que me canso de estar só. Em outros essas solicitações d’outros me cansam. E a marcha da vida segue, com seus conflitos, suas frustrações, seus desafios, seus projetos… Sei que hoje eu não sei muito não. Sei nada quase nada. Sei que é tarde e, aparentemente, sou, sempre no mesmo lugar, aos pedaços – eu incompleto tudo.

Tabela de planejamento de ações – ou notas para logo mais:

Tarefa

Realizada

Não realizada

 nada de internet logo mais  x
 fechar diários que faltam  x
 ler caderno 5 e responder 1 questão do caderno  x
 organizar dias de vídeo/lab informática  x
 organizar saída de campo com estudantes – IFSC/UFSC  +- falta comunicar escola e declaração dos pais
 pensar o grupo de teatro  x próx. reunião 5/11
 comprar tinta para impressora x
 lavar sandália  x
 comprar alpargatas  x
 conversar com direção sobre o problema do machismo de certos professores em sala – tirar um encaminhamento disto  x
 conversar com a direção sobre a solicitação de um minicampeonato de futsal na escola   +- arti. c/ prof. ed. fis feita, falta direção.
 articular uma reunião logo do conselho deliberativo  x
 montar um grupo de trabalho  x
 Regar as plantas  x
 …

***

Professor-cantor ou da trilha sonora das aulas – Entre a alienação e dialética.

«Janaína acorda todo dia às quatro e meia / E já na hora de ir pra cama, janaína pensa / Que o dia não passou / Que nada aconteceu // Janaína é passageira / Passa as horas do seu dia em trens lotados / Filas de supermercados, bancos e repartições / Que repartem sua vida»

ou

«Wave / Come fa un’onda // Interprete: Renato Russo / Composição: Lulu Santos/Nelson Motta/ Tradução: Massimilliano De Tomassi /// Niente di ciò che verrà domani / Sarà com’è già stato ieri / Tutto passa tutto sempre passerà / La vita, come un’onda come il mare /  In un va e viene infinito / Quel che poi vedremo è / Diverso da ciò che abbiamo visto ieri / Tutto cambia, il tempo tutto nel mondo / Non serve a niente fuggire / Nè mentire a se stesso / Amore, se hai ancora un posto nel cuore / Mi ci tuffo dentro / Come fa un’onda nel mare»

 

***

Levantamento sobre Teatro na escola:

https://institutoaugustoboal.files.wordpress.com/2013/04/dissertac3a7c3a3o-mestrado-emiliana-marques-1.pdf

http://www.programabolsa.org.br/pbolsa/pbolsaTeseFicha/arquivos/tese_waldimir_rodrigues_viana.pdf

http://academico.direito-rio.fgv.br/ccmw/images/e/e5/Direitos_Humanos_-_aluno.pdf

https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/9453/1/Alcantara%2520pt%25201.pdf

http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/17546/17546_7.PDF

http://teatrodooprimido.wikispaces.com/file/view/TEATRO+DO+OPRIMIDO.pdf

http://www.cdcc.sc.usp.br/CESCAR/Conteudos/26-05-07/Oficina_Jogos_Teatrais.pdf

http://web2.ufes.br/arteeducadores/relatos/medio_2009_2/m9_2_002.pdf

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Investigações a cerca do decreto 8243 de 2014 – Política Nacional de Participação Social.

Em um texto anti-decreto encontrei isto… Não conhecia. Mas simbora… «I’m back in the USSR / You don’t know how lucky you are, boy / Back in the USSR, yeah…» Lennon-McCartney.

«Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente?, reza o parágrafo único do Art. 1º da Constituição Federal de 1988 (CF88). Por outro lado, o Título VIII, ?Da Ordem Social?, estabelece várias formas de participação, sendo que o Art. 204, ao tratar da assistência social, define especificamente diretrizes para a descentralização político-administrativa e a participação popular na formulação de políticas públicas setoriais.

                                                             
Na CF88 está prevista a instalação de quinze tipos de conselhos, diferenciados por sua inserção normativa, vinculação, atuação, composição, competência e natureza. Regulamentados por lei complementar, inúmeros funcionam rotineiramente, e esse funcionamento passou a ser condição legal para o repasse de recursos financeiros da União e dos estados. Outros cumprem funções relativas à avaliação de instituições públicas.
A diretriz constitucional da descentralização político-administrativa e da participação popular tem sido diretamente responsável por resultados positivos na formulação e avaliação de políticas públicas de setores de direitos fundamentais, há anos.
Apesar de tudo isso, o Decreto nº 8.243 de 23 de maio, que cria a Política Nacional de Participação Social (PNPS), tem provocado uma irritada reação das forças conservadoras. Na Câmara dos Deputados, a oposição faz obstrução da pauta e ameaça impedir a votação de qualquer projeto de lei até que o decreto seja revogado. Além de líderes partidários, editoriais e colunistas de jornais tradicionais têm atacado a PNPS.
É interessante observar que os oligopólios de mídia lideram a reação conservadora: “golpe contra a democracia”, “devastadora desconstrução da democracia”, “decreto suspeito”, “bolivarismo” e “chavismo” são algumas das acusações ao decreto. » Extraído de ‘por que a mídia é contra o decreto nº 8.243’, por Venício Lima.
ou esta entrevista ‘Ex-reitor: Partidos contra decreto de Dilma querem preservar privilégios‘ com José Geraldo de Sousa feita por Conceição Lemes e Patrick Mariano

você está ouvindo as palavras que saem de sua boca?

[ter] 21 de outubro de 2014

sabe.. quando você começa a falar, e vai ouvindo o que você fala, e aquilo vai te dando uma vontade danada de dar uma guinada na sua vida… e mergulhar mais profundamente na imensidão daquilo que há nas suas palavras… irromper para além da superfície do medo e atingir esse além…

hoje, falando sozinho, em pensamento, porque são poucos os momentos para diálogos… nas caronas quase diárias porque insisto em perder o ônibus quase todos os dias, ou em família – repleta de conflitos e surdeza… e no trabalho, no meu caso a escola, com os alunos. mas encerra ai, não há mais militância, não há festas ou amigos… não há aqueles papos e o sentimento de pertencimento… é uma vida um tanto solitária, de reclusão. um auto-exílio. mas o interessante é que no meio dessa fala, silenciosa, em que eu me enredava… veio aquela frase de zé ribamar… josé ribamar ferreira, meu querido poeta ferreira gullar, que diz: ‘eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz’. e brotou dentro do meu peito uma profunda vontade de ser feliz…

e a noite foi bem bacana. fui honesto, franco… criativo e com brilho nos olhos delirei em publico, transbordando essa poesia que há em mim e que as vezes se esvazia e some, mas nestes momentos assim transborda… contagia… e sinto tanta vontade de ser mais e além, de fazer com que os outros sintam o meu amor por mim, por este mundo, pelo que é justo e belo.

e por contraste: meu silêncio é o fruto impotente da constatação  de que meus atos não correspondem ao sonho de justiça e beleza que há dentro de mim. e este mundo é por demais feio e injusto que não há espaço para o silêncio. é preciso falar. é preciso sonhar. eu preciso agir.

e há sonhos profundos nas palavras. as palavras ditas com o que há de mais profundo, aquilo que brota do peito, são poderosas… vontade de ir ai e dizer não vim antes porque tive medo e estava perdido.

e num lapso, salto no tempo, ouço ecoar aqui dentro uma canção… «… Se fiquei esperando meu amor passar. / Já me basta que estava então longe de sereno. / E fiquei tanto tempo duvidando de mim. / Por fazer amor e por fazer sentido. / Começo a ficar livre / Espero. Acho que sim. / De olhos fechados não me vejo. / E você sorriu pra mim». 

que logo mais seja um bom dia. que eu encontre dentro de mim a coragem [para enfrentar o mundo estúpido e os meus medos diários] e a paciência [para com minhas limitações e oscilações… ]. e quem sabe, você sorri pra mim enquanto eu começo a ficar livre? que essa vontade de voar amanheça…

 

música de trabalho

[ter] 21 de outubro de 2014

e a vontade de fazer nada, mais o corpo exausto pelo excesso de ontem… faço um edição na página ‘dossiê mayakóvski, a mais visitada e compartilhada deste blogue, adicionando a tag:  maiakóvski (влади́мир влади́мирович mаяко́вский).

