Archive for the 'Carlos Drummond de Andrade' Category

dia nacional da poesia

[seg] 31 de outubro de 2016
das coisas cotidianas - e um exercício sobre as raízes.

minha agenda reclamava, havia uma reunião de formação com articuladores… ofertada pela sed [secretaria de educação]… mas eu precisava de um tempo só. precisava me demorar fazendo quase nada… dentro de mim, todo o meu ser alertava: hoje não é dia pra se correr. e talvez o nariz trancado, a dificuldade alérgica de respirar… talvez a falta das horas adequadas de sono… ou mesmo por segunda-feira, o dia mais dificil de todos. mandei um recado à direção avisando que não poderia ir. e voltei a dormir.

hoje, é o dia nacional da poesia¹, e não há melhor momento para começar uma ideia²

#umpoetaumpoemapordia

Hoje comemora-se o aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, e é dele o poema que colo abaixo

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer.

Esse amanhecer
mais noite que a noite.

***

e agora algumas palavras minhas…

exercício sobre as raízes

por vezes eu preciso de gente.
por vezes eu preciso de solidão.
por vezes solitudo soliente,

noutras gentidão,

vasto, do maior que o ão.

 

 

notas de rodapé
1. DIA NACIONAL DA POESIA
Lei 13.131/2015, que criou oficialmente o Dia Nacional da Poesia.
Dia 31/10 é data de aniversário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.
Até 2015 extraoficialmente era comemorado no dia 14 de março.
Era uma homenagem ao Castro Alves.]

2. UM POEMA POR DIA
inspirada num blogue que encontrei pela rede há um tempo... 
http://poemadia.blogspot.com.br/
e outros espaços como este
https://www.facebook.com/um-poema-por-dia-195108683859502/ 
mas, sobretudo, para alimentar minha página de poemas,
já que não escrevo um poema por dia...
e ainda fazer o exercício de ler
e pesquisar mais sobre poesia.

ilhas perdem o homem

[qui] 19 de maio de 2016

nessa terra gelada…

de fusos aleatórios…

meu corpo paga pela cansaço.

e eu não consigo produzir nenhuma apresentação para as aulas. só sei do improviso… que é correr com os olhos vendados sobre uma corda bamba no trigésimo terceiro andar de edifício.

e porque em plena madrugada, ela, em minha timeline, me rememora:

Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.
Ilhas perdem o homem.

E do indizível, você falou, Drummond?

 

ou o próprio drummond

0:00 Infância 2:47 Quadrilha 3:17 Os Ombros Suportam o Mundo 4:46 Mãos Dadas 5:47 Mundo Grande 8:29 José 10:19 Viajem na Família 14:10 Procura da Poesia 17:33 O Mito 24:56 O Lutador 27:36 Memória 28:05 Morte do Leiteiro 31:15 Confissão 32:13 Consolo na Praia 33:27 Oficina Irritada 34:19 Fazenda 35:05 Caso do Vestido 41:19 Estrambote Melancólico 42:11 O Enterrado Vivo 43:09 Destruição 44:00 Intimação 45:06 Alta Cirurgia 46:48 Para Sempre 47:40 Canto do Rio em Sol 50:54 Boitempo 52:16 Os Pacifistas 54:23 Cultura Francesa 55:02 Falta um Disco 57:54 Amor e Seu Tempo 58:45 Obrigado 1:00:08 Lira Romantiquinha 1:01:04 O Homem as Viagens 1:03:35 Essas Coisas 1:04:20 Parolagem da Vida 1:06:19 Declaração de Amor

sentimento do mundo

[qua] 16 de março de 2016

há um cansaço indizível.

uma vontade de fuga…

nem as janelas da semana me libertam. nem os planos traçados… pois isto que sinto é de outra ordem… mistura a dor do corpo inflamado e doente ao sonho dilacerado e impotente. estou quase triste, meio morto: exausto.

apenas colo um poema do camarada drummond,

de carlos drummond de andrade, sentimento do mundo, poema homônimo ao seu livro de 1940.

«Sentimento do mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desafiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais que a noite.»

 

olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò

[sex] 5 de junho de 2015

Mar de Sophia – Faixas

#1 Canto de Oxum // Compositores: Pedro Amorim e Paulo Cesar Pinheiro

«Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar» Sophia De Mello Breyner

Yèyé e yèyé s’oròodò, yèyé o yèyé s’oròodò / Olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò [Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / É o mar, é o mar / Fé-fé xorodô] / Oxum era rainha, / Na mão direita tinha / O seu espelho onde vivia á se mirar //

#2.1 Yemanjá Rainha do Mar. // Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Dandalunda, Janaína, / Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, / Maria, Dona Iemanjá. / Onde ela vive? / Onde ela mora? / Nas águas, / Na loca de pedra, / Num palácio encantado,/ No fundo do mar. / O que ela gosta? / O que ela adora?/ Perfume,/ Flor, espelho e pente / Toda sorte de presente / Pra ela se enfeitar. / Como se saúda a Rainha do Mar? / Como se saúda a Rainha do Mar? / Alodê, Odofiaba, / Minha-mãe, Mãe-d’água, / Odoyá! / Qual é seu dia, / Nossa Senhora? / É dia dois de fevereiro/ Quando na beira da praia / Eu vou me abençoar./ O que ela canta?/ Por que ela chora?/ Só canta cantiga bonita / Chora quando fica aflita / Se você chorar./ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Pescador e marinheiro / que escuta a sereia cantar./ É com povo que é praieiro que Dona Iemanjá/ quer se casar. //

