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[dom] 5 de março de 2017

conexão. a necessidade de estar com outros. é isso. eureka

abrir a porta, e dialogar com as vozes no vento. não só com seus próprios pensamentos. ir para lugares não pensados. perder-se em labirintos. ouvir os gritos e as gargalhadas. rir junto. caminhar, como quem caminha de mãos dadas. estar aqui, ouvindo você. jogar sonhos como quem joga pedras na água… para ver as ondas, a energia gerada.

***

«Antes de retornar à cultura, constato que o mundo tem fome e que não se preocupa com a cultura; e que é de um modo artificial que se pretende dirigir para a cultura pensamentos voltados apenas para a fome. O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou qualquer ser humano de ter fome e da preocupação de viver melhor, mas extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome. Acima de tudo precisamos viver e acreditar no que nos faz viver e em que alguma coisa nos faz viver – e aquilo que sai do interior misterioso de nós mesmos…» Prefácio: O teatro e a cultura. In: O Teatro e Seu Duplo, de Antonin Artaud

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NOTAS DE RODAPÉ (DO PAPO DE HOJE):

 

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Sofrimento

A importância da Verdade do Sofrimento (dukkha-satya, dukkha-sacca) é a necessidade primordial de ver a realidade como é. Em termos do absoluto, o relativo é incompleto, repleto de contaminações e sofrimentos.

Há oito espécies de sofrimento: nascimento, velhice, doença, morte, contato com o que detestamos, separação do que amamos, objetivos inalcançáveis e o sofrimento inerente ao apego aos cinco agregados (elementos psicofísicos: forma – rupa, sentimentos – vedana, percepção – samjna, sanna, constituintes mentais – samskara, sankhaara e consciência – vijnana, vinnana. Coletivamente são chamados de numa (nome) e rupa (forma). Assim o composto de nome-forma é um sinônimo dos cinco agregados. Tanto os agregados físicos como mentais são caracterizados pela impermanência, sofrimento e não-eu.

Causa do Sofrimento

Na Verdade da Causa do Sofrimento (samudaya-satya, samudaya-sacca) a palavra da Índia traduzida como “causa” significa “vir junto, formar-se conjuntamente e surgir, aparecer”. O Sutra considera apego como a causa do sofrimento. Há três tipos de apegos:

Apegos sensuais, dos cinco desejos ou seja, dos desejos resultantes dos objetos dos cinco sentidos. Apego mundano.

Apego por existência se refere a existência superior, nos níveis celestiais, de renascimento nesses estados. É ainda um aspecto egoista.

Apego à não-existência é o desejo pelo nada, como condição de paz interior, considerado egoísta. Alguns traduzem não existência como apego à prosperidade desde que a palavra Vibhara também pode ter esse sentido. Os comentários tradicionais interpretam como não-existência e é nesse sentido que aqui interpretamos. Fragmento de texto extraído de http://www.monjacoen.com.br/textos/textos-da-monja-coen/137-quatro-nobres-verdades

o buraco do espelho está fechado

[qua] 3 de agosto de 2016

Transcrição/legenda de um fragmento do filme de Laís Bodanzky

O bicho de 7 cabeças.

00:44:06,115 –> 00:44:11,951
É preciso fingir. Quem é que
não finge neste mundo, quem?

467
00:44:12,455 –> 00:44:16,186
É preciso dizer que tá bem disposto,
que não tá com fome…

468
00:44:16,392 –> 00:44:20,454
é preciso dizer que não tá com
dor de dente, que não tá com medo…

469
00:44:20,664 –> 00:44:22,963
senão não dá, não dá.

470
00:44:23,201 –> 00:44:26,932
Nenhum médico jamais me disse
que a fome e a pobreza…

471
00:44:27,138 –> 00:44:29,664
podem levar a um distúrbio mental.

472
00:44:29,875 –> 00:44:34,038
Mas quem não come fica nervoso,
quem não come…

473
00:44:34,245 –> 00:44:37,409
e vê seus parentes sem comer
pode chegar à loucura.

474
00:44:37,616 –> 00:44:43,419
Um desgosto pode levar à loucura,
uma morte na família…

475
00:44:43,623 –> 00:44:46,717
o abandono do grande amor.

476
00:44:47,994 –> 00:44:52,591
A gente até precisa fingir
que é louco sendo louco…

477
00:44:52,800 –> 00:44:57,135
fingir que é poeta sendo poeta.

478
00:44:57,339 –> 00:45:00,172
Vai até ali e leia.

479
00:45:12,388 –> 00:45:16,587
O buraco do espelho está fechado

480
00:45:16,794 –> 00:45:20,696
Agora eu tenho que ficar aqui

481
00:45:20,898 –> 00:45:24,733
Com um olho aberto, o outro acordado

482
00:45:24,936 –> 00:45:28,429
No lado de lá onde eu caí

483
00:45:29,174 –> 00:45:32,439
Pro lado de cá não tem acesso

484
00:45:33,111 –> 00:45:37,105
Mesmo que me chamem pelo nome

485
00:45:37,316 –> 00:45:41,116
Mesmo que admitam meu regresso

486
00:45:41,321 –> 00:45:45,348
Toda vez que eu vou a porta some

487
00:45:45,559 –> 00:45:48,723
A janela some na parede

488
00:45:49,364 –> 00:45:53,061
A palavra de água se dissolve

489
00:45:53,434 –> 00:45:57,700
Na palavra sede a boca cede

490
00:45:57,939 –> 00:46:01,671
Antes de falar e não se ouve

491
00:46:01,911 –> 00:46:05,677
Já tentei dormir a noite inteira

492
00:46:05,881 –> 00:46:09,750
Quatro, cinco, seis da madrugada

493
00:46:09,953 –> 00:46:13,890
Vou ficar ali nessa cadeira

494
00:46:14,091 –> 00:46:17,492
Uma orelha alerta, outra ligada

495
00:46:17,695 –> 00:46:21,792
O buraco do espelho está fechado

496
00:46:22,000 –> 00:46:25,867
Agora eu tenho que ficar agora

497
00:46:26,103 –> 00:46:29,938
Fui pelo abandono abandonado

498
00:46:30,175 –> 00:46:33,771
Aqui dentro do lado de fora

***

olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò

[sex] 5 de junho de 2015

Mar de Sophia – Faixas

#1 Canto de Oxum // Compositores: Pedro Amorim e Paulo Cesar Pinheiro

«Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar» Sophia De Mello Breyner

Yèyé e yèyé s’oròodò, yèyé o yèyé s’oròodò / Olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò [Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / É o mar, é o mar / Fé-fé xorodô] / Oxum era rainha, / Na mão direita tinha / O seu espelho onde vivia á se mirar //

