Archive for the 'Manoel de Barros – Manoel Wenceslau Leite de Barros' Category

ruína

[sáb] 12 de agosto de 2017

«Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra amor. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.

E o monge se calou descabelado.»

Manoel de Barros | “Poesia completa”

lento pero avanzo

[qui] 11 de junho de 2015

há apenas uma tênue noção de que as coisas estão serenas… mesmo quando tu miras ao redor e tudo está completamente caótico – tuas contas, tua casa, teus planejamentos futuros, a fila de notas soltas esperando serem publicadas… as aulas por serem dadas, os teus horários.

talvez a grande sacada é que neste momento o que importa realmente não é ter tudo exatamente planejado, e catalogado… o que importa é o vir a ser sendo… o estar aqui agora de forma aberta.

o enfrentar o medo de viver… vivendo.

as vezes tu passas tempo demais duvidando de ti mesmo… e as pessoas batem a tua porta e dizem: acorda! e tu estás cansado demais.

neste momento eu estou desperto.

e para esta tarde, dois canções de renato que brotaram enquanto escrevia este verbo e um poema de brecht – que me inspirou a abrir uma janelinha e a escrever aqui.

«Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
Espero, acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim» Se fiquei esperando o meu amor passar. In: As quatro estações. 1989. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo

***

«Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom (…)
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado» Soul Parsifal.  In: A tempestade ou O livro dos dias. 1996. Composição: Marisa Monte / Renato Russo.

***

«Ouvimos dizer. Por Bertold Brecht

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

extraído daqui: http://ocheirodailha.blogspot.com.br/2009/03/brecht-ainda-e-sempre.html

***

lento-pero-avanzo

esta imagem me sintetiza bem. quando eu era pequeno uma forma que meu pai tinha de atacar-nos, e a mim, principalmente, era verbalmente chamando-me de lento, é claro que ele não utilizava a palavra lento… mas sinônimos agressivos e extremamente nocivos para uma criança e adolescente. até o hoje, ele tenta, mas depois de anos de terapia, um faculdade de ciências sociais, de militar em movimentos políticos, e da poesia de manoel de barros… aprendi que a “lentidão” dos caracóis é sábia. e se as vezes, quase o tempo todo, eu sou como estes caracóis… esta é minha dádiva,

«Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou.» Bocó, por Manoel de Barros.

e vale a leitura deste texto aqui: Diálogo entre seres uma aproximação ontológica ao animal na poesia de Manoel de Barros, por Claudia Quiroga Cortez

***

notas soltas: Como Cortar um Chip Para Que Vire um MicroSIM; comentar também sobre o hambúrguer vegetariano de grão-de-bico. e montei minha cama… depois de cinco anos acampando dentro de meu humilde barraco, por opção emocional… agora tenho uma cama. estou me desentocando.

o homem que engarrafava nuvens

[ter] 2 de junho de 2015

#1. lembrar transpor notas manuscritas sobre filme supracitado no título. [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#2. agora bem rápido… atrasado estou para reunião pela base e há assembleia da categoria em menos de uma hora e meia. o tempo voa… e eu deslizo como um caramujo. e o angustiante disto tudo é saber que a direção sindical cutista já armou o golpe contra a base. até o momento, contra a inúmeras faces do capital, entre elas a direção sindical, conseguimos contra-golpes que tem dado sobrevida a esta greve de resistência, e histórica. mas e agora josé? chapecó é para fud…

#3. corrigir falha da placa mãe – meus estresse da manhã.

#4. e estranhamento hoje estou sentindo-me humano. nem super, nem sub. apenas um sujeito repleto de defeitos que mais erra do que acerta, mas segue vivo, cheio de dúvidas, quase nenhuma certeza e atento aos olhares… e acenos.

#5. ir ao médico para ver essa alergia no nariz… estou a descascar-me.