#2.2 Beira-Mar // Composição: Roberto Mendes / Capinan

Dentro do mar tem rio… / Dentro de mim tem o quê? / Vento, raio, trovão / As águas do meu querer /Dentro do mar tem rio… / Lágrima, chuva, aguaceiro / Dentro do rio tem um terreiro / Dentro do terreiro tem o quê? /Dentro do raio trovão / E o raio logo se vê / Depois da dor se acende / Tua ausência na canção /Deságua em mim a paixão / No coração de um berreiro / Dentro de você o quê? / Chamas de amor em vão /Um mar de sim e de não / Dentro do mar tem rio / É calmaria e trovão / Dentro de mim tem o quê? /Dentro da dor a canção / Dentro do guerreiro flor / Dama de espada na mão / Dentro de mim tem você /Beira-mar / Beira-mar / Ê ê beiramar / Cheguei agora / Ê ê beira-mar / Beira-mar beira de rio / Ê ê beira-mar //

#3.1 Marinheiro Só // Composição: Clementina de Jesus

Eu não sou daqui / Marinheiro só / Eu não tenho amor / Marinheiro só / Eu sou da bahia/ Marinheiro só/ De são salvador / Marinheiro só/ Lá vem, lá vem / Marinheiro só / Como ele vem faceiro/ Marinheiro só / Todo de branco/ Marinheiro só / Com o seu bonezinho / Marinheiro só/ Ô, marinheiro marinheiro / Marinheiro só / Ô, quem te ensinou a nadar / Marinheiro só / Ou foi o tombo do navio / Marinheiro só / Ou foi o balanço do mar/ Marinheiro só //

#3.2 O Marujo Português // Composição: Linhares Barbosa & Arthur Ribeiro

«Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.» Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando ele passa, o marujo português / Não anda, passa a bailar, como ao sabor das marés / Quando se ginga, faz tal jeito, tem tal proa / Só pra que se não distinga / Se é corpo humano ou canoa /Chega a Lisboa, salta do barco e num saltoVai parar à Madragoa ou então ao Bairro Alto / Entra em Alfama e faz de Alfama um convés / Há sempre um Vasco da Gama num marujo português /Quando ele passa com seu alcache vistoso / Traz sempre pedras de sal, no olhar malicioso / Põe com malícia a sua boina marujaMas se inventa uma carícia, não há mulher que lhe fuja /Uma madeixa de cabelo descomposta / Pode até ser a fateixa de que uma varina gosta / Quando ele passa, o marujo portuguêsPassa o mar numa ameaça de carinhosas marés //

#4 Poema Azul //Composição: Sérgio Ricardo

O mar beijando a areia / O céu e a lua cheiaQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céuE a lua cheiaQue prateia os cabelos do meu bemQue olha o mar beijando a areiaE uma estrelinha solta no céuQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céu e a lua cheiaum beijo meu //

«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, / A tua beleza aumenta quando estamos sós / E tão fundo intimamente a tua voz / Segue o mais secreto bailar do meu sonho, / Que momentos há em que eu suponho / Seres um milagre criado só para mim.» Sophia de Mello Breyner Andresen

#5 Kirimurê // Composição: Jota Velloso

Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim/ Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui / Rendeira da beira da terra / Com a espuma da esperança / Kirimurê linda varanda / De águas salgadas mansas / De águas salgadas mansas / Que mergulham dentro de mim / Meu Deus deixou de lembrança / Na história dos sambaquis / Na fome da minha gente / E nos traços que eu guardo em mim / Minha voz é flecha ardente / Nos catimbós que vivem aqui / Eira e beira / Onde era mata hoje é Bonfim / De onde meu povo espreitava baleias / É farol que desnorteia a mim / Eira e beira / Um caboclo não é Serafim / Salve as folhas brasileiras / Oh salvem as folhas pra mim / Se me der a folha certa / E eu cantar como aprendi / Vou livrar a Terra inteira / De tudo que é ruim / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui /Eu sou Tupinambá que vigiaEu sou o caboclo daqui / Eu sou Tupinambá que vigia / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui //

#6 Grão de Mar  // Composição: Márcio Arantes e Chico César

«Através do teu coração passou um barco / Que não para de seguir sem ti o seu caminho» Sophia De Mello Breyner

Lá no meu sertão plantei / Sementes de mar / Grãos de navegar / Partir / Só de imaginar, eu vi / Água de aguardar / Onda a me levar / E eu quase fui feliz /Mas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei, perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dáNão dói, nem diz /E o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mimMas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei,perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dá / Não dói, nem dizE o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mim //

 #7.1 Quadrinha: O Mundo é Grande // Autor: Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar //

«O mar azul e branco e as luzidias/ Pedras – O arfado espaço / Onde o que está lavado se relava / Para o rito do espanto e do começo / Onde sou a mim mesma devolvida / Em sal espuma e concha regressada / À praia inicial da minha vida.» SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in MAR [Antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares] (Ed. Caminho 1.ª ed., 2001, 7ª ed., 2009)

#7.2 Cirandas // Autora: Sueli Costa / Domínio Público

Cavalo marino / Dança no terreiro / Que a dona da casa / Tem muito dinheiro / Cavalo marinho / Dança na calçada / Que a dona da casa / Tem galinha assada // Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Foi foi foi minha mãe  / A sereia do mar //A maré encheu / A maré vazou / Os cabelos da morena / O riacho carregou // Vadeia Dois-Dois / Vadeia no mar / A casa é sua Dois-Dois / Eu quero ver vadiar // O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / Arriba a prancha toca o búzio / Nós queremos navegar / Ai ai ai ai / Nós queremos navegar //

#8.1 Debaixo D´água / Agora // Autores: Arnaldo Antunes – Tony Bellotto/Charles Gavin/Branco Mello/Nando Reis/Marcelo Fromer

Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar // Debaixo d’água se formando como um feto / Sereno, confortável, amado, completo / Sem / chão, sem teto, sem contato com o ar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / Todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto / Sem lamento e sem saber o quanto / Esse momento poderia durar // Mas tinha que respirar / Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente / Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo / Aliviado, sem perdão e sem pecado / Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar / Mas tinha que respirar / Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Agora que agora é nunca / Agora posso recuar / Agora sinto minha tumba / Agora o peito a retumbar / Agora a última resposta / Agora quartos de hospitais / Agora abrem uma porta / Agora não se chora mais / Agora a chuva evapora / Agora ainda não choveu / Agora tenho mais memória / Agora tenho o que foi meu / Agora passa a paisagem / Agora não me despedi / Agora compro uma passagem / Agora ainda estou aqui / Agora sinto muita sede / Agora já é madrugada / Agora diante da parede / Agora falta uma palavra / Agora o vento no cabelo / Agora toda minha roupa / Agora volta pro novelo / Agora a língua em minha boca / Agora meu avô já vive / Agora meu filho nasceu / Agora o filho que não tive / Agora a criança sou eu / Agora sinto um gosto doce / Agora vejo a cor azul / Agora a mão de quem me trouxe / Agora é só meu corpo nu / Agora eu nasço lá de fora / Agora minha mãe é o ar / Agora eu vivo na barriga / Agora eu brigo pra voltar / Agora / Agora / Agora //

#9 Memórias do Mar // Composição: Vevé Calazans / Jorge Portugal

A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai /A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai / Quem um dia foi marinheiro audaz / Relembra histórias / Que feito ondas não voltam mais /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá /Tempestades e ventos / Tufões violentos / E arrebentação / Hoje é calmaria / que dorme dentro do coração /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é aqui / Maré mansa e morna / De Plataforma ou de Peri-PeriVelhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá //

#10 As Praias Desertas //Composição: Antonio Carlos Jobim

«Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa.» /Sophia de Mello Breyner Andresen / in ‘Poemas escolhidos’ 2004

As praias desertas continuam / Esperando por nós dois / A este encontro eu não devo faltar / O mar que brinca na areia / Está sempre a chamar / Agora eu sei que não posso faltar / O vento que venta lá fora / O mato onde não vai ninguém / Tudo me diz / Não podes mais fingir / Porque tudo na vida há de ser sempre assim / Se eu gosto de você / E você gosta de mim / As praias desertas continuam / Esperando por nós dois //

#11.1 O Vento // Composição: Dorival Caymmi

Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / (Vento que dá na vela / Vela que leva o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / Vento que dá na vela / Vento que vira o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã) / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento //

«É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo» Procelária (In.: Geografia, de Sophia Andresen)

#11.2 A Dona do Raio e do Vento // Composição: Paulo César Pinheiro

O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / A minha voz é o vento de maio / Cruzando os ares, os mares e o chão / E meu olhar tem a força do raio / que vem de dentro do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / Eu não conheço rajada de vento / Mais poderosa que a minha paixão / E quando o amor relampeia aqui dentro / Vira um corisco esse meu coração / Eu sou a casa do raio e do vento / Por onde eu passo é zunido é clarão / Porque Iansã desde o meu nascimento / Tornou-se a dona do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / O raio de Iansã sou eu / E o vento de Iansã também sou eu / O raio de Iansã sou eu //

#12 Lágrima // Composição: Roque Ferreira

Lágrima por lágrima hei de te cobrar / Todos os meus sonhos que tu carregaste, hás de me pagar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos, de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que eu trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar… / Lágrima por lágrima.

#13.1 Noiva: Cantiga da Noiva // Composição: Dorival Caymmi

É tão triste ver / Partir alguém / Que a gente quer / Com tanto amor / E suportar / A agonia / De esperar voltar… / Viver olhando / O céu e o mar / A incerteza / A torturar / A gente fica só / Tão só / A gente fica só / Tão só… / É triste esperar.