#2.1 Yemanjá Rainha do Mar. // Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Dandalunda, Janaína, / Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, / Maria, Dona Iemanjá. / Onde ela vive? / Onde ela mora? / Nas águas, / Na loca de pedra, / Num palácio encantado,/ No fundo do mar. / O que ela gosta? / O que ela adora?/ Perfume,/ Flor, espelho e pente / Toda sorte de presente / Pra ela se enfeitar. / Como se saúda a Rainha do Mar? / Como se saúda a Rainha do Mar? / Alodê, Odofiaba, / Minha-mãe, Mãe-d’água, / Odoyá! / Qual é seu dia, / Nossa Senhora? / É dia dois de fevereiro/ Quando na beira da praia / Eu vou me abençoar./ O que ela canta?/ Por que ela chora?/ Só canta cantiga bonita / Chora quando fica aflita / Se você chorar./ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Pescador e marinheiro / que escuta a sereia cantar./ É com povo que é praieiro que Dona Iemanjá/ quer se casar. //

#2.2 Beira-Mar // Composição: Roberto Mendes / Capinan

Dentro do mar tem rio… / Dentro de mim tem o quê? / Vento, raio, trovão / As águas do meu querer /Dentro do mar tem rio… / Lágrima, chuva, aguaceiro / Dentro do rio tem um terreiro / Dentro do terreiro tem o quê? /Dentro do raio trovão / E o raio logo se vê / Depois da dor se acende / Tua ausência na canção /Deságua em mim a paixão / No coração de um berreiro / Dentro de você o quê? / Chamas de amor em vão /Um mar de sim e de não / Dentro do mar tem rio / É calmaria e trovão / Dentro de mim tem o quê? /Dentro da dor a canção / Dentro do guerreiro flor / Dama de espada na mão / Dentro de mim tem você /Beira-mar / Beira-mar / Ê ê beiramar / Cheguei agora / Ê ê beira-mar / Beira-mar beira de rio / Ê ê beira-mar //

#3.1 Marinheiro Só // Composição: Clementina de Jesus

Eu não sou daqui / Marinheiro só / Eu não tenho amor / Marinheiro só / Eu sou da bahia/ Marinheiro só/ De são salvador / Marinheiro só/ Lá vem, lá vem / Marinheiro só / Como ele vem faceiro/ Marinheiro só / Todo de branco/ Marinheiro só / Com o seu bonezinho / Marinheiro só/ Ô, marinheiro marinheiro / Marinheiro só / Ô, quem te ensinou a nadar / Marinheiro só / Ou foi o tombo do navio / Marinheiro só / Ou foi o balanço do mar/ Marinheiro só //

#3.2 O Marujo Português // Composição: Linhares Barbosa & Arthur Ribeiro

«Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.» Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando ele passa, o marujo português / Não anda, passa a bailar, como ao sabor das marés / Quando se ginga, faz tal jeito, tem tal proa / Só pra que se não distinga / Se é corpo humano ou canoa /Chega a Lisboa, salta do barco e num saltoVai parar à Madragoa ou então ao Bairro Alto / Entra em Alfama e faz de Alfama um convés / Há sempre um Vasco da Gama num marujo português /Quando ele passa com seu alcache vistoso / Traz sempre pedras de sal, no olhar malicioso / Põe com malícia a sua boina marujaMas se inventa uma carícia, não há mulher que lhe fuja /Uma madeixa de cabelo descomposta / Pode até ser a fateixa de que uma varina gosta / Quando ele passa, o marujo portuguêsPassa o mar numa ameaça de carinhosas marés //

#4 Poema Azul //Composição: Sérgio Ricardo

O mar beijando a areia / O céu e a lua cheiaQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céuE a lua cheiaQue prateia os cabelos do meu bemQue olha o mar beijando a areiaE uma estrelinha solta no céuQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céu e a lua cheiaum beijo meu //

«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, / A tua beleza aumenta quando estamos sós / E tão fundo intimamente a tua voz / Segue o mais secreto bailar do meu sonho, / Que momentos há em que eu suponho / Seres um milagre criado só para mim.» Sophia de Mello Breyner Andresen

#5 Kirimurê // Composição: Jota Velloso

Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim/ Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui / Rendeira da beira da terra / Com a espuma da esperança / Kirimurê linda varanda / De águas salgadas mansas / De águas salgadas mansas / Que mergulham dentro de mim / Meu Deus deixou de lembrança / Na história dos sambaquis / Na fome da minha gente / E nos traços que eu guardo em mim / Minha voz é flecha ardente / Nos catimbós que vivem aqui / Eira e beira / Onde era mata hoje é Bonfim / De onde meu povo espreitava baleias / É farol que desnorteia a mim / Eira e beira / Um caboclo não é Serafim / Salve as folhas brasileiras / Oh salvem as folhas pra mim / Se me der a folha certa / E eu cantar como aprendi / Vou livrar a Terra inteira / De tudo que é ruim / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui /Eu sou Tupinambá que vigiaEu sou o caboclo daqui / Eu sou Tupinambá que vigia / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui //

#6 Grão de Mar  // Composição: Márcio Arantes e Chico César

«Através do teu coração passou um barco / Que não para de seguir sem ti o seu caminho» Sophia De Mello Breyner

Lá no meu sertão plantei / Sementes de mar / Grãos de navegar / Partir / Só de imaginar, eu vi / Água de aguardar / Onda a me levar / E eu quase fui feliz /Mas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei, perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dáNão dói, nem diz /E o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mimMas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei,perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dá / Não dói, nem dizE o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mim //

 #7.1 Quadrinha: O Mundo é Grande // Autor: Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar //

«O mar azul e branco e as luzidias/ Pedras – O arfado espaço / Onde o que está lavado se relava / Para o rito do espanto e do começo / Onde sou a mim mesma devolvida / Em sal espuma e concha regressada / À praia inicial da minha vida.» SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in MAR [Antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares] (Ed. Caminho 1.ª ed., 2001, 7ª ed., 2009)

#7.2 Cirandas // Autora: Sueli Costa / Domínio Público

Cavalo marino / Dança no terreiro / Que a dona da casa / Tem muito dinheiro / Cavalo marinho / Dança na calçada / Que a dona da casa / Tem galinha assada // Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Foi foi foi minha mãe  / A sereia do mar //A maré encheu / A maré vazou / Os cabelos da morena / O riacho carregou // Vadeia Dois-Dois / Vadeia no mar / A casa é sua Dois-Dois / Eu quero ver vadiar // O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / Arriba a prancha toca o búzio / Nós queremos navegar / Ai ai ai ai / Nós queremos navegar //

#8.1 Debaixo D´água / Agora // Autores: Arnaldo Antunes – Tony Bellotto/Charles Gavin/Branco Mello/Nando Reis/Marcelo Fromer

Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar // Debaixo d’água se formando como um feto / Sereno, confortável, amado, completo / Sem / chão, sem teto, sem contato com o ar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / Todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto / Sem lamento e sem saber o quanto / Esse momento poderia durar // Mas tinha que respirar / Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente / Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo / Aliviado, sem perdão e sem pecado / Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar / Mas tinha que respirar / Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Agora que agora é nunca / Agora posso recuar / Agora sinto minha tumba / Agora o peito a retumbar / Agora a última resposta / Agora quartos de hospitais / Agora abrem uma porta / Agora não se chora mais / Agora a chuva evapora / Agora ainda não choveu / Agora tenho mais memória / Agora tenho o que foi meu / Agora passa a paisagem / Agora não me despedi / Agora compro uma passagem / Agora ainda estou aqui / Agora sinto muita sede / Agora já é madrugada / Agora diante da parede / Agora falta uma palavra / Agora o vento no cabelo / Agora toda minha roupa / Agora volta pro novelo / Agora a língua em minha boca / Agora meu avô já vive / Agora meu filho nasceu / Agora o filho que não tive / Agora a criança sou eu / Agora sinto um gosto doce / Agora vejo a cor azul / Agora a mão de quem me trouxe / Agora é só meu corpo nu / Agora eu nasço lá de fora / Agora minha mãe é o ar / Agora eu vivo na barriga / Agora eu brigo pra voltar / Agora / Agora / Agora //

