Archive for the 'Karl Heinrich Marx' Category

efeito werther

[sáb] 15 de abril de 2017

Como isto tem o caráter de um bloco de notas. Segue abaixo, mais um nota, copiada e cola aqui. A autoria de é de Allan Kenji.

«Em 2000, a OMS publicou um documento orientando jornalistas sobre como noticiar os suicídios. Esse documento é intitulado “Prevenir o Suicídio: um guia para profissionais da mídia” (OMS, Genebra, 2000). Desde então, tornou-se senso comum que qualquer tratamento não eufemista para o suicídio seria responsável pelo “efeito Werther”.

O “efeito Werther” seria a imitação de uma cena suicida no interior de uma narrativa romantizada sobre esse tipo de morte.

A expressão foi cunhada por David Phillips em um artigo para a American Sociological Review, em 1974, intitulado “The influence os suggestion on suicide: substantive and theoretical implications of the Werther Effect”.

Esse artigo, de 15 páginas, descreve a elevação das taxas de suicídio em diversos países após a publicação de “Os sofrimentos do jovem Werther” (Goethe, 1774). Argumentando que essa obra romantizou a morte da personagem e ofereceu uma saída fácil e covarde.

O artigo é uma peça cômica de estatística, mas não bastasse isso, ignora que a juventude europeia está massacrada pela ausência de perspectivas.

Se, em 1974, houvesse Wikipédia, Phillips saberia, por exemplo, que a revolução francesa ocorre 15 anos depois da primeira publicação da obra de Goethe.

Em 1846, a obra de Goethe já estava publicada há 72 anos e a já existia uma versão censurada desde 1787. Marx, que tinha 28 anos, publicou um pequeno texto chamado “Sobre o suicídio”, no qual, através das palavras de Jacques Peuchet diz o seguinte:

“Tudo o que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. Contra ele são postos os desígnios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses desígnios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres para com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela, uma façanha tão lúgubre quanto a perspectiva que ela inaugura. Em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? [..] O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? […] As medidas infantis e atrozes que foram inventadas conseguiram combater vitoriosamente as tentações do desespero? Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos. Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.” (Boitempo, 2006).

Jacques Peuchet não era revolucionário, muito menos socialista, mas trabalhando como diretor dos arquivos da polícia realizou um levantamento censitário na França e teceu duras críticas – ainda que românticas – à sociedade europeia.

Nós não temos censos confiáveis sobre o número de pessoas que se suicidam e o suicídio infantil é proibido de ser registrado como tal até mesmo nos atestados de óbitos, muito embora seja um sintoma dos mais duros sobre a irracionalidade de nosso modo de vida.

Por outro lado, não existe igualmente nenhum estudo substantivo sobre os efeitos da publicização do suicídio. Nós apenas ficamos proibidos de falar sobre isso. Talvez porque se nós soubéssemos quantos de nós adoece e morre em função das desgraças subjetivas inerentes ao capitalismo, a coisa ficaria feia.

Eu tenho a hipótese de que a ausência de debates sinceros sobre nossos pensamentos suicidas é uma das principais vias pelas quais eles são vividos subjetivamente como processos absolutamente individuais.

“[…] o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral, sempre percebida em fatos recentes, da qual tantos combatentes se retiram porque estão cansados de serem contados entre as vítimas ou porque se insurgem contra a ideia de assumir um lugar honroso entre os carrascos.” (MARX, 2006, p. 29)

Nós achamos patético que uma fábrica chinesa instale grades nas janelas para evitar que seus funcionários se matem durante a jornada de trabalho, e enquanto isso, evitamos nos perguntar sobre quantas pessoas se suicidaram em nosso campus apenas no último ano.

Não é porque algo é o sintoma da doença de uma sociedade, que seja sinal de doença do indivíduo. Eu trabalho muito todos os dias, desde a hora em que acordo até quase o momento de dormir. Fico feliz com as pequenas conquistas. Mas desde as férias escolares da oitava série, eu nunca mais me senti feliz por uma semana inteira. Desde então, todos os dias há esse dilema sobre “ganhar a vida” e esse sentimento permanente de despossessão. Acho que eu não conheço nenhuma pessoa da minha idade que se sinta agarrada verdadeiramente à vida sequer por uma dúzia dias. Acho que está na hora de nós nos reunirmos no mesmo dia, na mesma hora, e quebrar tudo. Allan Kenji»»

 
 
 

ser mais que uma besta de carga

[qui] 6 de abril de 2017

11h04 só para registro:

dormi mal. o corpo não aguentou e desmaiou… acordei todo quebrado e um pouco cansado. acordei tarde. derrubei o pote de moedas antigas. quase furei o olho na bomba do mate. percebi que o vencimento de duas contas não era hoje, como eu imaginava… foi ontem, pagavéis somente na caixa, que merda. não fechou nem a primeira semana do mês e já estou devendo pra umbando de gente. triste.

sem contar as 5oo avaliações sobre a mesa me esperando…

***

14h42 outras notas:

mateei, almocei, organizei os papeis por turma… carai… é muita coisa. mas não toquei em nada. sigo me enrolando… deixando as horas passarem. tirei essa citação abaixo da timeline do didi

«O tempo é o campo do desenvolvimento humano. O homem que não disponha de nenhum tempo livre, cuja vida – afora as interrupções puramente físicas, do sono, das refeições etc. – esteja toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e brutalizada intelectualmente, para produzir riqueza para outrem. E, no entanto, toda a história da indústria moderna revela que o capital, se não tiver um freio, tudo fará, implacavelmente e sem contemplações, para conduzir toda a classe operária a esse nível de extrema degradação». “Trabalho assalariado e capital & salário, preço e lucro” de K. Marx (Ed. Expressão Popular)

23h32 nota final.

numa noite debatendo sobre avaliação (e nos insurgindo contra a normativa do governo), mas que no frigir dos ovos… não tocamos em nenhum ponto dessa fala abaixo, lida por acaso, por agora (pra ser honestos, passamos muito longe – anoto para o dia em que eu ressuscitar):

Diz que numa aula não se aprende nada, que os exames são o método mais falível que existe, que chumbar é a prova que a escola não funciona. O que pode ser diferente? Como se avalia um aluno?
A afirmação é radical. Mas toda a regra tem exceção. Aprendi Francês escutando aula, porque me apaixonei pela professora. A aprendizagem é antropofágica. Não se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro. Um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. Poderá acontecer aprendizagem em sala de aula, se forem criados vínculos e esses vínculos não são apenas afetivos, também são do domínio da emoção, da ética, da estética… O que dizer da avaliação? Que quase não existe, nas escolas. Um ministro de má memória introduziu mais exames no sistema. Mais exames não melhoram o sistema, porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. O teste é o instrumento de avaliação mais falível que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais é um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições são as mesmas para todos quando se aplica o teste. Além disso, corrigir o teste também introduz uma subjetividade enorme. Esses instrumentos de avaliação apenas «provam» a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.

Qual é então o modelo de avaliação que preconiza?
A avaliação praticada na Ponte e no Projeto Âncora é aquela que a lei estabelece: avaliação formativa, contínua e sistemática. Em muitas escolas aplica-se o teste e dá-se uma nota sem saber o que se faz. Há quem confunda avaliação com classificação e dê a nota a partir dos resultados dos testes.

extraída de:  José Pacheco: «Procurem nas escolas professores que ainda não tenham morrido». disponível em: http://www.noticiasmagazine.pt/2017/jose-pacheco/

a pré-história da sociedade humana

[sex] 16 de setembro de 2016

 

Notas de rodapé do dia:

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«O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. […] E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. […] A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma antagônica do processo social de produção, antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos indivíduos. As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no selo da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana.» Karl Marx, Prefácio – Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política

citações aleatórias

[qui] 25 de agosto de 2016

“A enorme capacidade, própria do sistema fabril, de expandir-se aos saltos e sua dependência do mercado mundial geram necessariamente uma produção em ritmo febril e a consequente saturação dos mercados, cuja contração acarreta um período de estagnação. A VIDA DA INDÚSTRIA SE CONVERTE NUMA SEQUÊNCIA DE PERÍODOS DE VITALIDADE MEDIANA, PROSPERIDADE, SUPERPRODUÇÃO, CRISE E ESTAGNAÇÃO. A insegurança e a instabilidade a que a indústria mecanizada submete a ocupação e, com isso, a condição de vida do trabalhador tornam-se normais com a ocorrência dessas oscilações periódicas do ciclo industrial.” (K. Marx, O Capital, Livro I, Seção IV, Cap. 13, p.524-525)

“A acusação de que o marxismo não tem tido nada a dizer sobre raça, nação, colonialismo ou etnicidade é igualmente falsa. Na verdade, o movimento comunista foi o único lugar, no início do século XX, onde as questões de nacionalismo e colonialismo – junto com a questão de gênero – foram sistematicamente levantadas e debatidas. Como escreveu Robert J. C. Young: ‘O comunismo foi o primeiro e único programa político a reconhecer a inter-relação dessas diferentes formas de dominação e exploração (classe, gênero e colonialismo) e a necessidade de abolir todas elas como base fundamental para a realização bem-sucedida da liberação de cada um.’” (Terry Eagleton. Depois da teoria: Um olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo)

“Tanto a evolução das ciências humanas quanto a das físico-naturais (em especial a biologia) tendeu a criar uma ponte entre esses domínios aparentemente opostos. Uma zona fundamental de ligação entre as ciências da natureza e as do homem é constituída pelo intercâmbio dos métodos. A identidade parcial entre sujeito e objeto do conhecimento, por outro lado, não constitui uma exclusividade das ciências humanas, pois essa mesma identidade irrompeu também nas ciências físico-naturais. Ela sublinha, por sua dificuldade própria, a centralidade das humanidades como locus de conhecimento analítico, sintético e crítico”. (Osvaldo Coggiola. As humanidades na encruzilhada do século 21)

o congresso futurista

[sáb] 2 de julho de 2016

A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas.