e a trilha sonora da tarde é Tropicália 2;

e a fundamentação filosófica para as aulas de hoje é: «a relação do ser humano com a natureza: o trabalho. i) para existirem, os seres humanos devem necessariamente transformar a natureza. esse ato de transformação é o trabalho. o trabalho é o processo de produção da base material da sociedade pela transformação da natureza. é, sempre, a objetivação de uma prévia-ideação e a resposta a uma necessidade concreta. da prévia-ideação à sua objetivação: isto é o trabalho. vale enfatizar que, para marx, nem toda atividade humana é trabalho, mas apenas a transformação da natureza. veremos mais adiante por quê. ii) ao transformar a natureza, o indivíduo também transforma a si próprio e à sociedade: a) todo ato de trabalho produz uma nova situação, na qual novas necessidades e novas possibilidades irão seguir; b) todo ato de trabalho modifica também o individuo, pois este adquire novos conhecimentos e habilidade que não possuía antes, bem como novas ferramentas que também antes não possuía; iii) todo ato de trabalho, portanto, dá origem a uma nova situação, tanto objetiva quanto subjetiva. essa nova situação possibilitará aos indivíduos novas prévias-ideações, novos projetos e, desse modo, novos atos de trabalho, os quais, modificando a realidade, dão origem a novas situações, e assim por diante. o trabalho e a sociedade. i) todo ato humano tem por base a evolução passada da sociedade, a situação presente concreta em que se encontra o indivíduo e suas aspirações e seus desejos para o futuro. não há ato humano fora da história, fora da sociedade. ii) a objetivação resulta, sempre, em três níveis de generalização: a) o nível objetivo: o objeto produzido passa a ser influenciado e a influenciar toda a sociedade. sua história adquire, assim, uma dimensão genérica: é, agora, parte da história humana, b) o nível subjetivo, que se subdivide em dois subníveis: b1) o conhecimento de um caso singular (como fazer este machado) se eleva a um conhecimento acerca da realidade em geral. esse conhecimento genérico da realidade pode ser aplicado em circunstâncias muito distintas daquelas em que se originou; b2) o conhecimento de um indivíduo se difunde por toda a sociedade, tornando-se patrimônio da humanidade. iii) o trabalho é o fundamento do ser social porque, por meio da transformação da natureza, produz a base material da sociedade. todo processo histórico de construção do indivíduo e da sociedade tem, nessa base material, o seu fundamento.» sérgio lessa e ivo tonet

ps: mas é preciso ir… há trabalho por fazer.

mas antes, um lembrete… trabalhar com a ‘música de trabalho‘ em sala. letra cá: Música de Trabalho // Legião Urbana // Renato Russo, Marcelo Bondá e Dado Villa-Lobos // Sem trabalho eu não sou nada / Não tenho dignidade / Não sinto o meu valor / Não tenho identidade / Mas o que eu tenho / É só um emprego / E um salário miserável / Eu tenho o meu ofício / Que me cansa de verdade / Tem gente que não tem nada / E outros que tem mais do que precisam / Tem gente que não quer saber de trabalhar / Mas quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / De todo o meu cansaço / Nossa vida não é boa / E nem podemos reclamar / Sei que existe injustiça / Eu sei o que acontece / Tenho medo da polícia / Eu sei o que acontece / Se você não segue as ordens / Se você não obedece / E não suporta o sofrimento / Está destinado a miséria / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / Do pouco que não temos / Quem sabe esquecer um pouco / De tudo que não sabemos // 

estive cansado e faço colagens na tarde ensolarada…

[ter] 7 de outubro de 2014

primeiro… há várias citações aguardando serem colocadas por cá – por este blogue serve para isto… guardar coisas, memórias, intenções… momentos vividos. mas elas vão ter que esperar porque eu me sinto cansado – e quando pensei nesta palavra, traduzindo essa sensação, minha memória afetiva remeteu-me a esta canção… até deu vontade de ouvir…

«Soul Parsifal // Renato Russo // Legião Urbana // Ninguém vai me dizer o que sentirMeu coração está desperto / É sereno nosso amor e santo este lugar / Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom / Eu tive o teu veneno / E o sopro leve do luar / Porque foi calma a tempestade / E tua lembrança, a estrela a me guiar / Da alfazema fiz um bordado / Vem, meu amor, é hora de acordar / Tenho anis / Tenho hortelã / Tenho um cesto de flores / Eu tenho um jardim e uma canção / Vivo feliz, tenho amor / Eu tenho um desejo e um coração / Tenho coragem e sei quem eu sou / Eu tenho um segredo e uma oração / Vê que a minha força é quase santa / Como foi santo o meu penar / Pecado é provocar desejo / E depois renunciar / Estive cansado / Meu orgulho me deixou cansado / Meu egoísmo me deixou cansado / Minha vaidade me deixou cansado / Não falo pelos outros / Só falo por mim / Ninguém vai me dizer o que sentir / Tenho jasmim tenho hortelã / Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã / Com a saudade teci uma prece / E preparei erva-cidreira no café da manhã / Ninguém vai me dizer o que sentir / E eu vou cantar uma canção p’rá mim.»

não sei o que me deixou cansado assim… se foram todos esses pensamentos pós-eleição ou tudo mais… às vezes penso que sou sensível demais e há toda uma sensação angustiante – as vezes de leve – quase o tempo todo. ver tanta gente de direita, tanto preconceito, tanta violência e tanta ignorância me sufocam. me sinto um estranho neste mundo e sinto tanta falta dos meus… sozinho é tão fácil enlouquecer.

***

mas intuo que há um pouco deste frio na barriga diante do salto… que quando breco – e paralisado pela excitação/medo danado de ir [e vai que é para gente ser feliz?!] eu acabo ficando aqui nesta zona cinzenta¹. é a contradição que mata. só o amor liberta. eu me enoso – mesmo que eu não tenha encontrado o verbo enosar. e quedo triste. o mundo gira ali fora, queria ficar um cadinho mais por cá, dentro. ‘bora andar de ônibus para poder pensar…

***

1. Abaixo extrai o texto do blogue [http://zonacinzenta.blog.terra.com.br/] que sumiu… recordo-me que já havia posto um link para lá em outro momento/postagem nesta vida. «Zona Cinzenta é uma expressão literária para descrever a indescritível experiência de Auschwitz, empregada por Primo Levi, escritor italiano e sobrevivente do Holocausto. Também é uma releitura feita por Giorgio Agamben, pensador italiano e teórico do Estado de Exceção e do Homo Sacer, feita com propriedade para os tempos atuais, uma espécie de experiência moderna do holocausto produzida por técnicas de poder mais sutis e não menos inumanas. Para Agamben, a Zona Cinzenta é o espaço onde acontece o cruzamento de fundamentos dos saberes e das leis para fundar uma nova experiência política que tem a função de matar para gerir a vida e gerir a vida para matar – a Biopolítica. Entre sistemas de exclusão dos direitos políticos, racismo, indeterminação entre oprimidos e opressores, práticas de extermínio da vida, a Biopolítica, como dizia Foucault, legitima-se sob os fundamentos do racismo – no qual se uma raça quer viver, deve matar a mais fraca (seja no sentido mais literal da expressão, seja no sentido político dela). Racismo que se torna válido nas prescrições científicas dos saberes (medicina social, sociologia, etc) e que corrobora sua prática, principalmente, nos produtos que essas técnicas discursivas alinham para o perfeito funcionamento de seu sistema: na distinção, qualificação e hierarquização das raças, para garantir o modo de vida, combate e domínio do bando soberano. Esse é um blog que se destina a reunir apontamentos, observações e investigações de temas que se conectam à Zona cinzenta. É mais um diário de pensamentos e anotações que farei das minhas leituras e releituras de Foucault, Deleuze, Agamben, Kafka, Maurice Blanchot, entre outros. Mais para além de um diário virtual que tenta descrever os fatídicos fatos corriqueiros de uma vida que quer se tornar privada-pública. Uma guerrilha cultural, talvez. E para aqueles que crêem que o racismo é apenas uma balela, um lembrete do maravilhoso psicanalista Jacques Lacan – “O futuro do mundo é o racismo”. Não quero ser voz na multidão, nem luz na escuridão. Mais que ser negra como a noite ou claro como o dia, essas palavras serão cinzas como a fumaça dos corpos queimados que sobe aos céus. André Campos»

então, a culpa é de quem?