#9 Memórias do Mar // Composição: Vevé Calazans / Jorge Portugal

A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai /A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai / Quem um dia foi marinheiro audaz / Relembra histórias / Que feito ondas não voltam mais /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá /Tempestades e ventos / Tufões violentos / E arrebentação / Hoje é calmaria / que dorme dentro do coração /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é aqui / Maré mansa e morna / De Plataforma ou de Peri-PeriVelhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá //

#10 As Praias Desertas //Composição: Antonio Carlos Jobim

«Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa.» /Sophia de Mello Breyner Andresen / in ‘Poemas escolhidos’ 2004

As praias desertas continuam / Esperando por nós dois / A este encontro eu não devo faltar / O mar que brinca na areia / Está sempre a chamar / Agora eu sei que não posso faltar / O vento que venta lá fora / O mato onde não vai ninguém / Tudo me diz / Não podes mais fingir / Porque tudo na vida há de ser sempre assim / Se eu gosto de você / E você gosta de mim / As praias desertas continuam / Esperando por nós dois //

#11.1 O Vento // Composição: Dorival Caymmi

Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / (Vento que dá na vela / Vela que leva o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / Vento que dá na vela / Vento que vira o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã) / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento //

«É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo» Procelária (In.: Geografia, de Sophia Andresen)

#11.2 A Dona do Raio e do Vento // Composição: Paulo César Pinheiro

O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / A minha voz é o vento de maio / Cruzando os ares, os mares e o chão / E meu olhar tem a força do raio / que vem de dentro do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / Eu não conheço rajada de vento / Mais poderosa que a minha paixão / E quando o amor relampeia aqui dentro / Vira um corisco esse meu coração / Eu sou a casa do raio e do vento / Por onde eu passo é zunido é clarão / Porque Iansã desde o meu nascimento / Tornou-se a dona do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / O raio de Iansã sou eu / E o vento de Iansã também sou eu / O raio de Iansã sou eu //

#12 Lágrima // Composição: Roque Ferreira

Lágrima por lágrima hei de te cobrar / Todos os meus sonhos que tu carregaste, hás de me pagar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos, de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que eu trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar… / Lágrima por lágrima.

#13.1 Noiva: Cantiga da Noiva // Composição: Dorival Caymmi

É tão triste ver / Partir alguém / Que a gente quer / Com tanto amor / E suportar / A agonia / De esperar voltar… / Viver olhando / O céu e o mar / A incerteza / A torturar / A gente fica só / Tão só / A gente fica só / Tão só… / É triste esperar.

#13.2 Floresta do Amazonas // Composição: Heitor Villa Lobos

Sonhar na tarde azul / Do teu amor ausente / Suportar a dor cruel / Com esta mágoa crescente / O tempo em mim / Agrava o meu tormento, amor / Tão longe assim de ti / Vencida pela dor / Na triste solidão / Procuro ainda te encontrar / Ah amor, meu amor….

«Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.» Pirata – Sophia de Mello Breyner Andresen

#14 Portela: Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite //Composição: David Corrêa e Jorge Macedo

«O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real» Sophia de Mello Breyner Andersen, «Dual» in Obra Poética III, Lisboa, Caminho, 1999, 4.ª ed.

Deixa-me encantar / Com tudo teu e revelar la, ra,ra / O que vai acontecer / Nesta noite de esplendor / O mar subiu na linha do horizonte / Desaguando como fonte / Ao vento a ilusão teceu / O mar, ô o mar! / Por onde andei mareou, mareou! / Rolou na dança das ondas / No verso do cantador / Dança quem tá na roda / Roda de brincar / Prosa na boca do vento / E vem marear (BIS) / Eis o cortejo irreal / Com as maravilhas do mar / Fazendo o meu carnaval / É a vida a brincar / A luz raiou pra clarear a poesia / Num sentimento que desperta na folia / Amor! Amor! / Amor sorria, ô ô ô / Um novo dia, despertou / E lá vou eu, e lá vou eu / Pela imensidão do mar / Esta onda que borda a avenida de espuma / Me arrasta a sambar (BIS) /