Marx – Manuscritos econômico-filosóficos

 

[menção ao filme] The Congress – adaptação ao cinema de The Futurological Congress, romance do polonês Stanislaw Lem – Roteiro e  direção de Ari Folman (lembrar de ver Valsa com Bashir).

e ao poema [tovarich] que terminarei hoje.

a dialética na distância entre intenção e gesto

[qua] 5 de novembro de 2014

Leitura do busão… de ontem anotada hoje e que será postada amanhã [quinta-feira]

«O Ponto de partida, para Marx, está no fato de que entre as ideias e o mundo objetivo, externo à consciência, se desdobra uma intensa mediação que tem no trabalho a sua categoria fundante. Tipicamente, é pelo trabalho que os projetos ideias são convertidos em produtos objetivos, isto é, que passam a existir fora da consciência. E, do mesmo modo tipicamente, é reconhecendo as novas necessidades e possibilidades objetivas abertas pelo desenvolvimento material que a consciência pode formular projetos ideais que orientam os atos de trabalho. Realidade objetiva e realidade subjetiva são, assim, dois momentos distintos, mas sempre necessariamente articulados, do mundo dos seres humanos.
Essa relação entre consciência e objetividade é muito complexa, tão complexa como o mundo dos seres humanos. O que nos interessa, agora, é que nessa relação intervém uma determinação fundamental: como o futuro é o desdobramento causal do presente, com todas as mediações e acasos possíveis, ele não é jamais uma decorrência direta e imediata da situação atual. Por isso – ou seja, como o futuro ainda não aconteceu – a consciência pode antecipar apenas parcialmente as consequências futuras de nossas ações. Há, por isso, tipicamente, sempre uma distância entre ‘intenção e gesto’. As consequências dos atos humanos tendem a divergir, em algum grau, da finalidade que está nas suas bases, gerando novas necessidades e possibilidades e, desse modo, obrigando-nos a uma nova ação para atuar sobre as consequências dos nossos atos. Essa situação é caracterizada, por Lukács, como aquele ‘período de consequências’ no qual o ato retroage sobre a consciência por meio dos efeitos que provoca.» O conhecimento, em Introdução à filosofia de Marx. De Sérgio Lessa e Ivo Tonet.

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da escola hoje: grupo de teatro – extracurricular; o preço do amanhã nos primeiros anos; e último dia para o projeto ‘tema livre’ com os segundos anos.

música de trabalho

[ter] 21 de outubro de 2014

e a vontade de fazer nada, mais o corpo exausto pelo excesso de ontem… faço um edição na página ‘dossiê mayakóvski, a mais visitada e compartilhada deste blogue, adicionando a tag:  maiakóvski (влади́мир влади́мирович mаяко́вский).

e a trilha sonora da tarde é Tropicália 2;

e a fundamentação filosófica para as aulas de hoje é: «a relação do ser humano com a natureza: o trabalho. i) para existirem, os seres humanos devem necessariamente transformar a natureza. esse ato de transformação é o trabalho. o trabalho é o processo de produção da base material da sociedade pela transformação da natureza. é, sempre, a objetivação de uma prévia-ideação e a resposta a uma necessidade concreta. da prévia-ideação à sua objetivação: isto é o trabalho. vale enfatizar que, para marx, nem toda atividade humana é trabalho, mas apenas a transformação da natureza. veremos mais adiante por quê. ii) ao transformar a natureza, o indivíduo também transforma a si próprio e à sociedade: a) todo ato de trabalho produz uma nova situação, na qual novas necessidades e novas possibilidades irão seguir; b) todo ato de trabalho modifica também o individuo, pois este adquire novos conhecimentos e habilidade que não possuía antes, bem como novas ferramentas que também antes não possuía; iii) todo ato de trabalho, portanto, dá origem a uma nova situação, tanto objetiva quanto subjetiva. essa nova situação possibilitará aos indivíduos novas prévias-ideações, novos projetos e, desse modo, novos atos de trabalho, os quais, modificando a realidade, dão origem a novas situações, e assim por diante. o trabalho e a sociedade. i) todo ato humano tem por base a evolução passada da sociedade, a situação presente concreta em que se encontra o indivíduo e suas aspirações e seus desejos para o futuro. não há ato humano fora da história, fora da sociedade. ii) a objetivação resulta, sempre, em três níveis de generalização: a) o nível objetivo: o objeto produzido passa a ser influenciado e a influenciar toda a sociedade. sua história adquire, assim, uma dimensão genérica: é, agora, parte da história humana, b) o nível subjetivo, que se subdivide em dois subníveis: b1) o conhecimento de um caso singular (como fazer este machado) se eleva a um conhecimento acerca da realidade em geral. esse conhecimento genérico da realidade pode ser aplicado em circunstâncias muito distintas daquelas em que se originou; b2) o conhecimento de um indivíduo se difunde por toda a sociedade, tornando-se patrimônio da humanidade. iii) o trabalho é o fundamento do ser social porque, por meio da transformação da natureza, produz a base material da sociedade. todo processo histórico de construção do indivíduo e da sociedade tem, nessa base material, o seu fundamento.» sérgio lessa e ivo tonet

ps: mas é preciso ir… há trabalho por fazer.

mas antes, um lembrete… trabalhar com a ‘música de trabalho‘ em sala. letra cá: Música de Trabalho // Legião Urbana // Renato Russo, Marcelo Bondá e Dado Villa-Lobos // Sem trabalho eu não sou nada / Não tenho dignidade / Não sinto o meu valor / Não tenho identidade / Mas o que eu tenho / É só um emprego / E um salário miserável / Eu tenho o meu ofício / Que me cansa de verdade / Tem gente que não tem nada / E outros que tem mais do que precisam / Tem gente que não quer saber de trabalhar / Mas quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / De todo o meu cansaço / Nossa vida não é boa / E nem podemos reclamar / Sei que existe injustiça / Eu sei o que acontece / Tenho medo da polícia / Eu sei o que acontece / Se você não segue as ordens / Se você não obedece / E não suporta o sofrimento / Está destinado a miséria / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Mas isso eu não aceito / Eu sei o que acontece / Quando chega o fim do dia / Eu só penso em descansar / E voltar p’rá casa pros teus braços / Quem sabe esquecer um pouco / Do pouco que não temos / Quem sabe esquecer um pouco / De tudo que não sabemos // 

intuindo o til

[ter] 23 de setembro de 2014

“Os filósofos não brotam da terra como cogumelos, eles são os frutos da sua época, do seu povo, cujas energias mais subtis, mais preciosas e menos visíveis se exprimem nas ideias filosóficas. O espírito que constrói os sistemas no cérebro dos filósofos é o mesmo que constrói os caminhos-de-ferro com as mãos dos operários. A Filosofia não é exterior ao mundo (…)”. Karl Marx. Kölnische Zeitung

Não há um projeto. Apenas intuo. Ontem, na sala d@s professor@s, a professora me questiona sobre qual é o meu projeto, já que eu tenho algumas ideias que vão fazer com que os estudantes saiam da apatia e se apaixonem pela escola média – segundo o que foi falado noutro dia pela coordenação da escola, quando todo o professorado foi convidado a repensarem e proporem ideias e projetos afim de evitar a assustadora evasão e apatia da juventude na escola. Eu para ela: eu apenas intuo… há ideias, mas será que todos nós estaríamos disposto a sair da zona de conforto? como esperar algo diferente do que lhe damos… uma “motivação” dissimulada.

leituras do momento: ‘A escola e o conhecimento‘ de Mario Sergio Cortella; e ‘Escola Da Ponte – Formação E Transformação Da Educação‘ de José Pacheco. Quando setores tecnicista do mec encontram eco na presidenta sobre o recuo de disciplinas críticas [ou deveriam, mas nem sempre se realizam…] e ênfase no técnico e inovador… afinal é no técnico que se atingi as metas [e o que importa são as metas, nuas e cruas, lá no papel. E a gente percebe que ‘o buraco é muito mais embaixo’. E o mais assustador é perceber que o nível de todos é tão raso, que as poucas informações e reflexões que tens é ouro… A contradição: essas ferramentas que as pessoas não entendem para que servem são no fundo as únicas que podem permitir uma visão mais ampla sobre o cenário onde estamos todos nós inseridos.

tarefas atrasadas: leitura do caderno 2 e 3 do curso de formação para o fortalecimento do ensino médio. bem como exercício sobre os mesmos; e fichamento do livro didático ‘Sociologia em movimento’ para o curso do LEFIS.

desenvolvendo no momento em sala: finalizando redações/debate sobre democracia com os segundos anos, e iniciando o experimento: tema livre; finalizando trabalho sobre tecnologia e racionalidade em weber e desenvolvendo exercício avaliativo em grupo com os primeiros anos. reta final de bimestre… tudo como a acelerar… neste momentos a sensação de falta de tempo… de asfixia… de produtividade… argh…

e eu consigo passar uma manhã inteira enrolando-me. ócio infernal…

referência incidental: lenine.

e a trilha da tarde será… .

