Archive for the 'Caetano Veloso – Caetano Emanuel Viana Teles Veloso' Category

mr. do pandeiro… «o cansaço me atordoa enquanto eu ando para o além…»

[qua] 4 de outubro de 2017

..

dia longo. carona de fábio. conselho de classe. avaliando e digitando notas ainda…

 »

Zé Ramalho – Canta Bob Dylan

01 – Wigwam / Para Dylan – 00:00 02 – O Homem Deu Nome a Todos Animais – 5:05 03 – Tá Tudo Mudando – 10:35 04 – Como Uma Pedra a Rolar – 14:48 05 – Negro Amor – 21:13 06 – Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem – 26:16 07 – Rock Feeling Good – 30:49 08 – O Vento Vai Responder – 35:06 09 – Mr. Do Pandeiro – 39:12 10 – O Amanhã é Distante – 45:57 11 – If Not For You – 50:49 12 – Batendo Na Porta Do Céu II – 53:56

shoreless e o pó da estrada

[dom] 29 de janeiro de 2017

7h30 o despertador acorda. ¡volta a dormir despertador!

11h12 ele dormiu demais, mas seu corpo ainda dói.

12h49 quase… daúde.

«Quase fui feliz um dia
Lembrar é quase promessa
É quase quase alegria, quase fui feliz à beça
Mas você só me dizia:
Meu amor vem cá sai dessa» 
Composição: Caetano Veloso / Antonio Cícero

13h28 trovoadas no céu. na vitrola só sambas de amor/dor.

15h16 copiei o texto dela e colei no googletranslate. não para traduzir, mas para ouvi-la, enquanto fazia outras coisas. aquelas palavras de mistérios, caminhos, buscas e descobertas me insinuavam uma mulher distante daquele sorriso apaixonante que ela tinha quando a vi pela primeira vez – talvez porque lhe desse substância e um gosto diferente. mesmo as marcas do tempo determinando o passar das coisas, pelas fotografias eu podia intuir que ela ainda tinha/devia ter aquele sorriso. mas essa colagemde palavras não é sobre o poder de feitiço dela em [me] encantar, de quase dez anos atrás, mas é sobre as palavras que ela escreve/fala, agora. essas palavras que oscilante entre uma carta de intenção e um poema quase místico, tem um quê de mim, da dúvidas, do que é humano, do que somos feitos… dos conselhos, das danças com seres mágicos, dos itinerários percorridos, dos mergulhos, do que é aprendido sobre si mesmo, essas versões que vamos encontrando pelo teatro da vida, peças de um mosaico sempre em desenvolvimento… do pó que vamos colhendo pelas estradas da vida.

registro: dela, a luz dos olhos e sorriso solar, que guardo vivo na memória, de quando éramos mais jovens. e hoje, mulher feita, e distante, suas palavras que narram o estranhamento de se colocar a mochila vazia num armário desarrumado esperando a próxima partida rumo ao reencontro de uma nova parte, um fragmento ainda desconhecido de si.

trilha de fundo: O Pó da Estrada – Sá, Rodrix & Guarabyra

«0 pó da estrada gruda no meu rosto, / Como a distância, matando as palavras, / Na minha boca sempre o mesmo assunto, / O pó da estrada. / O pó da estrada brilha nos meus olhos, / Como as distâncias mudam as palavras, / Na minha boca sempre a mesma sede, / O pó da estrada. / Conheci um velho vagabundo, / Que andava por aí sem querer parar, / Quando parava, / Ele dizia a todos, / Que o seu coração ainda rolava pelo mundo. / O pó da estrada fica em minha roupa, / O cheiro forte da poeira levantada, / Levando a gente sempre mais à frente, / Nada mais urgente, / Que o pó da estrada, / Que o pó da estrada.»

16h04 – Novos Baianos – Programa Ensaio 1973

tudo em volta está deserto… tudo certo

[sáb] 16 de abril de 2016

grandes demais para aqueles sonhos loucos lindos e dolorosos da juventude tudo cheio de incertezas e melancolia… ela me chamou e perguntou estás vivo disse que não sei às vezes penso que sim noutras nem sei muita coisa disse ela ou falta algo completou meu silêncio será uma resposta e logo antes mais cedo naquelas reuniões onde as pessoas ficam duas horas esperando o tempo passar para irem embora porque ali não há nada ou o que há se ignora conversávamos eramos adultos narrávamos nossa jornada até aquele ponto quais os prognósticos para o futuro externalizando nossa desilusão e eu em silêncio constatava… parte de mim ainda é rebelde e não aceita o mundo como ele vai quer mudar sonha com coisas melhores com algo mais humanizante mas há outra parte que aceita que se submete que acomoda-se ao silêncio dos vencidos dos que perderam a capacidade de falar por anos de mudez não sei eu disse pra ela hoje acordei duvidando de mim e deste mundo e mesmo que o dia vá bonito acho que é isso são coisas demais e ao mesmo tempo falta algo

ouvia john frusciante… i am central to nowhere thinking of sweeping it clean when we choose to go were losing more… mas pensava em caetano… tudo vai mal, tudo tudo é igual quando eu canto e sou mudo mas eu não minto não minto.

***

você está preso em sua mente.

faca amolada

[qua] 30 de setembro de 2015

agora não pergunto mais aonde vai a estrada. / agora não espero mais aquela madrugada. / vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser, faca amolada. / o brilho cego de paixão e fé, faca amolda. / deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo. / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo. / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada. / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada. / plantar o trigo e refazer o pão de cada dia. / beber o vinho e renascer na luz de todo dia. / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada. / deixar a luz brilhar no pão de cada dia. / deixar o seu amor crescer na luz de todo dia. / vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranquilo.  / o brilho cego de paixão e fé, faca amolada. // Composição: Milton Nascimento / Ronaldo Bastos

Na interpretação de:

Milton Nascimento e Beto Guedes

Doces Bárbaros (Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil)

E agora a belíssima versão de Lenine ,que me fez anotar/escrever esta postagem:

***

e sobre o que vai cá dentro… estou exausto hoje… talvez o excesso de preocupações políticas, a sobrecarga de trabalho pedagógico, o dia de ontem com as marias… e eu não queria existir hoje.

talvez essa leve melancolia tenha alguma influência das músicas do angatu, «E encontro meu olhar perdido Sem saber pra onde olhar Procurando no horizonte Um caminho pra te achar»… e as memórias que as canções iluminam na escuridão que é o teu ser. talvez seja essa solidão.

e estou escrevendo um poema sobre o silêncio do homem. até agora nenhum linha dele conseguiu brotar… e honestamente não sei porque…

***

mas sentei e escrevi isto aqui [que está em desenvolvimento… com certeza voltarei a reescreve-lo. mas deixo para outra hora… agora tenho que preparar as minhas aula de hoje.]

exercício sobre o silêncio magmático

o homem quando salta
para dentro do corte
percebe que a leve pele
vermelha e negra envolve
o que à vista desarmada
é todo inteiro…

saca então,
que lá no fundo,
por dentro da carne viva,
o peito é feito
de cristais de vidro.

seus olhos contemplam
a aridez e o amargo
de ser como um rochedo
duro e triste,
que as lágrimas da chuva,
ora finas,
ora desatinadas,
vão lapidando,
dia pós dia…

e há milhares de anos
imóvel e incomunicável
segue ali exposto
memória do magma vivo
que no oxigênio do tempo
arrefeceu e restou monumento
onde se reza em silêncio.

vampiro

[ter] 1 de setembro de 2015

Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder / E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr / E eu sinto aquela coisa no meu peito / Eu sinto aquela grande confusão / Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração / Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim / E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim / E eu fico embriagado de você / Eu fico embriagado de paixão / No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão / Eu fiz uma canção cantando todo o amor que eu sinto por você / Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer / E ainda teve a cara de pau / De dizer naquele tom tão educado / “Oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado” /  Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto / E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro / Por isso é bom não se aproximar / Muito perto dos meus olhos / Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida / Na minha boca eu sinto a saliva que já secou / De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nunca chegou / Você é uma loucura em minha vida / Você é uma navalha para os meus olhos / Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia / Jorge Mautner  // Vampiro.

E lontano, lontano nel tempo / Qualche cosa negli occhi di un altro / Ti far… ripensare ai miei occhi, / I miei occhi che t’amavano tanto. / E lontano, lontano nel mondo / In un sorriso sulle labbra di un altro / Troverai questa mia timidezza / Per cui tu mi prendevi un po’ in giro / E lontano lontano nel tempo / L’espressione di un volto per caso / Ti far… ricordare il mio volto, / L’aria triste che tu amavi tanto. / E lontano, lontano nel mondo / Una sera sarai con un altro / E ad un tratto chiss… come e perchè / Ti troverai a parlargli di me / Di un amore ormai troppo lontano // Luigi Tenco // Lontano Lontano.

***

e eu aqui com essa vontade de… esconder-me. com infecção nas cordas vocais, dor na testa e desanimo existencial. arghh… tudo passa. tudo passará e nossa…

des(encarnando) em busca da apocatástase

[qui] 13 de agosto de 2015

«a se soubesse que cérbero, a devorar minha carne, mantem-me cativo neste submundo…»

umas duas ou três palavras para refletir… tenho preferido o silêncio [e a solidão, que para uns é física, mas sobretudo, para todos, é emocional]. oscilo entre avanços e recuos… exaustivamente são mais recuos que avanços. e ao passo que o novo sempre apavora-me e instiga, o conhecido [o velho hábito] me assusta tanto pela sua monstruosidade… e o presente asfixia qualquer vida.

tenho me esforçado para manter o que há… esse simulacro de algo parecido com uma vida ordinária. só que nestes dois últimos meses, tenho me sentido tão mal, tão cínico, um falseador… descrente e sem ganas de enfrentar a estupidez cotidiana. e a ressaca moral de duvidar tudo e de mim me arrasta para um limbo, um poço fundo de angústias e amargura. sei, ou apenas intuo, que ali na frente as coisas vão se clarear e irei acreditar novamente na humanidade, nisto que há nos outros, e sobretudo eu mim. mas por agora sou apenas uma coisa grotesca, e não há carinho para ninguém… apenas o fel que escorre de minha boca. quando eu amo, me perco profundo no desconhecido e renasço. quando eu temo, me perco nesta minha escuridão e morro por cá. e a vida cíclica, ou quase, vai… morrendo, nascendo… morrendo… morrendo. morr..

ps: hoje teve um misto de conselho de classe/reunião pedagógica na escola. não fiquei deprimido pois estive por lá trajado com minha armadura cínica. e de todas as falas dos profissionais da educação, o que mais me aterroriza é saber que perigo correm os jovens diariamente… o perigo não está em tentarem arrombar a grade para fugir da escola… o perigo é ao que estão submetidos em sala com essa gente. estou descrente disto tudo. e ponto…

só me resta ouvir [infinitamente] caetano:

***

«a voz de alguém, quando vem do coração
de quem mantém toda a pureza da natureza
onde não há pecado nem perdão» caetano veloso

je ne veux pas travailler

[qua] 12 de agosto de 2015

[madrugada, primeiro minuto do dia]

começando a madrugada e eu começando, no último dia, a fazer todo o trabalho acumulado ao longo dos últimos quatro meses. tarefa estressante.

[ps: esta postagem vai ser editada o dia inteiro… a cada novo momento acrescentando um fragmento do dia]

«Je ne veux pas travailler
Je ne veux pas déjeuner
Je veux seulement l’oublier
Et puis je fume»

«Sympathique // Ma chambre a la forme d’une cage / Le soleil passe son bras par la fenêtre / Les chasseurs à ma porte / Comme les p’tits soldats / Qui veulent me prendre / Je ne veux pas travailler / Je ne veux pas déjeuner / Je veux seulement l’oublier / Et puis je fume / Déjà j’ai connu le parfum de l’amour / Un million de roses n’embaumerait pas autant / Maintenant une seule fleur dans mes entourages / Me rend malade / Je ne veux pas travailler / Je ne veux pas déjeuner / Je veux seulement l’oublier / Et puis je fume / Je ne suis pas fière de ça / Vie qui veut me tuer / C’est magnifique être sympathique / Mais je ne le connais jamais / Je ne veux pas travailler / Non / Je ne veux pas déjeuner / Je veux seulement l’oublier / Et puis je fume / Je ne suis pas fière de ça / Vie qui veut me tuer / C’est magnifique être sympathique / Mais je ne le connais jamais / Je ne veux pas travailler / Non / Je ne veux pas déjeuner / Je veux seulement l’oublier / Et puis je fume / “Sympathique” written by Thomas Lauderdale & China Forbes. »

***

[madrugada ainda… uma e quarenta e seis] «No seu ar cansado que nem mesmo me vê, Olhando pr’ocê, pedindo outro “fernet”» Tulipa Ruiz faz a trilha. Som gostoso… Fico pensando em milhões de coisas. Café com bolachas… E a cada minuto busco uma fuga para não digitar tudo que tenho neste professoronline. Merda de professoronline… Merda de deixar trabalho tudo para a ultima hora.

***

[madru… três em ponto] No som mais alto possível dentro do meu ouvido. snow patrol… no aleatório do groove. essa me faz sentir-me com 16 anos.

