Archive for the 'Exercícios' Category

a morte do velho garapuvu e outras notas aleatórias de um dia dolorido

[ter] 25 de abril de 2017

notas curtas e aleatórias.

nota #1 um exercício poético sobre um velho garapuvu arrancado da terra e maré que avança sobre a areia e as rochas.

a maré é cheia / a árvore desabou / sinto-me / raízes pra fora / canoa sobre rochas / não há vento / não há areia / não há como respirar // e a rainha do mar vem buscar / a velha árvore morta / futura canoa ainda sobre a terra… / aguardando / germinando / escavando / o homem a ser navegado.

nota #2 pensamentos da tarde. observe a dor alheia, para não enlouquecer com a sua própria dor. observe a tua dor no tempo, para não enlouquecer aqui e agora.

nota #3 dor absurda na cabeça pela tarde. dor aguda no peito pela noite.

nota #4 cuidado para não caires naquela sensação de odiar todos e tudo o tempo todo. cuidado.

nota #5 esqueci meu guarda-chuva no ônibus/linha 267.

nota #6 chá de camomila e refresco de maracujá. só assim pra aguentar a dor de existir. só assim para respirar.

tudo é sistemático

[ter] 18 de abril de 2017

notas de terça-feira. estou destruido. ps: é apenas a manhã de uma terça-feira.

odeio esses dias em que não se pode respirar.

tudo é sistemático, os horários, das datas, as cobranças, o alarme do dispertador…  os pensamentos obsessivos… a compulsão. mas teu corpo não. tampouco o tempo para isto aqui. escrever é uma fuga, a unica fuga possível.

a ideia de…

e eis que o sistema volta te engolir e teus pensamentos estão arquitetando os minutos para isto e para aquilo e há as zonas esquecidas, aqueles documentos perdidos… aquilo que não se dará contaa: s suas pequenas mortes na guerra, os corpos que ficam, seminus, semicorpos… destroçados. tudo é sistemático. o entulho, os destroços, os estilhaços e cacos do tempo… até tua dificuldade de respirar. tua falta de tempo… tudo é sistemático.

e do fragmento de leitura desta manhã

“augusto, que tolice augusto. mas o homem é assim. ele ficou perturbado com as palavras de alice. incomodava-o aquelas vozes que lhe mostravam o óbvio ou que traziam algo novo, estranho, desconfortável para a narrativa. fatos, ou discursos, que contradiziam a sua autoimagem… ”

 

 

 

 

 

it’s not found

[dom] 5 de março de 2017

conexão. a necessidade de estar com outros. é isso. eureka

abrir a porta, e dialogar com as vozes no vento. não só com seus próprios pensamentos. ir para lugares não pensados. perder-se em labirintos. ouvir os gritos e as gargalhadas. rir junto. caminhar, como quem caminha de mãos dadas. estar aqui, ouvindo você. jogar sonhos como quem joga pedras na água… para ver as ondas, a energia gerada.

***

«Antes de retornar à cultura, constato que o mundo tem fome e que não se preocupa com a cultura; e que é de um modo artificial que se pretende dirigir para a cultura pensamentos voltados apenas para a fome. O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou qualquer ser humano de ter fome e da preocupação de viver melhor, mas extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome. Acima de tudo precisamos viver e acreditar no que nos faz viver e em que alguma coisa nos faz viver – e aquilo que sai do interior misterioso de nós mesmos…» Prefácio: O teatro e a cultura. In: O Teatro e Seu Duplo, de Antonin Artaud

***

NOTAS DE RODAPÉ (DO PAPO DE HOJE):

 

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***
Sofrimento

A importância da Verdade do Sofrimento (dukkha-satya, dukkha-sacca) é a necessidade primordial de ver a realidade como é. Em termos do absoluto, o relativo é incompleto, repleto de contaminações e sofrimentos.

Há oito espécies de sofrimento: nascimento, velhice, doença, morte, contato com o que detestamos, separação do que amamos, objetivos inalcançáveis e o sofrimento inerente ao apego aos cinco agregados (elementos psicofísicos: forma – rupa, sentimentos – vedana, percepção – samjna, sanna, constituintes mentais – samskara, sankhaara e consciência – vijnana, vinnana. Coletivamente são chamados de numa (nome) e rupa (forma). Assim o composto de nome-forma é um sinônimo dos cinco agregados. Tanto os agregados físicos como mentais são caracterizados pela impermanência, sofrimento e não-eu.

Causa do Sofrimento

Na Verdade da Causa do Sofrimento (samudaya-satya, samudaya-sacca) a palavra da Índia traduzida como “causa” significa “vir junto, formar-se conjuntamente e surgir, aparecer”. O Sutra considera apego como a causa do sofrimento. Há três tipos de apegos:

Apegos sensuais, dos cinco desejos ou seja, dos desejos resultantes dos objetos dos cinco sentidos. Apego mundano.

Apego por existência se refere a existência superior, nos níveis celestiais, de renascimento nesses estados. É ainda um aspecto egoista.