“tu, onça tu
eu, jacaré eu” Caetano Veloso.

inscrevi-me no vestibular – letras ptg. vamos ver…

 

lenine é um nome bonito…

[qua] 17 de setembro de 2014

“enquanto o tempo acelera e pede pressa / eu me recuso faço hora vou na valsa / a vida é tão rara”

caótico e precário não consigo fazer nem a nem b e me enrolo nesse novelo. a novela é que estou perdido, repleto de dúvidas e medos… e cegamente tateando esse mundo, sentindo a revolta no estômago, o pulsar tímido do peito, a vontade dar a volta e dizer adeus a esse mundo… enfim… mais um perdido perguntando-se se há ou se é necessário se achar. educo-me neste mundo caduco.

izabel aniversaria agora. ouço lenine agora.

«Em quais aspectos Marx supera e conserva a filosofia de Hegel, pensador que o influenciou decisivamente?
Gláucia Campregher
– A dialética marxiana é materialista, em oposição à dialética hegeliana, que é idealista. Em Hegel,  o mundo todo que existe só é bem pensado, bem compreendido, se capturado em sua verdade, o que significa ser capturado em sua concreticidade. Isso já confere alguma preocupação com a materialidade das idéias. Foi Hegel quem disse “o concreto é a síntese de muitas determinações”, frase que Marx gostava de citar. Mas é que todo esse trabalho de compreensão e síntese, todo o trabalho do pensamento, da ideia, da razão que pensa a si mesma, é que encanta Hegel, enquanto, para Marx, a compreensão pela compreensão não é nada. Daí ele acusar a filosofia de só ter pensado o mundo, quando o necessário era transformá-lo. O trabalho da ideia que compreende o mundo não é mais interessante para o Marx que todos os outros que fazem o mundo. Daí Marx sair da filosofia (como já tinha saído do direito) e passar à economia e à necessidade de compreender como, ao longo da história, os homens produziram sua vida material em sentido largo – todas as coisas e idéias!» LEIA MAIS AQUI

depois dos parabéns, das meninas irem para escola… e eu aqui tentando ler sobre as juventudes e a escola… ouvindo louis e ella… pensando na questão que a aluna me fez… e no presente de izabel.

e para construir uma cultura de paz é necessário ir a luta… contra esse mundo violento demais. não posso, nem devo, me contentar, “com a boca escancarada cheia de dentes[, ficar] esperando a morte chegar”.

«O Andarilho “Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a terra senão como andarilho – embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade”. Humano Demasiado Humano – Nietzsche»

 

la democracia…

[seg] 30 de dezembro de 2013

Cousas:

Fiz o enterro. Ela morreu. Não se sabe a hora e nem a causa. Fazia um calor dos infernos. As moscas negras contrastavam com seus pelos brancos. E seus olhos mortos não viam a tristeza dentro de mim.

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Um documentário – Mais documentário.

800px-Sócrates_-_Democracia_Corintiana

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« (…) A superioridade de Rosa Luxemburgo sobre Kaustky, Hilferding e outros marxistas-positivistas é que ela não procura excluir o marxismo do campo de aplicação do materialismo histórico (« princípio da carruagem »); de forma explícita e resoluta, ela afirma seu caráter de classe e seus limites históricos: em uma palavra, ela não hesita em aplicar o marxismo a si mesmo. Os pensadores burgueses, escreve la com ironia, procurando em vão desde muito tempo um meio de superar o marxismo, não se aperceberam que o único meio verdadeiro se acha no seio da própria doutrina marxista: « Histórica até o fim, ela não pretende ter senão uma validade limitada no tempo. Dialética até o final, ela carrega em si mesma o germe seguro de seu próprio declínio ». A teoria de Marx corresponde a um período determinado de desenvolvimento econômico e político: « a passagem da etapa capitalista à etapa socialista da humanidade ». É apenas na medida em que esta etapa for superada, e as classes sociais desaparecerem, que se poderá ir além do horizonte intelectual representado pelo marxismo, até esta ciência geral humana da sociedade que estava em questão em sua polêmica contra Bernstein.» pp. 145-146. As aventuras de Karl Marx… Michael Löwy.

aventuras-de-karl-marx-contra-o-barao-de-munchhausen-as

claro-escuro epistemológico

[sáb] 28 de dezembro de 2013

dois pontos para um dia todo: caetano e companhia pela tarde (cê e onqotô, das série «re»descobertas sonoras). michael löwy e companhia pela manhã e tarde (das «re»leituras diárias).

http://www.youtube.com/watch?v=84MlvAffIe8

http://www.youtube.com/watch?v=tXdi4yUqSYs

http://www.youtube.com/watch?v=yEDZcIu9T3o

e abaixo excertos sobre as aventuras de karl marx contra o barão de münchhausen – compreendendo as páginas 114-130 abordando a relação entre ideologia e ciência sob uma perspectiva de marxista.

O marxismo ou o desafio do «princípio da carruagem»

(…) Enquanto visão de mundo, o marxismo é uma utopia revolucionária – no sentido em que precisamos anteriormente: a utopia é toda Weltanschauung que aspira a um estado de coisas ainda inexistente – mas nos Estados pós-capitalismo ele assume um caráter ideológico (o estalinismo); procuraremos examinar as implicações cognitivas destas duas possiblidades.

Ideologia e ciência segundo Marx

(…) Mais tarde, no Prefácio à Contribuição à crítica da economia política (1859), ele emprega uma significação mais ampla do termo: «as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até o fim».

(…) Como Marx concebia a contradição – ou articulação – entre ciência e ideologia no conhecimento social? Em que medida considerava a obra de seus predecessores ( e especialmente dos economistas clássicos ) como científica e/ou ideológica? A fórmula de « corte epistemológico entre ciência e ideologia » corresponderia à maneira pela qual o próprio Marx compreendia a inovação radical de sua obra? Estas questões delimitam um certo campo teórico que procuraremos explorar e que nos parece constitutivo da visão marxista da relação entre sociedade e conhecimento.

Em nossa opinião, é em algumas passagens do Dezoito Brumário que se encontra a definição marxista mais precisa, mais concreta e mais fértil das ideologias e das visões de mundo enquanto expressão de uma classe social determinada ( o conceito utilizado por Marx é o de « superestrutura » ). Trata-se de célebre parágrafo que analisa a relação entre representantes do partido democrático e sua classe, a pequena burguesia. Examinemos algumas das ideias que Marx sugere – explícita ou implicitamente – nesse texto de uma surpreendente riqueza.

a) É a classe que « cria e forma » as visões sociais de mundo ( « superestruturas »), mas estas são sistematizadas e desenvolvidas por seus « representantes políticos e literários », isto é, seus ideólogos ( ou utopistas ). A visão social de mundo (ideológica ou utópica) com seus diversos componentes corresponde não somente aos interesses materiais de classe mas também à sua situação social – conceito mais amplo, que permite superar a tentativa reducionista que relaciona as ideologias apenas ao « interesse » ( economicamente definido ).

b) Os intelectuais são relativamente autônomos com relação à classe. Eles podem ser separados dela por um « abismo » social e cultural; sua « situação pessoal » não deve ser de todo necessariamente a mesma que aquela da classe que ele representa. O que os faz representantes desta classe é a ideologia ( ou utopia ) que eles produzem.

c) O que define uma ideologia ( ou utopia ) não é esta ou aquela ideia isolada, tomada em si própria, este ou aquele conteúdo doutrinário, mas uma certa « forma de pensar », uma certa problemática, um certo horizonte intelectual ( « limites da razão »). De outro lado, a ideologia não é necessariamente uma mentira deliberada; ela pode comportar ( e comporta geralmente ) uma parte importante de ilusões e de auto-ilusões.

(…) A primeira observação que se impõe é a seguinte: o caráter « de classe » de um escrito de economia política não é, em si, uma indicação suficiente de seu valor, ou de sua ausência de valor, científico. Mais concretamente, para Marx a obra de um economista pode ser fundamentada sobre certas pressuposições ideológicas burguesas e ter, contudo, uma grande importância científica. Em outros termos: a problemática da autonomia relativa da ciência é, nos escritos de Marx, um complemento essencial (em geral implícito) à sua crítica das limitações ideológicas da economia política.

É nesta ótica que é necessário compreender a célebre distinção entre « clássicos » e « vulgares » que atravessa o conjunto de seus trabalhos econômicos e que define, no interior de uma mesma perspectiva burguesia, um polo autenticamente científico e um polo superficial e apologético ( desprovido de valor do ponto de vista do conhecimento ) (…).

Como explicar esta diferença capital, do ponto de vista da profundidade e da qualidade científica, entre economistas que se situam apesar de tudo no mesmo horizonte ideológico, em uma mesma « posição de classe »? Acham-se em Marx dois tipos de explicação bastante diversas para esta clivagem. Uma é de caráter primordialmente psicológico e moral (…) Entretanto, esta explicação não é senão uma aspecto de uma análise de conjunto mais profunda e mais rigorosa do problema, aspecto que seria falso e enganoso isolar de seu contexto global.

Isso nos conduz ao segundo tipo de explicação avançada por Marx para dar conta da diferença científica entre os « clássicos » e os « vulgares », explicação que reabilita o materialismo histórico. Trata-se de uma análise que relaciona o desenvolvimento da economia política e o desenvolvimento da da luta de classes; ela não é contraditória com a análise psicológica, mas a supera e a integra como um momento subordinado.