Snow Patrol – Open Your Eyes

«All this feels strange and untrue / (…) My bones ache, my skin feels cold / And I’m getting so tired and so old / The anger swells in my guts / And I won’t feel these slices and cuts / (…) Tell me that you’ll open your eyes / (…) And we’ll walk from this dark room for the last time / (…) Cause I need you to look into mine // Gary Lightbody, Nathan Connolly,Tom Simpson, Paul Wilson and Jonny Quinn

***

[é madrugada ainda… já que o sol não nasceu e nem o céu azulou] Na trilha sonora enquanto põe em dia os diários e as notas quem canta são caetano e mautner.

«Coisa Assassina // Se tá tudo dominado pelo amor / Então vai tudo bem, agora / Se tá tudo dominado / Quer dizer, drogado / Então vai tudo pro além / Antes da hora / Antes da hora / Maldita seja / Essa coisa assassina / Que se vende / Em quase toda esquina / E que passa por crença / Ideologia, cultura, esporte / E no entanto é só doença / Monotonia da loucura, e morte / Monotonia da loucura e morte // Composição de  Gilberto Gil e Jorge Mautner»

***

[manhã ?]

um poema, umas notas… algumas canções.

[dom] 21 de junho de 2015

o poema obscuro
mira-me no espelho.
uma miragem,
uma imagem
captada ao acaso:
a forja da palavra,
a dura lavra.

o poema
é uma passagem:
uma rocha
amorfa e muda,
um vegetal retorcido,
um verbo seco,
um instante ao vento.

o poema é nada além
de um desejo cego,
um corte, um rasgo,
uma dor surda,
uma dúvida latente.

o poema é
o que foi dito
e o devir,
desde o mais
profundo de teu ser

o poema
está entre
o imperceptível
e o que de nós,
possamos traduzir.
***

o mote do poema era: “dificuldade de escrever. estar seco neste vento frio”. e ao escrever e reescrever as imagens foram se sobrepondo e o poema tornou-se um poema. das pesquisas ao longo da escrita cai nesta citação, que faz todo o sentido:

«O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia enquanto forja o verso.»
Émile-Auguste Chartier Alain

***

e abaixo, algumas notas de coisas que li pela rede que achei interessantíssimas – essas coisas me tocam profundamente, alguma coisa delas me habita.

tanto a citação, de Caio Fernando Abreu, e a imagem, de Courtney Wirthit, compõe uma bela postagem, “das coisas inexplicáveis, necessárias” encontrada num interessantíssimo blogue: A PARTE E O TODO DE MIM

«Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas
como alegria ou fé ou esperança.
Mas só fico aqui parado, sem sentir nada,
sem pedir nada, sem querer nada.» Caio Fernando Abreu

l**

e das redes sociais… abaixo uma canção de caetano, o genial caetano.

«Disse que vinha, e veio, lá do Norte / O mar nos olhos / Era noite sem vento e eu nem cri na minha sorte / Houve curiosidade, um calmo susto, alguma palidez / Por trás do ouro do seu rosto / Quero ser justo / Mesmo que não pudéssemos manter a lua cheia acesa / Ou não, ainda, nem no seu nem no meu coração / Eu vi você / Uma das coisas mais lindas da natureza / E da civilização»

**

gradell imagem de daniel alonso, da revista Photographize.

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e umas canções:

 

simón del desierto

[ter] 21 de abril de 2015

Albert Camus «homem é a única criatura que se recusa a ser o que ele é».

«A revolta encontra em si, um valor, uma essência, um direito. O escravo enfrenta seu senhor porque reconhece algo em si que quer se afirmar, que estabelece um limite e por isso diz não. “Há em toda revolta uma adesão integral e instantânea do homem a uma certa parte de si mesmo” (p. 26). Portanto, antes de dizer não ao senhor, o escravo revoltado necessariamente diz sim para si mesmo. “Aparentemente negativa, já que nada cria, a revolta é profundamente positiva, porque revela aquilo que no homem deve ser defendido” (p. 32).» O homem revoltado – Postagem de Rafael Trindade no blogue Razão Inadequada

*

Simão do Deserto (Simón del Desierto) – México, 1965 / Direção: Luis Buñuel / Roteiro: Luis Buñuel, Julio Alejandro / Elenco: Claudio Brook, Silvia Pinal, Enrique Álvarez Félix, Hortensia Santoveña, Francisco Reiguera, Luis Aceves Castañeda, Enrique García Álvarez, Antonio Bravo, Enrique del Castillo / Duração: 45 minutos

*

Por que Você Faz Cinema?«Para chatear os imbecis / Para não ser aplaudido depois de sequências, dó de peito / Para viver a beira do abismo / Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público […] / Joaquim Pedro de Andrade e Adriana Calcanhotto»

*

músicas de fundo [ouvidas nesta última hora – porque nos restos dos dias tenho me habitado somente o silêncio da vida  – é uma secura de sol e de som]:

autonomia… algo que está distante da escola.

[ter] 14 de abril de 2015

nota #1.

«Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Não é algo que vem de fora da atividade docente, mas algo que dela faz parte. O combate em favor da dignidade da prática docente é tão parte dela mesma quanto dela faz parte o respeito que o professor deve ter à identidade do educando, à sua pessoa, a seu direito de ser. Um dos piores males que o poder público vem fazendo a nós, no Brasil, historicamente, desde que a sociedade brasileira foi criada, é o de muitos de nós correr o risco de, a custo de tanto descaso pela educação pública, existencialmente cansados, cair no indeferentismo fatalistamente cínico que leva ao cruzamento dos braços. “Não há o que fazer” é o discurso acomodado que não podemos aceitar.» Paulo Freire. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. pág. 65.

Lembro desta frase em negrito pintada na parede da antiga APUFSC-SS. Quando saía do CFH/UFSC em direção a qualquer outra parte da ufsc. 2007/2008.

E com o passar do tempo e das experiências, a vivência desta frase impregnou-me. Hoje, lendo um fala de uma professora da minha escola, e o quão distante ela vai, desta frase aí de cima… Sinto uma tristeza e uma indignação por dentro. Que porra de mundo de merda é este. Que porra de professores nossas universidades formam? que porra de seres esse sistema constrói…

E isto me lembra uma conversa com um companheiro grevista lá de Blumenau sobre como a escola é um dos espaços privilegiados de alienação da juventude. E em que medida, a disciplina de Sociologia, reforça e/ou desconstrói isto. E daí, a questão: o quanto nós cientistas sociais críticos somos capazes dentro da estrutura da escola? Uma estrutura, que por n vias, reproduz o status quo. Alienando e fetichizando as relações.

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nota #2 e #3

it’s a long way…

a terceira margem

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o ornitorrinco e a frau holle

[sáb] 24 de janeiro de 2015

o txt:

fiz uma lista de coisa inúteis. ou pouco úteis. ou aquelas coisas necessárias do cotidiano… ler jornal, estudar, cortar grama, lavar louça, roupa… enfim, fiz uma lista para não me esquecer que estou aqui e que algo precisa ser feito. estou aqui observando as crianças e árvores crescerem, mas a cabeça está em outro lugar. que é no fundo um não lugar. é como se ali atrás, antes do lance de hoje, eu tivesse jogado um lance errado e agora é assim: esse sufoco, esse tédio morno… esse arrastar lento, esses dias de espera… a espera de eu chegar. será que um dia chego lá?

e lá é o destino que só se atinge quando se chega aqui, dentro.

lá é aqui.

e eu sou este paradoxo.

*

joguei a lista fora – a dialética da vida cambia tudo. quem sabe um dia muda esse meu jeito torto de ser. ia ser eu outro ser ia.

**

e anoto duas coisas interessantes vistas por estes dias: frau holle, conto dos irmãos grimm. pensei em izabel. mas também pensei em mim.

e de gabriel pardal o vídeo-poema carta de amor enviada num canhão

***

e durante esta postagem: um plus – o ornitorrinco. não, espera… é este ornitorrinco;

e este: criolo: a certeza na quebrada é que você vai ser nada;

e de fundo: caetano veloso: menino deus.

 

sugar cane fields forever

[ter] 13 de janeiro de 2015

nota #1 bebi mais cervejas em dois dias [ontem e hoje] do que o ano passado inteiro.

nota #2 nestes últimos dias tem aumentado seriamente o número de aporrinhações com izabel [pré-adolescência já, bah].

nota #3 hoje é o aniversário do meu irmão. ajudando a montar durante o dia e na noite há o evento, com festa e bandinha tocando no quintal. dou uma passada, revejo o povo, troco uma ideia e ‘bora para cama…

nota #4 música de fundo [aquelas frases que ficam grudadas na cabeça… excerto abaixo]

«Vem
Comigo no trem da Leste
Peste, vem no trem
pra buranhém, pra buranhém, Pra Buranhém-nhém-nhém
pra buranhém, pra buranhém, Pra Buranhém-nhém-nhém,
pra buranhém, pra buranhém, Pra Buranhém-nhém-nhém,
pra buranhém, pra buranhém, Pra Buranhém-nhém-nhém»

nota #5 o reggae ali de fundo canta… liberdade para dentro da cabeça… 

nota # 6 e, ás vezes, me falta alguma liberdade de ser… enquanto o mundo todo parte, eu ancoro por cá, neste sem saber ir e sem saber ficar.

iso-butil-propanóico-fenólico

[ter] 16 de dezembro de 2014

e depois do último texto tudo piorou. a inflamação na garganta, a bagunça da casa, o cansaço, a dor no corpo, a quantidade de ibuprofeno que os rins precisam aturar… enfim… nível ]quase] zero de ânimo.

e o saldo da semana é: obrigações morais e técnicas executadas, restando apenas assinar o livro ponto e confraternizar. mas sinto que falta tanta coisa que é quase como se eu estivesse soterrado, e tão só, por toneladas de coisas incumpridas… como se eu estivesse milhares de qualquer medida de distância do que penso/gostaria/consigo/ ser…

apenas um grão neste deserto de escombros e ruínas…

***

e desta tarde onde o mar numa brecha entre as árvores cega meu olho refletindo o sol sob/sobre* as nuvens… é lindo, até o vidro quebrado da janela colado com papel-contact** transparente que borra o céu, o sol e as folhas. ouço caetano, mateio e ingiro outro dose de ibuprofeno.

nota de roda pé, no céu da página *sob/sobre depende do ponto de referência… onde a terra firme é apenas um ponto no vasto universo em expansão… **que nem é papel… ***ps: o sol se foi nesta uma hora ouvindo caetano e organizando isto cá:

***

O ESTRANGEIRO (1989) estrangeiro 001

#1. O Estrangeiro // Composição: Caetano Veloso // O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara / O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela / A Baía de Guanabara / O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara: / Pareceu-lhe uma boca banguela. / E eu menos a conhecera mais a amara? / Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela / O que é uma coisa bela? / O amor é cego / Ray Charles é cego / Stevie Wonder é cego / E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem / Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem? / Uma arara? / Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara / Em que se passara passa passará o raro pesadelo / Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro / Eu não sonhei que a praia de Botafogo era uma esteira rolante deareia brancae de óleo diesel / Sob meus tênis / E o Pão de Açucar menos óbvio possível / À minha frente / Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas / À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura / Do branco das areias e das espumas / Que era tudo quanto havia então de aurora / Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas / E uma menina ainda adolescente e muito linda / Não olho pra trás mas sei de tudo / Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo / Mas eu não desejo ver o terno negro do velho / Nem os dentes quase não púrpura da menina / (pense Seurat e pense impressionista / Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda / Mas não pense surrealista que é outra onda) / E ouço as vozes / Os dois me dizem / Num duplo som / Como que sampleados num sinclavier: / “É chegada a hora da reeducação de alguém / Do Pai do Filho do espirito Santo amém / O certo é louco tomar eletrochoque / O certo é saber que o certo é certo / O macho adulto branco sempre no comando / E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo / Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita / Riscar os índios, nada esperar dos pretos” / E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento / Sigo mais sozinho caminhando contra o vento / E entendo o centro do que estão dizendo / Aquele cara e aquela: / É um desmascaro / Singelo grito: / “O rei está nu” / Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nú / E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo / E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo. / (“Some may like a soft brazilian singer / but i’ve given up all attempts at perfection”). // #2. Rai das Cores // Composição: Caetano Veloso // Para a folha: verdePara o céu: azulPara a rosa: rosaPara o mar: azul / Para a cinza: cinzaPara a areia: ouroPara a terra: pardoPara a terra: azul / (quais são as cores que são suas cores de predileção?) / Para a chuva: prataPara o sol: laranjaPara o carro: negroPara a pluma: azul / Para a nuvem: brancoPara a duna: brancoPara a espuma: brancoPara o ar: azul / (quais são as cores que são suas cores de predileção?) / Para o bicho: verdePara o bicho: brancoPara o bicho: pardoPara o homem: azul / Para o homem: negroPara o homem: rosaPara o homem: ouroPara o anjo: azul / (quais são as cores que são suas cores de predileção?) / Para a folha: rubroPara a rosa: palhaPara o ocaso: verdePara o mar: cinzento / Para o fogo: azulPara o fumo: azulPara a pedra: azulPara tudo: azul / (quais são as cores que são suas cores de predileção?) // #3. Branquinha // Composição: Caetano Veloso // Eu sou apenas um velho baiano / Um fulano, um caetano, um mano qualquer / Vou contra a via, canto contra a melodia / Nado contra a maré / Que é que tu vê, que é que tu quer, / Tu que é tão rainha? / Branquinha / Carioca de luz própria, luz / Só minha / Quando todos os seus rosas nus / Todinha / Carnação da canção que compus / Quem conduz / Vem, seduz / Este mulato franzino, menino / Destino de nunca ser homem, não / Este macaco complexo / Este sexo equívoco / Este mico-leão / Namorando a lua e repetindo: / A lua é minha / Branquinha / Pororoquinha, guerreiro é / Rainha / De janeiro, do Rio, do onde é / Sozinha / Mão no leme, pé no furacão / Meu irmão / Neste mundo vão / Mão no leme, pé no carnaval / Meu igual / Neste mundo mau // #4.  Os outros românticos // Composição: Caetano Veloso // Eram os outros românticos, no escuro / Cultuavam outra idade média, situada no futuro / Não no passado / Sendo incapazes de acompanhar / A baba Babel de economias / As mil teorias da economia / Recitadas na televisão / Tais irredutíveis ateus / Simularam uma religião / E o espírito era o sexo de Pixote, então / Na voz de algum cantor de rock alemão / Com o ódio aos que mataram Pixote a mão / Nutriam a rebeldia e a revolução / E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil / Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo / E os primeiros mênstruos / Compunham as visões dos seus vitrais / E seus apocalipses mais totais / E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim / “O mundo desde o fim” / E no entanto era um SIM / E foi e era e é e será sim // #5.  Jasper // Composição: Arto Lindsay / Caetano Veloso / Peter Scherer // Time is as weak as water / I’m kneeling on the shore / Showers, palmfronds / Cross me spilling / Silver, sidewalks / Lips so red world so wide / Around my head / Waiting / Time is as weak as water / I taught myself a lesson / I put myself to sleep / Sirens, jasmin / Jasper, flagpole / Tree top, sidewalk / Thursday night, magnolia / Along my street / Later / I taught myself a lesson // #6. Este amor // Composição: Brian Howe // Se alguém pudesse ser um siboney / Boiando à flor do sol / Se alguém, seu arquipélago, seu rei / Seu golfo e seu farol / Captasse a cor das cores da razão do sal da vida / Talvez chegasse a ler / O que este amor tem como lei / Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo, / Rei na diáspora / Abrisse as suas asas sobre o mundo / Sem ter nem precisar / E o mundo abrisse já, por sua vez, / Asas e pétalas / Não é bem, talvez, em flor / Que se desvela o que este amor / (Tua boca brilhando, boca de mulher, / Nem mel, nem mentira, / O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer, / O que de mim ninguém tira / Carne da palavra, carne do silêncio, / Minha paz e minha ira / Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca) / Se alguém, cantasse mais do que ninguém / Do que o silêncio e o grito / Mais íntimo e remoto, perto além / Mais feio e mais bonito / Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethania… / Que anjo exterminador tem como guia o deste amor? / Se alguém, nalgum bolero, nalgum som / Perdesse a máscara / E achasse verdadeiro e muito bom / O que não passará / Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha / E a luz da maravilha / E a luz do amor / Sobre este amor // #7. Outro retrato // Composição: Caetano Veloso // Minha música vem da / Música da poesia de um poeta João que / Não gosta de música / Minha poesia vem / Da poesia da música de um João músico que / Não gosta de poesia / O dado de Cabral / A descoberta de Donato / O fato, o sinal / O sal, o ato, o salto: / Meu outro retrato // #8. Etc. // Composição: Caetano Veloso // Estou sozinho, estou triste, etc. / Quem virá com a nova brisa que penetra? / Pelas frestas do meu ninho. / Quem insiste em anunciar-se no desejo. / Quem tanto não vejo ainda / Vem, pessoa secreta. Vem, te chamo. / Vem / Etc. // #9. Meia Lua Inteira. // Composição: Carlinhos Brown // Meia Lua Inteira sopapo / Na cara do fraco / Estrangeiro gozador / Cocar de coqueiro baixo / Quando engano se enganou… / São dim, dão, dão / São Bento / Grande homem de movimento / Martelo do tribunal / Sumiu na mata adentro / Foi pego sem documento / No terreiro regional… / Uera rá rá rá / Uera rá rá rá / Terça-Feira / Capoeira rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá / Verdadeiro rá rá rá / Derradeiro rá rá rá / Não me impede de cantar / Rá rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá… / Bimba birimba a mim que diga / Taco de arame, cabaça, barriga / São dim, dão, dão / São Bento / Grande homem de movimento / Nunca foi um marginal / Sumiu na praça a tempo / Caminhando contra o vento / Sobre a prata capital… / Uera rá rá rá / Uera rá rá rá / Terça-Feira / Capoeira rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá / Derradeiro rá rá rá / Verdadeiro rá rá rá / Não me impede de cantar / Rá rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá… / Uera rá rá rá / Uera rá rá rá / Terça-Feira / Capoeira rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá / Verdadeiro rá rá rá / Derradeiro rá rá rá / Não me impede de cantar / Rá rá rá rá / Tô no pé de onde der / Rá rá rá rá… // #10. Genipapo Absoluto // Composição: Caetano Veloso // Como será pois se ardiam fogueiras / Com olhos de areia quem viu / Praias, paixões fevereiras / Não dizem o que junhos de fumaça e frio / Onde e quando é genipapo absoluto / Meu pai, seu tanino, seu mel / Prensa, esperança, sofrer prazeria / Promessa, poesia, Mabel / Cantar é mais do que lembrar / É mais do que ter tido aquilo então / Mais do que viver do que sonhar / É ter o coração daquilo / Tudo são trechos que escuto – vêm dela / Pois minha mãe é minha voz / Como será que isso era este som / Que hoje sim, gera sóis, dói em dós / “Aquele que considera” / A saudade de uma mera contraluz que vem / Do que deixou pra trás / Não, esse só desfaz o signo / E a “rosa também” /// ***

e na virada do disco… Outro álbum de caetano… Fina Estampa:

#1. Rumba Azul // Composição: Armando Oréfiche // A la rumba azul / Vamos / Llega chique… / A mi corazón… !ay,ay,ay,ay! / Es su canto azul, sensual / Con su tique… / Ya llegó el amor / !ay,ay,ay,ay! / Madame / Trilirutiru…… / Dulce es mi cantar / !oh rumba azul! / Madame / Uricutricu…. / Ilusión azul / !oh rumba azul! // …

ps: mas este disco fica para outro dia…

desde o princípio ao ponto cego eu arremesso um eco sem fim…

[dom] 14 de dezembro de 2014
cae1-001
01.- Fla-Flu (Caetano Veloso/José Miguel Wisnik) // fla-flu… (instrumental) /// 02.- É só isso (Caetano Veloso/José Miguel Wisnik) // É só isso… (instrumental) /// 03.- Madre Deus (Caetano Veloso) // frente às estrelas / costas contra a madeira / no ancoradouro / de Madre Deus / meus olhos vão / com elas / no vão / meu corpo todo desmede-se / despede-se de si / descola-se do então / do onde / longe do longe / some o limite / entre o chão e o não / frente ao infindo / costas contra o planeta / já sou a seta / sem direção / instintos e sentidos / extintos / mas sei-me indo / e as coisas findas / muito mais que lindas / essas ficarão / dizia / a poesia / e agora nada / não mais nada não /// 04.- A cobra do caos (Caetano Veloso/José Miguel Wisnik) //  (instrumental) /// 05.- Mortal loucura (José Miguel Wisnik – sobre poema de Gregório de Matos) // Na oração, que desaterra … a terra, / Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,  / Pregue que a vida é emprestado … estado, / Mistérios mil que desenterra … enterra. // Quem não cuida de si, que é terra, … erra, / Que o alto Rei, por afamado … amado, / É quem lhe assiste ao desvelado … lado, / Da morte ao ar não desaferra, … aferra. // Quem do mundo a mortal loucura … cura, / A vontade de Deus sagrada … agrada / Firmar-lhe a vida em atadura … dura. // O voz zelosa, que dobrada … brada, / Já sei que a flor da formosura, … usura, / Será no fim dessa jornada … nada. /// 06.- Big bang bang (Caetano Veloso/José Miguel Wisnik) // se tudo começou no big bang / só tinha que acabar no big mac / mas / se a partida já estava começada / quarenta minutos antes do nada / então / é / fla-flu / então / é / maracanã / lotado / de / pulsão / de / mais / e / o / sopro / divino / criador / cantou / fla-flu / faça / – / se / a / luz / flato-flou / flight-flucht / fiat lux / ptyx / e / expulsou / o / universo / do / universo / um /// 07.- Tão pequeno (Caetano Veloso – sobre poema de Luís de Camões) // Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno? /// 08 – Pesar do Mundo (Paulo Neves/José Miguel Wisnik) // pesar de tudo / pesar do peso / pesar do mundo / sobre si mesmo / pesar de nuvem / pesar de chumbo / pesar de pluma / pesar do mundo / desponta estrela / no vão imenso / por ti suspenso / à tua espera / tudo se afronta / pedra com pedra / a própria onda / quando se quebra / a melodia / onde me leva / onde alivia / onde me pesa / tudo se agita / durante a queda / o que sustenta / a nossa terra? / e nesse quando / somente um ritmo / peso e balanço / um som legítimo / canção sem medo / de você pra mim / ó meu segredo / te rezo assim: / desde o princípio / ao ponto cego / eu arremesso / um eco sem fim /// 09.- Onqotô  (Caetano Veloso/José Miguel Wisnik) // (instrumental) ///
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trilha sonora nestes dias de silêncio e ponderações.
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as vezes parece que você entrou num beco sem saída…
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e a cada momento há uma escolha, mesmo que tudo pareça inabitavelmente árido… há um movimento lento e mineral. e se o que faço não me faz sentido por vezes, espero… há de haver, para depois do ponto cego, algum fragmento solar que dê origem à vida.
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de tudo que a tv mostrou nestes dias só valeu rever eternal sunshine of the spotless mind. canção de fundoeverybody’s gotta learn sometime... e poema de referência: Eloisa to Abelard
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e agora tenho febre. devo tomar um comprimido para acabar com a dor… e o que resta então é dormir, pois amanhã será um longo dia… e ontem-hoje tudo foi muito lento. e assim, no meio do nada, alternando palavras, eu, com minha dor, sigo sem saída, entre a lembrança e o desconhecer… “onqôto? ondqvô? qemqeusô? é só isso? nadanadanadanada”

chô, chuá…

[sáb] 18 de outubro de 2014

chô, chuá

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nada do que eu possa dizer agora deve permanecer… tudo é assombro, desgosto e melancolia. que fiquemos com as profundas palavras de caetano e gil no disco Tropicália 2.

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HAITI // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // Quando você for convidado pra subir no adro / Da fundação casa de Jorge Amado / Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros pretos / De ladrões mulatos e outros quase brancos / Tratados como pretos / Só pra mostrar aos outros quase pretos / (E são quase todos pretos) / Como é que pretos, pobres e mulatos / E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados / E não importa se os olhos do mundo inteiro / Possam estar por um momento voltados para o largo / Onde os escravos eram castigados / E hoje um batuque, um batuque / Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária / Em dia de parada / E a grandeza épica de um povo em formação / Nos atrai, nos deslumbra e estimula / Não importa nada: / Nem o traço do sobrado / Nem a lente do fantástico, / Nem o disco de Paul Simon / Ninguém, ninguém é cidadão / Se você for ver a festa do pelô, e se você não for / Pense no Haiti, reze pelo… / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui / E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado / Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer / Plano de educação que pareça fácil / Que pareça fácil e rápido / E vá representar uma ameaça de democratização / Do ensino de primeiro grau / E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital / E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal / E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual / Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco / Brilhante de lixo do Leblon / E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo / Diante da chacina / 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos / Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres / E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos / E quando você for dar uma volta no Caribe / E quando for trepar sem camisinha / E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba / Pense no Haiti, reze pelo / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui .//

CINEMA NOVO // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // O filme quis dizer  / “Eu sou o samba” / A voz do morro rasgou a tela do cinema / E começaram a se configurar / Visões das coisas grandes e pequenas / Que nos formaram e estão a nos formar / Todas e muitas: Deus e o diabo, vidas secas, os fuzis / Os cafajestes, o padre e a moça, a grande feira, o desafio / Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil / Outras conversas sobre os jeitos do Brasil / A bossa nova passou na prova / Nos salvou na dimensão da eternidade / Porém aqui embaixo “A vida mera metade de nada” / Nem morria nem enfrentava o problema / Pedia soluções e explicações / E foi por isso que as imagens do país desse cinema / Entraram nas palavras das canções / Entraram nas palavras das canções / Primeiro foram aquelas que explicavam / E a música parava pra pensar / Mas era tão bonito que parece / Que a gente nem queria reclamar / Depois foram as imagens que assombravam / E outras palavras já queriam se cantar / De ordem e desordem de loucura / De alma a meia-noite e de indústria / E a Terra entrou em transe / E no sertão de Ipanema / Em transe é, no mar de monte santo / E a luz do nosso canto e as vozes do poema / Necessitaram transformar-se tanto / Que o samba quis dizer / O samba quis dizer: eu sou cinema / O samba quis dizer: eu sou cinema / Aí o anjo nasceu, veio o bandido meter o rango / Hitler terceiro mundo, sem essa aranha, fome de amor / E o filme disse: Eu quero ser poema / Ou mais: Quero ser filme e filme-filme / Acossado no limite da garganta do diabo / Voltar a Atlântida e ultrapassar o eclipse / Matar o ovo e ver a vera cruz / E o samba agora diz: Eu sou a luz / Da lira do delírio, da alforria de Xica / De toda a nudez de índia / De flor de macabéia, de asa branca / Meu nome é Stelinha é Inocência / Meu nome é Orson Antonio Vieira conselheiro de pixote / Superoutro / Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo / Quero ser Ganga bruta e clara gema / Eu sou o samba / viva o cinema. //