[qui] 25 de setembro de 2014

antes de qualquer coisa preciso explicar-me. narrar que como escrevo tarde, ou para ser mais preciso, no virar das horas quando o relógio diz que já é outro dia este dia que emocionalmente ainda é o mesmo dia. então que seja ontem/hoje e vice-versa.
lembrando daquele texto que fala sobre as três caixas para guardar humor que toda pessoa deve ter. o da caixa grande para o humor barato estou mais ou menos abastecido… e gastando um cadinho. mas o da caixa média e o da caixinha preciosa… ah… esses estão escassos… há dias em que quase enlouqueço.

e no mais foi um dia bom. e na volta… não saía de minha cabeça as frases a seguir: «quero me encontrar, mas não sei onde estou… vem comigo procurar algum lugar mais calmo, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. tenho quase certeza que eu não sou daqui (…) vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre, vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente... estou cansado de bater e ninguém abrir, você me deixou sentindo tanto frio, não sei mais o que dizer (…) não é a vida como está, e sim as coisas como são. você não quis tentar me ajudar. então, a culpa é de quem? a culpa é de quem? eu canto em português errado, acho que o imperfeito não participa do passado, troco as pessoas, troco os pronomes… preciso de oxigênio, preciso ter amigos, preciso ter dinheiro, preciso de carinho…» renato russo.

***

um tópico interessante de estudo é: machado de assis e o estudo da loucura.

ô viola…

[seg] 15 de setembro de 2014

eu vou me embora para o sertão… eu aqui não me dou bem não“.

meu peito tá pesado. e algumas lições doem. a vida não devia doer não.

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“Não nos iluminamos imaginando figuras de luz, mas tomando consciência das trevas” – Carl Jung

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“muitos temores nascem do cansaço e da solidão (…) Dissestes que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira”.

 

l’homme qui plantait des arbres

[dom] 9 de março de 2014

hoje (9/3) : uma sugestão de jacinto noé kahler caro. O homem que plantava árvores ( “L’homme qui plantait des arbres”, de 1987), vencedor do Oscar de Melhor Animação de 1988. Baseado em um conto do romancista francês Jean Giono, de 1953, e dirigido por Fréderic Back, o desenho conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas silencioso e persistente.

ontem (8/3) 20h55. enfim chega o ônibus que faz a linha córrego grande no ponto que estou, refugiando-me desta chuva fina que esperou que eu cumprisse todo o ritual/roteiro e chegasse ao ponto – o começo do retorno à solidão comunitária.

e na viagem, retomo a leitura – interrompida por quase um mês – de antes de nascer o mundo. livro que me levou à extremos, do riso ao choro, do contentamento à angústia, do fascínio ao estado de perplexidade…

abaixo um fragmento…

«Para atravessar contigo o deserto do mundo / Para enfrentarmos juntos o terror da morte / 
Para ver a verdade para perder o medo / Ao lado dos teus passos caminhei / Por ti deixei meu reino meu segredo / Minha rápida noite meu silêncio / Minha pérola redonda e seu oriente / Meu espelho minha vida minha imagem / E abandonei os jardins do paraíso / Cá fora à luz sem véu do dia duro / Sem os espelhos vi que estava nua / E ao descampado se chamava tempo / Por isso com teus gestos me vestiste / E aprendi a viver em pleno vento / Sophia de Mello Breyner Andersen [página 227]

[poema que abre o  antepenúltimo capítulo desta história de Mwanito, Marta, Silvestre, Dordalma e outros] […] E durante semanas, todos os dias à mesma hora, conduzi meu pai à escadaria da igreja, momentos antes das afinadas vozes subirem aos céus. De cada vez que fiz questão em me retirar, o seu braço me segurava. Calado e sem mover um dedo, queria partilhar aquele momento comigo. Queria refazer a varanda onde deitávamos o nosso silêncio. Até que, um dia, percebi que ele balbuciava as palavras dos hinos. Mesmo sem voz, Silvestre fazia coro com os cantantes. Sem que ninguém mais desse conta, as palavras de Vitalício subiam ao céu. Era um céu rasteiro, sem fôlego. Mas era o início de um infinito. *** Despertei com o ruído de vozes femininas. Pela janela espreitei. Dezenas de pessoas enchiam a rua e [página 232] paralisavam o trânsito. Gritavam palavras de ordem, empunhavam cartazes em que se lia: “Parem com a violência contra a mulher!”. Entre a multidão, vislumbrei Zacaria Kalash que abria caminho para se aproximar da nossa residência. Abri a porta e ele, sem pausa para licença, irrompeu casa adentro, como se buscasse abrigo. – O barulho que essas gajas fazem! Noci está lá, toda agitada. […] [página 233] […] Passaram-se dias em que não fui mais do que pai de meu pai. Cuidava dele, o conduzia por lugares para os quais ele sempre respondia como um cego. Até que um dia recebi um envelope. Reconheci a letra de Marta. Era a primeira carta que alguém, alguma vez, havia escrito para mim. [ página 237] […] [penúltimo capítulo] Escrevo-te esta carta, caro Mwanito, para que a nossa despedida se faça sem nenhum adeus.  No último dia em que estivemos juntos contaste-me o sonho em que o teu pai me salvava de morrer afogada no rio. Se pensarmos que a vida é um rio, o teu sonho é verdadeiro. Eu fui salva em Jesusalém. Silvestre me ensinou a encontrar Marcelo vivo em tudo o que nasce. […] Noci ofereceu-me essas fotos preto e branco. Não eram, como pensava, imagens de garças e paisagens. Era a reportagem do seu próprio fim, um diário pctórico da sua decadência. Por [ página 239] esse registro percebemos que ele desejava alonjar-se de si mesmo. Primeiro, andando desgrenhado e sem roupas. Depois cada vez mais próximo dos bichos, bebendo água de poças, comento carne crua. Quando abateram, Marcelo foi tomado por um animal bravio. Não foram os da guerra que o mataram. Foram caçadores. O meu homem, caro Mwanito, escolheu essas espécie de suicídio. Quando a morte chegasse ele já teria deixado de ser pessoas. E assim se sentiria morrer menos. Não foi um continente que engoliu Marcelo. Foram os seus demónios interiores que o devoraram. Esses demónios arderam quando, momentos antes do regresso a Lisbia, queimei todas as fotografias que Noci me tinha dado. *** A vida só sucede quando deixamos de entender. Nos últimos tempos, meu querido Mwanito, estou longe de qualquer entendimento. Nunca imaginei viajando para África. Agora, não sei como regressar à Europa. Quero voltar para Lisboa, sim, mas sem memória de alguma vez já ter vivido. Não me apetece reconhecer nem gente, nem lugares, nem sequer a língua que nos dá acesso aos outros. É por isso que me dei tão bem em Jesusalém: tudo era estranho e não prestava contas sobre quem era, nem que destino devia escolher. Em Jesusalém, a minha alma se tornava leve, desossada, irmã das garças. [página 240] Tudo isto devo a teu pai, Silvestre Vitalício. Condenei-o por ele vos ter arrastado para um deserto. A verdade, todavia, é que ele inaugurou o seu próprio território. Ntunzi responderia que Jesusalém se fundava num logro criado por um doente. Era mentira, sim. Porém, se temos que viver na mentira que seja na nossa própria mentira. Afinal, o velho Silvestre não mentia assim tanto na sua visão apocalíptica. Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. [grifos meus] E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes, é um acto de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida. *** […] [página 241] […] Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Excepto amar. Contudo, não é para falar de mim que te escrevo. Mas de tu mãe Dordalma. Falei com Aproximado, com Zacaria, com Noci, com os vizinhos. Todos me contaram pedaços de uma história. É meu dever devolver-te esse passado que te foi roubado. Dizem que a história de uma vida se esgota no relato de sua morte. Esta é a história dos dias finais de Dordalma. De como ela perdeu a vida, depois de se ter perdido da vida. *** Era uma quarta-feira. Nessa manhã, Dordalma saiu de casa como nunca o fez em sua vida: para ser olhada e invejada. O vestido era de cegar um mortal e o decote era de fazer um cego ver o céu. Estava vistosa que poucos deram conta da pequena mala que transportava com o mesmo desamparo de uma criança no primeiro dia de escola. Começo assim porque tu, Mwanito, não fazes ideia de como a tua mãe era linda. Não era o rosto, nem a cintura, nem as pernas ágeis e torneadas. Era ela, toda inteira. Em casa, Dordalma nunca era mais do que cinza, apagada e fria. Os anos de solidão e descrença a habilitaram a ser ninguém, simples indígena do silêncio. Infinitas vezes, porém, em frente ao espelho ela se vingava. E ali, na penteadeira, se enchia de aparências. Parecia, sei lá, um cubo de gelo num copo. Disputando [página 242] a superfície, reinando no cimeiro lugar até o tempo voltar a ser água. E regresso aos inícios: nessa quarta-feira, a tua mãe saiu de casa, vestida para semear devaneios. Os olhares da vizinhança não eram de cumprimentos perante a beleza. E suspiravam: de inveja, as mulheres; de desejo, os homens. Raiavam nas pupilas dos machos as mesmas dilatadas veias que enchem os olhos dos predadores. Eis os factos, nus e crus. Nessas manhã a tua mãe entrou no chapa-cem e espremeu-se entre os homens que enchiam a viatura. O autocarro partiu, entre fumos, animado de estranha pressa. O chapa não seguiu o rumo habitual. O motorista desconduziu-se, distraído, quem sabe, pelo espelho que lhe entregava as retrovisões da bela passageira. Por fim, o autocarro parou num esconso e escuro baldio. O que se passou a seguir até me dói escrever. […] [página 243] […] [último capítulo] […] – Quero que procures uma caixa que está na minha bolsa. Trouxe essa caixa para ti. Entrei, a medo. Noci estava-se limpando na toalha e eu podia entrever ora o seu peito ora as suas longas pernas. Retirei uma caixa de metal e ergui, tremendo. Ela entendeu o meu gesto. – É essa mesma. Lá dentro está dinheiro. É todo teu. E ela foi explicando a origem daquele pequeno tesouro. Noci fazia parte de uma associação de mulheres que lutava contra a violência doméstica. Há uns meses silvestre interrompeu uma dessas sessões e atravessou a sala, em silêncio. – Foi muito estranho o que ele fez – lembrou Noci. – Não leve a mal – acudi eu. – Meu pai sempre teve uma ideia negativa sobre as mulheres, peço que lhe perdoe… – Ao contrário, eu… aliás, todas nós ficámos muito gratas. O que sucedera fora o seguinte: Silvestre curzara a sala e deixara sobre a mesa uma caixa com dinheiro. Era a sua contribuição para a causa daquelas mulheres. A associação, entretanto, fechara. Ameaças diversas semearam o medo entre as associadas. O que Noci fazia era devolver o gesto solidário de meu pai. […] [página 260] […] – quem te ensinou a amar as mulheres? Devia ter respondido: foi a falta de amor. Mas nenhuma palavra me acudiu. Desarmado, vi Noci abotoando o vestido em preparos de despedida. No último botão ela se deteve e disse: – Quando nos entregou a caixa de dinheiro o teu pai não sabia que, no meio das notas, havia um bilhete com ordens. – Ordens? De quem? – De tua mãe. Meu pai nunca percebera mas a falecida esposa deixara um bilhete explicando a origem e o propósito daquele dinheiro. Eram poupanças de Dordalma e ela legava essa herança para que nada faltasse aos seus filhos. – Foi a tua mãe. Foi ela quem te ensinou a amar. Dordalma esteve sempre aqui. E a sua mão aberta pousou sobre o meu peito. […][ página 261] »