É no Posfácio à segunda edição alemã de O Capital (1873) que Marx formula de forma mais precisa esta explicação:

« Na medida em que é burguesa… a economia política não pode continuar sendo uma ciência senão quando a luta de classes permanece latente ou não se manifesta senão por fenômenos isolados. Tomemos a Inglaterra, o período onde esta não havia ainda se desenvolvido, e é também este o período clássico da economia política ». Pelo contrário, após 1830, « na França e na Inglaterra a burguesia se apodera do poder político. Desde então, na teoria como na prática, a luta de classes reveste-se de formas mais e mais acentuadas, mais e mais ameaçadoras. Ela faz soar a hora da economia burguesa científica » (…)

Se nós retornamos à distinção marxista entre os clássicos e os vulgares, percebemos, portanto, que a explicação psicológica que ele avança (…) reconduz a uma explicação sociológica que ele desenvolve em outro lugar. As duas explicações não são contraditórias: mas é o social que esclarece e explica o psicológico. (…)

Evidentemente, há uma dose considerável de simplificação nesta análise de Marx ( que não deveria ser extrapolada de seu contexto histórico); mas a pesquisa metodológica, a forma rigorosa e ousada de ligar o desenvolvimento da economia política à marcha da história social, nos parece fundamental para dar conta da concepção marxista da dialética ciência/ideologia e de sua relação com a luta de classes.

Marx não ignorava que a sucessão cronológica das duas etapas da burguesia não era a única explicação social da oposição entre clássicos e vulgares; ela podia também se relacionar – especial no caso de Malthus, que é contemporâneo de Ricardo – à clivagens entre classes ou frações de classes no seio das camadas sociais dominantes. (…) Se os escritos de Ricardo são científicos, como poderiam estar ao mesmo tempo carregados de ideologia burguesa? (…) A constatação principal que se extrai daí é esta: apesar de sua boa-fé, de sua imparcialidade, de sua honestidade, de seu amor à verdade, a economia política clássica é burguesa, e sua ideologia de classe impõe limites à cientificidade. (…)

Trata-se, como o enfatizava o Dezoito Brumário, de um sistema de ilusões e atitudes, de uma certa forma de pensar, de uma certa problemática e de um certo horizonte intelectual ( aspectos inseparáveis que se condicionam reciprocamente, momentos diversos de uma mesma totalidade ideológica ).

É antes de tudo pela problemática que a ideologia ( burguesa ) se manifesta no terreno do conhecimento científico entre os clássicos. Realmente, a problemática, isto é, o sistema de questões, define o campo cognitivo de uma ciência. Ora, Ricardo e os clássicos não colocaram certas questões – que são para Marx essenciais.

Os clássicos descobriram que o valor era a expressão do tempo de trabalho, mas eles jamais se colocaram a questão de saber por que o trabalho tomava a forma de valor de objeto produzido. Por qual razão eles jamais levantaram esta questãos? De acordo com Marx, porque para eles « esta forma que demonstra claramente que ela pertence a uma sociedade na qual a produção domina o homem e não o homem a produção era para sua consciência burguesa uma necessidade tão evidentemente natural quanto o próprio trabalho produtivo ». Tocamos aqui uma clivagem decisiva, que expõe a diferença essencial entre a economia política e Marx: « a economia política clássica/científica é burguesa sobretudo porque para ela a produção burguesa é a produção em geral. Uma forma específica, historicamente dada, da produção – o capitalismo – é considerada por ela como absoluta, eterna, a-histórica, natural, e as contradições do modo de produção capitalista são explicadas como contradições naturais da produção enquanto tal ».

Isso nos conduz ao conceito de horizonte intelectual que se articula diretamente com o conceito de problemática, e que constitui em nossa opinião uma das imagens mais férteis e mais interessantes do campo teórico marxista que exploramos aqui ( mesmo que ele não tenha sido de maneira alguma desenvolvido). Este conceito nos permite localizar, de forma mais precisa, o papel da ideologia na constituição de um saber científico: ela lhe circunscreve os limites.

(…)

Sem dúvida alguma, estamos aqui diante de um conceito de ideologia que não tem nada a ver com a mentira, a falsificação ou a mistificação: não é vontade de conhecer a verdade por parte dos clássicos que está colocada em questão, mas a possibilidade de conhecê-la, a partir de sua problemática e no quadro de seu horizonte de classe. Isso não impede que, no interior destes limites, sua busca possa produzir conhecimento científicos importantes: a ideologia burguesa não implica a negação de toda ciência, mas a exigência de barreiras que restringem o campo de visibilidade cognitiva.

A respeito de certas ideias de Ricardo e de seus discípulos, Marx comenta: « Isto é o nível mais elevado que se pode atingir a partir do ponto de vista (Standpunkt) capitalista ». Existe assim, segundo ele, uma espécie de máximo de conhecimento possível além do qual sua ideologia de classe não permite à economia política burguesa chegar.

Horizonte, perspectiva, ponto de vista, campo de visibilidade: estas metáforas óticas não devem evidentemente ser compreendidas em um sentido literal; simplesmente elas permitem colocar em evidência que o conhecimento, o saber (« a visão ») estão estreitamente ligados à posição social (« altura ») do observador científico.

Ricardo personifica o máximo de saber possível no seio da perspectiva burguesa na medida em que ele representa os setores mais revolucionários, mais avançados, mais progressistas da burguesia industrial. Isso significa que para Marx o progressismo é sempre o ponto de vista mais favorável ao conhecimento? (…)

Na realidade, Marx está longe de partilhar este tipo de evolucionismo reducionista ou de « progressimo » vulgar. Suas análises sobre certos economistas « passadistas », críticos do modo de produção industrial/capitalista, em especial Sismondi, o demonstram. Já no Manifesto comunista, criticando inteiramente os aspectos « reacionários » contidos na utopia do « socialismo pequeno-burguês », Marx e Engels não deixavam de reconhecer o valor de Sismondi que « analisou, com uma grande perspicácia, as contradições inerentes às condições modernas de produção ».

(…)

Retomando nossa metáfora ótica, poderíamos dizer que para Marx, Sismondi não representa um ponto de vista « mais elevado », um horizonte científico mais vasto que Ricardo, mas uma perspectiva diferente, um ângulo de observação distinto, assentado sobre uma posição de classe diferente, que lhe permite perceber toda uma dimensão da realidade social invisível a partir do observatório ricardiano – ao preço de uma cegueira sobre aspectos essenciais desta realidade perceptíveis no campo de visibilidade teórica da economia política clássica. Este jogo de claro-escuro epistemológico, esta dialética paradoxal entre utopia « reacionária », ideologia « progressista » e a ciência social – presentes em Marx como sugestão ou corolário implícito – indicam a necessidade de superar toda visão linear e evolucionista do desenvolvimento da ciência social e sua relação com o campo da luta de classes.

(…)

A partir de 1830, como vimos, abre-se um novo período. Em seu livro Miséria da filosofia (…) Marx acrescenta: « Mas à medida que a história avança e com ela a luta do proletariado se delineia mais claramente, eles (os socialistas e comunistas) não têm mais necessidade de procurar a ciência em seu espírito, mas apenas devem se dar conta do que se passa diante dos seus olhos e expressá-lo…. A partir deste momento, a ciência produzida pelo movimento histórico, e se associando a ele com plena consciência de causa, deixou de ser doutrinária: ela se tornou revolucionária ». Não há dúvida que Marx considerava a sua própria obra e de Engels como pertencente a esta ciência revolucionária que se associa às lutas do proletariado com plena consciência de causa. Mas é importante enfatizar que esta ciência foi, na sua opinião, « produzida pelo movimento histórico ». Em outras palavras, o que permitiu a Marx e Engels superar os limites do socialismo ricardiano e/ou « doutrinário » foi a nova etapa histórica da luta de lasses que começa a partir de 1830 – em particular, o avanço do movimento operário e de seu combate contra o capital.

No Posfácio de 1873, Marx expressa de forma mais concreta e explícita a posição de classe que reivindica para si: « Na medida em que esta crítica [da economia política burguesa – Michael Löwy] representa uma classe, esta não pode ser senão aquela cuja missão histórica é derrubada (umwälzung) do modo de produção capitalista e a abolição final das classes – o proletariado ». A expressão « na medida em que esta crítica representa uma classe » é altamente significativa: em nossa opinião, ela remete à problemática da autonomia relativa da ciência, isto é, Marx indica por isso que seu livro não deveria ser reduzido à dimensão « representação de classe », mesmo se ele reivindica para si, sem hesitação, um ponto de vista probletário.

Pode-se agora procurar resumir a concepção que tinha o próprio Marx da relação entre sua obra e a de seus predecessores: não um « corte epistemológico » entre « a ciência » e « os ideólogos », mas uma Aufhebung dialética que nega/conserva/supera os momentos anteriores. Mais precisamente, a clivagem com Ricardo é, ao mesmo tempo, uma radical ruptura de classe e uma separação/continuidade ao nível científico. Sobre o terreno das visões sociais de mundo, os dois são representantes de posições de classe rigorosamente contraditórias, mas do ponto de vista científico existe, ao mesmo tempo, uma diferença essencial e um encadeamento parcial entre elas. Enquanto «homem de ciência », Marx reconhece sua dívida para com Ricardo ( assim como para com Sismondi etc.), dívida que o corte de classes não aboliu ( a diferença com os socialistas ricardianos representou mais, como procuramos demonstrar, dois momentos diferentes na evolução do mesmo ponto de vista de classe). A démarche de Marx tem a grande vantagem de evitar os dois recifes onde o marxismo posterior encalhará ( bastante frequentemente ), com uma vontade e uma obstinação sempre renovadas: o reducionismo sociológico ( ou ideológico ou econômico ) que não percebeu os confrontos teóricos e científicos senão em termos de interesse de classe, e o positivismo vergonhoso, que pretende dissociar inteiramente o desenvolvimento da ciência social ( e o marxismo em particular ) da luta de classe e dos conflitos ideológicos.”

o ano um da revolução russa – excerto

[qui] 19 de dezembro de 2013

Das leituras… Grifos deste que vos escreve.