#13.2 Floresta do Amazonas // Composição: Heitor Villa Lobos

Sonhar na tarde azul / Do teu amor ausente / Suportar a dor cruel / Com esta mágoa crescente / O tempo em mim / Agrava o meu tormento, amor / Tão longe assim de ti / Vencida pela dor / Na triste solidão / Procuro ainda te encontrar / Ah amor, meu amor….

«Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.» Pirata – Sophia de Mello Breyner Andresen

#14 Portela: Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite //Composição: David Corrêa e Jorge Macedo

«O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real» Sophia de Mello Breyner Andersen, «Dual» in Obra Poética III, Lisboa, Caminho, 1999, 4.ª ed.

Deixa-me encantar / Com tudo teu e revelar la, ra,ra / O que vai acontecer / Nesta noite de esplendor / O mar subiu na linha do horizonte / Desaguando como fonte / Ao vento a ilusão teceu / O mar, ô o mar! / Por onde andei mareou, mareou! / Rolou na dança das ondas / No verso do cantador / Dança quem tá na roda / Roda de brincar / Prosa na boca do vento / E vem marear (BIS) / Eis o cortejo irreal / Com as maravilhas do mar / Fazendo o meu carnaval / É a vida a brincar / A luz raiou pra clarear a poesia / Num sentimento que desperta na folia / Amor! Amor! / Amor sorria, ô ô ô / Um novo dia, despertou / E lá vou eu, e lá vou eu / Pela imensidão do mar / Esta onda que borda a avenida de espuma / Me arrasta a sambar (BIS) /

#15 Canto de Nanã // Composição: Dorival Caymmi

Ê de noite ê / De noite até de manhã – iê / Ouvi cantá pra Nanã

não se mate, e eis…

[qua] 22 de abril de 2015

começou a chover! E anoto duas notas desta jovem madrugada. uma ouvida, e que me faz sentido; e a outra, achada, pela minha dificuldade de grafar as palavras…

NOTA #1 – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam, .
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Brejo das almas”. In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

*

NOTA #2 – Fragmento de Clarice Lispector, por Wagner Moura.

***

NOTA DE RODA PÉ: E eis que a vida me chama… Pessoas deixam recados… Uns pedem ajuda, outros me convidam… Outros apenas necessitam conversar… E  chegadeficarenrolandosenapropriacaudacomoumcaosemdonoesemsaidaousemdestinoperdidoemsimesmo.

Amanhã/logo mais/ haverão compromissos. Ir na escola, ir no ato, participar do comando… voltar a ser coletivo. Vamos, sr. Vagner, não se mate! Se distribua, como puder e da forma que puder.

ps: lista para leituras futuras: grande sertão veredas e o homem revoltado.

 

o guardador de rebanhos

[dom] 15 de junho de 2014

#1 não tirei os pontos ainda. não entreguei o poster-explicativo. não toquei em nenhum material produzido pelos alunos. não fiz um monte de coisas necessárias. apenas rastejo lentamente entre os escombros diários. tudo me distrai… não há foco (ou coragem para subverter-se); e  indicando alguns livros ao meu primo, colega de casa, encontrei, posto que andava perdido,  em um livro de alberto caeiro (o ponto de partida desta postagem) um recado carinhoso dobrado que dizia assim:

«A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos. ou dedo nas pontas das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção vem de um duplo contato; de um lado, toda uma atividade de discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza ao tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.» Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso.

#2 o pensar:

e mergulho no tempo… ontem, ouvindo skank, mergulhei 15 anos no tempo. hoje, 6 – lendo este bilhete. assim a vida segue… fragmentária, aleatória, ordinária… não sou a promessa de 8 anos atrás – o jovem que se lançava apaixonadamente num universo novo… tampouco sou o sonho de 16 anos atrás – rebelde e infantil. sou apenas o labirinto caduco e sempre marginal, aislado, incapaz de estabelecer relações profundas e duráveis… «no fundo uma eterna criança que não sabe amadurecer…» sempre escapando de qualquer ser humano. e eu que já fiz terapia, já percorri intelectual e emocionalmente – mesmo que de forma momentânea e parcial – este caminho… que já visualizei a quantidade de feridas abertas, medos, traumas, violências sofridas e guardadas… tenho auto-consciência, mas me faz falta uma força, uma gana para emergir, para abrir-me. e essa vida é um simulacro, um espelho, nada é profundo… destarte os atrasos e os silêncios, este habitus.

#3 memórias afetivas incidentais:

Sofrer é outro nome / do ato de viver. Carlos Drummond de Andrade..

Una noche se acuestan con la muerte / en el lecho del mar… Pablo Neruda

Three o’clock in the morning / It’s quiet and there’s no one around
Just the bang and the clatter / As an angel runs to ground… U2

el triángulo de la bermudas

[seg] 19 de maio de 2014
«Meu coração não sabe. Estúpido, ridículo e frágil é meu coração. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)» Carlos Drummond de Andrade.