#6. tomar nota/transcrever passagens das páginas 125 até 135 do livro «a desumanização» [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#7. sabe por que meus relacionamentos cedo ou tarde não dão certo?! porque em algum dado momento fecho-me em copas com alguma coisa que não consigo resolver – normalmente vinculado a algum sentimento de inferioridade. que tem sua origem lá na infância… nos abusos, no abandono… na violência física e verbal sofrida. é preciso romper isto que é da ordem do insconsciente trazendo para a ordem do autoconsciente… mas mesmo racionalizando ainda assim não impede-me de mergulhar na minha escuridão abissal.

engraçado como este pensamento hoje me veio de forma tão clara e exata: “eu sou um cara bacana, as pessoas gostam de mim… e eu noiando tudo”.

essa síntese deve-se a retomada da leitura – e abri aqui uma digressão para dizer que gosto e não gosto deste livro… porque me parece absurdo pensamentos tão profundos e complexos, na elaboração de referências e imagens, num ambiente tão esdrúxulo como local e idade dos personagens… mas isto pode ser apenas preconceito cultural. atentei-me para isto hoje. a possibilidade de ser apenas preconceito meu, e relaxei desta encanação…

mas voltando agora da digressão, eu dizia que: – a retomada da leitura e somada ao fato de estar a remoer há dias essa sensação de que… a vida, por mais que seja triste, é ainda absurdamente tão bela e surpreendente… mas eu sempre nessa dificuldade de aceitar… o que vem e, sobretudo, o que posso dar aos outros,

e a mim.

relaxa bicho. se deixe levar… afinal, como pensaste hoje pela manhã: nem super, nem sub.

#8. eu vou para chapecó.

#9. não esquecer do livropoema do gullar: Um gato chamado Gatinho.

***

cousas que vem em silêncio…

[qui] 16 de abril de 2015

low profile. uma incógnita, uma variável invariável, irracional. e longarinas. mas eu queria tanto uma daquelas canções de belchior, mas não está dando… parece que o inverno chegou cedo e estamos escondidos, meu canto não é torto e corta só a mim. por isto, amigo manoel, «ando muito completo de vazios / meu órgão de morrer me predomina, estou sem eternidades / não posso mais saber quando amanheço ontem (…) / enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino / essas coisas me mudam para cisco. a minha independência tem algemas». pessoa… «seja o que for, é o que tenho. tudo mais é tudo só» e deve ser porque eu não ando bem da cabeça… deve ser porque «éblouie par la nuit à coup de lumière mortelle… faut-il aimer la vie ou la regarder juste passer?»

*

 

e manoel se foi…

[qui] 13 de novembro de 2014

e manoel se foi.

aos noventa e sete, esse menino virou borboleta. seguirá, assim, renovando o mundo, fazendo o “verbo pegar delírio”

***

ps: ontem, primeira oficina do grupo de teatro da escola. compareceram doze alunos, eu, como professor, e os colegas da udesc que ministram a oficina. fazer parte deste grupo foi/é/será tão gratificante… educação passar por ai… potencializar seres humanos para que voem… libertem-se…

ps dois: as avaliações sobre o projeto tema livre… aquele em que tentei me desfazer dos meus medos e deixá-los mais soltos, mais envoltos… foi positiva em alguns aspectos e angustiantes em outros. salutar foi a liberdade sentida por alguns, e como isto potencializa seus exercícios de curiosidades… por outros, muitos grupos acabaram optando por permanecer na zona de conforto, não arriscando-se e fazendo o mais do mesmo. e outros… nem. mas aprendo com meus erros e vacilos. isto não significa que eu não voltarei a comete-los…

pas de problème

[seg] 9 de junho de 2014

3:30 por que esse ofício? a escolha é um abismo. e são tantas dúvidas… tantas questões. e cadê as citações do marshall sahlins? e o texto do pierre clastres? e aquela passagem perdida de saramago sobre a pele? e no plano pragmático falta a grana… e opera-se assim no negativo. e nesse turbilhão oscilante, às vezes, quase o tempo todo, o mundo e as escolhas aparentam uma “absurdidade”, aleatórias, caóticas.

*

«e não existe problema que não tenha solução e se não tiver solução não é problema» sotigui kouyaté.

***

14:08 agora, horas depois do texto acima. identificando que tenho pelo menos dois cistos sinoviais, que o pelos brancos diários já sinalizam juba a fora, e fico cá a pensar: e se me faltassem as mãos ou os olhos? se me faltasse o que suponho ter? e lá do fundo da memória me salta a ideia de um potlach… e no meio do caminho da tarde à deriva um poema [exercício de ser criança] de manoel de barros.