Abaixo seguem excertos extraídos entre páginas 135 e 139 do livro ‘O Ano 1 da Revolução Russa’ editado pela boitempo, do historiador e militante comunista, Victor Serge.

«REALISMO PROLETÁRIO E RETÓRICA ‘REVOLUCIONÁRIA’

[…]

O realismo proletário se consolida nessas discussões frente a frente com o fraseado ‘revolucionário’ dos socialistas-revolucionários de esquerda, excelentes revolucionários pelo sincero desejo que têm de servir ao socialismo, por sua coragem e por sua probidade, porém, como toda a burguesia radical de que representam o elemento mais avançado, escravizados às grandes palavras a que se reduz a ideologia da democracia burguesa.

É incessante o apelo de Lenin à iniciativa das massas. A espontaneidade das massas lhe parece a condição necessária do êxito da ação organizada do partido. A 5 de novembro, assina um apelo à população, convocada a combater a sabotagem. A maioria do povo está conosco, nossa vitória é certa:

Camaradas, trabalhadores! Lembrem-se que são vocês mesmos que, a partir de agora, administram o Estado. Ninguém virá em seu socorro se vocês mesmos não se unirem, se vocês não tomarem em suas mãos todos os negócios do Estado […]. Reúnam-se em torno de seus sovietes. Consolidem-nos. Mãos à obra, de baixo para cima, sem esperar nenhum sinal. Instituam a ordem revolucionária mais severa, reprimam impiedosamente os excessos anárquicos dos bêbados, vadios, dos junkers contra-revolucionários, dos seguidores de Kornilov etc. Instituam o mais rigoroso controle de produção e o recenseamento dos produtos. Detenham e entreguem ao tribunal do povo revolucionário todo aquele que ouse prejudicar a causa do povo […].

Os camponeses são convocados a ‘tomar por si mesmos, no ato, a plenitude do poder’. Iniciativa, mais uma vez iniciativa, sempre iniciativa!, essa palavra de ordem que Lenin lança às massas em 5 de novembro, dez dias depois da insurreição vitoriosa.

AS CLASSES MÉDIAS DAS CIDADES E A REVOLUÇÃO

Dois grandes fatos gerais caracterizam os primeiros dias logo após a revolução.
1. As classes médias das cidades (o decreto sobre a terra satisfaz as classes médias do campo, que somente bem mais tarde irão se sublevar) aderem interamente à contra-revolução. São elas que lhe fornecem as forças vivas, os batalhões de choque. Nas batalhas de rua de Moscou e de Petrogrado, como nas encostas de Pulkovo, a burguesia certamente não se defende ela mesma, como também não dispõe de corpos organizados de mercenários. Quais são seus derradeiros defensores? Os oficiais, os cossacos – voltaremos a fala dos cossacos -, os alunos das escolas militares, a juventude das escolas superiores, os funcionários públicos, os empregadores de maior categoria, os técnicos, os intelectuais, os socialistas, todos gente de condição média, mais ou menos explorados, porém nitidamente privilegiados no seio da exploração e participantes da exploração. A inteligência técnica organizada, a uma só vez, a produção e a exploração; ela é, desse modo, levada a se identificar com o próprio sistema e a conceber o modo capitalista de produção como o único possível. A pequena-burguesia, instruída, remediada, mantida sob tutela pela burguesia, muitas vezes ameaçada de pauperização e, assim, próxima do proletariado – daí sua inclinação para o socialismo – é propensa às mais nefastas ilusões. Muito mais culta que o proletariado, muito mais numerosa e avançada do que a burguesia propriamente dita, julga-se convocada a dirigir a sociedade. As ilusões democráticas do último século, nascidas em parte desse estado de espírito, tem, por sua vez, contribuído para mantê-lo. O socialismo da pequena-burguesia é capitalista, consequentemente orientada para a defesa da velha ordem e da educação das massas, em conformidade com os interesses dos ricos; a mentalidade pequena burguesa tende a separar, sobretudo em política, a ação da palavra, sendo esta considerada um derivativo da ação, ou um substituto enganador da ação (recordem-se os ‘gestos simbólicos’ do radicalismo francês). Os melhores espíritos das classes médias russas simpáticas à revolução muito antes que esta se tornasse realidade julgavam necessário limitar-se a uma revolução que teria dado início a uma era de sábias reformas. A revolução proletária lhes parecia uma ascensão de bárbaros, uma queda na anarquia, uma profanação da ideia mesma de revolução. Esse ponto  de vista foi expresso vigorosamente por Máximo Górki, em suas ‘Considerações inatuais’, que publicadas pela Novaia Jizn. As classes médias queriam que a revolução burguesa instituísse em república democrática, em que elas fossem as classes dirigentes e em que o desenvolvimento capitalista prosseguisse sem entraves: concepção basante nítida nos mencheviques e nos socialistas-revolucionários que, naquele momento, foram os ideólogos mais clarividentes da pequena-burguesia.

Além disso, seu utopismo sentia-se chocado com a realidade da revolução: como era grande a diferença entre o idílio romântico sonhado por tantas vezes e a dura e sangrenta realidade! Habituados a viver em meio a realidade dura e sangrentas, a sofrer necessidades indisfarçadas, formados na escola da repressão e da guerra imperialista, os operários e os soldados tinha mentalidade totalmente diferente.

Às classes médias esclarecidas, a Revolução de Outubro parecia o golpe de força de um punhado de doutrinários fanáticos, apoiados por terrível movimento do população ignorante. Veremos que Górki emprega exatamente esses termos. O problema da guerra e da paz, atingido-as em seu patriotismo (o patriotismo é produto seu por excelência; o proletariado é internacionalista; a burguesia professa senão um patriotismo de negócios composto com um cosmopolitismo financeiro), do mesmo modo que atingia os revolucionários pequeno-burgueses em seu romantismo, aprofundou o fosso existente entre a revolução e aquilo a que se denominava erradamente – ‘a democracia’.

Prever antecipadamente que a democracia pequeno burguesa, toda ela, com a energia do desespero, cerraria fileiras ao lado da contra-revolução, a ponto de seguir os generais monarquistas, a ponto de sonhar com um Galliffet, a ponto de proceder a execuções em massa de insurretos – isso não era possível. E essa impossibilidade explica os erros de alguns bolcheviques: até os fuzilamentos do Kremlin, o Comitê Revolucionário Militar de Moscou parece haver nutrido a esperança de que os socialistas-revolucionários e os mencheviques não iriam muito longe contra a revolução operária: o erro da minoria do Comitê Central do PCR e do Conselho dos Comissários do Povo foi admitir a possibilidade de uma concentração socialista, isto é, de um retorno da pequena-burguesia socializante ao proletariado. Na verdade, a atitude contra-revolucionária das classes médias não era rigorosamente determinada por seus interesses de classe: percebemos hoje que eles teriam tido toda vantagem em submeter-se ao regime dos sovietes; sua pouca importância numérica, sua falta de homogeneidade e a formidável superioridade de organização, de valor moral e de pensamento do proletariado (o partido, o espírito de classe, o marxismo), a adesão das massas da pequena-burguesia rural à revolução, tudo as destinava a uma cruel derrota: pior do que isso, a um desbaratamento total; sua resistência, porém, devia tornar maior a ruína, devastar o país. Fossem elas um pouco mais clarividentes na avaliação das forças em presença e se teriam poupado – e poupado o país – de muitas calamidades. Sem dúvida, as classes médias não terão sempre essa atitude diante da revolução proletária; é bem provável que o poderio e o espírito de decisão do proletariado venham a conseguir, nas batalhas sociais do futuro, induzi-las a se manter neutras no início e, em seguida, a aderir a ele. Decididamente, elas acompanham e acompanharão os mais fortes; quando perceberem que as classes operária é a mais forte, elas acompanharão. Na Russia, em outubro de 1917, as classes médias se enganaram: a vitória do proletariado lhes pareceu impossível. Por muito tempo, não acreditaram nisso, esperando, dias após dia, semana após semana, o desmoronamento do bolchevismo. De fato, para crer na vitória de uma classe, que até então jamais havia vencido na História, que não tinha sequer experiência do poder, ou competência, ou riqueza, ou instituições próprias – exceto algumas formações de combate, seria preciso estar tão profundamente penetrado pela missão histórica do proletariado quando os bolcheviques o estavam; uma palavra, era preciso ser marxista revolucionário. A anulação desse móvel psicológico da atitude contra-revolucionária da pequena-burguesia russa é um dos importantes resultados históricos da Revolução de Outubro.

AS ‘LEIS DE GUERRA’ NÃO SE APLICAM À GUERRA CIVIL

2. Essas jornadas se caracterizam, também, pela forma de que, nelas se reveste a guerra civil. Os vermelhos, não sabendo ainda empregar repressões, praticamente ignorando a necessidade das repressões, propensos a se deixar enganar quanto à democracia socialista, mostram-se de uma deplorável mansidão. Comprarem-se as condições impostas pelo CRM vitorioso de Moscou ao Comitê de Salvação Pública e as que esse comitê branco, longe de ser vencedor, tentara impor ao CRM. Nessa caso, os brancos massacram os operários do Arsenal do Kremlin; naquele, os vermelhos libertam, condicionalmente, seu inimigo mortal, o general Krasnov. Aqui, os brancos conspiram para o restabelecimento implacável da ordem; ali, os vermelhos hesitam em suprimir a imprensa reacionária. A inexperiência era, seguramente, uma das causas profundas dessa perigosa mansidão dos vermelhos.