E me faltaram sete páginas para terminar o livro. Ficará para amanhã. Em vários momentos do livro fiquei com aquele gosto de encantamento… É muito poética a escrita de Mia Couto. Mas em outros momentos é como se eu sentisse um nó no peito, um engasgo, um soco no estômago… Pelo sentimentos narrados… por serem tão próximos… por senti-los, cá. Um lágrima brotou da leitura de hoje, e me fez recordar uma canção que estava cantarolando na semana anterior a do carnaval…. A canção é Clarisse, Legião Urbana, e o trecho é este «Clarisse sabe que a loucura está presente / E sente a essência estranha do que é a morte / Mas esse vazio ela conhece muito bem / De quando em quando é um novo tratamento / Mas o mundo continua sempre o mesmo / O medo de voltar p’rá casa à noite / Os homens que se esfregam nojentos / No caminho de ida e volta da escola / A falta de esperança e o tormento / De saber que nada é justo e pouco é certo / De que estamos destruindo o futuro / E que a maldade anda sempre aqui por perto / A violência e a injustiça que existe / Contra todas as meninas e mulheres / Um mundo onde a verdade é o avesso / E a alegria já não tem mais endereço […] »

20h25. a chuva começa. chego no ponto. vejo o relógio. anoto teu endereço. e espero.

20h20 aproximadamente. tieta-preta me lambe, me late, num misto de felicidade e ferocidade. não decifro ela… talvez ela meu queira [ou a rua, que tenho] que chega a beira da loucura/revolta. mas enfim… te chamo.. uma, duas, três vezes… tudo fechado. de deixo um cartinha. é, eu ando bem enferrujado… pois foi por ti que meu coração bateu pela ultima vez… depois ele hibernou, me recolhi, me guardei para o futuro. aprendi a viver na solidão. mas viver muito tempo na solidão nos vai distanciando das coisas do mundo… vamos nos amalgamando ao silêncio dos seres sós, vamos afinando os silêncios

[No ínterim]«só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Te deixo meu número. Espero tua chamada. E narro um trecho do livro que tenho lido… «A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros . Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. – Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado. Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia: – Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito. Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.»

Talvez eu queira dizer que sou cria dos silêncios, mas que tua existência, tua força [desde lá… 2005], tua presença, foram e são fundamentais.. tua mãozinha e teu coraçãozão contribuíram  na modelagem deste homem-barro que sou… tão próximo daquele rapaz que eu era, mas ao mesmo passo tão distante, tão mais velho… assim, como imagino, talvez não tão docemente, eu tenha contribuído um cadinho… e me recordo da canção de caetano… somos e já não somos os mesmos de antes. e o novo é o aventura de nos descobrirmos… de praticarmos o carinho, de não deixarmos o mundo terminar – como dizia o texto de mia couto. enfim, lhe quero.

17h01. estou a 20 passos de sua casa. e recebo um telefonema [o que sempre é extraordinário, no meu caso] e suspeito que seja tu, mas não é… é o cara da loja de árvores avisando que ela chegou… que posso passar hoje ou segunda… quero te contar isto. tudo fechado. chamo… nada. eu demorei. eu sempre demoro. eu sou lento e atravessado nesta vida… mas vou dar uma volta e depois te deixo um recado.

o reggae

[qui] 26 de setembro de 2013

‘tá ai seis páginas para ler uma penca de diários para finalizar uma pilha enorme de provas para avaliar e uma madrugada longa pela frente
enfim quinta-feira chegou e é novo dia… dia importante para avançar mais um passo.
anotações do cotidiano:

#1tu passa horas preparando, estudando, organizando algumas aulas e quando chega a hora por motivos alheios a tua vontade elas não funcionam e uma aula bacana bem estruturada torna-se um emaranhado de turmas ao mesmo tempo e tudo que cê faz é não dar aula… vira tudo tempo arrastado, tumultuado. isto me deixa frustado.
#2 tu já se pegou naqueles momentos sádicos-masoquistas em que toda uma exploração de dor e revolta aflora em ti e tudo que você quer é que o outro sinta o mesmo, a mesma mágoa, a mesma dor, o mesmo sofrimento… é uma cegueira absurda que impede que tu perceba que o fato de sofreres deveria ser condição mais que suficiente para tu cessar qualquer ato violento contra qualquer outro ser. mas não vira uma metralhadora de palavras amargas, e cada verbo lançado ferozmente contra o outro visando faze-lo sofrer é ao mesmo tempo um buraco ainda maior no teu peito, um sofrimento auto-infligido. hoje percebi isto acontecendo entre duas pessoas, não era eu, mas sei que faço isto às vezes. isto me deixou triste.
#3 eu me enrolo demais…

#4… Não mais que de repente pego-me cantando em sala de aula esta canção: o reggae, da legião urbana.

Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora

Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Então gritaram: – Cresça e apareça!

Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia ao jornal da TV
E aprendi a roubar pra vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas e daí, se é mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor pra mim.