NOSSA GENTE (AVISA LÁ) // Compositor: Roque Carvalho // Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô //

RAP POP CONCRETO  // Compositor: Caetano Veloso // Quem? //

WAIT UNTIL TOMORROW // Compositor: Jimi Hendrix // Well, I’m standing here, freezing, inside your golden garden / Uh got my ladder, leaned up against your wall / Tonight’s the night we planned to run away together / Come on Dolly Mae, there’s no time to stall / But now you’re telling me… / I think we better wait till tomorrow / Hey, yeah, hey / (I think we better wait till tomorrow) / Girl, what ‘chu talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / Yeah, yeah, yeah / Got to make sure it’s right, so until tomorrow, goodnight. / Oh, what a drag. /  Oh, Dolly Mae, how can you hang me up this way ? / Oh, on the phone you said you wanted to run off with me today / Now I’m standing here like some turned down serenading fool / Hearing strange words stutter from the mixed mind of you / And you keep tellin’ me that ah… /  I think we better wait till tomorrow / What are you talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / No, can’t wait that long / (I think we better wait till tomorrow) / Oh, no / Got to make sure it’s right, until tomorrow, goodnight, oh. / Let’s see if I can talk to this girl a little bit here… /  Ow ! Dolly Mae, girl, you must be insane / So unsure of yourself leaning from your unsure window pane / Do I see a silhouette of somebody pointing something from a tree ? / Click bang, oh what a hang, your daddy just shot poor me / And I hear you say, as I fade away… / We don’t have to wait till tomorrow / Hey ! / We don’t have to wait till tomorrow / What you say ? / (We don’t have to wait till tomorrow) / It must have been right, so forever, goodnight, listen at ‘cha. / (We don’t have to wait till tomorrow) / Ah ! Do I have to wait ? Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / It’s a drag on my part / (We don’t have to wait till tomorrow) Don’t have to wait, uh, hmm ! Ah, no ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, oh / I won’t be around tomorrow, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Goodbye, bye bye ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, what a mix up / Oh, you gotta be crazy, hey, ow! / Don’t have to wait till tomorrow //

TRADIÇÃO // Compositor: Gilberto Gil // Conheci uma garota que era do Barbalho / Uma garota do barulho / Namorava um rapaz que era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando / Conheci essa garota que era do Barbalho / Essa garota do barulho / No tempo que Lessa era goleiro do Bahia / Um goleiro, uma garantia / No tempo que a turma ia procurar porrada / Na base da vã valentia / No tempo que preto não entrava no Bahiano / Nem pela porta da cozinha / Conheci essa garota que era do Barbalho / No lotação de Liberdade / Que passava pelo ponto dos Quinze Mistérios / Indo do bairro pra cidade / Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro / Pra onde todo mundo ia / Todo dia, todo dia, todo santo dia / Eu, minha irmã e minha tia / No tempo quem governava era Antonio Balbino / No tempo que eu era menino / Menino que eu era e veja que eu já reparava / Numa garota do Barbalho / Reparava tanto que acabei já reparando / No rapaz que ela namorava / Reparei que o rapaz era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando //

AS COISAS // Compositores: Arnaldo Antunes e Gilberto Gil //  As coisas têm peso  / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas têm peso / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz /

ABOIO // Compositor: Caetano Veloso // Urba imensa / Pensa o que é e será e foi / Pensa no boi / Enigmática máscara boi / Tem piedade / Megacidade / Conta teus meninos / Canta com teus sinos / A felicidade intensa / Que se perde e encontra em ti / Luz dilui-se e adensa-se / Pensa-te //

DADA // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // A Deus / Deus a / A…fro…di…te /De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…fro…di…te / De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…..fro…..di…..te /De ti / Ti ve / Vida / Da da / A Deus /

CADA MACACO NO SEU GALHO (CHÔ, CHUÁ)  // Compositor: Riachão (Clementino Rodrigues) // Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia /Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá /Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá /Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chua / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá /

BAIÃO ATEMPORAL // Compositor: Gilberto Gil // No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / Levará uma semana até chegar / Junto com mais dois ou três outros cabras que / Estarão lá / No último pau de arara de ira…rá / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Só que este conto que eu canto é pra lá de zen / Não tem sentido, não serve pra nada e é /Pra ninguém / Pra ninguém botar defeito e não ter porém / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Porque os tempos passaram e passarão / Tudo que começa acaba e outros cabras seguirão / Cruzando o atemporal do tão do baião //

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA // Compositor: Caetano Veloso // A tristeza é senhora,  / Desde que o samba é samba é assim  / A lágrima clara sobre a pele escura,  / a noite e a chuva que cai lá fora  / Solidão apavora,  / tudo demorando em ser tão ruim  / Mas alguma coisa acontece,  / no quando agora em mim  / Cantando eu mando a tristeza embora  / (Repete tudo acima)  / O samba ainda vai nascer,  / O samba ainda não chegou  / O samba não vai morrer,  / veja o dia ainda não raiou  / O samba é o pai do prazer,  / o samba é o filho da dor  / O grande poder transformador.

***

vertigens incidentais: #1 beba coca, cloaca. #2 um bate papo com o luis antônio… preciso disso, conversar com gente bacana; e deixar a casa mais arrumada… meu barraco é uma bagunça. #3 pesquisar mais sobre o novo cinema pernambucano. #4 floripa teatro – 21º festival isnard azevedo

ps: #1 se amanhã fizer um dia bonito vou mexer na terra. #2 e das leituras e conversas de hoje: Abayomis, a boneca negra; Für Elise, de Beethoven; e “macacos me mordam, batman…“, porque há muito fascismo ali do lado… #AécioNever

algumas doses

[dom] 31 de agosto de 2014

algumas doses de solidão.

TRADUZIR-SE de Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

***

If you hold a stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand
But if you hold the stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand

If you hold a stone, marinheiro só
Hold it in your hand, marinheiro só
If you feel the weight, marinheiro só
you’ll never be late, marinheiro só
To understand…

Ô, marinheiro marinheiro
Marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar
Marinheiro só
Ou foi o tombo do navio
Marinheiro só
Ou foi o balanço do mar
Marinheiro só

Caetano Veloso/Domínio Público

***

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar

***

palavras-chaves: autonomia (e escola da ponte… ) e insonia.

a caderneta do poeta e suas contradições

[dom] 6 de abril de 2014

Trilha sonora desta postagem…

Comecei com isto: Bolívia de Drexler com Caetano Veloso, um bela canção de seu novo album Bailar en la cueva… E me perdi por estas bandas… Blue (de Lisandro Aristimuño) por Lisandro e Paulinho Moska; e  Sueño Con Serpientes  de Silvio Rodriguez; Un Vestido Y Un Amor (Te Vi) de Fito Páez; Canción de amor de Lisandro Aristimuño; Como La Cigarra (composição de María Elena Walsh) por Pedro Aznar; A Primera Vista (Pedro Aznar e Chico César) por Pedro Aznar; Carta a Francia de Fernando Delgadillo; Quien FueraTe Doy Una Canción e Ojalá, todas de Silvio Rodriguez; La cancion mas hermosa del mundo e Contigo (de Joaquin Sabina e Pancho Varona) por joaquin sabina…

 

Abaixo um fragmento (páginas 428-429) sobre o poeta:

«Mas o ano de 1927 em nada ameaçava Maiakovski. Apesar do cansaço acumulado, ele tinha que batalhar em duas frentes, porém o trabalho o absorvia por inteiro e ele redodobrava as forças.. Umas das frentes era a Revolução, seus ideais (poemas “Bom!”, “À nossa juventude”, “A voz da Praça Vermelha”, “Pelas cidades da URSS”, “Os primeiros comissários”, “Lenin está conosco!”), a segunda frente era a sátira, os golpes nos costumes pequeno-burgueses e na burocracia. Parafraseando o próprio Maiakovski, ao falar do poema “Os doze” de Blok, pode-se concluir que em tudo o que ele escreveu durantes estes anos, de um lado, estava a glória à Revolução, e do outro, a sátira sobre a sua continuação. Ainda voltaremos a essa trágica bifurcação da consciência de Maiakovski. O mundo realmente, como afimar Heine, partiu-se em duas matades e a rachadura atravessou o coração do poeta. Diante dele surge de forma mais crítica a questão: em quem acreditar?
Sobre a mesa do escritório, bastava levantar a cabeça, estava a fotografia de Lenin, que continuava a personificar para Maiakovski o ideal de líder e de ser humano, a sua crença. Nos corredores do poder Maiakovski encontra pessoas bajuladoras, burocratas, corruptas e pomposas. A elas o poeta contrapõe a imagem ideak e pura do revolucionário. O poeta se orienta e se apoia em Lenin na sua luta com as mazelas do cotidiano “Soviético”. Olha o retrato e revive a imagem: milhões de pessoas passando diante dele, um mar de bandeiras, as mãos erguidas…. Apesar do difícil cotidiano do Estado – extração de carvão e minério, a luta contra a pobreza, contra os burocratas, os bajuladores, os sectários e os bêbados, seus poemas tem força lírica. Em seus versos agrega à figura de Lenin a figura de Dzerjinski, e a de Teodor Nette, que morreu no seu posto do corpo diplomático (“Quero encontrar a minha morte como a encontrou o companheiro Nette”)… É muito significativo que associe o seu ideal somente àqueles que já estão mortos e a nenhum dos vivos.
Mas entre os vivos está o camarada Ivanov, que se intromete “em tudo e em todos os lugares”, “ensaboado com o sabonete escorregadio dos bajuladores”. Mas está vivo o “mosqueteiro do partido”, o jovem que decorou manuais do comunismo e “acabou para sempre com as ideias do comunismo”. Está vivo o “todo pomposo cidadão soviético” que pensa que “para sempre poderá protelar e mandar”, já que é membro do Comitê Central. Está vivo o companheiro Popov, que acredita que a “crítica vinda de baixo era veneno. Vinda de cima era remédio!” E isso era o “pilar” do sistema. Estão vivos o “lambujeiro”, o “fofoqueiro” – uma galeria inteira de tipos que terminava como o companheiro Podebonosikov, da peça Os banhos, uma galeria de anti-heróis.
E se enfileirarmos todos os poemas satíricos de Maiakovski sobre temas internos e acrescentarmos a eles as peças O percevejo e Os banhos, o quadro é completamente triste. Nenhum poema e nenhum verso de propaganda, como em “Monumento aos operários de Kursk” ou “Conto do fundidor Ivan Kozirev sobre a mudança para o apartamento novo”, ou o trecho final do poema “Bom!”, esclarecem o cenário da realidade soviética dos anos 1920. Quase tudo é positivo, tudo deve ser expressado como realização do sonho revolucionário, e o poeta expressou em declarações, em palavras de ordem e em lemas. Sobre isso nos dizem também os títulos dos poemas “Produza pão!”, “Prepare-se! Pare! Construa!”, “Companheiros administradores!”, “Pra frente, Komsomol!”, “Produza automóveis!”, Crave a autocrítica!”, “Votamos pela não-interrupção!”, “Produza a base material!”, “A marcha das brigadas de vanguarda!” etc.
Por um lado, o momento político pouco atraente e que acabaca com as esperanças, por outro – Produza! Pra frente! Construa! E as estes lemas, palavras de ordem e marchas animadas…. Qual era o caminho de volta? Era bem diferente daquele que o impaciente Maiakovski desejava.
Seria possível construir o comunismo com os companheiros Ivanov, Petrov, Prisipkin, Pobedonosikov? Provavelmente, Maiakovski já se fazia esta pergunta. Mas ele não podia renunciar a seus ideiais, não podia viver sem a crença que praticamente o pregava aos jornais de propaganda: já que era um contato direto com as massas. Vãs esperanças, auto-ilusão futurística e crença na força das palavras….”
Nessa fenda, nessa “rachadura” entre as crenças (“Produza!”) e a decepção (“Abaixo!”) podia ter surgido a crise espiritual como premissa da tragédia. Tal crise cresceu gradativamente e já pudemos observar como deprimia o poeta…»

***

Leituras extras: O Amor, Maiakóvski, Morin, Caetano e PicassoO Suicídio de Maiakovsky – Leão Trotsky

***

Um dia” vou morar fora… Aprender Russo [para ler toda literatura e poesia] ou espanhol [para viver em uruguay o por latinoamerica]… Nestes últimos anos, vivo por cá “meio a contragosto“. São esses imperativos morais – ser pai, ser filho, ser trabalhador que se sustenta… É uma mescla de impotência para o delírio profundo e transmutador, e um sentido manso de dever e abnegação – mas acho que já escrevi sobre isto e não vou me repetir.