Em contraposição, a contra-revolução, logo de saída, empenhou-se a fundo, irrefletidamente. Não há dúvida de que a guerra civil só iria se tornar violenta com o passar do tempo, com a ajuda estrangeira; porém, desde 26 de outubro, a luta foi muito mais cruel que as guerras entre Estados diferentes. Estas geralmente se submetem a certas leis; existe um direito de guerra; na guerra entre classes, não existe direito, não há ‘convenções de Genebra‘, não há costumes cavalheirescos, não há não-beligerantes. A burguesia e a pequena-burguesia recorreram, de saída, à greve e à sabotagem de todas as empresas de utilidade pública, de todas as instituições, uma arma interdita pelos costumes de guerra. Em parte alguma, na Bélgica ou na França invadida, os técnicos se puseram em greve com a chegado do inimigo. A sabotagem foi uma tentativa de organizar a fome, isto é, de atingir a população operária, sem distinção entre combatentes e não-combatentes. A utilização feita do álcool é igualmente significativa. E toda a conspiração contra-revolucionária foi uma preparação para o terror branco.

O que aconteceu é que as guerras entre Estados são, habitualmente, guerras intestinas entre ricos, que professam uma mesma ética de classes, uma mesma concepção do direito. Tem sido mesmo muito forte, em certas épocas, a tendência de reduzir a arte da guerra a um jogo bastante convencional. A arte moderna da guerra data da Revolução Francesa que, opondo uma nação burguesa em armas ao exército das antigas monarquias, exércitos profissionais, baseados no recrutamento compulsório e nos mercenários, e comandados por nobres, anulou de um só golpe as convenções antiguadas de tática e de estratégia anteriores. Os europeus só se afastam das regras atuais da guerra com respeito a povo que consideram inferiores*; do mesmo modo, na guerra entre classes, as classes dirigentes, convencidas de estar defendendo a ‘civilização’ contra a ‘barbárie’ operária, acreditam que todos os meios são lícitos. Estão em jogo interesses demasiado grandes, todas as convenções são abolidas e como a ética – não existe uma ética humana, só existem éticas de classes ou de grupos sociais – deixa de exercer sobre os combatentes sua ação moderadora, as classes exploradas rebeladas são declaradas pela contra-revolução ‘indignas da humanidade’. Essas verdades podia ser entrevistas, nitidamente, ao final da primeira semana do regime dos sovietes. Veremos, mais adiante, o massacre dos prisioneiros torna-se regra na guerra civil, e os Estados capitalistas, durante muitos anos, tratarem a Rússia comunista como um país fora da lei.

nota de rodapé: * Os franceses, algumas vezes, durante a conquista da Argélia. Lembremo-nos também, os métodos de guerra e de dominação dos ingleses na Índia; o saque do palácio de Pequim pelas tropas europeias, em 1900; as atrocidades dos italianos na Tripolitania; dos franceses na Indochina e no Marrocos; dos britânicos no Sudão. Em nenhuma guerra dos tempos modernos os vencidos foram tratados com tanta ferocidade quanto os da Comuna de Paris, em 1871.»

intertextual

[dom] 9 de junho de 2013

último ponto:
o pensamento é mais rápido que meus músculos.
e o pensado é morto,
o que vive é o pensado
sobre o pensado.
e a natura se refaz
mesmo diante da morte mais atroz.

primeiro ponto:
vocês não foram tão justos e sensatos quão imaginam.
suas loucuras, suas frustações, seus medos e suas limitações
foram a marca em tudo o que tentaram.

e a marca é isto ai mesmo:
não exatamente o que é correto ou necessário,
é o que é possível.

quando vislumbrei isto,
e percebi que era hora de escapar desta ilusão,
não para um mundo sem ilusão,
mas digamos, para outra ilusão,
e outra, e outra, todas um tanto mais libertadora
que esta que vocês inventaram para tentar me convencer.

E foi neste instante que percebi
que de lançamento eu já partia
todo errado [ver chico, ver carlos].

e viver sob esta culpa primordial
– que nem era minha de fato
e tampouco deveria ser culpa,
posto que era produto de determinantes
e sobredeterminante de caráter histórico-social [ver marx] –
enfim, viver sob aquela culpa não era viver,
era padecer – ser moribundamente.

deste ponto em diante
todas aquelas pequenas
transgressões já não eram defeitos,
eram feitos… eu me desculpará.
e errar era possível e tão necessário.

outro ponto:
“sai para caminhar com eu pai,
conversamos sobre coisas da vida,
tivemos um momento de paz”

entrepontos:
“o mundo esta repleto de loucuras”

garapuvu/feuerbach

[ter] 20 de dezembro de 2011

(…) Feuerbach parte do fato a auto-alienação religiosa do homem, do desdobramento do mundo em um mundo religioso e um mundo terreno. O seu trabalho consiste em reconduzir o mundo religioso ao seu fundamento terreno. Mas Feuerbach não percebe que fez apenas parte do trabalho, falta ainda fazer o principal. É que o fato de essa base terrena se separar de si própria para se fixar como um reino independente que flutua nas nuvens é algo que só se pode explicar pela própria divisão interna e contradição dessa base terrena consigo mesma. Assim, é necessário tanto compreendê-la na sua própria contradição como revolucioná-la praticamente, eliminando sua contradição. Depois de, por exemplo, descobrir a família terrena como o segredo da família sagrada, é preciso fazer a crítica teórica dessa família terrena e revolucioná-la, na prática. (…)

Feuerbach geht aus von dem Faktum der religiösen Selbstentfremdung, der Verdopplung der Welt in eine religiöse, vorgestellte und eine wirklich Welt. Seine Arbeit besteht darin, die religiöse Welt in ihre weltliche Grundlage aufzulösen. Er übersieht, daß nach Vollbringung dieser Arbeit die Hauptsache noch zu tun bleibt. Die tatsache nämlich, daß die weltliche Grundlage sich von sich selbst abhebt und sich, ein selbständiges Reich, in den Wolken fixiert, ist eben nur aus der Selbstzerrissenheit und dem Sich-selbst-widersprechen dieser weltlichen Grundlage zu erklären. Diese selbst muß, also erstens in ihrem Widerspruch verstanden und sodann durch Beseitigung des Widerspruchs praktisch revolutioniert werden. Also z.B.; nachdem die irdische Familie als das Geheimnis der heiligen Familie entdeckt ist, muß nun erstere selbst theoretisch Kritisiert und praktisch umgewälzt werden. // V // Thesen über Feuerbach (1845). Marx.
Gênese de um garapuvu

plano de navegação

[qua] 6 de outubro de 2010

uma máquina fotográfica. uma aula sobre arnold van gennep, e seus ritos de passagem.

plano: fotografar o passado, viver o presente e sonhar o futuro. e no fim, conversamos quase uma hora sobre o que é política para ti e para mim, sobre nossas relações, nossos pais, nossos amores… e a minha (nossa) crise com a universidade e o discurso acadêmico, ou mais precisamente, o conflito entre discurso e a ação nesse mundo do cão. como é dificil buscar a prática que realize, ou busque realizar, o que os discursos apontam. somos tão presos, a maioria de nós, a convenções e preconceitos estúpidos, que nos amarram, e por vezes, nos amputam, da possibilidade de contestação do que nos violenta.

e sinto que está chegando a hora de desvestir esta armadura da criança violentada e do menino rejeitado e observar o meio com olhos sensíveis [recuperar aquele cara que está aqui em algum lugar].

imagens do dia

observando o mar de todo dia

e à noite, enquanto matava parte da aula, registrando o passado.
um sofá

LISBON REVISITED
(1923)
Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
1923
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 247.
1ª publ. in Contemporânea, nº 8. Lisboa: 1923.

[Tanta Guerra, Tanto Engano…]

No mar tanta tormenta e tento dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

Os Lusíadas [I, 106] Camões

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

anotações aleatórias da aula de antropologia - ritos de passagens de arnold von gennep

minha ilha

[ter] 14 de setembro de 2010

há presente. e escrevo mais, logo. /// passos largos logo mais darei, espero que tudo de certo. tenho ânsia de alguma coisa e queria ficar nu. sinto-me tão cheio. vontade juvenil agora bateu de cantar… meu corpo é quente e estou sentido frio... ar. ///  palavras soltas…

***

“Os comunistas apóiam, em toda parte, qualquer movimento revolucionário contra o estado de coisas social e político existente. Em todos esses movimentos, põem em primeiro lugar, como questão fundamental, a questão da propriedade, qualquer que seja a forma, mais ou menos desenvolvida, de que se revista. (…) trabalham pela união e o entendimento entre os partidos democráticos de todos os países. Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins.”.
Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista
“É como imaginar que um exército tomaria posição em algum lugar dado e diria ‘Nós somos pelo socialismo’, e que outro, em outro lugar, diria ‘Nós somos pelo imperialismo’, e que aconteceria então a revolução social! (…) Quem quer que aguarde uma revolução social ‘pura’ jamais viverá o tempo suficiente para vê-la. Não é senão um revolucionário em palavras, que nada compreende sobre o que é uma verdadeira revolução.”
Lênin, Balanço de uma discussão sobre o direito das nações

acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres

[dom] 13 de dezembro de 2009


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“Um intelectual é alguém que se recusa a fazer compromissos com os dominantes.”