.
como é difícil romper essas amarras. barco ancorado no meio do nada. a tendência é ilhar-me, náufrago neste mundo, nesta canoa velha, distanciar-me destes territórios humanizados, destes seres tão queridos, contemplar o sofrimento humano diário, sofrer mudo, iludido que somente só não hemos de causar dano alheio. passei mais de dez dias mergulhado em planos suicidas, ignorando minha humanidade… e duas ou três palavras me revoltaram, provocaram profunda contradição: não sei se me mato por ser tão assim ou se durmo e nada me entorpece mais que a ausência de coragem. emaranho-me anhelado…

 

«Depois que atravessarem o muro e a tarde os caracóis cessarão. Às vezes cessam ao meio. Cessam de repente, porque lhes acaba por dentro a gosma com que sagram os seus caminhos. Vêm os meninos e os arrancam da parede ocos E com formigas por dentro passeando em seus restos de carne. Essas formigas são indóceis de ocos. Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar! P.S.: Caracol é uma solidão que anda na parede.» Manoel de Barros

um velho mineiro

[qua] 30 de outubro de 2013
http://www.youtube.com/watch?v=Pm3dI6qznms
não nos afastemos, não nos afastemos muito... 
não fugirei para as ilhas...

ou

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

um grito em filme mudo (ou o umbigo do universo)

[seg] 28 de outubro de 2013

o mote é o umbigo

o mote é o universo

o mote é nada novo

começo, as vezes, [raramente] sabendo o quero falar, e ai vou cambiando palavra por palavra até tudo ficar inexplicavelmente diferente e nesse jogo há alguns prazeres… a estética, o escondido/codificado, o inexplicável/transcendental… esse ar estranho quando tudo é familiar ou seu inverso… mas até aí nada novo.

e do nada novo [é, cada palavra é uma chave múltipla para multiversos] é o jogo vivente e eu jogo a toalha uma vez… demolido pela brutal impossibilidade de continuar e o jogo continua comigo demolido pela brutal impossibilidade de continuar que nunca acaba.  e jogo a toalha mais uma vez… novidade? nada novo. eu cheguei na perfeição: um filme mudo.

referência um:

o umbigo do universo é o nosso umbigo.

referência dois… essa coisa bonita de caio amaral falcão que não encontrei letra alguma e transcrevi [é, deve haver inúmeros erros]

vez em quando quando meu umbigo dói e eu já nem sei quem foi que fui eu já nem sei de cor porque fui eu o meu algoz que me calei perdi a voz e o r(p)iso e as pare(de)s e me fui sem fé nem fogo sem faca ou foice quem traiu quem pergunto ao mundo e me responde o meu umbigo essa saudade que me encharca qual carranca frente a poa que me cura do sal e a sina me ensina assim que não foi nada e não foi nada e não foi nada fora a fúria do mar calada qual um grito em filme mudo um grito em filme mudo grito em filme mudo em filme mudo em filme mudo

(enfim me mudo)…

referência três: “num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação” (charles chaplin)

intertextual

[dom] 9 de junho de 2013

último ponto:
o pensamento é mais rápido que meus músculos.
e o pensado é morto,
o que vive é o pensado
sobre o pensado.
e a natura se refaz
mesmo diante da morte mais atroz.

primeiro ponto:
vocês não foram tão justos e sensatos quão imaginam.
suas loucuras, suas frustações, seus medos e suas limitações
foram a marca em tudo o que tentaram.

e a marca é isto ai mesmo:
não exatamente o que é correto ou necessário,
é o que é possível.

quando vislumbrei isto,
e percebi que era hora de escapar desta ilusão,
não para um mundo sem ilusão,
mas digamos, para outra ilusão,
e outra, e outra, todas um tanto mais libertadora
que esta que vocês inventaram para tentar me convencer.

E foi neste instante que percebi
que de lançamento eu já partia
todo errado [ver chico, ver carlos].

e viver sob esta culpa primordial
– que nem era minha de fato
e tampouco deveria ser culpa,
posto que era produto de determinantes
e sobredeterminante de caráter histórico-social [ver marx] –
enfim, viver sob aquela culpa não era viver,
era padecer – ser moribundamente.

deste ponto em diante
todas aquelas pequenas
transgressões já não eram defeitos,
eram feitos… eu me desculpará.
e errar era possível e tão necessário.

outro ponto:
“sai para caminhar com eu pai,
conversamos sobre coisas da vida,
tivemos um momento de paz”

entrepontos:
“o mundo esta repleto de loucuras”

núncaras

[ter] 12 de abril de 2011
primeiro: parte do texto estava cá nos favoritos aguardando a sua hora de publicação. segundo: não gosto de texto sem origem, sem fonte… e cá encontrei. terceiro: sinto-sentido nisto tudo ai abaixo…

[…] No tengo a quien rezarle pidiendo luz, / Ando tanteando el espacio a ciegas. / No me malinterpreten, / No estoy quejándome. / Soy jardinero de mis dilemas […] No tengo a quien culpar / Que no sea yo, / Con mi reguero de cabos sueltos. / No me malinterpreten, / Lo llevo bien,o por lo menos / Hago el intento […] Hermana duda, / Pasarán los discos, / Subirán las aguas, / Cambiarán las crisis / Y pagarán los mismos / Y ojalá que tú / Sigas mordiendo mi lengua […] Hermana duda, / Pasarán los años, / Cambiarán las modas, / Vendrán otras guerras, / Perderán los mismos / Y ojalá que tú / Sigas teniéndome a tiro […] Jorge Drexler. Hermana Duda.