Apego à não-existência é o desejo pelo nada, como condição de paz interior, considerado egoísta. Alguns traduzem não existência como apego à prosperidade desde que a palavra Vibhara também pode ter esse sentido. Os comentários tradicionais interpretam como não-existência e é nesse sentido que aqui interpretamos. Fragmento de texto extraído de http://www.monjacoen.com.br/textos/textos-da-monja-coen/137-quatro-nobres-verdades

os pés de café e outras notas

[sex] 3 de março de 2017
a vida é assim: notas mínimas de um dia
acordar cansado as 8h30.
e no meio de um sonho – fragmentos/reminiscências: uma trupe de clown portenha adentrando um busão pela porta traseira… já não era um ônibus… era um teatro móvel… eu era a primeira plateia…
cavar a terra, plantar seis pés de café. regar, proteger do sol e esperar que vingue a vida.
e aquela sensação recorrente de ter perdido um pensamento [importante?!]
relembrar: a troca de memórias queridas… o bom de ter amigos é a amizade de hoje, de ontem… é o privilégio de ter compartilhado uma história coletiva.
da tarde
sair encharcado na primeira aula do dia/tarde – a sala é um inferno, não as pessoas… é esse infernal calor, essa arquitetura de bosta do estado, essa rotineira e desumana falta de respeito com qualquer processo pedagógico… 50 alunos num cubículo que mais parece uma sauna.
pior do que isso só aquelas plaquinhas informativas da quantidade passageiros que cabem dentro do ônibus… sentadas e em pé. há um erro… pessoas amontadas nas escadas (o que é proibido), e socadas ao longo do corredor… não cabe ninguém, mas a placa segue afirmando que caberiam mais dez…
filas e esses trens superlotados. outro inferno.
passar o resto do dia molhado e fedendo a suor.
da noite:
escrever /ou apenas ter uma inspiração compulsiva para o começo de/ um poema:
piernas flacas.
ojos redondos.
pelos de flor.
hermosa hernanda.

andar pelado em casa

[ter] 21 de fevereiro de 2017

nota 1. é hoje. ou vai ou racha.

nota 2. nota mental, sair em menos de 30 minutos de casa, porra… se mexe (11h50)

nota 3: desenvolver aquela ideia para o poema. imagens: decupagem excessiva/ausência de espaço pra manobrar/respirar/criação/liberdade do improviso.

nota 4. melhor coisa de morar sozinho: andar pelado em casa.

nota 5. menos like. vai arrumar a casa/aulas/o que fazer bicho.

nota 6. o mate anda muito amargo. cuidado com a mistura das ervas.

nota 7. esquecer suas próprias memórias é tornar-se um tanto oco.  rememorar-se é mergulhar em sua profundidade. rir-se de si, como um rio que se refaz continuamente, revoltando o que há de fundo, acalmando o que há de superfície…

nota 8. urgem. comprar shorts e bermudas.

nota 9. vitamina d é importante. mas sol só antes da nove e de sair de casa. depois é o inferno.

nota 10. sobre o papo de ontem, sobre sentir-se nu em sala, como professor. não é tanto pela performace, mas por estar envolto em algo que é familiar. não as pessoas, pelas quais vamos criando laços com o passar do tempo e em alguma medida vão tornando-se familiares também, mas acredito que é pelos assuntos que giram em uma aula de sociologia

nota 11. repetir infinitamente susana félix e jorge drexler. enquanto os outros ansiosamente caminham ou esperam… o universo seguem em queda livre até o instante da calma.

sem-titulo

nota poética avulsa – entre a crueldade do sol e escuridão, o corpo busca os fios de sombra.

entre a crueldade do sol,
esse deus implacável,
e o abraço sombrio da escuridão,
o corpo, como um deserto,
busca os fios de sombra
para aliviar a dor
de arder por inteiro
as três da tarde

nota 13. nem sempre as coisas dão certo. nem ao menos do jeito que imaginávamos. as coisas apenas seguem seu roteiro caoticamente aleatório, apesar de todos os nossos esforços. as coisas conspiram… me aguarde. um dia eu chego.

 

exercício de aproximação e distanciamentos

[ter] 14 de fevereiro de 2017

primeiro dia de aula, enfim. eu quase sem voz. mas contente por voltar.

e das palavras amontoadas por alguns dias… lembra, eu comecei dias atrás… hoje saiu assim… pera, eu sei, antes preciso dizer que vai sofrer algumas modificações aqui e ali, mas por enquanto é isso:

 

exercício de aproximação e distanciamentos
eu sempre estava lá,
só não sabia eu,
que eu quase nunca estava,
salvo em raras exceções,
quando emergia do âmago
a mais profunda das criaturas
e no mais a mais
era um corpo vazio à deriva
um espírito alheio,
um espiral, um redominho
desses dias quentes de janeiro
no mais a mais
era eu habitante,
o próprio mundo estrangeiro.
eu não estava pronto,
nunca estiverá
pra ser o porto da chegada
para ser o porto de partida.
mas quem está?
eu me ignorava ilha
era um continente deserto
um emaranhado de sinapses
uma porção de medos,
destes que todos os seres adultos
tem, por detrás dos olhos.
eu era um mapa perdido,
e não chegaríamos a lugar algum,
nos perderíamos pelo peso da noite,
dessas submersas em nevoeiro.
mas pelo acaso dos passos em falso
deu-se o fato, ela diante
de minhas ruínas.
e há certa beleza em destroços
de outra era,
artefatos desconhecidos…
feridas abertas
de povos adormecidos
eu sempre estiverá lá,
só não sabia eu,
narrar na língua dela,
as geografias da paz
e as estórias doutrora…
dos tempos de guerra.
nu, em terra neutra,
naufragava em silêncios,
escrevia no escuro,
enrodilhava-me, caracol,
nos próprios músculos ininteligíveis.
eu estava lá,
só não sabia eu,
que nunca estava
por inteiro,
parte de mim escapava
andarilho,
pedregulho
erro…
a sede que em nenhuma gota há
de encontrar cura.

shoreless e o pó da estrada

[dom] 29 de janeiro de 2017

7h30 o despertador acorda. ¡volta a dormir despertador!

11h12 ele dormiu demais, mas seu corpo ainda dói.

12h49 quase… daúde.

«Quase fui feliz um dia
Lembrar é quase promessa
É quase quase alegria, quase fui feliz à beça
Mas você só me dizia:
Meu amor vem cá sai dessa» 
Composição: Caetano Veloso / Antonio Cícero

13h28 trovoadas no céu. na vitrola só sambas de amor/dor.