[solo]

Me ajuda se eu quiser
Me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui

Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
No meio das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado.

Beberam meu sangue e não me deixam viver
Tem o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vem falar de liberdade pra depois me prender
Pedem identidade pra depois me bater
Tiram todas minhas armas
Como posso me defender?
Vocês venceram está batalha
Quanto à guerra,
Vamos ver.

Link: http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/o-reggae.html#ixzz2fxqR1QyR

intertextual

[dom] 9 de junho de 2013

último ponto:
o pensamento é mais rápido que meus músculos.
e o pensado é morto,
o que vive é o pensado
sobre o pensado.
e a natura se refaz
mesmo diante da morte mais atroz.

primeiro ponto:
vocês não foram tão justos e sensatos quão imaginam.
suas loucuras, suas frustações, seus medos e suas limitações
foram a marca em tudo o que tentaram.

e a marca é isto ai mesmo:
não exatamente o que é correto ou necessário,
é o que é possível.

quando vislumbrei isto,
e percebi que era hora de escapar desta ilusão,
não para um mundo sem ilusão,
mas digamos, para outra ilusão,
e outra, e outra, todas um tanto mais libertadora
que esta que vocês inventaram para tentar me convencer.

E foi neste instante que percebi
que de lançamento eu já partia
todo errado [ver chico, ver carlos].

e viver sob esta culpa primordial
– que nem era minha de fato
e tampouco deveria ser culpa,
posto que era produto de determinantes
e sobredeterminante de caráter histórico-social [ver marx] –
enfim, viver sob aquela culpa não era viver,
era padecer – ser moribundamente.

deste ponto em diante
todas aquelas pequenas
transgressões já não eram defeitos,
eram feitos… eu me desculpará.
e errar era possível e tão necessário.

outro ponto:
“sai para caminhar com eu pai,
conversamos sobre coisas da vida,
tivemos um momento de paz”

entrepontos:
“o mundo esta repleto de loucuras”

mas sou minha, só minha e não de quem quiser

[seg] 22 de abril de 2013

no ponto de ônibus, repensando as aulas da noite. remexo na memória as primeiras reflexões sobre o tema e me vem forte esta canção que curtia muito cantar:

Já que não me entendes, não me julgues (…) Ninguém sabia e ninguém viu Que eu estava a teu lado então… Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulherSou minha mãe e minha filha, Minha irmã, minha meninaMas sou minha, só minha e não de quem quiserSou Deus, tua Deusa, meu amor“. Trecho da canção 1º de julho da Legião Urbana.

depois de uma aula discutindo isto aqui: http://concursonigs.paginas.ufsc.br/

 

 

come fa un’onda

[qua] 6 de março de 2013
“Niente di ciò che verrà domani sará com’è già stato ieri. Tutto passa tutto sempre passerà.
La vita, come un’onda come il mare in un va e viene infinito. Quel che poi vedremo è diverso da ciò che abbiamo visto ieri, tutto cambia, il tempo tutto nel mondo… Non serve a niente fuggire nè mentire a se stesso. Amore, se hai ancora un posto nel cuore mi ci tuffo dentro… Come fa un’onda del mare”
Ando estudando muito, lendo todos os dias, preparando aulas… e o tempo para a vida evapora. O tempo para isto aqui também. e os pensamentos vem e vão… são apenas pensamentos. E aos poucos, bem aos poucos… vou colocando a vida em ordem, médicos, dentistas, dietas, rotinas, contas… e chove. só, chove.

eu era um lobis…

[qua] 7 de novembro de 2012

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo…

O que você vai ser,
Quando você crescer?

níquel náusea de fernando gonsales

 

 

 

 

 

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Se o mundo é mesmo
Parecido com o que vejo
Prefiro acreditar
No mundo do meu jeito
E você estava
Esperando voar
Mas como chegar
Até as nuvens
Com os pés no chão…

AGORA PEGAR O ÔNIBUS E IR… LÁ PAGAR AS INSCRIÇÕES.

pimenta macado

[qui] 5 de janeiro de 2012

QUINTA-FEIRA, hoje

14:46 Vou passar a limpo essas sensações desses últimos dias e registrar o que é para ser registrado. Lá vai:

13:32 Há dias que dá uma vontade de vir aqui e te contar o que se passa comigo. E logo penso, ou nem penso tanto assim, não estás por aqui. E a vontade dissipa-se. Logo sigo cá, vivendo, passando…

02:30 Pensamento interno: para contribuir numa possível da situação concentre-se em quitar as prestações do financiamento da casa antes de setembro. Prioridade. E no desejo de cambiar às coisas… Comece com a agroecologia.

QUARTA-FEIRA, ontem

17:55 Após uns dois dias dormindo menos, um dia agitado, e uns cinco quilômetros caminhados… Estou preguiçosamente cansado.  Que dormiria agora se fosse possível. E a noite de trabalho está só começando… Vai ser longa.

15:54 Um abraço num querido amigo.

15:50 Um passeio com uma prima.

14:45 Observando e planejando quanto tempo levarei para conseguir me equipar.

14:25 Prestação 4/12 paga.

11:25 O QUE FALTAVA ENTÃO: A parceria / o carinho / a aceitação / o vínculo / a comunhão // O QUE HAVIA ENTÃO: A consciência / o olhar / a admiração / o entendimento / a necessidade /// Havia o abstrato. Faltava o concreto. /// E a intuição agora diz: necessidade de não parar… e organizar, fazer, mudar ->  Ação/Prática/Experiência/Vivência -> Exercer plenamente as potencialidades possíveis. Aproveitar a zona proximal.

10:45 Com la yerba e el mate passei a manhã em casa de Noé. Tenho agora um punhado de semestre criolas para plantar e orientações de como cuidar dos canteiros. Encantado com a produção dele. Manhã inspiradora.

08:40. Após mais de uma semana sem leitura retorno e concluo a leitura do texto Metodologia para o processo educativo de Anton Makarenko.

03:15 Um pé de quê. Auguste Saint-HilaireXylopia Aromatica. http://www.hvsh.cria.org.br

02:08 Pegando acerola do pé no caminho. Uma vontade honesta no peito que tudo de certo.

TERÇA-FEIRA, anteontem

06:56 Pintando a casa.

04:28 tetã paraguá

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Trilha Sonora desta postagem: Balada MTV BaRÃO VERMELHO