#15 Canto de Nanã // Composição: Dorival Caymmi

Ê de noite ê / De noite até de manhã – iê / Ouvi cantá pra Nanã

lá em casa ás árvores…

[dom] 5 de abril de 2015

Ao Vivo Lá Em Casa
Arnaldo Antunes
Estilo: Pop
Gravadora: Rosa Celeste
Ano: 2010

1. A Casa é Sua // 5’04” // Compositor: Arnaldo Antunes e Ortinho (Wharton Gonçalves Filho) // não me falta cadeira / não me falta sofá / só falta você sentada na sala / só falta você estar // não me falta parede / e nela uma porta pra você entrar / não me falta tapete / só falta o seu pé descalço pra pisar // não me falta cama / só falta você deitar / não me falta o sol da manhã / só falta você acordar // pra as janelas se abrirem pra mim / e o vento brincar no quintal / embalando as flores do jardim / balançando as cores no varal // a casa é sua / por que não chega agora? / até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora // a casa é sua / por que não chega logo? / nem o prego aguenta mais o peso desse relógio // não me falta banheiro quarto / abajur, sala de jantar / não me falta cozinha / só falta a campainha tocar // não me falta cachorro / uivando só porque você não está / parece até que está pedindo socorro / como tudo aqui nesse lugar // não me falta casa / só falta ela ser um lar / não me falta o tempo que passa / só não dá mais para tanto esperar // para os pássaros voltarem a cantar / e a nuvem desenhar um coração flechado / para o chão voltar a se deitar / e a chuva batucar no telhado // a casa é sua / por que não chega agora? / até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora // a casa é sua / por que não chega logo / nem o prego aguenta mais o peso desse relógio /// 2. Essa Mulher  // 3’05” //  Compositor: Arnaldo Antunes //   ela quer viver sozinha / sem a sua companhia / e você ainda quer essa mulher //  ela goza com o sabonete / não precisa de você / ela goza com a mão / não precisa do seu pau //  ela quer viver sozinha / sem a sua companhia / e você ainda quer essa mulher //  que não sente a sua falta / e quando você chega em casa ela não sente a sua presença / ela tem um travesseiro mais macio do que o seu braço / e um acolchoado muito mais quente que o seu abraço //  ela quer viver sozinha / sem a sua companhia / e você ainda quer essa mulher /// 3.  Americana  // 3’32” //  Compositor: Arnaldo Antunes //  Ela é americana da América do Sul / Ela é americana da América do Sul / Eu amo uma americana / Ela é bacana e linda pra chuchu / Quando eu tô na pior / Ela está na melhor / Ela me dá tutu // Com ela não tem cara feia / Tudo é limpeza / Tudo está legal / Com ela não tem dedo-duro / Nada de furo / Ela é genial // Gosta de uma maluquice / Mas de caretice ela tem horror / Gosto da Americana / Não me fale dela / Eu lhe peço por favor //Tô gamado nela / Vou me casar com ela / Não tem deduração / Vou fazer com ela uma transação /// 4.  Consumado // 4’11” // Composição: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte //  Tô louco pra fazer / Um rock prá você / Tô punk de gritar / Seu nome sem parar… // Primeiro eu fiz um blues / Não era tão feliz / E de um samba-canção / Até baião eu fiz… // Tentei o tchá tchá tchá / Tentei um yê yê yê / Tô louco prá fazer / Um funk prá você… // E tá consumado / Tá consumado / Tá consumado / Tá consumado… // Fiz uma chanson d’amour / Fiz um love song for you / Fiz una canzone per te / Para impressionar você… // Prá todo mundo usar / Prá todo mundo ouvir / Prá quem quiser chorar / Prá quem quiser sorrir… // Na rádio e sem jabá / Na pista e sem cair / Um samba prá você / Um rock and roll to me… // E tá consumido / Tá consumido / Tá consumido / Tá consumido… // Fiz uma chanson d’amour / Fiz um love song for you / Fiz una canzone per te / Para impressionar você… /// 5. Sou Uma Criança, Não Entendo Nada // 3’26” // Composição: Erasmo Carlos // Antigamente quando eu me excedia / Ou fazia alguma coisa errada / Naturalmente minha mãe dizia: / “Ele é uma criança, não entende nada”… // Por dentro eu ria / Satisfeito e mudo / Eu era um homem / E entendia tudo… // Hoje só com meus problemas / Rezo muito, mas eu não me iludo / Sempre me dizem quando fico sério: / “Ele é um homem e entende tudo”… // Por dentro com / A alma tarantada / Sou uma criança / Não entendo nada…  /// 6. As Melhores Coisas // 3’24” // Composição: Arnaldo Antunes // Entre as dez ou mais de mil melhores coisas da vida / Você estava atrás do sétimo, oitavo lugar / Depois do violão, do irmão, do gibi, da bebida / Entre a luz do fim da tarde e o azul do mar / Quando se afastou de mim depois daquela intriga / Nem sei em que lugar da lista você foi parar / Nunca imaginei você não sendo minha amiga / Nem também sonhei que eu fosse me apaixonar // Mas mudou, você veio / Derrubando o mundo inteiro / Demorou, mas veio / Com a hora do recreio // Entre as dez ou mais de mil melhores coisas da vida / Tem a bike, a night, o Nike antes de você / Mas comecei a te querer depois da despedida / Isso professor nenhum explica porque / Agora fico te esperando na hora da saída / Tenho dez ou mais de mil segredos pra contar / De tudo que tem você a coisa preferida / Você finalmente chegou ao primeiro lugar // Seu blusão vermelho / O incenso do seu cheiro / Sua mão, seu cabelo / No meu travesseiro // Agora o tempo pode passar (3x) / Você já é primeiro lugar / Agora o tempo pode passar / Você já é primeiro lugar  /// 7. Envelhecer // 4’22” // Composição: Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Ortinho (Wharton Gonçalves Filho)  // A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer / A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer / Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer / Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer // Não quero morrer pois quero ver / Como será que deve ser envelhecer / Eu quero é viver pra ver qual é / E dizer venha pra o que vai acontecer // Eu quero que o tapete voe / No meio da sala de estar / Eu quero que a panela de pressão pressione / E que a pia comece a pingar / Eu quero que a sirene soe / E me faça levantar do sofá / Eu quero pôr Rita Pavone / No ringtone do meu celular / Eu quero estar no meio do ciclone / Pra poder aproveitar / E quando eu esquecer meu próprio nome / Que me chamem de velho gagá // Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé / Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer / Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender / Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr // (…)   /// 8. Pra Aquietar // 2’55” // Composição: Luiz Melodia // O sol vermelho é o clarão do dia / Da ilha longa de paquetá / Domingo santo ou qualquer dia / Pra aquietar, pra aquietar / Os novos velhos tempos de férias / Cinema a atração que sumiu / Machismo, elegância paterna / Pra aquietar, pra aquietar / A noite é a brincadeira do dia / O dia é a brincadeira do mar / O mar é a brincadeira da vida / Pra aquietar, pra aquietar / Não posso pra lá paraguaio pára / Menino de cá faço o tempo parar / Eu posso acalmar qualquer hora posso / Um dia todo posso acalmar / Coral é natural, café da capital / Da ilha longa nova de lá  / Coral é natural, café da capital /// 9. As Árvores // 6’50” // Composição: Arnaldo Antunes, Jorge Ben Jor // As árvores são fáceis de achar / Ficam plantadas no chão / Mamam do sol pelas folhas / E pela terra / Também bebem água / Cantam no vento / E recebem a chuva de galhos abertos / Há as que dão frutas / E as que dão frutos / As de copa larga / E as que habitam esquilos / As que chovem depois da chuva / As cabeludas, as mais jovens mudas / As árvores ficam paradas / Uma a uma enfileiradas / Na alameda / Crescem pra cima como as pessoas / Mas nunca se deitam / O céu aceitam / Crescem como as pessoas / Mas não são soltas nos passos / São maiores, mas / Ocupam menos espaço / Árvore da vida / Árvore querida / Perdão pelo coração / Que eu desenhei em você / Com o nome do meu amor. /// 10. Meu Coração // 6’05” // Composição: Arnaldo Antunes // Meu coração bate sem saber / Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender / Meu coração bate sem saber / Que meu peito é uma porta que ninguém vai atender // Quem sente agora está ausente / Quem chora agora está por fora / Quem ama agora está na cama doente / Só corre nunca chega na frente / Se chega é pra dizer vou embora / Sorriso não me deixa contente //E todas as pessoas que falam pra me consolar / Parecem um bocado de bocas se abrindo e fechando / Sem ninguém pra dublar / Eu já disse adeus antes mesmo de alguém me chamar / Não sirvo pra quem dá conselho / Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar /// 11. Cachimbo // 2’34” // Composição: Edvaldo Santana // Sou a madeira que sempre fico na bera / Perfume de sarro e cera / Que dança no seu beicinho / É evidente que sou preso pelos dentes / Chaminé dos inocentes / Embebedo de mansinho // Sou pau de boca de saci a magistrado / Desejado e adorado / Alimentado pelo fumo / Mata cachorro bem capacho distraído / Carimbado e mau vestido / Que eu num sei qual é meu rumo // Sou a birita mescla de cachaça e mel / Cabeça seca pelo céu / Pela chama do atrito // No meu fornilho se deita qualquer tabaco / A chupada me faz fraco / Sou um verdadeiro pito // Seu pensador vê se decifra para mim / Eu já passei por tanto horror / Porque é que não morri? / Será que é só pra manter o combinado / Que pra ter um chupador / Ter que nascer um já chupado? // Tá assustado? / Tá assustado? / Tá assustado? /// 12. Quando Você Decidir // 3’23” // Composição: Odair José // Quando você decidir / Dar pra mim / Só pra mim / O seu amor // Eu vou estar sempre aqui / Perto daqui / Chame por mim / Por favor // Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor // Quando você decidir / Dar pra mim / Só pra mim / O seu carinho // Pegue seu telefone / Disque o meu número / Chame o meu nome / Por favor // Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor / Lembre que eu existo, meu amor /// 13. Vou Festejar // 3’37” // Composição: João Bosco, Dida, Neoci // Chora, não vou ligar / Chegou a hora / Vai me pagar / Pode chorar, pode chorar(2x) // Ah, o seu castigo / Brigou comigo / Sem ter porquê // Eu, / vou festejar, vou festejar / O seu sofrer, o seu penar // Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão // Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão // Chora, não vou ligar / Chegou a hora / Vai me pagar // Chora, não vou ligar / Chegou a hora / Vai me pagar / Pode chorar, pode chorar // Ah, o seu castigo / Brigou comigo / Sem ter porquê // Eu, / Vou festejar, vou festejar / O seu sofrer, o seu penar // Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão (4x) // Você pagou… // Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão!/// 14. Já Fui Uma Brasa // 3’37” // Composição: Adoniran Barbosa // Eu também um dia fui uma brasa / E acendi muita lenha no fogão / E hoje o que é que eu sou? / Quem sabe de mim é meu violão / Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro, / Tocava saudosa maloca // Eu gosto dos meninos destes tal de iê-iê-iê, porque com eles, / Canta a voz do povo / E eu que já fui uma brasa, / Se assoprarem posso acender de novo // (declamado): / É negrão… eu ia passando, o broto olhou pra mim e disse: é uma cinza, mora? / Sim, mas se assoprarem debaixo desta cinza tem muita lenha pra queimar.