15h16 copiei o texto dela e colei no googletranslate. não para traduzir, mas para ouvi-la, enquanto fazia outras coisas. aquelas palavras de mistérios, caminhos, buscas e descobertas me insinuavam uma mulher distante daquele sorriso apaixonante que ela tinha quando a vi pela primeira vez – talvez porque lhe desse substância e um gosto diferente. mesmo as marcas do tempo determinando o passar das coisas, pelas fotografias eu podia intuir que ela ainda tinha/devia ter aquele sorriso. mas essa colagemde palavras não é sobre o poder de feitiço dela em [me] encantar, de quase dez anos atrás, mas é sobre as palavras que ela escreve/fala, agora. essas palavras que oscilante entre uma carta de intenção e um poema quase místico, tem um quê de mim, da dúvidas, do que é humano, do que somos feitos… dos conselhos, das danças com seres mágicos, dos itinerários percorridos, dos mergulhos, do que é aprendido sobre si mesmo, essas versões que vamos encontrando pelo teatro da vida, peças de um mosaico sempre em desenvolvimento… do pó que vamos colhendo pelas estradas da vida.

registro: dela, a luz dos olhos e sorriso solar, que guardo vivo na memória, de quando éramos mais jovens. e hoje, mulher feita, e distante, suas palavras que narram o estranhamento de se colocar a mochila vazia num armário desarrumado esperando a próxima partida rumo ao reencontro de uma nova parte, um fragmento ainda desconhecido de si.

trilha de fundo: O Pó da Estrada – Sá, Rodrix & Guarabyra

«0 pó da estrada gruda no meu rosto, / Como a distância, matando as palavras, / Na minha boca sempre o mesmo assunto, / O pó da estrada. / O pó da estrada brilha nos meus olhos, / Como as distâncias mudam as palavras, / Na minha boca sempre a mesma sede, / O pó da estrada. / Conheci um velho vagabundo, / Que andava por aí sem querer parar, / Quando parava, / Ele dizia a todos, / Que o seu coração ainda rolava pelo mundo. / O pó da estrada fica em minha roupa, / O cheiro forte da poeira levantada, / Levando a gente sempre mais à frente, / Nada mais urgente, / Que o pó da estrada, / Que o pó da estrada.»

16h04 – Novos Baianos – Programa Ensaio 1973

nina

[sáb] 28 de janeiro de 2017

1h30 (primeira edição) organizando as coisas aqui… e se deliciando com nina simone. hoje é dia de acordar cedo. seis horas estarei de pé para um dia longo.

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7h30 (segunda edição) no meio do sono ele levanta. um banho morno rápido. um café quase-amargo. uma fatia de pizza fria. ele não está pronto pro dia, mas lá vai.

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12h05 (segunda edição) em busca dos girrasois caminho adentro… os pés submersos na areia, o dia me envolvia.

e ali na frente, horas de caminhada, duna após duna, a ilusão, que após a próxima montanha de areia se alcançaria o marulho distante.

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18h45 (segunda edição) a chuva tomou conta do corpo do homem, fez dele criança.

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notas de roda pé:

Ain’t Got No, I Got Life // lyrics by James Rado and Gerome Ragni and music by Galt MacDermot /// Ain’t got no home, ain’t got no shoes / Ain’t got no money, ain’t got no class / Ain’t got no skirts, ain’t got no sweaters / Ain’t got no faith, ain’t got no beard / Ain’t got no mind / Ain’t got no mother, ain’t got no culture / Ain’t got no friends, ain’t got no schooling / Ain’t got no name, ain’t got no love / Ain’t got no ticket, ain’t got no token / Ain’t got no God / What have I got? / Why am I alive anyway? / Yeah, what have I got? / Nobody can take away / I got my hair, I got my head / I got my brains, I got my ears / I got my eyes, I got my nose / I got my mouth, I got my smile / I got my tongue, I got my chin / I got my neck, I got my boobs / I got my heart, I got my soul / I got my back, I got my sex / I got my arms, I got my hands / I got my fingers, Got my legs / I got my feet, I got my toes / I got my liver, Got my blood / I’ve got life, I’ve got my freedom / I’ve got the life / I got a headache, and toothache, / And bad times too like you, / I got my hair, I got my head / I got my brains, I got my ears / I got my eyes, I got my nose / I got my mouth, I got my smile / I got my tongue, I got my chin / I got my neck, I got my boobies / I got my heart, I got my soul / I got my back, I got my sex / I got my arms, I got my hands / I got my fingers, Got my legs / I got my feet, I got my toes / I got my liver, Got my blood / I’ve got life, I’ve got my freedom / I’ve got life, I’m gonna keep it / I’ve got life, I’m gonna keep it» Nina Simone, Nuff Said! (1968)

O-o-h Child /// Stan Vincent /// O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / Someday we’ll get it toghether and we’ll get it undone / Someday when the world is much brighter / Someday we’ll walk in the rays of a beautiful sun / Someday when the world is much lighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / Right now right now» Nina Simone, Here Comes the Sun (1971)

26

[sex] 27 de janeiro de 2017

Estou a desmontar-me. Sou um homem, ou algo que o valha, ou já nem isto. Mas estou a desmontar-me, como um Gregor Samsa. A pele desprende-se, como uma identidade trocada, outro corpo toma o lugar do animal que sou, vou perdendo partes deste homem, e sob a velha pele morta irrompe, aos poucos e de forma dolorida, um corpo alheio, que não é o meu. Diante do espelho estranho-me. A pele arde ao desmontar-se e há uma dor que vem de algum lugar indecifrável. É uma dor dessas que nascem agudas e, sem percebemos o passar dos dias, tornam-se crônicas.