Dentes, línguas, pedras e poemas me aguardam – antes de minha morte…

Um dia hei de engendrá-los em mim…

E fiquei pensando no seu projeto – nesses sonhos que tive, e ainda aqui, lá no fundo, tenho – que me fez ver o quanto ainda estou pequeno e tudo em mim é tão mínimo por enquanto… ando tão preso neste momento e tão distante deste  “um dia“… ando tentando ser prático, mesmo que isto me afaste da práxis revolucionária, daquela rebeldia contra esse mundo, e o partido-coletivo é apenas uma imagem, algo distante de minha prática cotidiana.  Hoje, as aspirações são um cadinho “pequenos burguesas” de estabilidade, de “fazer minha casa”, de melhorar as condições de minha família, da filha, dos pais… E vou conciliando as limitações econômicas, as exigências familiares, buscando um lugar no espaço/tempo deste mundo que não me deprima tanto, que não alimente essa sensação-suicida-crônica que era constante… busco tanto ter paciência e coragem para prosseguir… sobreviver… enquanto guardo este sonho com carinho de um dia ir-me… virar-me do avesso, curar as cicatrizes… mas por hoje continuo, por cá, com mais um chá, envolvo-me nestes meus deveres de professor-aprendiz, de pai-aprendiz, de homem que sonha solitário, distante de sua classe e da utopia revolucionária. Minhas contradições… Estas minhas algemas, algemas de elefante. Isto que me faz tão distante e tão menor, de todo o amor que sangra neste peito.

abaixo, alguns fragmentos de poesia da semana:

exercício sobre o chá

esquece
e evapora
o líquido
que aquece.

embora,
lírico,
espera…

um chá
um chão,
pés líquidos,
uma hora,
um vão
na nuvem…

pero,
lírico,
emperra
e espera…

o que aquece
o que esquece
o que evapora
o que embora
lírico ainda é um poema
perro.

entre 4-6/abril/2014.

***

exercício sobre as palavras de izabel

o céu é vazio
azul e vazio
eu sou o céu
vazio e azul

e isto é poesia izabel.

3/abril/2014.

***

e agora fico devendo o poema sobre o tema-desenho que recebi de lucas, filho do meu primo. Todos os sábados ele traz os filhos, já que está morando temporariamente por aqui. E então e aquela correria de crianças pela casa… o tema-desenho é uma árvore verde com um fruto em forma de interrogação.

 

***

E hoje eu precisava tanto ficar só. Submerso no meu vazio interior. Ontem foi tão cheio de gente e tão longo o dia, as crianças acordam cedo – eu também tenho acordado todo dia cedo – e para fechar a noite izabel dormiu aqui em casa, porque a mãe dela saiu para namorar… E eu fui dormir tarde e num colchão tão duro… Ah, eu me cansei demais. Quintas e domingos são os dias mais tranquilos, onde estou mais em paz. O restante da semana é tão trabalhoso… Dias de semana são dias de trabalho e no Sábado são de izabel… E sempre são tantos humores e tantas cobranças que me consomem tanta energia espiritual e física – tenho andado sempre um tanto exausto.

 

claro-escuro epistemológico

[sáb] 28 de dezembro de 2013

dois pontos para um dia todo: caetano e companhia pela tarde (cê e onqotô, das série «re»descobertas sonoras). michael löwy e companhia pela manhã e tarde (das «re»leituras diárias).

http://www.youtube.com/watch?v=84MlvAffIe8

http://www.youtube.com/watch?v=tXdi4yUqSYs

http://www.youtube.com/watch?v=yEDZcIu9T3o

e abaixo excertos sobre as aventuras de karl marx contra o barão de münchhausen – compreendendo as páginas 114-130 abordando a relação entre ideologia e ciência sob uma perspectiva de marxista.

O marxismo ou o desafio do «princípio da carruagem»

(…) Enquanto visão de mundo, o marxismo é uma utopia revolucionária – no sentido em que precisamos anteriormente: a utopia é toda Weltanschauung que aspira a um estado de coisas ainda inexistente – mas nos Estados pós-capitalismo ele assume um caráter ideológico (o estalinismo); procuraremos examinar as implicações cognitivas destas duas possiblidades.

Ideologia e ciência segundo Marx

(…) Mais tarde, no Prefácio à Contribuição à crítica da economia política (1859), ele emprega uma significação mais ampla do termo: «as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até o fim».

(…) Como Marx concebia a contradição – ou articulação – entre ciência e ideologia no conhecimento social? Em que medida considerava a obra de seus predecessores ( e especialmente dos economistas clássicos ) como científica e/ou ideológica? A fórmula de « corte epistemológico entre ciência e ideologia » corresponderia à maneira pela qual o próprio Marx compreendia a inovação radical de sua obra? Estas questões delimitam um certo campo teórico que procuraremos explorar e que nos parece constitutivo da visão marxista da relação entre sociedade e conhecimento.

Em nossa opinião, é em algumas passagens do Dezoito Brumário que se encontra a definição marxista mais precisa, mais concreta e mais fértil das ideologias e das visões de mundo enquanto expressão de uma classe social determinada ( o conceito utilizado por Marx é o de « superestrutura » ). Trata-se de célebre parágrafo que analisa a relação entre representantes do partido democrático e sua classe, a pequena burguesia. Examinemos algumas das ideias que Marx sugere – explícita ou implicitamente – nesse texto de uma surpreendente riqueza.

a) É a classe que « cria e forma » as visões sociais de mundo ( « superestruturas »), mas estas são sistematizadas e desenvolvidas por seus « representantes políticos e literários », isto é, seus ideólogos ( ou utopistas ). A visão social de mundo (ideológica ou utópica) com seus diversos componentes corresponde não somente aos interesses materiais de classe mas também à sua situação social – conceito mais amplo, que permite superar a tentativa reducionista que relaciona as ideologias apenas ao « interesse » ( economicamente definido ).

b) Os intelectuais são relativamente autônomos com relação à classe. Eles podem ser separados dela por um « abismo » social e cultural; sua « situação pessoal » não deve ser de todo necessariamente a mesma que aquela da classe que ele representa. O que os faz representantes desta classe é a ideologia ( ou utopia ) que eles produzem.

c) O que define uma ideologia ( ou utopia ) não é esta ou aquela ideia isolada, tomada em si própria, este ou aquele conteúdo doutrinário, mas uma certa « forma de pensar », uma certa problemática, um certo horizonte intelectual ( « limites da razão »). De outro lado, a ideologia não é necessariamente uma mentira deliberada; ela pode comportar ( e comporta geralmente ) uma parte importante de ilusões e de auto-ilusões.

(…) A primeira observação que se impõe é a seguinte: o caráter « de classe » de um escrito de economia política não é, em si, uma indicação suficiente de seu valor, ou de sua ausência de valor, científico. Mais concretamente, para Marx a obra de um economista pode ser fundamentada sobre certas pressuposições ideológicas burguesas e ter, contudo, uma grande importância científica. Em outros termos: a problemática da autonomia relativa da ciência é, nos escritos de Marx, um complemento essencial (em geral implícito) à sua crítica das limitações ideológicas da economia política.

É nesta ótica que é necessário compreender a célebre distinção entre « clássicos » e « vulgares » que atravessa o conjunto de seus trabalhos econômicos e que define, no interior de uma mesma perspectiva burguesia, um polo autenticamente científico e um polo superficial e apologético ( desprovido de valor do ponto de vista do conhecimento ) (…).

Como explicar esta diferença capital, do ponto de vista da profundidade e da qualidade científica, entre economistas que se situam apesar de tudo no mesmo horizonte ideológico, em uma mesma « posição de classe »? Acham-se em Marx dois tipos de explicação bastante diversas para esta clivagem. Uma é de caráter primordialmente psicológico e moral (…) Entretanto, esta explicação não é senão uma aspecto de uma análise de conjunto mais profunda e mais rigorosa do problema, aspecto que seria falso e enganoso isolar de seu contexto global.

Isso nos conduz ao segundo tipo de explicação avançada por Marx para dar conta da diferença científica entre os « clássicos » e os « vulgares », explicação que reabilita o materialismo histórico. Trata-se de uma análise que relaciona o desenvolvimento da economia política e o desenvolvimento da da luta de classes; ela não é contraditória com a análise psicológica, mas a supera e a integra como um momento subordinado.

É no Posfácio à segunda edição alemã de O Capital (1873) que Marx formula de forma mais precisa esta explicação:

« Na medida em que é burguesa… a economia política não pode continuar sendo uma ciência senão quando a luta de classes permanece latente ou não se manifesta senão por fenômenos isolados. Tomemos a Inglaterra, o período onde esta não havia ainda se desenvolvido, e é também este o período clássico da economia política ». Pelo contrário, após 1830, « na França e na Inglaterra a burguesia se apodera do poder político. Desde então, na teoria como na prática, a luta de classes reveste-se de formas mais e mais acentuadas, mais e mais ameaçadoras. Ela faz soar a hora da economia burguesa científica » (…)

Se nós retornamos à distinção marxista entre os clássicos e os vulgares, percebemos, portanto, que a explicação psicológica que ele avança (…) reconduz a uma explicação sociológica que ele desenvolve em outro lugar. As duas explicações não são contraditórias: mas é o social que esclarece e explica o psicológico. (…)

Evidentemente, há uma dose considerável de simplificação nesta análise de Marx ( que não deveria ser extrapolada de seu contexto histórico); mas a pesquisa metodológica, a forma rigorosa e ousada de ligar o desenvolvimento da economia política à marcha da história social, nos parece fundamental para dar conta da concepção marxista da dialética ciência/ideologia e de sua relação com a luta de classes.

Marx não ignorava que a sucessão cronológica das duas etapas da burguesia não era a única explicação social da oposição entre clássicos e vulgares; ela podia também se relacionar – especial no caso de Malthus, que é contemporâneo de Ricardo – à clivagens entre classes ou frações de classes no seio das camadas sociais dominantes. (…) Se os escritos de Ricardo são científicos, como poderiam estar ao mesmo tempo carregados de ideologia burguesa? (…) A constatação principal que se extrai daí é esta: apesar de sua boa-fé, de sua imparcialidade, de sua honestidade, de seu amor à verdade, a economia política clássica é burguesa, e sua ideologia de classe impõe limites à cientificidade. (…)

Trata-se, como o enfatizava o Dezoito Brumário, de um sistema de ilusões e atitudes, de uma certa forma de pensar, de uma certa problemática e de um certo horizonte intelectual ( aspectos inseparáveis que se condicionam reciprocamente, momentos diversos de uma mesma totalidade ideológica ).

É antes de tudo pela problemática que a ideologia ( burguesa ) se manifesta no terreno do conhecimento científico entre os clássicos. Realmente, a problemática, isto é, o sistema de questões, define o campo cognitivo de uma ciência. Ora, Ricardo e os clássicos não colocaram certas questões – que são para Marx essenciais.

Os clássicos descobriram que o valor era a expressão do tempo de trabalho, mas eles jamais se colocaram a questão de saber por que o trabalho tomava a forma de valor de objeto produzido. Por qual razão eles jamais levantaram esta questãos? De acordo com Marx, porque para eles « esta forma que demonstra claramente que ela pertence a uma sociedade na qual a produção domina o homem e não o homem a produção era para sua consciência burguesa uma necessidade tão evidentemente natural quanto o próprio trabalho produtivo ». Tocamos aqui uma clivagem decisiva, que expõe a diferença essencial entre a economia política e Marx: « a economia política clássica/científica é burguesa sobretudo porque para ela a produção burguesa é a produção em geral. Uma forma específica, historicamente dada, da produção – o capitalismo – é considerada por ela como absoluta, eterna, a-histórica, natural, e as contradições do modo de produção capitalista são explicadas como contradições naturais da produção enquanto tal ».

Isso nos conduz ao conceito de horizonte intelectual que se articula diretamente com o conceito de problemática, e que constitui em nossa opinião uma das imagens mais férteis e mais interessantes do campo teórico marxista que exploramos aqui ( mesmo que ele não tenha sido de maneira alguma desenvolvido). Este conceito nos permite localizar, de forma mais precisa, o papel da ideologia na constituição de um saber científico: ela lhe circunscreve os limites.

(…)

Sem dúvida alguma, estamos aqui diante de um conceito de ideologia que não tem nada a ver com a mentira, a falsificação ou a mistificação: não é vontade de conhecer a verdade por parte dos clássicos que está colocada em questão, mas a possibilidade de conhecê-la, a partir de sua problemática e no quadro de seu horizonte de classe. Isso não impede que, no interior destes limites, sua busca possa produzir conhecimento científicos importantes: a ideologia burguesa não implica a negação de toda ciência, mas a exigência de barreiras que restringem o campo de visibilidade cognitiva.

A respeito de certas ideias de Ricardo e de seus discípulos, Marx comenta: « Isto é o nível mais elevado que se pode atingir a partir do ponto de vista (Standpunkt) capitalista ». Existe assim, segundo ele, uma espécie de máximo de conhecimento possível além do qual sua ideologia de classe não permite à economia política burguesa chegar.

Horizonte, perspectiva, ponto de vista, campo de visibilidade: estas metáforas óticas não devem evidentemente ser compreendidas em um sentido literal; simplesmente elas permitem colocar em evidência que o conhecimento, o saber (« a visão ») estão estreitamente ligados à posição social (« altura ») do observador científico.

Ricardo personifica o máximo de saber possível no seio da perspectiva burguesa na medida em que ele representa os setores mais revolucionários, mais avançados, mais progressistas da burguesia industrial. Isso significa que para Marx o progressismo é sempre o ponto de vista mais favorável ao conhecimento? (…)

Na realidade, Marx está longe de partilhar este tipo de evolucionismo reducionista ou de « progressimo » vulgar. Suas análises sobre certos economistas « passadistas », críticos do modo de produção industrial/capitalista, em especial Sismondi, o demonstram. Já no Manifesto comunista, criticando inteiramente os aspectos « reacionários » contidos na utopia do « socialismo pequeno-burguês », Marx e Engels não deixavam de reconhecer o valor de Sismondi que « analisou, com uma grande perspicácia, as contradições inerentes às condições modernas de produção ».