Herbert  Marcuse

“(…)…..Hitler já definiu a essência da arte como ‘utilidade’. A utilização da arte nacional-socialista consiste em reconciliar o ser humano com mundo como ele é. A arte baniu todos os elementos de protesto e estranhamente se tornou parte integrante da vida quotidiana das massas manipuladas: adorna as fábricas onde as pessoas trabalham dez ou mais horas nos suprimentos de guerra, as salas de reuniões onde os líderes mapeiam a estratégia do terror, os ministérios que planejam a conquista e a destruição. A arte nacional-socialista confere a este mundo a grandiosidade de uma harmonia natural.
……..A  domesticação da arte segue o mesmo padrão da domesticação do sexo. A arte, ajustada a um mundo hostil, a suas promessas originais, altera seu conteúdo e suas funções: faz de si mesma uma alavanca para ajustar o homem às forças que governam sua vida social e política. As belas mulheres nuas e as paisagens coloridas nos quadros dos artistas nacional-socialistas encaixam-se perfeitamente com as salas de reuniões e as fábricas, máquinas e uniformes embelezados. Transformam os estímulos ao protesto e rebelião em estímulos à coordenação. Amalgamam-se na imagem de uma ordem que conseguiu coordenar até as mais recônditas zonas de perigo da sociedade individualista, além de induzirem o indivíduo a amar e a perpetuar um mundo que o usa somente para a opressão.
…….Chegamos ao final de nossa pesquisa inicial. Procuramos mostrar que a sociedade nacional-socialista tende a ser tornar o governo direto dos grupos sociais mais poderosos que conquistaram ou aboliram todas as instituições legais e políticas que se interpunham entre seus interesses particulares e a comunidade. Seu regime, longe de suprimi-lo, emancipou o individuo humano em seus instintos e aspectos mais sinistros. O nacional-socialismo não é uma revolução absolutista, nem socialista, nem niilista. A Nova Ordem possui um conteúdo bastante afirmativo: organizar a forma mais agressiva e destrutiva de imperialismo que a era moderna jamais viu”.

(Estado e Indivíduo sob o Nacional-socialismo. In: Marcuse, Herbert. Tecnologia, guerra e fascismo, São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 135-136)

Me incomoda muito uma reflexão (ainda muito intuitiva) que tendo desenvolvido quando da leitura de jornais, e da observação de noticiários na TV, e/ou refletindo sobre o cotidiano e o comportamento social de universitários, em particular, e outros grupos sociais, em geral. É toda essa idéia que no tempo presente alguns paradigmas comportamentais que Marcuse, neste texto acima, expõe sobre Nazi-fascismo encontram eco no modo de ser e estar dos indivíduos, da massa e da sociedade tecnológica atual. Como se o potencial (racional e sensível) critico humano fosse canalizado para uma perversão agressiva dos caracteres artísticos-sexuais (a libido, criativa e criadora, humana)  na  reprodução alienada da ordem (do aparato – em Marcuse – ou sistema – em Galeano -, como queiram) tanto na sua forma direta, e explicita, enquanto mercadoria [racionalidade tecnológica] industrializada [ver depois o conceito de indústria cultural, da mesma escola de frankfurt], quanto, e também,  nas suas formas indiretas, e implícitas, de barbárie escancarada, terror declarado e tátil. Há uma tremenda homogenização [massificação] de comportamentos compulsivos quanto a arte, aos relacionamentos individuais e entre grupos sociais, etc. Tudo, ou quase tudo, é encarado absurdamente de uma forma superficial e naturalizada  por uma massa facilmente ‘adestrável’. As vezes eu sinto muito medo disso tudo que vejo (…).

[Estou com dois livros dele para ler nestas férias: One-Dimensional Man, 1964 (Ideologia da Sociedade Industrial, Editora Zahar, Rio de Janeiro), e Counter-revolution and Revolt, 1972 (Contra-revolução e revolta, Zahar, RJ, 1973)].

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Cambiando, como os dias. Desde ontem mergulhei profundamente nas narrativas-confissões de Joana [perto do coração selvagem] novamente. Havia lido clarice pela primeira vez há mais de dez anos., e assim como cristovão tezza e outros, mexerá profundamente comigo. [o título deste tópico vem disto aqui – que ainda não li, por enquanto] . /// Como se fosse ontem ou amanhã, mas  tudo isto a dias atrás como se fosse um ano ou talvez mais, veio-me à lembrança, tão exausta, o riso do sol (…) entre silêncios e soluços, e o sal, de nossos corpos nos páss(ar)os de ícaro. // E nesse processo, talvez terapêutico, de tentar encontrar o sopro latente que me faz viver revirei tudo e não me achei ainda. Mas arrumo a casa outro dia… Abaixo fotogramas captados no final da tarde do dia ontem, ou agora pouco, como queiram.

Sambaqui, final de tarde nublado!

Início da noite! (12 dez. 2009)

e para encerrar este registro, um artigo interessante. LEIA!

A educação para além do capital

por István Mészáros [*]

“A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender”.
Paracelso

“Se viene a la tierra como cera, – y el azar nos vacía en moldes prehechos. – Las convenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales: – es necesario que sean esenciales . La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiritual. … La escuela y el hogar son las dos formidables cárceles del hombre”.
José Martí

“A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esquece que elas são alteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado. Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais [os educadores] é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias e da actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida e racionalmente entendida apenas como prática revolucionária”.
Marx

Escolhi estas três epígrafes a fim de antecipar alguns dos pontos principais deste discurso. A primeira, do grande pensador do século XVI, Paracelso; a segunda, de José Martí e a terceira de Marx. A primeira diz, em contraste agudo com a concepção actual tradicional e tendencialmente estreita da educação, que ” A aprendizagem é a nossa vida, da juventude à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender [1] . Relativamente a José Martí, ele escreve, podemos estar certos, com o mesmo espírito de Paracelso quando insiste que ” La educación empieza com la vida, y non acaba sino con la muerte “. Mas ele acrescenta algumas qualificações cruciais, criticando rigorosamente os remédios tentados na nossa sociedade e também conclamando à tarefa maciça pela frente. É assim que ele perspectiva o nosso problema: “Se viene a la tierra como cera, – y el azar nos vacía en moldes prehechos. – Las convenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales; – es necesario que sean esenciales. La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiritual. …La escuela y el hogar son las dos formidables cárceles del hombre.” [2] E a terceira epígrafe, escolhida de entre as “Teses sobre Feuerbach” de Marx, põe em evidência a linha divisória que separa os socialistas utópicos, como Robert Owen, daqueles que no nosso tempo têm que ultrapassar os graves antagonismos estruturais da nossa sociedade. Porque estes antagonismos bloqueiam o caminho para a mudança absolutamente necessária sem a qual não pode haver esperança para a própria sobrevivência da humanidade, muito menos para a improvisação das suas condições de existência. Estas são as palavras de Marx: “A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esquece que elas são alteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado. Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias e da actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida e racionalmente entendida apenas como prática revolucionária”. [3] A ideia que pretendo sublinhar é a de que não apenas na última citação mas à sua maneira em todas as três, durante um intervalo temporal de quase cinco séculos, se sublinha a imperatividade de se instituir – tornando-a ao mesmo tempo irreversível – a mudança estrutural radical. Uma mudança que nos leve para além do capital no sentido genuíno e educativamente viável do termo.


1- A lógica incorrigível do capital e o seu impacto sobre a educação
2- Os remédios não podem ser só formais; eles devem ser essenciais
3- “A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice”
4- A educação como a “transcendência positiva da auto-alienação do trabalho”

nosso tempo

[qui] 10 de setembro de 2009

drummond - arosadopovoNosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido,
apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
Vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas
,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?

crimes?
moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina.
Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,
confiar-se ao que-bem-me-importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

I

Nos porões da família,
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há. mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos
e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,
um verme.

———

/ Teses sobre Feuerbach / Karl Marx / 1845 // Tese 2 / A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica. //  Tese 6 / Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais. / Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente – isoladamente – humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como “espécie”, como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos. // Tese 8 / A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis. // Tese 10 / O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade “civil“; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada. // Tese 11 / Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

Publicado pela primeira vez: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx.

——-

A PLENOS PULMÕES

……………………(Trecho final)

Camarada vida,

……………… vamos,

……………………… para diante,
galopemos

…………. pelo quinqüênio afora.
Os versos

……….. para mim

………………….. não deram rublos,
nem mobílias

……………. de madeiras caras.
Uma camisa

………….. lavada e clara,
e basta, —

…………. para mim é tudo.
Ao

.. Comitê Central

………………… do futuro

…………………………… ofuscante,
sobre a malta

……………. dos vates

………………………. velhacos e falsários
apresento

………… em lugar

………………….. do registro partidário
todos

……. os cem tomos

…………………… dos meus livros militantes.