***

Sou um homem de mil demônios. Quando um homem não cuida de seus demônios de forma apropriada, eles retornam para cobrar seu preço e devorar suas certezas. Esses demônios são visitas recorrentes, constantes. Tê-lhos por perto é como ser um morto-vivo. Eles fazem teu corpo sangrar e tua mente perde-se numa névoa obscura. Tudo que há está ali, a um palmo diante do nariz, mas nada há, as poucas e frageis certezas que há algo ali adiante desfazem-se no ar… É um vazio gelado e solitário.

***

Ele esticou-se todo. Nem recordava mais a última vez que havia se alongado. Sentiu um prazer percorrer cada fibra do seu corpo. Sentiu-se maior e aberto… Sentiu que podia abraçar esse mundo ensolarado. E saiu pela varanda, percorrendo os poucos metros que separam a casa do quintal… Sentou naquela velha cadeira preta, abandonada naquela pequena varanda, e olhou para o sol da tarde, sorriu e deixou-se ficar, sentindo seu corpo tornar-se um vulcão.
Peito aberto, pele ardendo, experimentou a liberdade, sensação essa que o havia abandonado há dias, o useriam anos.

***

Contemplou as árvores, todas ainda jovens. Como crescem, pensou. Fez um esforço e tentou recuperar a imagem anterior mais distante daquela paisagem, sua memória já não conseguia recuperar, trazer novamente o mapa daquela terra antes de sua chegada. O gostoso disto é que agora há árvores, e brotos, e sombra, e flores, e insetos, e pássaros, e toda sorte de vida selvagem interagindo como um grande tecido vivo sendo tramado naquele pedaço do mundo. Há caracóis e formigas. Sorriu, sentindo como se a vida fosse isso, esse abandono intencional e despretensioso… esse ir e vir, essa dormência silênciosa da vida sobre a casca, essa morte cotidiana das velhas folhas, essa voluptuosidade das flores, esse ruído silvestre, essa erupção intensa e avassaladora dos brotos…

a dama de cílios da cor do corvo e olhos de luto dos sonetos de shakespeare

[ter] 17 de janeiro de 2017

 

fragmentos e citações do dia

nota #1. ele não olhou pra ela. não há como saber se os olhos dela procuraram os deles. se percorreram suas pernas, sua boca, sua testa, seu queixo, sua pele ressecada. ele não olhou pra ela. seus olhos estavam fixos em cada letra, em cada fonema, em cada verbo daquele livro que o transportava para luanda. mas nesta viagem, ora em luanda, ora ali, no meio do nada, imaginando quem seria ela… ele via o céu negro de africa, ele olhava com os olhos de ludo. ele sentia a substância do medo. e o sol o lembrou, abruptamente quase cegou-o ao refletir intensamente nas páginas brancas. ele pôs as mãos aos olhos, fechou o livro. ela estava ali, ao seu lado.

feita no busão, quando voltava para casa.

 

***

«the dark woman of raven brows and mournful eyes of Shakespeare’s Sonnets.» The Perfect Mate. By René Echevarria and Gary Perconte. Perf. Patrick Stewart, Jonathan Frakes, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Brent Spiner, and Famke Janssen. Dir. Cliff Bole. Star Trek: The Next Generation. Season 5, episode 21. Syndicated television. 27 April 1992. DVD. Paramount, 2002.

 

sonnet cxxvii

in the old age black was not counted fair,
or if it were, it bore not beauty’s name;
but now is black beauty’s successive heir,
and beauty slandered with a bastard shame:

for since each hand hath put on Nature’s power,
fairing the foul with art’s false borrowed face,
sweet beauty hath no name, no holy bower,
but is profaned, if not lives in disgrace.

therefore my mistress’ eyes are raven black,
her eyes so suited, and they mourners seem
at such who, not born fair, no beauty lack,

sland’ring creation with a false esteem:
yet so they mourn becoming of their woe,
that every tongue says beauty should look so.

willian shakespeare

soneto 127

o tempo antigo a negro cor não preza
ou, quando o faz, de bela não a chama;
mas hoje é sucessora da beleza
a cor que de bastarda tinha fama.

da natureza usando-se o atributo
tanto o feio alindou-se com disfarce
que o belo já não tem nome, ou reduto,
mas vive na desgraça, a profanar-se.

dizem que olhos de luto a minha amada
sob uns cílios da cor do corvo tem
as famas que de belo não tem nada

e esta falta compensam com desdém.
mas tal luto só faz por convencer
que o belo assim é que devia ser.

50 sonetos: ed. especial. Tradução Ivo Barroso

***

Pete Seeger ///  Down by the Riverside /// I’m gonna lay down my sword and shield / Down by the riverside / Down by the riverside / Down by the riverside / I’m gonna lay down my sword and shield / Down by the riverside / Study war no more /  I ain’t gonna study war no more / Ain’t gonna study war no more / Ain’t gonna study war no more / I ain’t gonna study war no more / Ain’t gonna study war no more / Ain’t gonna study war no more

Louis Armstrong /// When The Saints Go Marching In ///  Oh, when the Saints go marching in, / Oh, when the Saints go marching in, / Oh, Lord I want to be in that number / When the Saints go marching in. / Oh, when the sun refuse to shine, / Oh, when the sun refuse to shine, / Oh Lord I want to be in that number / When the sun refuse to shine. / Oh, when they crown Him Lord of all, / Oh, when they crown Him Lord of all, / Oh Lord I want to be in that number / When they crown Him Lord of shine. / Oh when they gather round the throne, / Oh when they gather round the throne, / Oh Lord I want to be in that number / When they gather round the throne. // Compositor: Katherine E. Purvis / James M. Black

 

mas quando eu estiver morto suplico que não me mate

[sex] 13 de janeiro de 2017

PELA MANHÃ

acordei assim,
sentimental,
meio perdido em mim.
o que é um tanto normal,
um lugar cotidiano.
e me peguei olhando nossas fotos,
um dia desses,
e o que era ontem,
hoje é tão distante.
você tem um sorriso bonito,
vai contente,
meus olhos uma lágrima,
por não poder ser
constante,
por que eu preciso tanto me esconder?
e desses fotogramas,
fragmentos da memória,
desatam um misto de saudade do que fomos,
porque por alguma fração do tempo fomos felizes.
meus olhos quase verdes iam dentro de ti,
eu te amei tanto,
que por um instante
acreditei em mim.
tua graça, tão única,
foi capaz de romper
a minha dura casca
a minha mudez
essa minha tristeza.
essa loucura,
essa mortal insensatez.
e por tudo isto,
te amei.
no instante que fui contigo,
fui muito além do que sozinho
um dia poderei ser.