(…)

Retomando nossa metáfora ótica, poderíamos dizer que para Marx, Sismondi não representa um ponto de vista « mais elevado », um horizonte científico mais vasto que Ricardo, mas uma perspectiva diferente, um ângulo de observação distinto, assentado sobre uma posição de classe diferente, que lhe permite perceber toda uma dimensão da realidade social invisível a partir do observatório ricardiano – ao preço de uma cegueira sobre aspectos essenciais desta realidade perceptíveis no campo de visibilidade teórica da economia política clássica. Este jogo de claro-escuro epistemológico, esta dialética paradoxal entre utopia « reacionária », ideologia « progressista » e a ciência social – presentes em Marx como sugestão ou corolário implícito – indicam a necessidade de superar toda visão linear e evolucionista do desenvolvimento da ciência social e sua relação com o campo da luta de classes.

(…)

A partir de 1830, como vimos, abre-se um novo período. Em seu livro Miséria da filosofia (…) Marx acrescenta: « Mas à medida que a história avança e com ela a luta do proletariado se delineia mais claramente, eles (os socialistas e comunistas) não têm mais necessidade de procurar a ciência em seu espírito, mas apenas devem se dar conta do que se passa diante dos seus olhos e expressá-lo…. A partir deste momento, a ciência produzida pelo movimento histórico, e se associando a ele com plena consciência de causa, deixou de ser doutrinária: ela se tornou revolucionária ». Não há dúvida que Marx considerava a sua própria obra e de Engels como pertencente a esta ciência revolucionária que se associa às lutas do proletariado com plena consciência de causa. Mas é importante enfatizar que esta ciência foi, na sua opinião, « produzida pelo movimento histórico ». Em outras palavras, o que permitiu a Marx e Engels superar os limites do socialismo ricardiano e/ou « doutrinário » foi a nova etapa histórica da luta de lasses que começa a partir de 1830 – em particular, o avanço do movimento operário e de seu combate contra o capital.

No Posfácio de 1873, Marx expressa de forma mais concreta e explícita a posição de classe que reivindica para si: « Na medida em que esta crítica [da economia política burguesa – Michael Löwy] representa uma classe, esta não pode ser senão aquela cuja missão histórica é derrubada (umwälzung) do modo de produção capitalista e a abolição final das classes – o proletariado ». A expressão « na medida em que esta crítica representa uma classe » é altamente significativa: em nossa opinião, ela remete à problemática da autonomia relativa da ciência, isto é, Marx indica por isso que seu livro não deveria ser reduzido à dimensão « representação de classe », mesmo se ele reivindica para si, sem hesitação, um ponto de vista probletário.

Pode-se agora procurar resumir a concepção que tinha o próprio Marx da relação entre sua obra e a de seus predecessores: não um « corte epistemológico » entre « a ciência » e « os ideólogos », mas uma Aufhebung dialética que nega/conserva/supera os momentos anteriores. Mais precisamente, a clivagem com Ricardo é, ao mesmo tempo, uma radical ruptura de classe e uma separação/continuidade ao nível científico. Sobre o terreno das visões sociais de mundo, os dois são representantes de posições de classe rigorosamente contraditórias, mas do ponto de vista científico existe, ao mesmo tempo, uma diferença essencial e um encadeamento parcial entre elas. Enquanto «homem de ciência », Marx reconhece sua dívida para com Ricardo ( assim como para com Sismondi etc.), dívida que o corte de classes não aboliu ( a diferença com os socialistas ricardianos representou mais, como procuramos demonstrar, dois momentos diferentes na evolução do mesmo ponto de vista de classe). A démarche de Marx tem a grande vantagem de evitar os dois recifes onde o marxismo posterior encalhará ( bastante frequentemente ), com uma vontade e uma obstinação sempre renovadas: o reducionismo sociológico ( ou ideológico ou econômico ) que não percebeu os confrontos teóricos e científicos senão em termos de interesse de classe, e o positivismo vergonhoso, que pretende dissociar inteiramente o desenvolvimento da ciência social ( e o marxismo em particular ) da luta de classe e dos conflitos ideológicos.”

from behind the wall

[sex] 27 de dezembro de 2013

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me

You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

(…)

Triste, oh, quão dessemelhante

Ê, ô, galo canta

O galo cantou, camará

Ê, cocorocô, ô cocorocô, camará

Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará 

os argonautas e a palmeira imperial de cuba

[seg] 23 de setembro de 2013

O texto ficou uma bosta. Mas enviei. Enfim, é o ônus de deixar tudo para o último segundo, literalmente. Mas hoje foi bacana: feira de ciência regional, ganhei uma muda de palmeira real, (Roystonea regia) revi alunos e alunos, colegas professores, conversei bastante… enfim, cansado, mas satisfeito. Das 4 atividade para hoje, fiz 2. E está tudo ótimo.

A Escola – Paulo Freire


“Escola é…

o lugar onde se faz amigos

não se trata só de prédios, salas, quadros,

programas, horários, conceitos…

Escola é, sobretudo, gente,

gente que trabalha, que estuda,

que se alegra, se conhece, se estima.

O diretor é gente,

O coordenador é gente, o professor é gente,

o aluno é gente,

cada funcionário é gente.

E a escola será cada vez melhor

na medida em que cada um

se comporte como colega, amigo, irmão.

Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.

Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir

que não tem amizade a ninguém

nada de ser como o tijolo que forma a parede,

indiferente, frio, só.

Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,

é também criar laços de amizade,

é criar ambiente de camaradagem,

é conviver, é se ‘amarrar nela’!

Ora , é lógico…

numa escola assim vai ser fácil

estudar, trabalhar, crescer,

fazer amigos, educar-se,

ser feliz.”

_______________________________________________________

Estrofes 37-40, canto V. “Os Lusíadas” de Luiz Vaz de Camões. 

tua batata da perna moderna

[sáb] 14 de janeiro de 2012

SÁBADO

caderno madeira no sítio monumenta

SEXTA-FEIRA

tua batata da perna moderna

QUINTA-FEIRA

em casa de nóe, pela manhã-tarde: Café do Sítio Vale da Biodiversidade com Milho Criolo.  Uma boa conversa e muito aprendizado. Uns canteiros-ninhos agroflorestais feitos, uma clerodendron thomsonae vista, e três mudas de aloe vera de presente.

em casa na madrugada: http://www.projetojucara.org.br/

efêmera

[qua] 21 de dezembro de 2011

O silêncio do mato… conectado com o que é bom… anoto coisas feitas por outros que fazem sentido para (e em) mim. E carrego essa vontade danada em mim de ficar só. Ficar só, com os pássaros, as plantas, os insetos… com a vida silenciosa que brota cotidianamente pela tarde, pela manhã, pela noitinha… Ficar só, sem essas gentes que só reclamam ou aprisionam-se colecionando sonhos pequenos. Eu quero paz. Quero esse silêncio repleto de sons de vida que não preocupam-se se tem ou não tem isto ou aquilo e apenas seguem em frente: vivendo a poesia do dia.

EFÊMERA /// Vou ficar mais um pouquinho, para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Congele o tempo preu ficar devagarinho com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras e que passam perecíveis e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Martelo o tempo preu ficar mais pianinho com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras e que estão despetaladas, acabadas sempre pedem um tipo de recomeço. // Vou ficar mais um pouquinho, eu vou. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Congele o tempo preu ficar devagarinho com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras e que passam perecíveis e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço. // Por isso vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Martelo o tempo preu ficar mais pianinho com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras e que estão despetaladas, acabadas sempre pedem um tipo de recomeço. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. // Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. // Vou ficar mais um pouquinho pra ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. /// Tulipa Ruiz.

A ORDEM DAS ÁRVORES /// Naquele curió mora um pessegueiro / Em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro / Todo bem-te-vi carrega uma paineira / Tem sempre um colibri que gosta de jatobá // Beija-flor é casa de ipê // Cada andorinha é lotada de pinheiro / e o joão-de-barro adora o eucalipto // A ordem das árvores não altera o passarinho // Naquele pessegueiro mora um curió / Em todo jasmineiro tem sempre um rouxinol / Toda paineira carrega um bem-te-vi / Tem sempre um jatobá que gosta de colibri // Beija-flor é casa de ipê /// Tulipa Ruiz.

O FOTÓGRAFO ///
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal. /// Manuel de Barros

OUTRAS PALAVRAS /// Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca / Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca / Neca desse sono de nunca jamais nem never more  / Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó / Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: / Outras palavras // Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor / Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol / Na televisão, na palavra, no átimo, no chão / Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais / Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: / Outras palavras // Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem / Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim / E fora de mim / quando você parece que não dá / Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir / Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha: / Outras palavras // Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu / Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações / Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor / Tinjo-me romântico mas sou vadio computador / Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente: / Outras palavras // Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz / Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial / Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid / Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun / Homenina nel paraís de felicidadania: / Outras palavras /// Caetano Veloso.

 POEMAS RUPRESTES /// (…)

Queria a palavra sem alamares, sem
chatilenas, sem suspensórios, sem
talabartes, sem paramentos, sem diademas,
sem ademanes, sem colarinho.
Eu queria a palavra limpa de solene.
Limpa de soberba, limpa de melenas.
Eu queria ficar mais porcaria nas palavras.
Eu não queria colher nenhum pendão com elas.
Queria ser apenas relativo de águas.
Queria ser admirado pelos pássaros.
Eu queria sempre a palavra no áspero dela.

(…) /// Manoel de Barros

CLOUD PIECE /// Imagine the clouds dripping. / Dig a hole in your garden to / put them in. /// Yoko Ono.

PEDRINHO /// Pedrinho chegava descalço / Fazia da vida o que a gente sonhou / Pintava do nada um barato / Falava umas coisas que a gente nem pensou // Como é que pode ser tão criativo / Auto-confiante, um cara cortês / Pedrinho parece comigo, mas bem resolvido com sua nudez // Tirou da cartola uma flor e me presenteou num domingo de sol / É meu amigo querido até dormiu comigo no mesmo lençol // Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me entregou / Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me instigou // Pedrinho chegava descalço / Fazia da vida o que a gente sonhou / Pintava do nada um barato / Falava umas coisas que a gente nem pensou // Como é que pode ser tão criativo / Auto-confiante, um cara cortês / Pedrinho parece comigo, mas bem resolvido com sua nudez // Tirou da cartola uma flor e me presenteou num domingo de sol / É meu amigo querido até dormiu comigo no mesmo lençol // Pedro esta cantiga não fala de amor / Mas querido esse som acho que me entregou / Pedro esta cantiga não fala de amor / Pelo carinho esse som acho que me instigou /// Tulipa Ruiz.

educação para a contestação e para a resistência…

[ter] 7 de dezembro de 2010

Poderia escrever tantas coisas. mas… que boníssimo poente, hoje, nesta ilha, neste dia de chuva e tranquilidade. bonito. bonita. e sobre as leituras e sacadas [dias assim nos fazem sentir que a estupidez civilizada não é presente o tempo todo. #twitter]… será?!

Pessoas que se enquadram cegamente no coletivo fazem de si mesmas meros objetos materiais, anulando-se como sujeitos dotados de motivação própria […] Inclui-se aí a postura de tratar os outros como uma amorfa. Uma democracia não deve apenas funcionar, mas sobretudo trabalhar o seu conceito, e para isso exige pessoas emancipadas. Só é possível imaginar a verdadeira democracia como uma sociedade de emancipados. […] A única concretização efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contestação e para a resistência.” [Excerto do texto ‘Educação após Auschwitz’, contido na contra-capa do livro ‘Educação e Emancipação’ de Theodor W. Adorno]

Adorno tem me feito refletir tanto. E transa tanto este meu momento de reflexão e ardente desejo de superar este ‘coração mudo‘, enquanto individuo e enquanto ser social, porque isto é indissociável. Tantos poemas e idéias e desejos e lágrimas e medos e dor fazem todo sentido, ou melhor, são esclarecidos. E a culpa [e em certo sentido o sentimento de não-emancipação ou não-autonomia] – já disse isto aqui antes – seja a culpa internalizada em si,  e para si, promovendo toda sorte doenças; ou exteriorizada no outro, na ‘fronteira’; enfim, a culpa perde totalmente o sentido.  O sentido é outro, algo próximo a uma dor funda, mais funda que o canto de um pássaro em morte, mas também libertadora porque havendo a dor e medo, sem máscaras e recalques, há o direito de conquistar algo que não seja dor – o amor, talvez. E a cada dia que passa me acerco mais da seguinte reflexão… 1) Não importa tanto o que dizemos, e sim o que fazemos, ou seja, a ação, de amor ou de ódio, produz muito mais do que o discurso abstrato [que a Acadêmia vai cheia…]. Em si, o próprio discurso é expressão da ação, é uma ação, em sentido profundo.  2) Quase sempre o que dizemos, ou pensamos que estamos dizendo, não confere com o que fazemos. Ignoramos, deliberadamente, nossa estupidez cotidiana e civilizada.