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EXTREMOS DA PAIXÃO – Caio Fernando Abreu
“Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo…” 

 

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: “Se você não me amar, eu matarei o presidente”. E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George – se não houver algo de publicitário nisso – é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: “É para você, para você que eu escrevo” – dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que – se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor – depois do não, depois do fim – reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa – muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, “o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras”. E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 8/7/1986

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AMAR-AMARO 

Por que amou por que a!mou
se sabia
p r o i b i d o   p a s s e a r   s e n t i m e n t o s
ternos ou sodarepsesed
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula ev
idente?
ah PORQUEAMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos nos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espéculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indagação do achado e aguda espostejação
da carne do conhecimento, ora veja 

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me revele
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de núncaras.

Carlos Drummond de Andrade
Antologia Poética. p. 180.

e câmera dispara…

[seg] 21 de março de 2011

“deixa eu engolir minha pretensão…”

6:30 café feito [e louça lavada].

7:32 ônibus perdido [e uma espera pelo sol na garoa].

7:52 uma carona, quando eu nem esperava [de nóe e isabel].

8:35 atrasado para a aula [que nem começou ainda].

antropologia visual – imagem e conhecimento.

unidade 1. bloco 1. primeiros contatos.

a etnografia ‘como descrição do universo do outro’.

imagem e conhecimento como uma relação antiga. e com a modernidade e o desenvolvimento tecnológico esta relação ganha especificidades na contemporaneidade.  [ver também ‘a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica’]

imagens pré-antropológicas

a câmera escura [antiguidade grega] – a fotografia [sec. xiv, renascentismo] – o cinema [idade moderna]

as ‘dudas’ barrocas (1600-1750)

“a lição de anatomia” de rembrandt

“as meninas” de velasquez

‘no ínicio [e até os anos 1950] a antropologia é muito antropomófica’ onde a ‘forma revelaria o caráter’ e principalmente o anormal.

e a imagem [fotografia com sua capacidade de copiar o real] é uma mecanismo de classificação dos tipos [grosso modo] [e dentro de um prisma evolucionista e de expansão colonial] cabendo numa antropometria [classificação dos tipos, antropologia fisica] ou nos retratos étnicos. [remeter as expedições pluridisciplinares francesas e outras. ex: Missão Dakar-Djibouti etc.{complementar}]

antropologia fisica [criminal] -> instituições da ordem [norma social] [séc. xx]

 

qual é a relação inicial entre conhecimento e imagem?

quais significados constrói esta relação?

que está em tensão entre ambas?

[rever marcel mauss { técnicas corporais}]

[instituição total -> onde o tempo e espaço são regulados. o exterior é neutralizado/negado. ex: prisão etc.]

Irmãos Lumière: primeiros filmes (1895)

L’Arrivée d’un Train à La Ciotat

[irmãos lumière não inventam a reprodução {} da imagem, apenas adaptam-na e inventam o cinema quando diferente de edson {reprodução individual} reproduzem coletivizadamente.

12:06 “Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Carlos Drummond de Andrade

cortar o tempo

[sáb] 26 de dezembro de 2009

Quem teve a idéia / de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial! / Industrializou a esperança, / fazendo-a funcionar / no limite da exaustão. // Doze meses é suficiente para qualquer ser humano / se cansar e entregar os pontos. // Aí entra o milagre da renovação / e tudo começa outra vez, / Com outro número / e outra vontade de  acreditar / que daqui para diante vai ser diferente. // (Carlos Drummond de Andrade)

de c.z.

ps: mas não é drummond.

medo de amar ou o sentido da vida é buscar qualquer sentido

[seg] 21 de dezembro de 2009

“O sentido da vida é buscar qualquer sentido”
Carlos Drummond de Andrade

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente
.
Poema de Natal. Vinicius de Moraes

“(…)
O que queremos:
a independência da arte – para a revolução
a revolução – para a liberação definitiva da arte”.
Por uma Arte Revolucionaria Independente. André Breton e Leon Trotsky

Ciudad de México, 25 de julio de 1938

nosso tempo

[qui] 10 de setembro de 2009

drummond - arosadopovoNosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido,
apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
Vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas
,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?

crimes?
moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina.
Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,
confiar-se ao que-bem-me-importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

I

Nos porões da família,
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há. mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos
e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,
um verme.

———

/ Teses sobre Feuerbach / Karl Marx / 1845 // Tese 2 / A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica. //  Tese 6 / Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais. / Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente – isoladamente – humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como “espécie”, como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos. // Tese 8 / A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis. // Tese 10 / O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade “civil“; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada. // Tese 11 / Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

Publicado pela primeira vez: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx.