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ps: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

ouvir também: Ninguém – Arnaldo Antunes

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e alguns exercícios:

título: meu último poema de amor

meu último poema de amor

meu último poema de amor
é uma página nua
onde caberá o que há de vir
onde versos se farão futuro
como frutos
semeados
e fundos, brotarão
rompendo o que há
de obscuro úmido
e húmus desta vida
em busca da luz
da lua cheia
e do ardor solar

meu último poema de amor
é uma intenção,
tensa,
tesão,
ansioso pelos versos
que fruirão boca em boca…
e que decifrarão
os códigos, tatos, afetos
e o verbo
por ser dito
pela língua tua.

meu último poema de amor
durará toda a minha vida
e será de riso aberto
e de dura dor – pois confesso,
sou um tanto triste.

meu último poema de amor
conterá meu peito
ensanguentado, salgado e vermelho vivo,
submerso até a última gota na jornada
pelo novo que há neste mundo velho.

meu último poema de amor
te espera.

*

e outros rascunhos… ao som de Mallu Magalhães – Pitanga Completo e Clarice Falcão – Monomania Completo.

chô, chuá…

[sáb] 18 de outubro de 2014

chô, chuá

*

nada do que eu possa dizer agora deve permanecer… tudo é assombro, desgosto e melancolia. que fiquemos com as profundas palavras de caetano e gil no disco Tropicália 2.

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HAITI // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // Quando você for convidado pra subir no adro / Da fundação casa de Jorge Amado / Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros pretos / De ladrões mulatos e outros quase brancos / Tratados como pretos / Só pra mostrar aos outros quase pretos / (E são quase todos pretos) / Como é que pretos, pobres e mulatos / E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados / E não importa se os olhos do mundo inteiro / Possam estar por um momento voltados para o largo / Onde os escravos eram castigados / E hoje um batuque, um batuque / Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária / Em dia de parada / E a grandeza épica de um povo em formação / Nos atrai, nos deslumbra e estimula / Não importa nada: / Nem o traço do sobrado / Nem a lente do fantástico, / Nem o disco de Paul Simon / Ninguém, ninguém é cidadão / Se você for ver a festa do pelô, e se você não for / Pense no Haiti, reze pelo… / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui / E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado / Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer / Plano de educação que pareça fácil / Que pareça fácil e rápido / E vá representar uma ameaça de democratização / Do ensino de primeiro grau / E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital / E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal / E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual / Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco / Brilhante de lixo do Leblon / E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo / Diante da chacina / 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos / Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres / E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos / E quando você for dar uma volta no Caribe / E quando for trepar sem camisinha / E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba / Pense no Haiti, reze pelo / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui .//

CINEMA NOVO // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // O filme quis dizer  / “Eu sou o samba” / A voz do morro rasgou a tela do cinema / E começaram a se configurar / Visões das coisas grandes e pequenas / Que nos formaram e estão a nos formar / Todas e muitas: Deus e o diabo, vidas secas, os fuzis / Os cafajestes, o padre e a moça, a grande feira, o desafio / Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil / Outras conversas sobre os jeitos do Brasil / A bossa nova passou na prova / Nos salvou na dimensão da eternidade / Porém aqui embaixo “A vida mera metade de nada” / Nem morria nem enfrentava o problema / Pedia soluções e explicações / E foi por isso que as imagens do país desse cinema / Entraram nas palavras das canções / Entraram nas palavras das canções / Primeiro foram aquelas que explicavam / E a música parava pra pensar / Mas era tão bonito que parece / Que a gente nem queria reclamar / Depois foram as imagens que assombravam / E outras palavras já queriam se cantar / De ordem e desordem de loucura / De alma a meia-noite e de indústria / E a Terra entrou em transe / E no sertão de Ipanema / Em transe é, no mar de monte santo / E a luz do nosso canto e as vozes do poema / Necessitaram transformar-se tanto / Que o samba quis dizer / O samba quis dizer: eu sou cinema / O samba quis dizer: eu sou cinema / Aí o anjo nasceu, veio o bandido meter o rango / Hitler terceiro mundo, sem essa aranha, fome de amor / E o filme disse: Eu quero ser poema / Ou mais: Quero ser filme e filme-filme / Acossado no limite da garganta do diabo / Voltar a Atlântida e ultrapassar o eclipse / Matar o ovo e ver a vera cruz / E o samba agora diz: Eu sou a luz / Da lira do delírio, da alforria de Xica / De toda a nudez de índia / De flor de macabéia, de asa branca / Meu nome é Stelinha é Inocência / Meu nome é Orson Antonio Vieira conselheiro de pixote / Superoutro / Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo / Quero ser Ganga bruta e clara gema / Eu sou o samba / viva o cinema. //

NOSSA GENTE (AVISA LÁ) // Compositor: Roque Carvalho // Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, o yê / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria / É denominado de vulcão / O estampido ecoou nos quatro cantos do mundo / Em menos de um minuto, em segundos / Nossa gente é quem bem diz é quem mais dança / Os gringos se afinavam na folia / Os deuses igualando todo o encanto toda a transa / Os rataplans dos tambores gratificam / Quem fica não pensa em voltar / Afeição a primeira vista / O beijo-batom que não vai mais soltar / A expressão do rosto identifica / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô / Avisa lá que eu vou / Avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô //

RAP POP CONCRETO  // Compositor: Caetano Veloso // Quem? //

WAIT UNTIL TOMORROW // Compositor: Jimi Hendrix // Well, I’m standing here, freezing, inside your golden garden / Uh got my ladder, leaned up against your wall / Tonight’s the night we planned to run away together / Come on Dolly Mae, there’s no time to stall / But now you’re telling me… / I think we better wait till tomorrow / Hey, yeah, hey / (I think we better wait till tomorrow) / Girl, what ‘chu talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / Yeah, yeah, yeah / Got to make sure it’s right, so until tomorrow, goodnight. / Oh, what a drag. /  Oh, Dolly Mae, how can you hang me up this way ? / Oh, on the phone you said you wanted to run off with me today / Now I’m standing here like some turned down serenading fool / Hearing strange words stutter from the mixed mind of you / And you keep tellin’ me that ah… /  I think we better wait till tomorrow / What are you talkin’ ‘bout ? / (I think we better wait till tomorrow) / No, can’t wait that long / (I think we better wait till tomorrow) / Oh, no / Got to make sure it’s right, until tomorrow, goodnight, oh. / Let’s see if I can talk to this girl a little bit here… /  Ow ! Dolly Mae, girl, you must be insane / So unsure of yourself leaning from your unsure window pane / Do I see a silhouette of somebody pointing something from a tree ? / Click bang, oh what a hang, your daddy just shot poor me / And I hear you say, as I fade away… / We don’t have to wait till tomorrow / Hey ! / We don’t have to wait till tomorrow / What you say ? / (We don’t have to wait till tomorrow) / It must have been right, so forever, goodnight, listen at ‘cha. / (We don’t have to wait till tomorrow) / Ah ! Do I have to wait ? Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / It’s a drag on my part / (We don’t have to wait till tomorrow) Don’t have to wait, uh, hmm ! Ah, no ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait, don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, oh / I won’t be around tomorrow, yeah ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Don’t have to wait / (We don’t have to wait till tomorrow) / Goodbye, bye bye ! / (We don’t have to wait till tomorrow) / Oh, what a mix up / Oh, you gotta be crazy, hey, ow! / Don’t have to wait till tomorrow //

TRADIÇÃO // Compositor: Gilberto Gil // Conheci uma garota que era do Barbalho / Uma garota do barulho / Namorava um rapaz que era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando / Conheci essa garota que era do Barbalho / Essa garota do barulho / No tempo que Lessa era goleiro do Bahia / Um goleiro, uma garantia / No tempo que a turma ia procurar porrada / Na base da vã valentia / No tempo que preto não entrava no Bahiano / Nem pela porta da cozinha / Conheci essa garota que era do Barbalho / No lotação de Liberdade / Que passava pelo ponto dos Quinze Mistérios / Indo do bairro pra cidade / Pra cidade, quer dizer, pro Largo do Terreiro / Pra onde todo mundo ia / Todo dia, todo dia, todo santo dia / Eu, minha irmã e minha tia / No tempo quem governava era Antonio Balbino / No tempo que eu era menino / Menino que eu era e veja que eu já reparava / Numa garota do Barbalho / Reparava tanto que acabei já reparando / No rapaz que ela namorava / Reparei que o rapaz era muito inteligente / Um rapaz muito diferente / Inteligente no jeito de pongar no bonde / E diferente pelo tipo / De camisa aberta e certa calça americana / Arranjada de contrabando / E sair do banco e, desbancando, despongar do bonde / Sempre rindo e sempre cantando / Sempre lindo e sempre, sempre, sempre, sempre, sempre / Sempre rindo e sempre cantando //

AS COISAS // Compositores: Arnaldo Antunes e Gilberto Gil //  As coisas têm peso  / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas têm peso / Massa, volume, tamanho / Tempo, forma, cor / Posição, textura, duração / Densidade, cheiro, valor / Consistência, profundidade / Contorno, temperatura / Função, aparência, preço / Destino, idade, sentido / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz / As coisas não têm paz /

ABOIO // Compositor: Caetano Veloso // Urba imensa / Pensa o que é e será e foi / Pensa no boi / Enigmática máscara boi / Tem piedade / Megacidade / Conta teus meninos / Canta com teus sinos / A felicidade intensa / Que se perde e encontra em ti / Luz dilui-se e adensa-se / Pensa-te //

DADA // Compositor: Caetano Veloso e Gilberto Gil // A Deus / Deus a / A…fro…di…te /De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…fro…di…te / De ti / Ti ve / Vi da / Da da / A Deus / A Deus / A Deus / Deus a / A…..fro…..di…..te /De ti / Ti ve / Vida / Da da / A Deus /

CADA MACACO NO SEU GALHO (CHÔ, CHUÁ)  // Compositor: Riachão (Clementino Rodrigues) // Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia /Chô, Chuá / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Não se aborreça moço da cabeça grande / Você vem não sei de onde / Fica aqui não vai pra lá / Esse negócio da mãe preta ser leiteira / Já encheu sua mamadeira / Vá mamar noutro lugar / Chô, Chua / Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá /Eu não me canso de falar / Chô, Chuá / O meu galho é na Bahia / Chô, Chua / O seu é em outro lugar / Chô, Chuá /Cada macaco no seu galho / Chô, Chuá / Eu não me canso de falar / Chô, Chua / O meu galho é na Bahia / Chô, Chuá /

BAIÃO ATEMPORAL // Compositor: Gilberto Gil // No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / No último pau de arara de ira…rá / Um da família Santana viajará / Levará uma semana até chegar / Junto com mais dois ou três outros cabras que / Estarão lá / No último pau de arara de ira…rá / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Se essa viagem comprida fosse um cordel / Seria boa saída acabar no céu / Só que este conto que eu canto é pra lá de zen / Não tem sentido, não serve pra nada e é /Pra ninguém / Pra ninguém botar defeito e não ter porém / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Basta pensar que irará poderá não ser / Que os paus de arara de lá já não tem porque / Porque os tempos passaram e passarão / Tudo que começa acaba e outros cabras seguirão / Cruzando o atemporal do tão do baião //

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA // Compositor: Caetano Veloso // A tristeza é senhora,  / Desde que o samba é samba é assim  / A lágrima clara sobre a pele escura,  / a noite e a chuva que cai lá fora  / Solidão apavora,  / tudo demorando em ser tão ruim  / Mas alguma coisa acontece,  / no quando agora em mim  / Cantando eu mando a tristeza embora  / (Repete tudo acima)  / O samba ainda vai nascer,  / O samba ainda não chegou  / O samba não vai morrer,  / veja o dia ainda não raiou  / O samba é o pai do prazer,  / o samba é o filho da dor  / O grande poder transformador.