Tendências de regressão – ou seja, pessoas com traços sádicos reprimidos – são produzidas por toda parte pela tendência social geral. Nessa medida quero lembrar a relação perturbadora e patogênica com o corpo que Horkheimer e eu descrevemos na ‘Dialética do esclarecimento’. Em cada situação em que a consciência é mutilada, isto se reflete sobre o corpo e a esfera corporal de uma forma não-livre e que é propícia à violência. Basta prestar atenção em um certo tipo de pessoa inculta como até mesmo a sua linguagem – principalmente quando algo é criticado ou exigido – se torna ameaçadora, como se os gestos da fala fossem de uma violência corporal quase incontrolada. […] Tudo isso tem a ver com um pretenso ideal que desempenha um papel relevante na educação tradicional em geral: a severidade. Esta pode até mesmo remeter a uma afirmativa de Nietzsche, por mais humilhante que seja e embora ele na verdade pensasse em outra coisa. Lembro que durante o processo sobre Auschwitz, em um de seus acessos, o terrível Boger culminou num elogio à educação baseada na força e voltada à disciplina. Ela seria necessária para constituir o tipo de homem que lhe parecia adequado. Essa idéia educacional da severidade, em que irrefletidamente muito podem até acreditar, é totalmente equivocada. A idéia de que a virilidade consiste num grau máximo de capacidade de suportar dor de há muito se converteu em fachada de um masoquismo que – como mostrou a psicologia – se identifica com muita facilidade ao sadismo. O elogiado objetivo de ‘ser duro’ de uma tal educação significa indiferença contra a dor do outro e a dor de si próprio. Quem é severo consigo mesmo adquire o direito de ser severo também com os outro, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar e reprimir. Tanto é necessário tornar consciente esse mecanismo quanto se impõe a promoção de uma educação que não premia a dor e a capacidade de suportá-la, como acontecia antigamente. Dito de outro modo: a educação precisa levar a sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exige, então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo inconsciente e reprimido. [Idem, pp. 126-129.]

***

HOJE, e outros dias, pela manhã, e por outras horas, li isto e colo abaixo:

O historiador comprometido com as lutas populares perante a história oficial

Aos intelectuais comprometidos cabe a missão de contribuir para a formação tanto de militantes combativos quanto de lideranças

Não existe História neutra ou História que seja uma mera reprodução dos fatos ocorridos em determinado momento histórico. O fato histórico é sempre uma escolha do historiador, um recorte feito por ele e que reflete sua subjetividade, seu posicionamento diante do mundo e daquela realidade que está sendo por ele descrita. Não há duas narrativas de um mesmo acontecimento que sejam iguais ou coincidentes. A História é uma construção, construção esta que pode ter maior ou menor compromisso com a evidência, mas na qual existe sempre uma carga indiscutível de subjetividade. Numa sociedade atravessada, e movida, por conflitos sociais, ou seja, numa sociedade onde há explorados e exploradores, onde há, portanto, classes antagônicas, a História é sempre uma construção que reflete os interesses dos grupos sociais dominantes, que controlam os meios de comunicação. Em outras palavras, a História é uma construção das classes sociais que detém o poder e os meios de comunicação. E isso é verdade, mesmo quando tal situação é mascarada, não estando explicitada, quando não é evidente. Por isso mesmo, o historiador, aquele que se propõe a compreender e explicar os fenômenos que têm lugar nas sociedades humanas, precisa ser um questionador, uma vez que ele, sendo um personagem do seu tempo, inserido em determinada sociedade de uma determinada época, não é nem pode ser neutro. No máximo, conseguirá manter uma neutralidade aparente. Nos dias de hoje, a luta ideológica é a principal forma da luta de classes, que não deixará de existir enquanto perdurarem o capitalismo e a exploração do homem pelo homem. As classes dominantes buscam a hegemonia através do consenso. Mas, quando necessário, apelam para a coerção. Eis a razão por que a elaboração da História Oficial adquire uma importância crescente nas sociedades contemporâneas. Trata-se de proclamar e difundir as vitórias e os sucessos alcançados pelos donos do poder, de hoje e do passado, nos permanentes conflitos sociais presentes na história mundial. Trata-se de consagrar o capitalismo. Em contrapartida, os ideais e as lutas dos setores, que não obtiveram êxito em seus propósitos revolucionários e transformadores e, muitas vezes, sofreram duras derrotas, são, segundo a lógica da História Oficial, esquecidos, silenciados, deturpados e combatidos. Em nossas sociedades contemporâneas, são os intelectuais comprometidos com a burguesia que cumprem a função de produzir tal História Oficial. Dessa forma, são consagradas inúmeras deformações históricas, inúmeras inverdades históricas e silenciados numerosos acontecimentos que não são do interesse dos setores dominantes que sejam do conhecimento da grande maioria das pessoas e, em particular, das novas gerações. Entretanto, a hegemonia das classes dominantes nunca é absoluta, pois a exploração capitalista e o agravamento dos conflitos sociais levam ao surgimento de intelectuais comprometidos com os interesses dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos. Observação fundamental para quem, como nós, quer contribuir para a construção de uma outra História, uma História comprometida com a evidência, uma História que possa, portanto, ajudar na elaboração de propostas libertadoras e de emancipação da grande maioria dos homens e mulheres explorados, oprimidos e subordinados na sociedade capitalista em que vivemos. O historiador comprometido com tal proposta – e também o professor de História, responsável pela formação das novas gerações – poderá transformar-se num intelectual a serviço dos interesses populares, dos interesses da maioria do povo brasileiro, se estiver atento para a postura militante que deve assumir diante da História Oficial, produzida pelos intelectuais comprometidos com a burguesia. Nesse esforço, parece-me importante resgatar a memória daqueles que lutaram por justiça social, mas não conseguiram alcançar a vitória, deixando, entretanto um legado importante para as gerações subsequentes. A respeito, gostaria de citar dois autores – o poeta francês e resistente durante a ocupação nazista da França, Paul Eluard e o intelectual inglês do final do séc. 19, William Morris.

Paul Eluard: “Ainda que não tivesse tido, em toda minha vida, mais do que um único momento de esperança, teria travado este combate. Inclusive, se hei de perdê-lo, outros o ganharão. Todos os outros.”

William Morris: “A Comuna de Paris não é senão um elo na luta que teve lugar ao longo da história dos oprimidos contra os opressores; e, sem todas as derrotas do passado, não teríamos a esperança de uma vitória final.”

Finalmente, gostaria de destacar o papel dos intelectuais – e, em particular, dos historiadores e professores de História – junto aos movimentos populares, mas principalmente nas escolas, nas salas de aula e no trabalho de pesquisa histórica, no sentido de formar jovens questionadores, cidadãos que não aceitem o consenso dominante, que estejam dispostos a se contrapor à hegemonia dos setores dominantes. Aos intelectuais comprometidos com as lutas populares cabe a missão de contribuir para a formação tanto de militantes combativos quanto de lideranças orientadas para uma perspectiva de elaboração de uma alternativa de emancipação social para nosso povo, perspectiva que, a meu ver, só poderá ser socialista. Mas um socialismo que não seja “nem cópia nem decalque, mas sim criação heroica” do nosso povo, nas palavras de um grande revolucionário latino-americano – José Carlos Mariátegui. Anita Leocádia Prestes.

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É por ação que os homens se definem” Caio Prado Jr.

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NÃO TENHA MEDO // Tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um não, nem um sinal, nem um ladrão, nem uma escuridão, nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um cão, nem um dragão, nem um avião, nenhuma assombração. / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um chão, nem um porão, nem uma prisão, nem uma solidão… / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo… // Caetano Veloso.

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O homem e o boi – Editorial da Folha de São Paulo de terça-feira, 30 de novembro de 2010.

Depois da crise econômica, a Europa agora conhece a crise social. Um após o outro, os países europeus caem.
Antigos modelos de desenvolvimento até então vendidos como exemplo de sucesso, como a Irlanda (o “tigre celta”), expõem a olhos nus o apodrecimento de seu sistema financeiro. Outros, como Portugal, mostram claramente como não tinham nenhuma margem de manobra para se contrapor à “desconfiança do mercado”. Países como o Reino Unido anunciam a supressão de 400 mil empregos no serviço público e o fim efetivo da educação pública universitária. A França parte para a milésima reforma da sua previdência social.
Diante de tal situação de catástrofe que parece nunca terminar, todos os países europeus conhecem só uma resposta: “plano de austeridade”. A escolha da palavra é uma pérola. Afinal, quem poderia ser contra a retidão moral da austeridade a não ser crianças mimadas, acostumadas ao desperdício e àquilo que um ministro britânico teve a coragem de chamar de “cultura da dependência”, produzida, segundo ele, pelo Estado do bem-estar social?
Mas é engraçado ver como nos escondemos atrás das palavras. Se quiséssemos realmente respeitá-las, “austeridade” deveria significar ser austero e duro contra aqueles que produziram tal crise, ou seja, o sistema financeiro.
Significaria não instaurar um verdadeiro “capitalismo de espoliação”, no interior do qual o sistema financeiro espolia o Estado chantageando-o com a ameaça da propagação de uma crise que, no fundo, já se propagou. Significaria não pegar dinheiro do povo para pagar “stock-options” de executivos especialistas em maquiar balanços. Melhor seria decretar moratória, controle estrito de capitais e, se necessário, quebra de contratos.
Mas os governos europeus preferem transformar a “austeridade” em uma cortina de fumaça que visa esconder o mais brutal processo de pauperização social e de desmantelamento de redes de assistência que o continente conheceu. Tudo isso embalado em uma xenofobia cínica, que tenta fazer acreditar que o problema está na fronteira, quando ele está no coração da City.
Contra isso, vemos as populações europeias radicalizando sua insatisfação através de greves gerais e manifestações constantes.
Certamente, este é apenas o começo. A era das mobilizações volta paulatinamente.
Porque logo os europeus aprenderão a beleza da poesia de Torquato Neto, o mesmo que escreveu: “Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem.
Mesmo que seja o boi”.
O que faz do homem um homem é sua capacidade de gritar quando quem o governa lhe oferece a pura e simples imagem do matadouro.
[Vladimir Safatle]

 

em pleno verão

[sex] 3 de dezembro de 2010

hoje. sentindo-me. fazendo arte e estando. enviei minha parte para o zine. faltam tão poucas linhas para a minha conclusão da licenciatura. e certas experiências do dia-a-dia são intraduzíveis. o perfume da dama da noite. a sinfonia de mil sapos coachando em noite de primavera. um fim de tarde em sambaqui. uma tarde inteira no bosque do cfh, em boas, sonoras e poéticas companhias. as sutilezas de todos os flertes. o jogo dos cães. e a mais honesta das entrega entre dois estranhos: eu e um cão qualquer, destes do cfh. as horas tentando entender a fala de um joão de barro. o debate sobre um texto de illich. o papo no ru. o abraço nos amigos…

quarta-feira, e quinta-feira. um mergulho na casa, na sua arrumação. e um disco de elis. em pleno verão [1970]. e muito caetano, chico, bethânia, gal, lenine, lupicínio

Elis Regina – Em Pleno Verão (1970)