1. BILHETINHO AZUL // Frejat / Cazuza // Hoje eu acordei com sono / Sem vontade de acordar / O meu amor foi embora / E só deixou pra mim / Um bilhetinho / Todo azul com seus garranchos // Que dizia assim: “Chuchu vou me mandar! / É, eu vou pra Bahia, talvez volte / Qualquer dia / O certo é que eu tô vivendo / Eu tô tentando / Nosso amor foi um engano” // Hoje eu acordei com sono / Sem vontade de acordar / Como pode alguém / Ser tão demente, porra louca / Inconsequente e ainda amar / Ver o amor como um abraço curto / Pra não sufocar /// 2. TENTE OUTRA VEZ // Raul Seixas / Paulo Coelho / Marcelo Motta // Veja, / Não diga que a canção está perdida / Tenha fé em Deus, tenha fé na vida / Tente outra vez // Beba, / Pois a água viva ainda está na fonte / Você tem dois pés pra cruzar a ponte / Nada acabou, não, não // Tente, / Levante sua mão sedenta e recomece a andar / Não pense que a cabeça agüenta se você parar / Não, não, não, não, não / Há uma voz que canta / Há uma voz que dança / Há uma voz que gira / Bailando no ar // Queira, / Basta ser sincero e desejar profundo / Você será capaz de sacudir o mundo, vai / Tente outra vez / Tente, / E não diga que a vitória está perdida / Se é de batalhas que se vive a vida / Tente outra vez /// 3. POR QUE A GENTE É ASSIM // Frejat / Cazuza / Ezquiel // Mais uma dose? / É claro que eu tô a fim / A noite nunca tem fim / Por que quê a gente é assim? // Agora fica comigo / E não desgruda de mim / Vê se ao menos me engole / Não me mastigue assim // Canibais de nós mesmos / Antes que a terra nos coma / Cem gramas, sem dramas / Por que quê a gente é assim? // Mais uma dose? / É claro que eu tô a fim / A noite nunca tem fim / Por que quê a gente é assim? // Você tem exatamente / Três mil horas / Pra parar de me beijar / Meu bem, você tem tudo / Tudo prá me conquistar // Você tem / Um segundo prá aprender a me amar / Você tem a vida inteira / Pra me devorar /// 4. ENQUANTO ELA NÃO CHEGAR // Guto Goffi / Maurício Barros // Quantas coisas eu ainda vou provar / E quantas vezes para a porta eu vou olhar / Quantos carros nessa rua vão passar / Enquanto ela não chegar // Quantos dias eu ainda vou esperar / E quantas estrelas eu vou tentar contar / E quantas luzes na cidade vão se apagar / Enquanto ela não chegar // Eu tenho andado tão sozinho / Que eu nem sei no que acreditar / E a paz que busco agora / Nem a dor vai me negar // Não deixe o sol morrer / Errar é aprender / Viver é deixar viver // Quantas besteiras eu ainda vou pensar / E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar / Quantas vezes eu vou me criticar / Enquanto ela não chegar /// 5. POR VOCÊ // Frejat / Maurício Barros / Mauro Sta. Cecília // Por você eu dançaria tango no teto / Eu limparia os trilhos do metrô / Eu iria a pé do Rio à Salvador // Eu aceitaria a vida como ela é / Viajaria a prazo pro inferno / Eu tomaria banho gelado no inverno // Por você eu deixaria de beber / Por você eu ficaria rico num mês / Eu dormiria de meia pra virar burguês // Eu mudaria até o meu nome / Eu viveria em greve de fome / Desejaria todo o dia a mesma mulher // Por você, por você! / Por você, por você! // Por você conseguiria até ficar alegre / Pintaria todo o céu de vermelho / Eu teria mais herdeiros que um coelho /// 6. MEUS BONS AMIGOS // Guto Goffi / Maurício Barros / Fernando Magalhães // Meus bons amigos / Onde estão? / Notícias de todos quero saber // Cada um fez sua vida / De forma diferente / Às vezes me pergunto / Malditos ou inocentes? // Nossos sonhos, realidades / Todas as vertigens, crueldades // Sobre nossos ombros / Aprendemos a carregar / Toda a vontade que faz vingar / No bem que fez pra mim / Assim, assim / Me fez feliz, assim… // O amor sem fim / Não esconde o medo / De ser completo / E imperfeito /// 7. PEDRA, FLOR E ESPINHO // Fernando Magalhães / Frejat / Dulce Quental // Hoje, eu não quero ver o sol / Vou pra noite, tudo vai rolar / O meu coração é só um desejo de prazer / Não quer flor, não quer saber de espinho / Mas se você quiser tudo pode acontecer no caminho // Automóveis piscam os seus faróis / Sexo nas esquinas, violentas paixões / Não me diga não, não me diga o que fazer / Não me fale, não me fale de você / Mas se você quiser, eu bebo o seu vinho / Mas se você quiser sou pedra, flor e espinho // Eu quero te ter / Não me venha falar de medo / Não me diga não / Olhos negros, olhos negros // Eu quero ver você / Ser o seu maior brinquedo / Te satisfazer / Olhos negros, olhos negros /// 8. O POETA ESTÁ VIVO // Frejat / Dulce Quental // Baby, compra o jornal / E vem ver o sol / Ele continua a brilhar / Apesar de tanta barbaridade // Baby escuta o galo cantar / A aurora dos nossos tempos / Não é hora de chorar / Amanheceu o pensamento // O poeta está vivo / Com seus moinhos de vento / A impulsionar / A grande roda da história // Mas quem tem coragem de ouvir / Amanheceu o pensamento / Que vai mudar o mundo / Com seus moinhos de vento // Se você não pode ser forte / Seja pelo menos humana / Quando o papa e seu rebanho chegar / Não tenha pena // Todo mundo é parecido / Quando sente dor / Mas nú e só ao meio dia / Só quem está pronto pro amor // O poeta não morreu / Foi ao inferno e voltou / Conheceu os jardins do Éden / E nos contou // Mas quem tem coragem de ouvir… /// 9. EU QUERIA TER UMA BOMBA // Cazuza // Solidão a dois de dia / Faz calor, depois faz frio / Você diz “já foi” e eu concordo contigo / Você sai de perto eu penso em suicídio / Mas no fundo eu nem ligo / Você sempre volta com as mesmas notícias / Eu  queria ter uma bomba / Um flit paralisante qualquer / Pra poder me livrar / Do prático efeito / Das tuas frases feitas / Das tuas noites perfeitas / Solidão a dois de dia / Faz calor, depois faz frio / Você diz “já foi” e eu concordo contigo / Você sai de perto eu penso em homicídio / Mas no fundo eu nem ligo / Você sempre volta com as mesmas notícias / Eu queria ter uma bomba / Um flit paralisante qualquer / Pra poder te negar / Bem no último instante / Meu mundo que você não vê / Meu sonho que você não crê / / Eu queria ter uma bomba / Um flit paralisante qualquer / Pra poder te negar / Bem no último instante /// 10. O TEMPO NÃO PÁRA // Arnaldo Brandão / Cazuza // Disparo contra o sol / Sou forte, sou por acaso / Minha metralhadora / Cheia de mágoas / Eu sou um cara / Cansado de correr / Na direção contrária / Sem pódio de chegada / Ou beijo de namorada / Eu sou mais um cara / Mas se você achar / Que eu tô derrotado / Saiba que ainda / Estão rolando os dados / Pois o tempo / O tempo não pára / Dias sim, dias não / Eu vou sobrevivendo / Sem um arranhão / Da caridade / De quem me detesta / A tua piscina / Tá cheia de ratos / Tuas idéias / Não correspondem aos fatos / O tempo não pára / Eu vejo o futuro / Repetir o passado / Eu vejo um museu / De grandes novidades / O tempo não pára / Não pára não, não pára / Eu não tenho data / Prá comemorar / Às vezes os meus dias / São de par em par / Procurando agulha / No palheiro / Nas noites de frio / É melhor nem nascer / Nas de calor / Se escolhe: / É matar ou morrer / E assim / Nos tornamos brasileiros / Te chamam de ladrão / De bicha, de maconheiro / Transformam o país inteiro / Num puteiro / Pois assim / Se ganha mais dinheiro / A tua piscina / Tá cheia de ratos / Tuas idéias / Não correspondem aos fatos / O tempo não pára / Eu vejo o futuro / Repetir o passado / Eu vejo um museu / De grandes novidades / O tempo não pára / Não pára,  não, não pára /// 11  TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA // Frejat / Cazuza // Eu quero a sorte de um amor tranqüilo / Com sabor de fruta mordida / Nós, na batida, no embalo da rede / Matando a sede na saliva // Ser artista no nosso convívio / Pelo inferno e céu de todo dia / Pra poesia que a gente não vive / Transformar o tédio em melodia // Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum veneno / antimonotonia // E se eu achar a tua fonte escondida / Te alcanço em cheio / O mel e a ferida / E o corpo inteiro feito um furacão / Boca, nuca, mão e a tua mente, não / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum trocado para dar garantia // / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum remédio que me dê alegria /// 12. PURO ÊXTASE // Guto Goffi / Maurício Barros // Toda brincadeira não devia ter hora prá acabar / Toda quarta-feira ela sai sem pressa prá voltar / Esmalte vermelho / Tinta no cabelo / Os pés no salto alto / Cheios de desejo / Vontade de dançar  até o amanhecer / Ela está suada, pronta prá se derreter // Ela é puro êxtase / Ecstasy / Barbies, Betty Boops / Puro êxtase // Galo cantou, se encantou deixa cantar / Se o galo cantou é que tá na hora de chegar / De tão alucinada / Já tá rindo à toa / Quando olha para os lados / À todos atordôa / A sua roupa montada parece divertir / Os olhos gulosos de quem quer me despir /// 13. PENSE E DANCE // Dé / Frejat / Guto Goffi // Penso como vai minha vida / Alimento todos os desejos / Exorcizo as minhas fantasias / Todo mundo tem um pouco de medo da vida // Pra que perder tempo desperdiçando emoções / Grilar com pequenas provocações? / Ataco se isso for preciso / Sou eu quem escolho e faço os meus inimigos // Saudações a quem tem coragem / Aos que tão aqui pra qualquer viagem / Não fique esperando a vida passar tão rápido / A felicidade é um estado imaginário // Não penso em tudo que já fiz / E não esqueço de quem um dia amei / Desprezo os dias cinzentos / Eu aproveito pra sonhar enquanto é  tempo // Eu rasgo o couro com os dentes / Beijo uma flor sem machucar / As minhas verdades eu invento sem medo / Eu faço de tudo pelos meus desejos // Saudações a quem tem coragem / Aos que tão aqui pra qualquer viagem / Não fique esperando a vida passar tão rápido / A felicidade é um estado imaginário // Pense e dance / Pense / Pense e dance /// 14. QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO TEU QUARTO // Dado Villa Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá // Quando o sol bater na janela do teu quarto / Lembra e ve que o caminho é um só / Porque esperar se podemos começar tudo de novo / Agora mesmo. / A humanidade é desumana / Mas ainda temos chance / O sol nasce pra todos / Só não sabe quem não quer  // Quando o sol bater na janela do teu quarto / Lembra e ve que o caminho é um só / Até bem pouco tempo atrás / Poderíamos mudar o mundo / Quem roubou nossa coragem? // Tudo é dor / E toda dor vem do desejo / De não sentirmos dor // Quando o sol bater na janela do teu quarto / Lembra e ve que o caminho é um só ///

bossa vinte… vinte e nove!