«No aeroporto o menino perguntou:
– E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
– E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais
carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.» BARROS, Manoel de. Exercícios de Ser Criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

el triángulo de la bermudas

[seg] 19 de maio de 2014
«Meu coração não sabe. Estúpido, ridículo e frágil é meu coração. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)» Carlos Drummond de Andrade.

.
como é difícil romper essas amarras. barco ancorado no meio do nada. a tendência é ilhar-me, náufrago neste mundo, nesta canoa velha, distanciar-me destes territórios humanizados, destes seres tão queridos, contemplar o sofrimento humano diário, sofrer mudo, iludido que somente só não hemos de causar dano alheio. passei mais de dez dias mergulhado em planos suicidas, ignorando minha humanidade… e duas ou três palavras me revoltaram, provocaram profunda contradição: não sei se me mato por ser tão assim ou se durmo e nada me entorpece mais que a ausência de coragem. emaranho-me anhelado…

 

«Depois que atravessarem o muro e a tarde os caracóis cessarão. Às vezes cessam ao meio. Cessam de repente, porque lhes acaba por dentro a gosma com que sagram os seus caminhos. Vêm os meninos e os arrancam da parede ocos E com formigas por dentro passeando em seus restos de carne. Essas formigas são indóceis de ocos. Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar! P.S.: Caracol é uma solidão que anda na parede.» Manoel de Barros

fazer sala

[dom] 2 de março de 2014

hoje, cedo. sete e trinta e sete. bebo mate. enquanto penso se leio o livro didático (para recortar o que for interessante e encaixar no meu planejamento) ou esquematizo meus planos de aulas ou finalizo meu plano de ensino ou arrumo a bagunça do meu quarto ou se após o mate vou mexer no jardim em construção enquanto o sol não chega e o clima vai agradavelmente frio. o certo é que neste instante ligo a máquina e me coloco neste diálogo interno-externalizado enquanto bebo meu mate (hecho con la yerba taragui).
meu estômago reclama os embutidos industrializados ingeridos ontem – descobri a fórmula de acordar mais cedo: receber visita em casa – que acorda cedo – e comer porcaria no final da noite. recusei um convite matutino para uma manhã na joaca para ficar aqui, poderia dizer que é para ficar cuidando da minha filha ou da minha vó… mas no fundo é para fugir dos exercícios sociais extra rotina.

não que eles não sejam interessantes se estivermos dispostos, como foi ontem à noite no giro pelo carnaval de rua de santo antônio de lisboa, que começou assim assim, eu apenas “fazendo sala” e depois de encontros e reencontros com ex-alunos, pais de ex-alunos, velhos amigos e ex-colegas de faculdade e, além de sair de casa sem nenhum tostão no bolso e voltar semi-alcoolizado para casa, fiquei satisfeito e tranquilo. é como mergulhar o olhar num caleidoscópio… ser outro ser, diverso do cotidiano solitário, pelo contato com o outro,  reinventar-se… estar no meio das pessoas e socializar é um barato. mas eu fico tão exausto.

esses exercícios sociais, principalmente os que envolvem gente e deslocamentos exigem uma mobilização espiritual tremenda… e eu me agito tanto, que eu começo a acelerar, o que por si só não é ruim e, as vezes, é tão bom… mas eu preciso respirar um bocado. afinal o carnaval passa rápido e tenho um tanto de coisas para colocar em dia – o que seria tranquilo se eu não fosse tão lento e não me distraísse tanto nas coisas vãs… e agora já são oito e dezessete.

poema do dia:

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

manoel de barros

e agora oito e quarenta e oito.

anajoaninhas da gramática expositiva do chão

[qui] 22 de novembro de 2012

e ela, no alto dos seus poucos anos, disse assim:

“não sou uma flor… sou um canteiro”.

e dos registros vespertinos:

ardo… e ainda fico bobo de como fico bobo ao teu lado (bem que sou capaz de ficar horas e horas mirando-te) – e é assim algo como “estás a un año luz de mí”sinto um contentamento danado por estar, por estares por cá, por existires… ó pequena flamboiaiã.

hoje o sol da tarde,ardentemente, irradiou uma tal vontade de lutar mais, hablar más, ouvir mais, ler mais, viver mais, tornar-me poesia novamente

e das palavras que deliram…

O homem (³)

é recolhido como destroços

de ostras, traços de pássaros

surdos, comidos de mar

O homem

se incrusta de árvore

na pedra

do mar.