——-

A PLENOS PULMÕES

……………………(Trecho final)

Camarada vida,

……………… vamos,

……………………… para diante,
galopemos

…………. pelo quinqüênio afora.
Os versos

……….. para mim

………………….. não deram rublos,
nem mobílias

……………. de madeiras caras.
Uma camisa

………….. lavada e clara,
e basta, —

…………. para mim é tudo.
Ao

.. Comitê Central

………………… do futuro

…………………………… ofuscante,
sobre a malta

……………. dos vates

………………………. velhacos e falsários
apresento

………… em lugar

………………….. do registro partidário
todos

……. os cem tomos

…………………… dos meus livros militantes.

Dezembro, 1929 / janeiro, 1930 (Tradução: Haroldo de Campos)

memória viva – ampla, geral e irrestrita.

[qui] 3 de setembro de 2009

fragmento sobre a Memória… O que é de um povo se lhe ausenta (por processos racionais e irracionais) esta faculdade coletiva? A memória nos torna homens de um tempo. Capazes de empaticamente incorporarmos um determinado passado, ao passo que dialeticamente  determinamos o futuro-presente.  Que sejamos as sementes vivas das necessárias árvores futuras. E a memória, está é nossas  raízes… Fundamentais neste tempo, como nos diz Drummond, de partidos, de homens partidos…  Tempo que não cessa… Que perdura enquanto perdurar a dor, a injustiça, a exploração, a expropriação do que é humano, da condição humana plena, de boa parte dos seres humanos. Tal exploração se dá sobre a classe proletária, por parte da classe burguesa, os capitalistas associados, de n formas e em n momentos do processo de produção-circulação. Estes por sua vez tal qual nós, proletários, estão alienados da condição humana plena. Conhecer isto, saber de onde vem e o devir histórico, só é possível em parte pela compreensão dialética do movimento real… Em parte pelo sentido e sentimento histórico germinal. E sem memória, sem raízes históricas… Não é possível a superação da barbárie – que em síntese  expressa todo este estado de coisas, essa relação social alienada e alienante, que engedra todo um modo de ser e fazer  irracional. Um povo precisa conhecer sua luta e seus lutadores… Senti-los e vivenciar-se enquanto sujeito histórico… Só a classe unida poderá extermínar radicalmente a alienação humana,  e medida primera já é velha sabida de todos nós… Não há trabalho alienado sem haver propriedade privada dos meios de produção.

***

Das coisas que ando ouvindo: América Latina obrera

El yankee teme / que tú te levantes / América Latina obrera /no sé ¿por qué no lo haces? // El yankee teme / a la revolución / el yankee teme / al grito ¡yankee go home! / yankee go home // Y viene remontando el Amazonas / el grito rebelde del carioca / y viene a unirse con su hermano / el obrero venezolano / América Latina obrera / América Latina obrera / América Latina / Levanta en tus manos la bandera / de la Revolución / América Latina obrera / y grita con fuerza / yankee go home! / yankee go home! / yankee go home! /// (recitado) / “gringo go home / los obreros de América latina / te dicen: gringo go home! / yankee go home” / Levanta en tus manos la bandera / de la Revolución / América Latina  obrera / y grita con fuerza / yankee go home! / yankee go home! / yankee go home! // ALI PRIMERA.
(Woman, it’s good to have her in this project. You learn a lot. As we learn with you. This is the song that we mentioned today, Ali Primera, Revolutionary Venezuelan singer. Dedicated to you, Christina. An invitation to join us, young workers in Latin America, this fight construction of a Latin America working against the ‘bourgeoisie’ of his country and of all other empires!)

————
Das coisas que ando lendo:

Quero-te alta e perfeita,
e não uma baixinha
anistia de quatro dedos
e andar cambaio.
Quero que voes.
Com asas te imagino,
Sobre os desencontros e mesquinhezas
dos pobres intérpretes
de tua grandeza luminosa.

Carlos Drummond de Andrade.
—-
Alonso Quijano murió, pero Don Quijote continúa vivo, ahora mismo está en algún lugar, disfrazado de hombre de nuestro siglo, confundiendo tal vez el reflejo de un tubo de neón con el plateado resplandor de un prodigioso cometa…Sí le encontráis, por favor, no os burléis de él…
Cervantes en Yucatán, Carlos Urzaiz Jiménez
—-
28/08/2009 – Aniversário de 30 anos da Lei da Anistia. (que até hoje não foi nem ampla, nem geral e nem irrestrita!)
03/09 – Dia das Organizações Populares
05/09 – Exército massacra Canudos, Bahia, 1897. (e seguimos desconhecendo ou conhecendo pouco nossas raízes lutadoras)
09/09 – Ernesto Che Guevara é assassinado em Bolívia pelo Exército Boliviano e por Agentes da CIA [EUA], 1967
10/09 – Dia de Luta contra as Transnacionais (Das K)

——–

Das coisas que ando sentindo:

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

É tudo ilusão de ter passado

[sáb] 22 de agosto de 2009

(…) Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa (…)

Carlos Drummond de Andrade

a flor e a náusea

[seg] 8 de junho de 2009

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me’?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

drummond.
.

um presente cheio de intensão

[dom] 26 de outubro de 2008

Aspiração

Tão imperfeitas, nossas maneiras
de amar.
Quando alcançaremos
o limite, o ápice
de perfeição,
que é nunca mais morrer,
nunca mais viver
duas vidas em uma,
e só o amor governe
todo além, todo fora de nós mesmos?
O absoluto amor,
revel à condição de carne e alma.