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vertigens incidentais: #1 beba coca, cloaca. #2 um bate papo com o luis antônio… preciso disso, conversar com gente bacana; e deixar a casa mais arrumada… meu barraco é uma bagunça. #3 pesquisar mais sobre o novo cinema pernambucano. #4 floripa teatro – 21º festival isnard azevedo

ps: #1 se amanhã fizer um dia bonito vou mexer na terra. #2 e das leituras e conversas de hoje: Abayomis, a boneca negra; Für Elise, de Beethoven; e “macacos me mordam, batman…“, porque há muito fascismo ali do lado… #AécioNever

engrenagem

[sex] 15 de agosto de 2014

«Chama-se suicídio todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado». Émile Durkheim. O suicídio, 1897.

«No campo da formação ainda são escassos os estudos que incidam em efetivas transformações.O drama dos pesquisadores tem sido esse: a quem vive o quotidiano da escola, a quem investiga a todo o momento, não sobra tempo para fazer registros. Os que estudam ‘sobre’ as práticas observam, captam o supérfluo e generalizam-no. As conclusões de muitos estudos refletem a origem dos pesquisadores, raramente a realidade dos investigados. Mesmo quando são professores a conduzir os estudos, são professores com experiência de uma escola ‘tradicional’ fazendo, quase sempre, leituras que as suas representações permitem.
O drama dos que estão ‘dentro’ consiste em tudo parecer já ter sido dito pelos especialistas sobre a formação. No irônico contraponto com o real é extremamente difícil assumir a humildade curiosa de quem compreende que na formação contínua não existe ainda um edifício teórico coerente. Muitas pesquisas limitam-se à recolha de sequencias práticas, nem continuidade. Assentam em conclusões estáticas, produtos de modelos explicativos construídos a priori, ou (o que é ainda pior) são meras teorizações de teorias que legitimam-se umas às outras. Se a investigação sobre (ou na) formação não serve à transformação das práticas, para que serve?
Muita formação esgota-se em si mesma, é repositório de receitas avulsas debitadas sobre auditórios passivos. Os formadores são, em muitos casos, incapazes de concretizar em seus locais de trabalho as propostas que recomendam. Fazem apelo teórico à prática de ‘metodologias ativas’, mas a metodologia efetivamente utilizada não é, talvez, a mais importante, mas não poderá ser alienada. É inconcebível pois, que haja quem não tenha alguma vez passado por uma sala de aula e oriente formação de professores em domínios tão sensíveis como a alfabetização.
Manifestações como os círculos de estudo são, regra geral, remetidas para a periferia do sistema e assumem-se até elas próprias como marginais. Permanecem ignoradas, sem que delas se tome conhecimento, ou sobre elas se reflita. Não constituem novidade, pois estiveram presentes na gênese de grande parte dos movimentos pedagógicos nas três últimas décadas. Não são dispositivos redentores dos sortilégios dos modelos tradicionais de formação. ‘A autoformação ultrapassa os quadros sociais de vida. Ela parece ser a expressão de um processo de antropogênese que extravasa as estratificações sociais e educativas tradicionais. Compreender e trabalhar este processo obriga-nos a apoiar a reflexão sobre a autoformação […] nas ciências emergentes da autonomização». Págs. 36,37 e 38. PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e transformação na educação.

«às vezes acredito em mim mas às vezes não / às vezes tiro o meu destino da minha mão » Arnaldo Antunes. Acústico MTV.

 ps: fazer um poema sobre a ferrugem. outro sobre o cubo.

fim do dia

[dom] 3 de agosto de 2014

das coisas pensadas ontem/hoje

#1 enquanto o urso impera, o homem dorme… o tempo hiberna. espero-me no tempo.

#2 meu corpo gesta a revolta – na estética do contra… falo por não-palavras.
#3 um urso: peludo, pesado e selvagem. moi
#4 rastreei o caminho, ele vai dar em algum lugar… um livro, talvez.

#5 “não há o que lamentar… ”

e agora mudando de assunto, ou de plano, da reflexão para a ação.

#6 eu aqui tranquilo anotando tudo isto e bah, o japonês, amigo-visitante, chegou bêbado. vamos lá… cuidar do rapaz. afinal… quem diante das desgraças e desilusões desse mundo já não encheu a cara…

as minúsculas

[seg] 5 de maio de 2014

ps:

há contradições entre as minúsculas.

há contradições inúmeras nesta vida.

neste músculo há contrações ainda…

_________________________________________

os horários caducam… os dias caducam. hoje descobri valter hugo mae, um dos tantos outros como eu que vão de minúsculas. e foi cá, esta descoberta que gerou a vontade de escrever aqui… e assim, minha loucura não é só minha. nas nossas solidões há mais sintonia que consigamos imaginar. as letras minúsculas de valter também serão o presente à minha mãe. que em uma de suas falas aleatórias sobre o porquê de ler livros me fez recorda disto cá: socorro. agora, um breve relato dos dias: ,,,, domingo foi um dia solitário… deste que nos matam de fome, nos desnutrem, nos deixam em fastio – me sinto meio entediado e solitário, sem vontade de fazer o que tenho que fazer e sem coragem de movimentar-me… talvez voltar à terapia, talvez yoga, talvez… e dos poucos contatos humanos que tive posso dizer que foram raivosos, tensos, com uma certa agressividade – sou rodeado por, e imitador desta, família frustada. domingo foi a antítese do sábado. este foi um dia carinhoso, pacífico… um tanto resignado pelo desencontro de sexta, mas liberto por ter por ter tido a coragem de ir de peito aberto. pois sexta foi um dia daqueles que nos jogamos para a vida sem saber ou esperar o que virá… ingênuos, libertos. sexta foi o inverso de quinta, que foi um dia para arrumar a casa (física e simbolicamente), dia de ficar só, berrar ao volume máximo do som de alguma banda de rock bacana. dia só… dia de alimentar-se de solidão.

hoje também foi dia descoberta disto: marx selvagem.

e agora já é quase outro dia… dia de trabalho.

zona cinza

[sex] 28 de março de 2014

imagine a situação, o indivíduo está naquele naquela zona cinza, que é o abismo entre o pensar e sentir/fazer. sabe, ele, o que deve ser feito mas a sua força de vontade, sua gana, lhe deixa a quilômetros do que é almejado… e fica essa contradição, esse buraco insolúvel, entre o que “se” espera e o que, de fato, consegue ser realizado.

sente necessidade de hibernar uns dias… mas os deveres éticos e profissionais chamam, ordenam… mexa-se, movimente-se. e vai-se porque o mês teima em terminar e começar ansiosamente… o mundo ali fora ainda pulsa…

afrouxa

[seg] 9 de janeiro de 2012

gripei.

‘tá combinado.

registre seu livro.

blurb é uma idéia.