(³) O NOSSO HOMEM – … Como Akaki Akakievitch, que amava só o seu capote, / ele bate continência para pedra! / Ele conhece o canto do mar grosso de pássaros, / a febre / que arde na boca da ostra / e a marca do lagarto na areia. / Esse homem / é matéria de caramujo.

O homem de lata

O homem de lata
arboriza por dois buracos
no rosto

O homem de lata
é armado de pregos
e tem natureza de enguia

O homem de lata
está na boca de espera
de enferrujar

O homem de lata
se relva nos cantos
e morre de não ter um pássaro
em seus joelhos

O homem de lata
traz para a terra
o que seu avô
era de lagarto

o que sua mãe
era de pedra
e o que sua casa
estava debaixo de uma pedra

O homem de lata
é uma condição de luta
e morre de lata

O homem de lata
tem beirais de rosa
e está todo remendado de sol

O homem de lata
é um iniciado em abrolhos
e usa desvio de pássaro
nos olhos

No homem de lata
amurou-se uma lesma
fria
que incide em luar

Para ouvir o sussurro
do mar
o homem de lata
se increve no mar

O homem de lata
se devora de pedra
e de árvore

O homem de lata
é um passarinho
de viseira:
não gorjeia

Caído na beira
do mar
é um tronco rugoso
e cria limo
na boca

O homem de lata
sofre de cactos
no quarto

O homem de lata
se alga
no Parque

O homem de lata
foi atacado de ter folhas
e se arrasta
em seus ruídos de relva

A rã prega sua boca
irrigada
no homem de lata

O homem de lata
infringe a lata
para poder colear
e ser viscoso

O homem de lata
empedra em si mesmo
o caramujo

O homem de lata
anda fardado de camaleão

O homem de lata
se faz um corte
na boca
para escorrer
todo o silêncio dele

O homem de lata
esta a fim
de árvore

O homem de lata
é uma caso
de lagartixa

O homem de lata
é rosto amoroso
de pessoa

O homem de lata
está todo estragado
de borboleta

O homem  de lata
foi marcado a ferro e fogo
pela água.

Manoel de Barros
(1916)

Mais sobre Manoel de Barros em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros

o tempo voa

[ter] 31 de janeiro de 2012

palavras-chaves – mais da semana que passou e menos da que virá [aleatoriamente]: trilha; gravata; galheta-barra da lagoa; harley, fukuta; caim; visita; diogo e veri; ernst götsch; sistema agroflorestal; professor act; maria izabel; south american way; tabebuia heptaphylla ou tabebuia avellanedae; o cio da terra; saudade do frio na barriga e de sentir a pele arrepiar e dos olhos marejar; paz; atenção; coragem; manoel de barros

A maior riqueza do homem é a sua incompletude
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva, etc, etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros
Eu penso renovar o mundo usando borboletas.

efêmera

[qua] 21 de dezembro de 2011

O silêncio do mato… conectado com o que é bom… anoto coisas feitas por outros que fazem sentido para (e em) mim. E carrego essa vontade danada em mim de ficar só. Ficar só, com os pássaros, as plantas, os insetos… com a vida silenciosa que brota cotidianamente pela tarde, pela manhã, pela noitinha… Ficar só, sem essas gentes que só reclamam ou aprisionam-se colecionando sonhos pequenos. Eu quero paz. Quero esse silêncio repleto de sons de vida que não preocupam-se se tem ou não tem isto ou aquilo e apenas seguem em frente: vivendo a poesia do dia.

EFÊMERA /// Vou ficar mais um pouquinho, para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Congele o tempo preu ficar devagarinho com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras e que passam perecíveis e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Martelo o tempo preu ficar mais pianinho com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras e que estão despetaladas, acabadas sempre pedem um tipo de recomeço. // Vou ficar mais um pouquinho, eu vou. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Congele o tempo preu ficar devagarinho com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras e que passam perecíveis e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço. // Por isso vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Martelo o tempo preu ficar mais pianinho com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras e que estão despetaladas, acabadas sempre pedem um tipo de recomeço. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Vou ficar mais um pouquinho pra ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. /// Tulipa Ruiz.