Drummond

Depoimento/mensagem de Gabriela Paz no orkut.

MUNDO GRANDE

[sex] 24 de outubro de 2008

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens.
as diferentes dores dos homens.
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que elo estale.

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar.
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos

MUNDO GRANDE (Carlos Drummond de Andrade)

Abri minha caixa de correio hoje e havia um recado que escrevi.

Sentimento do Mundo…

[ter] 16 de setembro de 2008

topas? de mãos dadas… encarar o mundo!

———–
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
( Sentimento do Mundo)

é água, esperma, é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

[qui] 17 de julho de 2008

Carlos Drummond de Andrade é

Sob o chuveiro amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

amor e seu tempo…

[seg] 9 de junho de 2008

AMOR E SEU TEMPO
Carlos Drummond de Andrade
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

o seu santo nome

[dom] 1 de junho de 2008

Carlos Drummond de Andrade

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

tu. flor do cotidiano.

[seg] 24 de dezembro de 2007

in Poemas de Dezembro.

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
é vôo de um pássaro
é uma canção.

(Dezembro de 1968)

Carlos Drummond de Andrade

oi pequena… eu te amo

[ter] 1 de agosto de 2006

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabe sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade

nestes dias intermináveis de chuvas e mais chuvas, brotam flores.

[sex] 30 de setembro de 2005

uma bilhete:

oi gi, como estás? fui ontem assistir à peça que te convidei. e sabe… no meu peito de pedra, há algumas flores, que desavisadas, brotam, de vez em quando… aguardo resposta.

e um poema para inspirar a vida.

***

A Flor e A Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a  pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade

tristezura!

[sex] 1 de novembro de 2002

Ah!! poeta…
Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
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Já, então, não sei… Se, apenas, que não é de um tempo atrás de onde tudo era apenas alguma coisa como o limite de algo extremo;

Suponho, talvez, sejam estes olhos cansados, estas olheiras disfarçadas – Sempre disfarçando tudo… E o fato, este então, é, e nem sei, porque estou tão cansado, tanto assim, que estou de saco cheio de mim e d’um monte de coisas, que estou como antes perdido entre coisas encontradas… Entre coisas que não são findas e que entretanto vivem a buscar um qualquer…………… . . . . . . fim é outra, longa, estória, que não necessariamente precisa ter fim assim…

“Palavras são erros e os erros são seus…” Renato Russo

presente

[ter] 10 de setembro de 2002

O homem bicentenário – isaac asimov

Sentimentos alheios me tomam neste tempo disforme… Eu vejo coisas que não sei explicar e sinto coisas que ainda não vejo. Talvez devesse eu “Sing out of tune”

E tu que me dizes tanto… Disso não me contas nada.
Perdoa a longa conversa. Palavras tão poucas, antes!
é certo que intimidavas.
Guardavas talvez o amor em tripla cerca de espinhos.
Já não precisas guardô-lo. No escuro em que fazes anos,
no escuro, é permitido sorrir…

Como um Presente. Drummond.

Estou precisando de poesia… Ouvir, ler, escrever… Sentir. Poesia em mim.

coisas

[ter] 25 de setembro de 2001

[mais um pouco… um pouco de rúcula, alface e espinafre? e o meu estômago (cerebral) entra em ordem] ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

que…
é sempre assim…
a mesma mão que acaricia fere e sai furtiva faz do amor uma história triste o bem que você me fez nunca foi real dá semente mais rica nasceram flores do mal. Barão Vermelho


A caminho do cinema, a dois passos dele, na rua principal, está a confeitaria, cuja porta é grato a gente deter-se, ante as formas caprichosas e coloridas que ali se dirigem simultaneamente a vários sentidos. Certos bolos e cremes, antes de serem degustados pela boca ávida, o são pelo nariz e pelos olhos, e, se no-lo permitissem, o seriam pelas mãos, que amariam verificar a maciez, a doçura e a delicadeza da pasta. Único sentido não beneficiado, o ouvido permaneceria alheio a essa fruição geral, se não chegassem até ele o ruídos normais numa casa onde se come, choque de louça no mármore, de metais na louça, pequenos rumores familiares a que ligam imemorialmente as sensações do paladar, e que tanto contribuem para a composição desse extraordinário prazer de comer…
O Sorvete. Carlos Drummond de Andrade.

…….

Anotações dispersas: E há outras coisas ainda. minha predileção pelo bloco de notas em detrimento a outros editores de texto. Gabriela bate  meu coração. Dormi na aula… será que ‘tá um tédio ir a aula. a língua lusa é saborosa. o pé de cinamomo deu flor. você pisou na flor e esqueceu o espinho. cravado no meu peito menina. cravado… minha fé parece cansada… vou dormir. porque nem café está ajudando mais… üc … estou me sentindo patético…  “eu queria ser um tatu bola”.. ainda…

Texto retirado da caixa de estilhaçado de urchin.

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