***

nessa semana tudo ficou em suspensão. lá no fundo da memória emergiu uma canção: «Se fiquei esperando meu amor passar / já me basta que então eu não sabia amar / e me via perdido e vivendo em erro / sem querer me machucar de novo / por culpa do amor / … / Se fiquei esperando meu amor passar / já me basta que estava então longe de sereno / e fiquei tanto tempo duvidando de mim / por fazer amor fazer sentido…»

***

o título vem dessa canção: Sutilmente / Composição: Nando Reis e Samuel Rosa / E quando eu estiver triste / Simplesmente me abrace / Quando eu estiver louco / Subitamente se afaste / Quando eu estiver fogo / Suavemente se encaixe / E quando eu estiver triste / Simplesmente me abrace / E quando eu estiver louco / Subitamente se afaste / E quando eu estiver bobo / Sutilmente disfarce / Mas quando eu estiver morto / Suplico que não me mate, não / Dentro de ti, dentro de ti / Mesmo que o mundo acabe, enfim / Dentro de tudo que cabe em ti / Mesmo que o mundo acabe, enfim / Dentro de tudo que cabe em ti.

PELA TARDE: não se demore por cá, vá.

_____

adendo: pelo meio da tarde lá vou eu. gordo, careca, com dermatite no meio da face, depois de dias esperando, ou seria um mês, determinado para resolver seja lá o que for… mas quando chego, problema 1. descubro que preciso pagar em cash, n]ao tenho cash. mas tem cartão, basta um caixa e um saque. problema dois… fila gigante. problema três… banco fora do ar. problema quatro, sistema voltou…, mas eis que percebo que meu cartão venceu em dezembro. que bosta… agora é voltar e recomeçar amanhã. e visitar o banco segunda.

o lado bom é que enfim resolvi ler agualusa e seu teoria geral do esquecimento.

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notaderodapé: hoje é aniversário de meu irmão.

tout passe, tout casse, tout lasse

[seg] 2 de janeiro de 2017

fora do ar.

todo excesso esconde uma falta.

***

o ano virou. e eu parei. dia vinte e oito dia vinte nove pintei, e finalmente vi stranger thing, dia trinta comecei a maratona de duas temporadas da série pós-apocaliptica the 100; dia trinta e um dormi quase o dia inteiro, e finalizei a maratona. e dia primeiro… li poesias.

hoje, mateei. talvez pinte logo mais. ou faça um poema [fiz uns rascunhos]. amanhã será meu primeiro compromisso exterior, ou seja, fora de casa, do território familiar…

é… o ano já começou.

***

quadro-geral:

falta vitamina d (dessas trocas de horário malucas, se dorme de dia e se acorda de noite). excesso de alimentos oxidantes (do combo: rotina comer-dormir+ festividades de final de ano). dermatite intensa. leve tédio hoje. fim dos dias ociosos… amanhã cessarão os dias inúteis.

***

e porque cansei, segue o rascunho

«ele sofre com a mordida
dada num molde de gesso.»
In O empalhador de cisternas, de José Humberto Silva Henriques.

exercício sobre o incógnito som

Nu e lasso, /descalço, impassível /
Lasso, pelos passos não dados / pelo não-passo
E pelo processo que passa avesso
Num progresso de rima barata

Rumo ao sucesso dessa vida rata
Repleta de abscessos, excessos de nada,
Doses de dor, de silêncio espesso,
De pus, mudez, e moldes de gesso,

No fosso das possibilidades
Um verso, o osso, o erro-crasso
O sussuro incerto, e o incógnito

Fossíl-humano, mas ainda aceso.

o ciclone, a aroeira e a pitangueira

[dom] 4 de dezembro de 2016

e um ciclone passou sobre nossas cabeças, nesse domingo, na madrugada.

telhas voaram, árvores aos montes… fiações elétricas partiram-se ou foram ao chão. ao lado de minha casa, o que me amendrontava era uma gigantesca árvore… a mesma que me protegeu do vento.

mas uma árvore caiu no terreno.  e na tarde de domingo, plantei duas (uma aroeira e uma pitangueira).

***

o que pensei pela manhã, enquanto tomava meu mate e caminha pela rua, observando a devastação…

as árvores nascem antes das cercas / as árvores não respeitam as cercas / as árvores morrem rompendo as cercas.

 

certas coisas

[qua] 30 de novembro de 2016

\Delta x_{i}\Delta p_{i}\geq {\frac {\hbar }{2}}

sobre essas coisas cotidianas… vocabulário, ouvir, falar, traduzir, entendimentos e incompreensões… ideias, visões de mundo, violência simbólica e estrutural… movimentos… ciência e revolução.

***

das aulas (argumentos):

  • dificuldade de traduzir uma ideia usando palavras que não foram pensadas.
  • dificuldade de traduzir uma ideia usando palavras que não foram pensadas (dentro de um corpo teórico).
  • é lenta a percepção, mas as vezes ele saca o que está rolando…
  • confundiu-se tudo, no debate não havia fatos, apenas opiniões rasas.
  • primeiro: há diferença de qualidade entre opiniões rasas e opiniões profundas? (posso reduzir binariamente/dicotomicamente?)
  • segundo: se há, o que há no raso (de profundo) e o que há no profundo (de raso)?
  • terceiro: se há, é possível o diálogo entre elas?
  • quarto: se não é, há possibilidade um cambio de qualidade das opiniões?
  • quinto: se sim, como provocá-lo.