Dezembro, 1929 / janeiro, 1930 (Tradução: Haroldo de Campos)

as aspas

[ter] 8 de setembro de 2009

ontem. hoje. outubro. novembro e maio.

venta do outro lado desta ventana de dois por quatro. aqui sinto somente o vidro, nem frio nem quente, enorme que torna rente e distante, este corpo agitado, da água noturna. mas vem calma a chuva pós tormenta.

apaguei os rascunhos e as velhas mensagens. rolei na cama e escrevo agora por uma certa ânsia… li nem um décimo do programado, mas fichei um texto importante e preciso escrever coisas. vão enormes as olheiras mas não são para colher amor. este mofo neste quarto irrita minhas mucosas nasais. escorro. teu estendido traço mudou de sentido e os registros apontam para sinais/direções opostas, aqui, ali… lá já nem consigo ler o que fica no papel gasto pela ponta do grafite. é por um triz e apago tudo ou vou dormir. escrevi uns poemas sobre vinho e dentes. haviam cortes neles. foram por estes dias. e ando de saco cheio destes piccolo borghese universitari, pseudo-intellettuali, futuri scienziat sociali o no… uns ‘pelasacos’.

como mote para uma futura poesia, prosa, teoria: coisas de outubro. sobre o estorvar, o amputar, o calar, amordaçar, podar, e o dia a dia em que realizando-nos a carne e o concreto fração destes verbos. tão rente… fere e trespassa. corta! próxima cena:

isto é de três de novembro do ano passado:

A divisão manufaturera do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob forma especificamente capitalista. Como forma capitalista do processo social de produção, é apenas um método especial de produzir mais-valia relativa ou de expandir o valor do capital, o que se chama de riqueza social (…). Ela desenvolve a força produtiva do trabalho coletivo para o capitalista, e não para o trabalhador, e, além disso, deforma o trabalhador individual. Produz novas condições de domínio do capital sobre o trabalho. Revela-se, de um lado, progresso histórico e fator necessário do desenvolvimento econômico da sociedade, e, de outro, meio civilizado e refinado de exploração“. (MARX, O Capital. L. 1. v. 1. p. 420) (Capítulo XII – Divisão do trabalho e manufatura)

A indústria moderna nunca considera nem trata como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é revolucionária, enquanto todos os modos anteriores de produção eram essencialmente conservadores. Por meio da maquinaria, dos processos químicos e de outros modos, a indústria moderna transforma continuamente, com a base técnica da produção, as funções dos trabalhadores e as combinações sociais do processo de trabalho. Com isso, revoluciona constantemente a divisão do trabalho dentro da sociedade e lança ininterruptamente massas de capital e massas de trabalhadores de um ramo de produção para outro. Exige, por usa natureza, variações do trabalho, isto é, fluidez das funções, mobilidade do trabalhador em todos os sentidos“. (MARX, O Capital. L. 1. v. 1. p. 551/552) (Capítulo XIII – A Maquinaria e a indústria moderna)

de maio… não anotei o que tu disse, guardei para outro dia… só ficaram as aspas.

mors immortalis

[seg] 7 de setembro de 2009

Das investigações científicas de hoje, a síntese coerente:

“Existe um movimento contínuo de crescimento das forças produtivas, de destruição de relações sociais, de formação das idéias: o único imutável é a abstração do movimento: mors immortalis” (K. Marx, Miséria da Filosofia)

Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais” (Karl Marx) E as relações sociais mudam

esqueci do café, ficou gelado.

[ter] 16 de junho de 2009

não que isto faça sentido ou pretenda segundas palavras. só porque é marx, só porque fala de amor, só porque é galeano, só porque fala das coisas, só porque encontrei rabiscado em alguma janela e não quis esquecer. anotei, como tudo que anoto aqui.

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“Se amar sem despertar amor,
isto é,
se teu amor não produz amor recíproco,
se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado,
teu amor é impotente,
uma desgraça.”

Karl Marx

“Vida cigana. As coisas me acompanham e vão embora. São minhas de noite, perco-as de dia. Não estou preso às coisas; elas não decidem nada.”
Eduardo Galeano

memória

[seg] 13 de abril de 2009

E segue uma seqüência de fragmentos de poetas que criam um tecido aberto e pulsante. Falam sobre o amor-camarada, a memória, a ação, a semente-viva germinando neste vasto mundo…

Todo o valor do ser humano está ligado à faculdade de se superar, de existir além de si mesmo, de existir no outro e para o outro.” Milan Kundera

“Los filósofos se han limitado a interpretar el mundo; mientras de lo que se trata es de transformarlo” Carlos Marx.

“Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos, ya no se endulzará junto a ti mi dolor. Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada y hacia donde camines llevarás mi dolor. Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos un recodo en la ruta donde el amor pasó. Fui tuyo, fuiste mía. Tu serás del que te ame, del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo… ” Pablo Neruda

A MÃO-LIVRE: [ou como vos disse ontem, somos um recorte profundo no ser e fazer deste mundo!] Assim, num recorte destes dias, onde a vida se aprofunda e o significado “intensifica-se”… e “o sem sentido apelo do não… [Mesmo com o livro ao lado, e sabendo do poema, fui buscar na rede algo mais e me deparo com isto aqui, que segue abaixo, que trás alguns elementos para reflexão, concordo com algumas coisas, outras não… E  não pensei tanto no poema sobre o amor-a-dois, mas no poema sobre a memória, sobre a história, sobre a consciência coletiva, sobre a realidade concreta, sobre o valor que o homem, a humanidade… Um exercício além.].

Amar o perdido!

Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”), talvez um dos primeiros que li do poeta, pois aparecia manuscrito em fac-símile na Enciclopédia Delta-Larousse, que foi a Internet da minha infância. Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.
Quatro estrofezinhas, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que CDA se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.
Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.

O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

Nada pode o olvido

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. Seu método criativo parece com o de Paul MacCartney, que dizia: “Eu pego uma idéia simples e vou complicando, vou complicando… Então, quando ela está bem complexa, eu começo a simplificar de novo”. É escusado dizer que a simplicidade que se obtém no final do processo é de caráter distinto da que o artista teve como ponto de partida.

Voltando ao poema, é preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro de dizer: “Nada pode o ouvido…” É o típico caso da contaminação oral da pronúncia, agravado pelo fato de que, enquanto aqui no Nordeste a gente em geral pronuncia “ól-VI-do”, no Sudeste muita gente diz “ôl-VI-do”, o que ajuda a confundir.

Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. Eu sempre empanquei diante deste verso. Por mais que tente analisá-lo, nunca chego a fechar um resultado. É uma verdadeira dízima periódica poética, a gente pode continuar dividindo por todos os “século seculóro”, como diz o matuto, e nunca vai fechar a conta.

O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas… apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.

Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.

Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas. A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não bater. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.
As coisas tangíveis

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”. Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.

Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro…” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”…

E tem mais. Observem o duplo sentido da palavra “insensível”. Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”). Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem. A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.

É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.
Mas as coisas findas

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofezinha: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”. É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência. Como falei no primeiro comentário, o poema tem quatro estrofes, cada estrofe três linhas, cada linha cinco sílabas. A contagem das sílabas métricas varia de leitor para leitor; eu as leio assim: “Amar o perdido (2-3) / deixa confundido (1-4) / este coração (1-4). // Nada pode o olvido (3-2) / contra o sem sentido (1-4) / apelo do Não (2-3). // As coisas tangíveis (2-3) / tornam-se insensíveis (1-4) / à palma da mão (2-3). // Mas as coisas findas (3-2) / muito mais que lindas (3-2) / essas ficarão (3-2).” A leitura métrica da última linha (que teoricamente seria 1-4, “es – sasficarão”) vira “essasfi-carão”, claramente influenciada pela das duas linhas anteriores, o que não ocorre com a última linha da segunda estrofe, quando isto forçaria um cacófato (“apelu-donão”).

É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo descritas acima. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas. (Se eu fosse escrever um Decálogo para jovens poetas eu incluiria: “Economize a rima em “ÃO”, a qual, como as armas de fogo, só deve ser usada em casos de absoluta necessidade”).

O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas. As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo! Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória. Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.

Que passarinho é este que fica? Maldo eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do meu “ABC de Ariano Suassuna” (e que examinei em maior detalhe nesta coluna: “A eternidade dos pássaros”, 8.9.2004). É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em seu âmbar as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”. Braúlio Tavares


OU NÃO!

A superação da propriedade privada é por conseguinte a emancipação completa de todas as propriedades e sentidos humanos..

[sex] 25 de janeiro de 2008

‘tô no estágio interdisciplinar de vivência em fraiburgo. retorno em março. saudações a todos.

“.. A superação da propriedade privada é por conseguinte a emancipação completa de todas as propriedades [.. no sentido de ‘próprio’ e/ou ‘atributos’, ‘qualidades’..] e sentidos humanos; mas ela é esta emancipação exatamente pelo fato de estes sentidos e propriedades terem se tornado humanos, tanto subjetiva quanto objetivamente. O olho se tornou olho humano, assim como o seu objeto se tornou um objeto social, humano, proveniente do homem para o homem. Por conseguinte, imediatamente em sua práxis os sentidos se tornaram teorizadores. Relacionando se com a coisa [em um sentido intermediário entre ‘coisa’, indiferente ao sujeito, neutro; e ‘objeto’, algo que já entrou em relação com o objeto] por amor à coisa, mas a coisa mesma é um comportamento humano objetivo perante si mesma e perante o homem [praticamente só posso me relacionar humanamente com a coisa se a coisa se relaciona humanamente com o homem.] e inversamente.
A necessidade [no sentido de ser uma necessidade imposta pelo imposta pela condição biológica do ser humano, sempre ligada a uma carência e a um desejo correspondente] ou fruição perderam por isso a sua natureza egoísta e a natureza a sua mera utilidade ao ter a utilidade se tornado utilidade humana.
Da mesma maneira os sentidos e a fruição dos outros homens se tornaram a minha própria apropriação. Afora estes órgãos imediatos formam-se por conseguinte órgãos sociais na forma da sociedade, logo, por exemplo, a atividade imediatamente em sociedade com outros etc. se tornou um órgão da minha manifestação de vida e um modo de apropriação da vida humana.”

marx e engels. história. coleção grandes cientistas sociais. org. florestan fernandes. pp. 174. editora atica. 1989.

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