[qui] 25 de agosto de 2011

em certos dias tudo parece sem sentido e é como se estivéssemos suspensos ou submersos ou apenas perdidos no meio disto tudo. disto tudo. parece sem sentido.

mas agora não. hoje não. não sei o peso. mais ou menos o diâmetro e a idade… a idade é vinte e nove.

hoje há uma certeza que tudo vai melhorar e as poças, o atoleiro, as goteiras, as cadeiras, os cursos, os planos, os pesos, as metas, o amor, a poesia, a poesia vai ser melhor e que agora se faz o que se pode e se está bem na medida do possível. do possível.

quando tinha dezessete cantarolava outra, mas agora é mais ou menos assim:

Perdi vinte em vinte e nove amizades / Por conta de uma pedra em minhas mãos / Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes / Estou aprendendo a viver sem você / (Já que você não me quer mais) // Passei vinte e nove meses num navio / E vinte e nove dias na prisão / E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno / Decidi começar a viver. / Quando você deixou de me amar / Aprendi a perdoar / E a pedir perdão. / (E vinte e nove anjos me saudaram / E tive vinte e nove amigos outra vez) // renato russo.
 

penso que ainda não cheguei lá e apenas improviso. e sabe-se lá que já não é chegada a hora da morte, ó drão.

Drão! / O amor da gente / É como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar / Plantar nalgum lugar / Ressuscitar no chão / Nossa semeadura / Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura caminhada / Pela estrada escura… // Drão! / Não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão / Estende-se infinito / Imenso monolito / Nossa arquitetura / Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Cama de tatame / Pela vida afora // Drão! / Os meninos são todos sãos / Os pecados são todos meus / Deus sabe a minha confissão / Não há o que perdoar / Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão / Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Se o amor é como um grão / Morre, nasce trigo / Vive, morre pão / drão! / drão! // gilberto gil.

e fechando a página, não sou tão mal quanto a falta de amor faz crer.

uma outra estação

[seg] 25 de abril de 2011

¿vamos nos concentrar num caminho fácil daqui para frente, certo?

«não me diga como devo ser» mas foi assim: os olhos quase marejaram. e na garganta ficou um engasgo por não poder dizer… poderia passar horas ali tentando encontrar alguma hipótese retórica que justificasse ou validasse ou o que fosse para tentar reconstruir o aparente ‘tudo vai bem, mais ou menos’. «não acredito, nem vou julgar […] porque mentir é fácil demais» mas não dá mais: acabou. «eu sou a pátria que lhe esqueceu… o carrasco que lhe torturou… o general que lhe arrancou os olhos… o sangue inocente de todos os desaparecidos… o choque elétrico… e os gritos… parem por favor… isso dói». sai de lá atordoado, meio sem chão. era um

pobre coitado com os olhos quase marejados porque hoje, enfim, publicamente, alguém, com todos verbos concretos e cortes simbólicos arrancou-me mais um pedaço. abriu a porta, que eu não fora até então capaz de cerrar e me pôs para fora. disse, ele, vai pois tu já não nos serve mais. e nesse movimento arrancou de minhas mãos, ou imaginação, algo que era tão meu, dizendo de forma clara: se continuar em tuas mãos, tudo continuará morto. vai. porque isto tudo já não importa mais, já passou. te ocupes de outra coisa. e não apareça mais.

«de saber que nada é justo e pouco é certo, e que estamos destruindo o futuro e a maldade anda sempre aqui por perto […] um mundo onde a verdade é o avesso e a alegria já não tem mais endereço […] eu sou um pássaro, me trancam na gaiola, mas um dia eu consigo resistir e vou voar pelo caminho mais bonito». e me pergunto agora, algumas horas depois de rabiscar estar palavras acima e ouvindo estas canções de renato… eu simplesmente sai de lá sem chão não pela aspereza de como fui tratado mas pelo teor de verdade contido naquela avaliação mas também sai de lá sem chão porque sei que se parte é a crua verdade – os atrasos, as faltas, os trabalhos inconclusos, a inconstância, os abandonos, a não prestação de contas, etc. – também há coisas não ditas… há todo um esforço e crescimento humano e um trabalho, mesmo mínimo e precário, feito. quem correu atrás de cada um dos entrevistados? quem estudou quase que sozinho a maior parte do tempo? quem esteve presente em todas as entrevistas? quem entrevistou sozinho parte daquelas pessoas? «¿será que eu sou capaz de enfrentar o teu amor que me traz insegurança e verdade demais?» «que tivessem dito para você […] e não há nada de errado comigo não» … «nossa senhora do cerrado, protetora dos pedestres que atravessam o eixão as seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da n… »


estou me desvencilhando de tantas coisas e continuo buscando um mínimo necessário e possível. um possível reencontro com algo que ainda não existe, uma saudade de algo não feito, uma outra espécie de coragem. qual? saberei.

E lá se vai um anos desde isto aqui: Preciso aceitar que, quando alguém me parece estar se movendo muito devagar em determinada direção, é porque esta é sua única maneira de percorrer aquele caminho.

E lá se vão alguns anos desde o dia 26 de fevereiro de 1989. Eram dez horas da manhã, mais ou menos, quando cruzei a ponte. tinha seis anos.

um mergulho

[qui] 25 de novembro de 2010

de ontem. lembrei disto hoje, pela tarde. e é mais ou menos assim: “o discípulo e o mestre caminhavam juntos. defronte ao rio, o discípulo pergunta ao mestre zen: qual a profundidade deste rio, mestre? e este… zap, tchibumm. empurra o discípulo”.

e de hoje. para refletir. ‘o outro não é um perigo’.

“acho que você não percebeu que o meu sorriso era sincero, sou tão cínico às vezes o tempo todo estou tentando me defender…”

sitting, waiting, wishing

[qui] 28 de outubro de 2010

sitting, waiting, wishing… no sofá, aguardando a hora. terapia.

e tenho me sentindo tanto um homem de quase vinte e nove.

Não vou me deixar embrutecer, eu acredito nos meus ideais. Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar! Renato Russo.

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora

Não não não não
Viver é uma dádiva fatal!
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas –
Vamos com calma !

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi

Yeah!

 

oxóssi

[qua] 27 de outubro de 2010

Amanhecendo.