 

****

há dias que são profundos.
sinto-me absurdamente só
neste vasto universo.
como se não houve signo
algum capaz de traduzir
a totalidade do ser.
e não há mesmo.
há a ilusão de que se é.
e há a limitada capacidade
de ler as tendências,
de captar os fragmentos
do movimento…

***
o que me assusta nisto tudo
são as certezas que as pessoas tem
são as certezas que as vezes tenho
mas há dias assim, que a gente respira…

expira e inspira… medita, expira, respira…
e por ai vai, com calma.

***

ele parou diante dela e disse: calma ai, vou aí, não… não vou entrar no teu jogo. vou ficar aqui, nas minhas posições, observando tu, nas tuas posições aí. quem certo, quem errado… não vamos ao caso agora. essa guerra é lenta, e profunda… evoca narrativas enraizadas. e as narrativas provocam dor. pois nos estabilizam ao nos amarrar e prender em determinadas posições… todavia, algumas, possibilitam que nos libertemos. das narrativas que matam às narrativas que libertam (que muitas vezes são a mesma).

narrativas nos possibilitam o confronto: língua na língua. ideia dentro de ideia.

***

isto acima me recorda um poema nunca terminado: «quero tu em terreno neutro, nua, narrando em tua língua todas as estórias dos tempos futuros de guerra…»

exercício sobre a memória

[seg] 21 de novembro de 2016

dia nacional da poesia

[seg] 31 de outubro de 2016
das coisas cotidianas - e um exercício sobre as raízes.

minha agenda reclamava, havia uma reunião de formação com articuladores… ofertada pela sed [secretaria de educação]… mas eu precisava de um tempo só. precisava me demorar fazendo quase nada… dentro de mim, todo o meu ser alertava: hoje não é dia pra se correr. e talvez o nariz trancado, a dificuldade alérgica de respirar… talvez a falta das horas adequadas de sono… ou mesmo por segunda-feira, o dia mais dificil de todos. mandei um recado à direção avisando que não poderia ir. e voltei a dormir.

hoje, é o dia nacional da poesia¹, e não há melhor momento para começar uma ideia²

#umpoetaumpoemapordia

Hoje comemora-se o aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, e é dele o poema que colo abaixo

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer.

Esse amanhecer
mais noite que a noite.

***

e agora algumas palavras minhas…

exercício sobre as raízes

por vezes eu preciso de gente.
por vezes eu preciso de solidão.
por vezes solitudo soliente,

noutras gentidão,

vasto, do maior que o ão.

 

 

notas de rodapé
1. DIA NACIONAL DA POESIA
Lei 13.131/2015, que criou oficialmente o Dia Nacional da Poesia.
Dia 31/10 é data de aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.
Até 2015 extraoficialmente era comemorado no dia 14 de março.
Era uma homenagem ao Castro Alves.]

2. UM POEMA POR DIA
inspirada num blogue que encontrei pela rede há um tempo... 
http://poemadia.blogspot.com.br/
e outros espaços como este
https://www.facebook.com/um-poema-por-dia-195108683859502/ 
mas, sobretudo, para alimentar minha página de poemas,
já que não escrevo um poema por dia...
e ainda fazer o exercício de ler
e pesquisar mais sobre poesia.

exercício sobre o desejo da palavra

[ter] 11 de outubro de 2016

Sou a porra de um viciado…

viciado em dor.

dê tempos em tempos

me pego olhando algumas fotos dela,

relembrando aquele amor tão curto

vivido… anos atrás.

sou um cara esperto,

pra sacar que eu não sou nada esperto

esperto porra nenhuma,

e que estou um bocado perdido

nesta loucura toda que é a minha vida.

cara sério, bom moço, aparentemente normal,

não cumpro quase nenhum requisito,

um desajustado sob a casca

do um tudo bem, ‘tá tudo certo…

não há nada certo, e tudo é um tanto injusto.

e sabe esses artigos de auto-ajuda

dizendo pra voce ficar longe dessas pessoas

vampirescas, sugadoras de nossas energias…

e dia sim, dia não, eu me pergunto:

como ficar longe desta

parte significativa de mim,

que nesses dias tristes e ansiosos,

me envolve por inteiro,

o evapora toda minha energia vital.

***

talvez seja por ai,

eu ficar longe de todo mundo,

sou a porra de um cara viciado em dor,

um zé mané narcisista,

e tímido ao extremo,

inconstante, suicida em potencial…

***

eu ando triste por estes dias,

e tudo sem motivo aparente…

ontem, apenas foi quase impossível sair da cama,

cheguei a inventar uma dúzia de desculpas

para faltar ao unico compromisso do dia…

meu trabalho.

mas

quase todas as segundas são assim,

dificeis de levantar…

***

e agora mudando de assunto: estou pensando em fazer vestibular… letras? o fetiche de fazer letras… todas as minhas segundas opções, nos cinco vestibulares que prestei…

ou serviço social? reaproximar-me da teoria… e num novo local de atuação… me parece ser mais palpável e sensata essa opção.

mas porra… eu não sou sensato…

***

exercício sobre o desejo da palavra

e o poema não brota de minha boca. / ele não tem som. / ele não traduz nada. / tão pouco decifra o indizível. / ele apenas não está ali. / não há raiz. //  só o que resta é essa ansia de recebe-lo. / de tê-lo por perto, / e não importa se a curto tempo, / de passagem, estrangeiro,  / como os olhos desconhecidos / que se esbarram / num infinito atômo de tempo… / e mergulham-se, insanos e negros, / quanticamente ao nada. // esse poema que não está… / e que nunca será, / e que um dia padeceu disto… / de estar e ir-se qual o vento / , as palavras, / o toque suave, / a saudade, / o pó, / o aroma quente… / o gosto esvaecido dos lábios da coisa amada. // é só isto, / esse resto de homem / sozinho pela rua… / trinta e poucos, / alguns pelos brancos, / um medo de amar…  / uma noite longa…  // já sinto saudades tuas, / ó poema que nunca vinha… / e agora já era.