A ORDEM DAS ÁRVORES /// Naquele curió mora um pessegueiro / Em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro / Todo bem-te-vi carrega uma paineira / Tem sempre um colibri que gosta de jatobá // Beija-flor é casa de ipê // Cada andorinha é lotada de pinheiro / e o joão-de-barro adora o eucalipto // A ordem das árvores não altera o passarinho // Naquele pessegueiro mora um curió / Em todo jasmineiro tem sempre um rouxinol / Toda paineira carrega um bem-te-vi / Tem sempre um jatobá que gosta de colibri // Beija-flor é casa de ipê /// Tulipa Ruiz.

O FOTÓGRAFO ///
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal. /// Manuel de Barros

OUTRAS PALAVRAS /// Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca / Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca / Neca desse sono de nunca jamais nem never more  / Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó / Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: / Outras palavras // Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor / Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol / Na televisão, na palavra, no átimo, no chão / Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais / Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: / Outras palavras // Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem / Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim / E fora de mim / quando você parece que não dá / Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir / Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha: / Outras palavras // Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu / Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações / Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor / Tinjo-me romântico mas sou vadio computador / Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente: / Outras palavras // Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz / Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial / Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid / Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun / Homenina nel paraís de felicidadania: / Outras palavras /// Caetano Veloso.

 POEMAS RUPRESTES /// (…)

Queria a palavra sem alamares, sem
chatilenas, sem suspensórios, sem
talabartes, sem paramentos, sem diademas,
sem ademanes, sem colarinho.
Eu queria a palavra limpa de solene.
Limpa de soberba, limpa de melenas.
Eu queria ficar mais porcaria nas palavras.
Eu não queria colher nenhum pendão com elas.
Queria ser apenas relativo de águas.
Queria ser admirado pelos pássaros.
Eu queria sempre a palavra no áspero dela.

(…) /// Manoel de Barros

CLOUD PIECE /// Imagine the clouds dripping. / Dig a hole in your garden to / put them in. /// Yoko Ono.

PEDRINHO /// Pedrinho chegava descalço / Fazia da vida o que a gente sonhou / Pintava do nada um barato / Falava umas coisas que a gente nem pensou // Como é que pode ser tão criativo / Auto-confiante, um cara cortês / Pedrinho parece comigo, mas bem resolvido com sua nudez // Tirou da cartola uma flor e me presenteou num domingo de sol / É meu amigo querido até dormiu comigo no mesmo lençol // Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me entregou / Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me instigou // Pedrinho chegava descalço / Fazia da vida o que a gente sonhou / Pintava do nada um barato / Falava umas coisas que a gente nem pensou // Como é que pode ser tão criativo / Auto-confiante, um cara cortês / Pedrinho parece comigo, mas bem resolvido com sua nudez // Tirou da cartola uma flor e me presenteou num domingo de sol / É meu amigo querido até dormiu comigo no mesmo lençol // Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me entregou / Pedro esta cantiga não fala de amor / Pelo carinho esse som acho que me instigou /// Tulipa Ruiz.

[sáb] 27 de novembro de 2010

A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre as portas, que puxa as válvulas, que olha o relógio, que compra o pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta o lápis, que vê a uva etc etc.

Perdoai. Mas eu penso ser Outros.
Eu penso renovar o Homem usando borboletas.

Manoel de Barros

eu preciso ser outros…

[dom] 2 de agosto de 2009

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas,
Que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde,
Que vai lá fora, que aponta lápis,
Que vê a uva, etc. etc.
Perdoai,
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
Usando borboletas.

restim

[seg] 12 de setembro de 2005

21 horas. teatro sesc prainha.

«o espetáculo surge da poesia para criar um universo lírico e engraçado, buscando novas formas de escuta poética. Os personagens inventados através da inspiração dos poemas, em especial o universo criado pelo poeta Manoel de Barros, nos aproximam de um cotidiano às avessas…»

texto grupo pedras. direção helena stewart e georgiana góes.

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