1. Vou deitar e rolar // Não venha querer se consolar / Que agora não dá mais pé / Nem nunca mais vai dar / Também, quem mandou se levantar? / Quem levantou pra sair / Perde o lugar // E agora, cadê teu novo amor? / Cadê, que ele nunca funcionou? / Cadê, que ele nada resolveu? // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu // Ainda sou mais eu // Você já entrou na de voltar / Agora fica na tua / Que é melhor ficar / Porque vai ser fogo me aturar / Quem cai na chuva / Só tem que se molhar // E agora cadê, cadê você? / Cadê que eu não vejo mais, cadê? / Pois é, quem te viu e quem te vê // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Todo mundo se admira da mancada que a / Terezinha deu / Que deu no pira / E ficou sem nada ter de seu / Ela não quis levar fé / Na virada da maré // Breque // Mas que malandro sou eu / Pra ficar dando colher de chá / Se eu não tiver colher? / Vou deitar e rolar // Você já entrou na de voltar / Agora fica na tua / Que é melhor ficar / Porque vai ser fogo me aturar / Quem cai na chuva / Só tem que se molhar // E agora cadê, cadê você? / Cadê que eu não vejo mais, cadê? / Pois é, quem te viu e quem te vê // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu // O vento que venta aqui / É o mesmo que venta lá / E volta pro mandingueiro / A mandinga de quem mandingar // Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu / Quaquaraquaquá, quem riu? / Quaquaraquaquá, fui eu /// Baden Powell e Paulo César Pinheiro //// 2. Bicho do mato // Bicho do mato / Nego teve aí / Bicho do mato / Devagar pra não cair / Bicho do mato / Bicho bonito danado / Bicho do mato / Nego teve aí / E disse assim: / Bicho do mato / Quero você para mim / Eu só vou embora / Mas eu só ponho o meu boné / Onde eu posso apanhar / Devagar se vai ao longe / Devagar eu chego lá / Bicho do mato / Nego teve aí / Bicho do mato / Devagar pra não cair // Jorge Ben Jor //// 3. Verão vermelho [instrumental] //// 4. Até aí morreu Neves // Pa, pa, pa, ra pa pa pa pa pa ra pa pa pa ra / Se segura malandro pois malandro que é malandro / Não se estoura / Se segura malandro / Pois um dia há de chegar a sua hora / Vai cantar vai brincar sem fantasia / Você vai chorar de alegria pois ela vai voltar / Pra alegrar o seu coração / Malandro que é malandro não se estoura não / Pa pa pa ra pa pa pa pa pa ra pa pa pa ra / Pois um dia há de chegar a sua hora / Vai cantar vai brincar sem fantasia / Você vai chorar de alegria pois ela vai voltar / Prá alegrar o seu coração / Malandro que é malandro não se estoura não / Porque até aí morreu Neves, até aí morreu / Neves até aí morreu Neves / Até aí morreu Neves / Devagar malandro devagar cuidado / Afobado come crú devagar se vai ao longe / Devagar se vai ao longe devagar também é pressa / Afobado come crú / Devagar se vai ao longe // Jorge Ben //// 5. Frevo // Vem / Vamos dançar ao sol / Vem / Que a banda vai passar / Vem / Ouvir o toque dos clarins / Anunciando o carnaval / E vão brilhando os seus metais / Por entre cores mil / Verde mar, céu de anil / Nunca se viu tanta beleza / Ai, meu Deus / Que lindo o meu Brasil // Tom Jobim e Vinicius de Moraes //// 6. As curvas da estrada de Santos // Se você pretende saber quem eu sou / Eu posso lhe dizer / Entre no meu carro e na estrada de santos / Você vai me conhecer, “é vai me conhecer” / Vai pensar até que eu não gosto nem mesmo de mim // E que na minha idade só a velocidade / Anda junto a mim / Eu só ando sozinho / E no meu caminho o tempo é cada vez menor / A eu Preciso de ajuda // Por favor me acuda, eu preciso de ajuda / Eu vivo muito só, eu me sinto muito só… / Mais se acaso numa curva eu me lembro do meu rumo / eu piso mas fundo, corrijo num segundo não posso parar // Eu prefiro as curvas, as curvas da estrada de santos / Onde eu tento esquecer / Um amor que eu tive / E vi pelo espelho na distância se perder // Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar / As curvas se acabam / E na estrada de santos eu não vou mais passar / Não, não eu não vou mais passar // Roberto Carlos e Erasmo Carlos //// 7. Fechado pra balanço // Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Deve ser bom // Um samba de roda, um coco / Um xaxado bem guardado / E mais algum trocado / Se tiver gingado, eu tô, eu tô / Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô // Eu tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Tô fechado pra balanço / Meu saldo deve ser bom / Deve ser bom // Um pouco da minha grana / Gasto em saudade baiana / Ponho sempre por semana / Cinco cartas no correio // Gasto sola de sapato / Mas aqui custa barato / Cada sola de sapato / Custa um samba, um samba e meio // E o resto? // O resto não dá despesa / Viver não me custa nada / Viver só me custa a vida / A minha vida contada // Gilberto Gil //// 8. Não tenha medo // Tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um não, nem um sinal, nem um ladrão, nem uma escuridão, nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um cão, nem um dragão, nem um avião, nenhuma assombração. / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não. / Nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo. / Nem um chão, nem um porão, nem uma prisão, nem uma solidão… / Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo… / Tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo, nada é pior do que tudo… / Não tenha medo não, tenha medo não, não tenha medo não, tenha medo não, nada é pior do que tudo… // Caetano Veloso //// 9. These are the songs / Participação: Tim Maia // These are the songs / I want to sing / These are the songs / I want to play / I will sing it every day / These are the songs / I want to sing and play // Essa é a canção que eu vou ouvir / Essa é a canção que eu vou cantar / Fala de você, meu bem / E do nosso amor, também / Sei que você vai gostar // Tim Maia //// 10. Comunicação // Sigo o anúncio e vejo / Em forma de desejo o sabonete / Em forma de sorvete acordo e durmo / Na televisão / Creme dental, saúde, vivo num sorriso o paraíso / Quase que jogado, impulsionado no comercial / Só tomava chá / Quase que forçado vou tomar café / Ligo o aparelho vejo o Rei Pelé / Vamos então repetir o gol / E na rua sou mais um cosmonauta patrocinador / Chego atrasado, perco o meu amor / Mais um anúncio sensacional / Ponho um aditivo dentro da panela, a gasolina / Passo na janela, na cozinha tem mais um fogão / Tocam a campainha, mais uma pesquisa e eu respondo / que enlouquecendo já sou fã do comercial // Edson Alencar e Hélio Matheus //// 11. Copacabana velha de guerra // Nós estamos por aí sem medo, / nós sem medo estamos por aí. / Nós estamos por aí sem medo, nós sem medo estamos por aí… / Qualquer sorte me espera, e a tarde talvez vai me mostrar. / Presiventos na janela e as praças do mundo a me chamar. / Sou mais um na multidão, nas vitrines dos magazans, procurando uma camisa da cor do mar. / Mão no bolso riso lendo e a tarde passando devagar. / Não me encontro na vitrine, não ligo é dificil me encontrar. / Sou só eu na multidão, e eu queria me ver passar / desfilando com a camisa da cor do mar… / Olha eu lá… / Nós estamos por aí sem medo, nós sem medo estamos por aí. / Nós estamos por aí sem medo,nós sem medo estamos por aí… / Qualquer sorte me espera e a tarde talvez vai me mostrar, presiventos na janela e as praças do mundo a me chamar. / Sou mais um na multidão, nas vitrines dos magazans, procurando uma camisa da cor do mar. / Mão no bolso riso lento e a tarde passando devagar, nao me encontro na vitrine, nao ligo é dificil me encontrar, sou só eu na multidão e eu queria me ver passar desfilando com a camisa da cor do mar… Olha eu lá… // Joyce e Sérgio Flaksman ////

o amor mais que discreto

[qua] 24 de novembro de 2010

teoria antropológica. passei. 7,5. [agora só falta sociologia da educação e ‘tô formado].
que prazer. que feito. que satisfação.

e caetano é bom demais. passei a tarde ouvindo. enquanto lava a roupa, iniciava a composteira, lava a calçada, plantava a mangueira, organizava a casa, enquanto sentia-me em paz.

leãozinho

[qua] 24 de novembro de 2010

e o que fica ecoando aqui é… como podemos ceder tanto. declinar da fantasia, da imaginação, em detrimento ao estabelecido, ao ordenado, ao dado, ao posto, ao imposto, ao status quo, ao stablishment, a essa racionalidade instrumental tão irracional, idiota e estúpida. como podemos ser tão bárbaros. em que momento abandonamos, ou somos forçosamente impelidos a, deixar de amar e mudar as coisas para competir com, e dilacerar o outro, e a, nós mesmos.
sou tão estúpido às vezes. e cometo ainda atos bárbaros, mas distante de meses atrás onde havia culpa desmensurada, hoje há uma moderada e sensível compreensão destes limites morais e éticos, que carregamos, seres humanos, e necessitamos superar. ou se busca atingir um capacidade ética humana, ou continuamos feito coisas nos agredindo e violentando cotidianamente. não quero isto de embrutecer, quero minha fantasia de volta. quero minha capacidade de sonhar.

olho para as meninas, e para os adultos daqui de casa – sem falar no telejornal, ou na rua, ou nos bares, ou mesmo nos bancos das faculdades – e isto do jeito que ‘té me incomoda muito. e tento fazer diferente.

fiz uma história mágica, com um imã, para luiza. e dancei, leãozinho, com izabel. talvez, realmente, aí haja esperança. ver que apesar de toda nossa estupidez humana, em geral, e esses bichinhos, contém, em certa medida, ainda, uma pequena dose, do antídoto, para este mudo caduco. não conseguimos ainda a plena barbarização destes bichinhos.

Gosto muito de te ver, leãozinho / Caminhando sob o sol / Gosto muito de você, leãozinho / Para desentristecer, leãozinho / O meu coração tão só / Basta eu encontrar você no caminho / Um filhote de leão raio da manhã; / Arrastando o meu olhar como um ímã… / O meu coração é o sol, pai de toda cor; / Quando ele lhe doura a pele ao léu… / Gosto de te ver ao sol, leãozinho / De te ver entrar no mar / Tua pele, tua luz, tua juba / Gosto de ficar ao sol, leãozinho / De molhar minha juba / De estar perto de você e entrar no mar / Caetano Veloso

e izabel, será, no dia em que souberes ler, para que leíamos juntos, aquela história em quadrinhos que te mostrei hoje, lerás também isto aqui, e saberás, não só através dos gestos, que te quero.

posso ler nos aeroplanos

[dom] 17 de outubro de 2010

e em minha cabeça há mil pessoas e estão gritando enquanto carrego esse olhar – ora perdido, ora encantado – silencioso. e ao passo que não sei ao certo o que escrever aqui – contraditoriamente, sinto como se o tempo voasse, e ao mesmo tempo não passasse. sinto que preciso de tanto e ao mesmo tempo de tão pouco. esse ano aconteceram tantas coisas, profundas. tanta terapia, tantas descobertas e quantos reencontros, algumas despedidas. e guardo-os, todos, com carinho. e assim vou, cubro a casa minha e aguardo a hora de colori-la.

e porque pensei em caetano…

e ouço essa aqui, .

terra

[sex] 8 de outubro de 2010

terra.

vamos lá. tomei uma porção de decisões. e me sinto forte e desperto. fiz um plano de navegação, ou simplesmente uns planos. e estou cá diante do mar [dos sentimentos] amanhecendo para este sol que chegará. a casa chegou. e joguei o projeto complicado e distante fora. e vai ser tudo simples e bacana. bonito é ver o contentamento do pai. e algo me diz que, ou sinto que, preciso organizar o povo aqui antes de partir, e se der tudo certo começo o ano que vem aberto, profissional e poético. o plano é mais ou menos algo assim como tirá-los, e dessa forma, arrancar-me, desse movimento familiar de “prá que mexer na dor. se podemos passar a vida nos lamentando nessa nossa escuridão“. para mim sempre foi, e ainda é em certa medida, difícil de lidar com essa incapacidade de abraçar e dizer que ama que ambos tem [pai e mãe], manifestando apenas ressentimento e dor. penso que isto influenciou e ainda influência muito meu comportamente social e meu aprendizado emocional. esse isolamento, esse silêncio [que diz tantas coisas], essa dificuldade de estabelecer [abrir-se] ao contato, ao diálogo, ao que é sentido pelo peito e permitir-se… essa sensação, quase sempre presente, de dualidade e de não-pertencimento ao meio é cruel. enfim. desde que me conheço por gente sempre manifestei que não importava o dinheiro, o conforto etc. e sim o carinho, a aceitação – eu necessitava era disto. e hoje entendo esse caminho que ambos fizeram, de enfiar a cara no trabalho, era muito mais pelas limitações que ambos detinham em manifestar seus sentimentos, dores, frustrações e contentamentos, do que qualquer outra coisa. e engraçado, hoje percebo que isto, o carinho e a auto-aceitação, é o que mais preciso, mas que carrego a dificuldade que ambos manifestaram de demonstrar amor, admiração, carinho, respeito etc. mas chega de falar nisto [tenho que estudar e é hora de parar de escrever aqui um pouco]… vou fazer meu caminho e ele será luminoso como um poema da manhã, vou rir de mim meu bem. e quem sabe me permita amar-te, como te amei hoje, e ontem, e antes de ontem… o amor não é algo pronto e dado, é um movimento de permitir-se mergulhar na terra, no mar. no mundo.

pedra do sono

[qua] 3 de fevereiro de 2010

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e sobre o tumulto aqui de dentro e essa insatisfação não clara, mas que sei que nessa casa não consigo dormir, nem estudar, nem emagrecer, nem sentir-me bem mas talvez nem seja a casa nem as pessoas e sim outras coisas. estou pensando em passos maiores… quartos menores… lonjura. quem sabe assim arranque de mim esse medo danado de ser quem sou e vase despudoradamente com todos os pudores que forem necessários e os que não forem que fiquem por ai sem mim.

pensando também em enterrar esse blogue, criar outros projetos… começar a escrever cartas para o futuro, ensaios para o presente e poemas para outrora. mas vai saber né!

hoje a aurora parece que virá de rosa, novamente.

e alguma coisa tem me incomodado muito nestes dias, é uma certa ansiedade de algo que eu não sei ao certo o que é. o que é o que é o que é o que é o que é o que é o que é… “O fato dos americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte  simbolicamente  para eu não me abalar (…)”

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poucos minutos atrás vi no “Especial Cultura” o filme “Leituras Do Brasil – Duas Águas” sobre João Cabral de Melo Neto. [“não é preciso poetizar o poema”; diz o mestre].

Trecho do poema
ALGUNS TOUREIROS
(Paisagem com Figuras – 1954 – 1955)
Eu vi Manolo González
E Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha,
lenha seca de caatinga,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete
, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

Ouça o poema interpretado
por João Cabral
Como ouvir?

amante amado

[seg] 1 de fevereiro de 2010

hoje ouvi uma fala do carlinhos brown sobre a questão de ter estilo ou não… diversidade. e sobre ser poeta preferia ele ser o vento.

e ouvindo caetano ouço essa de jorge… e só porque saiu um sorriso aqui nestes dias de chuva lanço para quem quiser ouvir. um pouco de luz para o mundo…

e outro dia escrevo mais.

(…)

“Eu quero que você me pegue / Me abrace e me aperte / Me beije e me ame /  E depois me mande embora / Que eu vou feliz da vida, amor // Quero ser mandado / Machucado / Acariciado / Adorado / E amado por você / E depois pode me mandar embora / Mesmo que sejam quatro horas da amanhã, chovendo / Fazendo frio, amor // E me proibindo de olhar pra outra mulher qualquer / E me proibindo de olhar pra outra mulher qualquer // Pois eu vou feliz da vida, vitorioso / Pois eu sou o seu escravo, amor /  Pois eu sou o seu amante amado, amor // Eu quero que você me pegue / Me abrace e me aperte / Me beije e me ame / Eu quero que você me pegue / Me abrace e me aperte / Me beije e me ame / E depois me mande embora / E depois me mande embora // Pois eu vou feliz da vida e vitorioso / Pois eu sou o seu escravo, amor / Pois eu sou o seu amante amado, amor // Pois eu sou o seu escravo, amor / Pois eu sou o seu amante amado, amor (…)” / Jorge Ben Jor

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