Domingo foi um dia importante para mim. O fato de estar confiante, mesmo não tendo me preparado, diante da prova que viria, e confirmar na segunda, meu sucesso no desafio [e como isto é gostoso]. Claro que isto não garante que eu tenha um emprego garantido na minha área de formação, mas isto ainda não me preocupa – não agora, tenho um milhão de coisas para resolver antes disto. Mas só o fato de estar avançando nesta jornada de descobertas e superação dos meus limites [dos aparentes e imaginários aos concretos e inconscientes] e descobrimento do me dá prazer, por si só me anima. Sei que estou afastado da ação política direta, dos espaços coletivos de reflexão, mas preciso, e sei que vivo neste momento um processo de recolhimento e cultivo das relações pessoais mais próximas. Busco, entre os meus, uma identificação que nem sempre foi clara, ou aceita. É, enfim, a necessária aceitação de que pertenço aos meus, com todas as minhas idiossincrasias, e que tudo que me foi dado viver e conhecer, pode e será importante como contribuição, como dádiva, ao que me foi dado até este momento. Apesar de ter perdido completamente a noção do tempo nesta segunda e terça, e ter faltado ao psiquiatra, sinto-me, como disse na última quinta-feira, com algo por dizer. sinto-me válido. sinto-me. Há tantas coisas que preciso resolver e viver ainda, mas isto não me castra, e muito pelo contrário, me alimenta a encarar o cotidiano, o meu dia-a-dia. Construir a minha própria casa com as mãos tem me ajudado. ter aceito este presente, esta dádiva, tem me ajudado. saber que sou querido e respeitado tem ajudado. buscar os desafios e gozar os êxitos tem ajudado. Sei que não evita que eu me comporte como uma criança triste e carente em certos momentos, mas tem alimentado o homem belo e imperfeito que sou. Nesta semana ouvindo umas canções, recordei-me de camila, aquela canção do nenhum de nós, que quando eu tinhas meus poucos anos aguardava quando teria os dezessete, e poderia cantar alto. e o tempo voou. bom, não foi bem assim. há muita vida vivida. muitos amores. muitas dores. e todo um processo de construção e descobrimento. e é aqui, no descobrimento do brasil, na canção vinte e nove, que queria chegar. e o pouco que tenho não é pouco. é muito. é tudo o que consegui conquistar. e se muitas vezes não sei amar, já que amar é deixar alguém te amar, como disse o herbert. outras sei. e tenho pensando muito em como tudo é bonito e imperfeito. sinto saudades. e amo – assim, do meu modo, meio distante. E já não peço tantas desculpas babe.

“O principal trabalho de um permacultor é sistematizar a água e alimentar o solo”. [e talvez aqui esteja minha medicina e minha religião. e a janela aberta para uma nova caminhada…]

 

e relendo tudo isto… há certas coisas que precisamos dizer e ouvir. ouço.

crime e castigo

[dom] 24 de fevereiro de 2008

“Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Que a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som”

EM VIAGEM, RECEBO CARTAS.

“Escrevo-te coisas… coisas que me passam voando pelos pensamentos, coisas que insistem em martelar… apenas coisas. (…) me liga quando chegar… preciso olhar teus olhos… até amanhã ou quando der… te espero, e te deixo com Neruda… (crime e castigo é um livro que exige poesia nos intervalos…)

Soneto XLVNo estés lejos de mí un solo día, porque cómo,
porque, no sé decirlo, es largo el día,
y te estaré esperando como en las estaciones
cuando en alguna parte se durmieron los trenes.
No te vayas por una hora porque entonces
en esa hora se juntan las gotas del desvelo
y tal vez todo el humo que anda buscando casa
venga a matar aún mi corazón perdido.
Ay que no se quebrante tu silueta en la arena,
ay que no vuelen tus párpados en la ausencia:
no te vayas por un minuto, bienamada,
porque en ese minuto te habrás ido tan lejos
que yo cruzaré toda la tierra preguntando
si volverás o si me dejarás muriendo.

ouço…

[sex] 22 de junho de 2007

ouço tua voz cantando… (e a minha, sempre desafinando)

E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz… Teremos coisas bonitas pra contar e até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer…

Ai Dindi… E não é por não querer-te! (ah) É por honestamente compreender que há tempo para tudo. E agora é o tempo de amadurecer. Momento de aprender consigo mesmo e quem sabe lá em frente quando o medo e a dor e todas as outras coisas pequenas esfacelarem-se no tempo… Reste-nos o amor próprio, e o amor mútuo estará claro então e mais forte e sincero do que nunca. Vou por aí me encontrar, levando parte de mim… e Aí Dindi… De coração: encontre-se, com calma, com o tempo que te for necessário…

hoje. outro dia, eu de vermelho escrevo…

[ter] 30 de maio de 2006

C. vou, como um, eterno, garoto… fazendo careta. Meu olhar sobre o mundo é, como o de todos, até dos que nem sabem, poético… Amo o viver, até quando morro de medo de viver! Como eu disse ontem… Eu falo, falo e não chego a lugar nenhum. Como se houvesse alguem lugar por chegar, ou ir… Vou como Quintana… “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas / que o vento não conseguiu levar: // um estribilho antigo / um carinho no momento preciso / o folhear de um livro de poemas / o cheiro que tinha um dia o próprio vento…” // (Mario Quintana). E Don Diego…  POESIA EXPERIMENTAL DE BOLSO, OU POÉTICO-MANIFESTO, OU POEMA… Talvez sexta. todavia essa loucura de Eleição do DCE está me consumindo por inteiro, e eu ‘tô curtindo muito… ‘tô feliz. Mas talvez sexta… [“Tenho um sorriso bobo parecido com soluço, enquanto o caos segue em frente com toda a calma do mundo…” RR]

tristezura!

[sex] 1 de novembro de 2002

Ah!! poeta…
Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
——————————


Já, então, não sei… Se, apenas, que não é de um tempo atrás de onde tudo era apenas alguma coisa como o limite de algo extremo;

Suponho, talvez, sejam estes olhos cansados, estas olheiras disfarçadas – Sempre disfarçando tudo… E o fato, este então, é, e nem sei, porque estou tão cansado, tanto assim, que estou de saco cheio de mim e d’um monte de coisas, que estou como antes perdido entre coisas encontradas… Entre coisas que não são findas e que entretanto vivem a buscar um qualquer…………… . . . . . . fim é outra, longa, estória, que não necessariamente precisa ter fim assim…

“Palavras são erros e os erros são seus…” Renato Russo

não é um adeus… é um até logo.

[seg] 30 de setembro de 2002

GENTE
(A. Valsiglio / Cheope / M. Marati)

Si sbaglia sai quasi continuamente / sperando di non farsi mai troppo male / ma quante volte si cade. / La vita sai é un filo in equilibrio / e prima o poi ci ritroviamo distanti / davanti a un bivio. / Ed ogni giorno insieme per fare solo un metro in piú / Ci vuole tutto il bene che riusciremo a trovare in ognuno di noi / Ma a volte poi basta un sorriso solo / a sciogliere in noi anche un inverno di gelo / e ripartire da zero / Perché non c’ e un limite per nessuno / che dentro sá(?) abbia un amore sincero solo un respiro / Non siamo angeli in volo venuti dal cielo / Ma gente comune che ama davvero / gente che vuole un mondo pi? vero / la gente che incontri per strada in cittá / Prova e vedrai ci sará sempre un modo / dentro di noi per poi riprendere il volo / verso il sereno / Non siamo angeli in volo venuti dal cielo / ma gente comune che ama davvero / gente che vuole un mondo piú vero / la gente che insieme lo cambierá / Gente che vuole un mondo piú vero / la gente che insieme lo cambierá.

Renato Russo – voce, chitarre acustiche, basso, tastiere / Carlos Trilha – tastiere, programmazione / Eduardo Constant – batteria.
Equilíbrio Distante.

Não é um adeus… É um até logo.

ézio e renato

[qua] 11 de julho de 2001

DOIS POETAS LIGADOS A BRASÍLIA.

Abro os meus olhos e fico e vivo
sem coragem de viver os sonhos.
amo o silêncio das noites
sem coragem de dizer que amo.
amo as tardes dos beijos incenciados
sem coragem de dizer que amo.
amo as donzelas sem véu
sem coragem de dizer que amo.
amo os pobres de amor
sem coragem de dizer que amo.
amo a menina de vestido verde
sem coragem de dizer que amo.
amo até as montanhas verdes
sem coragem de dizer que amo.

Coragem (Ézio Pires)
———————————————
Já me acostumei com a tua voz,
com teu rosto e teu olhar.
me partiram em dois
e procuro agora o que é minha metade…
Quando não estás aqui…
sinto falta de mim mesmo
e sinto falta do meu corpo junto ao teu…
meu coração é tão tosco e tão pobre
não sabe ainda os caminhos do mundo.
Quando não estás aqui…
tenho medo de mim mesmo
e sinto falta do teu corpo junto ao meu…
vem depressa pra mim que eu não sei esperar…
já fizemos promessas demais
e já me acostumei com a tua voz:
Quando estou contigo estou em paz.
Quando não estás aqui,
meu espírito se perde…
voa longe

Sete Cidades (Renato Russo)

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