[sobre os dois meses que fiquei procurando um poema… anotei até algumas coisas em folhas soltas… mas nada, não havia um mote. e eis que o mote surge… a dificuldade de escrever um poema… há uma duzia desses pelo blogue. esse exercício acima, fiz agora. e vai assim, cru]

 

 

 

 

o homem irracional

[qua] 31 de agosto de 2016

«essa chuva, esse chumbo, essa vida acinzentada. que agonia é se perde de si… não há nada no horizonte.»

 

e haviam outras palavras e imagens naquele fichamento, eram fragmentos de poesia coletados ao longo de dias, e que agora estão perdidos em alguma parte desta pilha de livros e folhas sobre a mesa – uma hipótese. e repito aqui o que disse noutro dia, quanto mais sozinho fico mais dificuldade tenho em voltar ao contado de outras pessoas… e há um tempo atrás, mesmo a rotina do trabalho, me ajudava a levar a vida em frente, mas por essa semana… tá tenso, pesado demais… animo zero. e preciso arrumar os diários, os planos de aula, os fragmentos de poesia… minha rotina. essa semana a vida anda um bocado monotona e vazia, demais… perigosamente vazia demais.

busão-sala de aula-busão-quarto-busão…

ps1: apenas algumas risadas na maratona woody allen dos ultimos dias. o filme de hoje foi irracional man, leia aqui a resenha de marcelo hessel sobre o filme.

 

exercício sobre a segunda-feira

[ter] 28 de junho de 2016

se eu não tivesse perdido
você, hoje,
nessa segunda-feira,
jamais saberia
das coisas agridoces,
do vento frio na face,
da brisa sobre as árvores
do balé do bando que avoa
da arrevoada dos pássaros
da coreografia dos doces cães
das cores quentes
que banham o céu
quando da morte do sol.

se eu não tivesse perdido
jamais saberia
da caminhada solitária
descalço pela praia
sal pela barba áspera
e mar de folhas ocres
escondendo as pedras no chão.

se eu não tivesse perdido
jamais saberia
que em mim há
uma lenta necessidade
de deixar-se qual nuvem a esvaecer
pela noite que envolve toda a vida…

e que não há fogo
que me ascenda
ou frio que me congele.
apenas me é doce
essa morte, sem você,
em plena segunda-feira.

exercícios sobre as faltas e o excesso de ausências

[qua] 11 de maio de 2016

o mundo é uma tempestade pesada
e incrivelmente cinza que se achega
é ventania que vem arrastando folhas,
árvores, marés e todos os corpos frágeis pela frente
é uma tormenta encharcando meu corpo exausto…

e as palavras dela, olho no olho,
mistura de canto, lamento e berros
vão cravando… ecoam aos gritos
no meu ouvido mudo e incapaz

quem sabe eu acorde
deste sono profundo
quem sabe eu escape
deste buraco fundo
quem sabe eu mude
e desvista-me dessas rimas baratas
desse adiamento de paixões raras
dessa salmora de medos e desculpas
desse lamento cínico e plástico

o mundo visto pela minha janela
é um tempestade pesada
e de chumbo que me leva para tão fundo
é ventania que rasga e despedaça
é tormenta que afunda
palavras que cortam
olhos em pranto
eu, um bocado dela
sangro…

e é tudo ao mesmo tempo
e falta algo…

***
apenas
não sou constante
não consigo.
prefiro,
ferir-me,
na solidão
empoeirada
das estantes.

e o poema não tinha
consigo
qualquer arma
apenas armava…

a falta e o excesso de ausências.

in a sentimental mood e o exercício à mulher amuada

[dom] 8 de maio de 2016

exercício à mulher amuada

amuada,
tua boca romã
narra em silêncio
a distância
dos meus lábios mudos.

amuada,
teu olhar noir,
distraído,
contrasta co’a
tua língua árabe intocada.

amuada,
metade do mundo é negra
como nossos pelos cacheados,
a outra metade é triste
com’a solidão em nossa pele.

Vai-se meu corachón de mib:
ai, Rab, si se me tornard?
Tan mal me dóled li’l-habib;
Enfermo yed, quando sunarád?*
(Lírica dos Moçárabes, 1040)

jarcha 9

tema de fundo:

exercícios sobre o cansaço e a rotina

[qui] 5 de maio de 2016

arremesso a pedra
sobre a água
a poesia é pesada.

***

rotina do dia
poesia de pedra
manhã pesada.

***

quando a gravidade
arca o corpo
e o peso da vida
torna tudo quase morto

a poesia desaparece,
intangível,
como um sonho
que só existe
quando habita,
o sono imemorial.

exercício à paris, hong kong, berlin, barcelona e moscow

[ter] 3 de maio de 2016

exercício à paris, hong kong, berlin, barcelona e moscow

uma taça tinta
uma gata mourisca,
uma parede de concreto armado,

e foi naquela miragem no meio das dunas
ou naquele instante em que a onda do mar
de encontro a areia partia-se
em som, água, sal,
partículas minerais
e espuma…

na memória,
paz, e uma imagem
dessa saudade agridoce,
de quando éramos,
um encontro pela tarde do mundo,
sem pressa de amanhãs
sem as dores de ontem,
sem a secura dos dias frios.

éramos amantes.

a song to play when i’m lonely

[dom] 17 de abril de 2016

trilha

texto

enquanto alguns tentam mais um golpe contra parte do mundo. ontem levei dois socos no estômago, que me fizeram olhar a lona lá embaixo. mas o que me mais me faz sangrar são essas socos que insisto em dar nesta parede invisível… tentando ir para algum lugar que não dá… há cordas que te prendem neste jogo.

cambio, fim da manhã de domingo.

***

fragmento de poesia

“palavras fluem sob a gélida e silenciosa camada limite que é a superfície de um corpo”

exercício sobre as cores de alice

[ter] 5 de abril de 2016

sob um certo céu blue / antes do sol nascer / e o cor de rosa das nuvens / esvanecer // a lua sorri / como aquele gato cinematográfico / e alice passar por mim / com seus olhos de vidro / e sua boca de mangá // tudo nesta banda me devora / linha, curva, desenho / quadro em quadro / tua imagem desenhada / teu corpo indo / a saudade ficando / neste estar / efêmero e fatal // amanhece / se aproximam grandes nuvens de chumbo / e a grafia final / deste poema atemporal.

exercício em movimento

[seg] 4 de abril de 2016

pedra sobre pedra / palavra após palavra / algumas são postas pelas mãos / outras estão ali antes da história // pelo caminho da vida / por vezes tão veloz / noutras lentamente / observando o tempo / no bebe sonolento / que se rende, entregue / indefeso ao deus do sono / ou na criança ligeira / que se desprende do real / e percorre a viva arte de deliberar / ou na mulher que sorri para o vidro / ou simula o sorriso não sorrido em plena escada / pronta para partir / ou nos humanos que se amontoam em vagões enlatados / na juventude que se beija alheia / ao mundo estranho / no muro pichado que nos demarca / enquanto propriedade de algo e/ou alguém / ou mesmo neste poema esvaziando-se  / que disfarça o que se sente… / essa obscura capacidade de ainda ser gente / ou na coleira do cão que o asfixia em plena corrida… ou no hábito das pessoas que pintam os cabelos / que raspam os pelos / que adormecem entre outras gentes / que não esperam mais / quando isto é em vão.

pedra sobre pedra / palavra após palavra / a vida segue sua lavra / no labirinto dos corpos e mentes / sentidos em movimento / registro do efêmero / tão permanente

 

ingleses do rio vermelho, fpolis.

dois exercícios

[sáb] 5 de março de 2016

exercício sobre o espelho

imerso na massa de sonâmbulos / quando acordava tudo que via / era espelho.

exercício sobre o gato preto

a solidão do meu preto bonito / é um cordão perdido / deste novelo de pelos.

 

 

concreto e cromo suave

[sex] 15 de janeiro de 2016

#um

de repente bateu aquela sensação que a vida não espera… que o tempo gasto à toa – aquele que o cão gasta dando circulo antes de deitar – passa, nem sempre como os passarinhos. e como se eu precisasse ficar preso, enredado nestes cabos soltos, para suportar tudo que não se é aqui e agora – pensei esta mesma ideia de diversas formas por alguns dias… e o que fiz foi: troquei as flores de lugar; cortei projeto de árvores; podei o chuchuzeiro e o pé de maracujá. fiz uma ponte para lugar nenhum; criei uma sala vazia… e um quartel inacabado que pintarei de concreto e cromo suave.

#dois

enterrei a minha mão ressecada e cheia de cortes na terra úmida esperando brotar em mim aquela viscosidade que há na vida, em todas as suas formas… deixei minha mão em algum canto do quintal. vá que da terra, após a morte, brote um poema em forma de caracol ou flor.

#três

«El hombre es el animal que pregunta. El día en que verdaderamente sepamos preguntar, habrá diálogo. Por ahora las preguntas nos alejan vertiginosamente de las respuestas.» Cortázar.

#quatro

e manhã acabou. e o dia começou…

 

moça do olho de peixe

[dom] 13 de dezembro de 2015

a distância do tempo para as composições
limpei o quarto e encontrei o poema perdido…
lá do dia 7/8 de novembro. e vai com o ficou.

“olho de peixe
vai contra a luz do céu
sua /com/posição…

e seu olhar é um borrão
de um azul acinzentado
e opaco

na rede do sua mirada
enviesada,
que rasga a paisagem,
empaco.

desvio
intento,
escapo

ilusão de óptica
fisgado:
nas suas alpargatas jeans,
nos seus rasgos na calça,
no seu borrão azul,
moça de olho de peixe.

vargem grande/sambaqui. 7-8/11/2015

e há estes outros:

#1 um haikai

exercício em sambaqui: do mirante ao profundo mar

[sáb] 5 de dezembro de 2015

porque eu não estou afim de ver ninguém não… vontade de ficar em silêncio e ser consumido pela melancolia, o que dela vira poesia. tarde cinza, linda, encrespada, fria, solitária.

 

exercício em sambaqui: do mirante ao profundo mar

desço a ladeira
como quem houve um sax
suave e rouco
ao longe
passo a passo
sem moldura
o mar encrespa
a canoa segue ancorada,
sem saber onde ir,
balança

e eu me demoro
nesta tarde que desliza
sob o céu pesado
por uma frota nebular
que invade a paisagem…

as árvores, insanas, acenam
ao vento que me pede pra ficar
suspenso, em seus braços invisíveis
e se eu tivesse a força necessária
seria tua tempestade:
suave e fatal.

mas me deixo
ladeira abaixo
como quem houve um sax
e segue amargo
distante
passo a passo
sem doçura
pressentindo a partida
um encouraçado vazio
sem saber onde ir,
que dentro de si
naufraga.

4-5/12.15. Sambaqui/floripa.

trilha de fundo: barulho do mar, do vento nas árvores… e embalado pela suavidade de tok tok tok.

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