AFROUXA /// Para subir a ladeira, rá rá / Pra ver mais um por do sol nascer / Embora pra beira do mar / Pra ver a sereia vir a ser / Iemanja beijou iansã / E nãnã a chuva beijou o mar / Eva deu um beijo na maçã / E nanã adão também quis provar / Afrouxa e me dá sossego amor / Também quero provar desse manjar / Mais vale o desapego amor / Espera a flor desabrochar / De manhã, ainda é cedo. / De tardinha, amor, ainda é cedo também. // Arnaldo Antunes / Betão Aguiar

ENVELHECER /// A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer / A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer / Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer / Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer // Não quero morrer pois quero ver / Como será que deve ser envelhecer / Eu quero é viver pra ver qual é / E dizer venha pra o que vai acontecer // Eu quero que o tapete voe no meio da sala de estar / Eu quero que a panela de pressão pressione / E que a pia comece a pingar / Eu quero que a sirene soe / E me faça levantar do sofá / Eu quero pôr Rita Pavone no ringtone do meu celular / Eu quero estar no meio do ciclone pra poder aproveitar / E quando eu esquecer meu próprio nome / Que me chamem de velho gagá / Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé // Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer / Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender / Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr // Arnaldo Antunes

HOMEM VELHO.

e outras idéias e sensações que noutro dia comento. adieu.

pense duas vezes antes de esquecer

[seg] 2 de janeiro de 2012

paris, texas. 8½ novamente. e muita música bacana. é bacana. não errou nenhuma palavra até então. escreveu um poema. há muito não fazia isto. talvez a inspiração de sábado cedo. talvez a vontade de voltar a viver. e limpou a varanda, o banheiro e a sala. o dia passou assim rápido e cheio de sonhos e realizações. somos diferentes e temos todo o direito de sê-lo. vou te responder agora. vou lançar meu endereço para eles. vou começar um canteiro. queria um dia de sol. tenho um frio danado na barriga. a barriga vai grande. vinte quilos acima. e ai, coração? continuo escrevendo sobre… acho que quando o sobre tornar-se não precisarei escrever mais sobre. sabes?

trilhas sonora das últimas semanas: criolo. arnaldo. jeneci. tulipa.

a noite mais linda do mundo

[sáb] 31 de dezembro de 2011

A Noite Mais Linda do Mundo

debaixo d’agua

[dom] 24 de abril de 2011

e os dias passam…

e por uns breves instantes penso em anotar algo neste emaranhado de notas da memória. mas todas as anotações se quedam aí ou aqui e ou o que sobra é o latido do peito por algum lugar… latido disperso em alguma transitiva realidade. e pensando sobre os discursos e as performances onde tudo é um pouco verdade e um pouco ilusão – caos, ruínas, explotação, atenção, aceitação, reconhecimento, transformação – e quebramos a cabeça nestas infindáveis peças do cotidiano. voilá… não estamos sós.

e um último registro porque ouvi outro dia e anotei cá nos rascunhos: Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar // Debaixo d’água se formando como um feto / Sereno, confortável, amado, completo / Sem / chão, sem teto, sem contato com o ar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / Todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto / Sem lamento e sem saber o quanto / Esse momento poderia durar // Mas tinha que respirar / Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente / Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo / Aliviado, sem perdão e sem pecado / Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar / Mas tinha que respirar / Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Agora que agora é nunca / Agora posso recuar / Agora sinto minha tumba / Agora o peito a retumbar / Agora a última resposta / Agora quartos de hospitais / Agora abrem uma porta / Agora não se chora mais / Agora a chuva evapora / Agora ainda não choveu / Agora tenho mais memória / Agora tenho o que foi meu / Agora passa a paisagem / Agora não me despedi / Agora compro uma passagem / Agora ainda estou aqui / Agora sinto muita sede / Agora já é madrugada / Agora diante da parede / Agora falta uma palavra / Agora o vento no cabelo / Agora toda minha roupa / Agora volta pro novelo / Agora a língua em minha boca / Agora meu avô já vive / Agora meu filho nasceu / Agora o filho que não tive / Agora a criança sou eu / Agora sinto um gosto doce / Agora vejo a cor azul / Agora a mão de quem me trouxe / Agora é só meu corpo nu / Agora eu nasco lá de fora / Agora minha mãe é o ar / Agora eu vivo na barriga / Agora eu brigo pra voltar / Agora / Agora / Agora //// ARNALDO ANTUNES.

coração leviano

[qua] 9 de março de 2011

o tempo passou… já é quarta-feira de cinzas e ando sentindo o meu coração leviano!

Paulinho da viola | ACÚSTICO MTV | 01. TIMONEIRO // 2’58” | Composição: Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho /// Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar // E quanto mais remo mais rezo / Pra nunca mais se acabar / Essa viagem que faz / O mar em torno do mar / Meu velho um dia falou / Com seu jeito de avisar: / – Olha, o mar não tem cabelos / Que a gente possa agarrar // Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar // Timoneiro nunca fui / Que eu não sou de velejar / O leme da minha vida / Deus é quem faz governar / E quando alguém me pergunta / Como se faz pra nadar / Explico que eu não navego / Quem me navega é o mar // Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar / É ele quem me carrega / Como nem fosse levar // A rede do meu destino / Parece a de um pescador / Quando retorna vazia / Vem carregada de dor / Vivo num redemoinho / Deus bem sabe o que ele faz / A onda que me carrega / Ela mesma é quem me traz /// 02. CORAÇÃO LEVIANO // 3’16” | Composição: Paulinho da Viola // Trama em segredo teus planos / Parte sem dizer adeus / Nem lembra dos meus desenganos / Fere quem tudo perdeu // Ah coração leviano não sabe o que fez do meu / Ah coração leviano não sabe o que fez do meu (mas trama) / Este pobre navegante meu coração amante // Enfrentou a tempestade / No mar da paixão e da loucura / Fruto da minha aventura / Em busca da felicidade // Ah coração teu engano foi esperar por um bem / De um coração leviano que nunca será de ninguém /// 03. AMOR É ASSIM // 3’30” | Composição: Paulinho da Viola // Noto pelo seu procedimento / Que o seu coração / Acabou encontrando / Quando eu falo no nome dela / Você sorri, seus olhos ficam brilhando / Amor é assim, faz tudo mudar / É só alegria, tristeza não tem lugar // Não é preciso mentir pra ninguém / E muito menos para mim que já sou seu amigo / Pela felicidade que ele contém / Esse seu amor já não corre perigo / Sei o que é gostar de alguém / E chorar de saudade eu já chorei / Desejo que ela permaneça / Dentro do seu coração e que a felicidade / Não esqueça de vocês /// 04. PARA UM AMOR NO RECIFE // 2’26” | Composição: Paulinho da Viola // A razão porque mando um sorriso / E não corro / É que andei levando a vida / Quase morto / Quero fechar a ferida / Quero estancar o sangue / E sepultar bem longe / O que restou da camisa / Colorida que cobria minha dor / Meu amor eu não esqueço / Não se esqueça por favor / Que voltarei depressa / Tão logo a noite acabe / Tão logo este tempo passe / Para beijar você /// 05. FOI DEMAIS // 3’15” | Composição: Paulinho da Viola e Mauro Duarte // Sinceramente / Não sabia que seria assim / Esta chaga dentro do meu peito / Uma dor que nunca chega ao fim / Este amor foi demais pra mim / Este amor foi demais pra mim // Toda saudade tem suas dores / Todo pecado um dia tem seu perdão / Em minha vida, muitos amores / Nenhum marcou tanto meu coração / Eu bem queria esquecer quem não me ama / E retraçar novamente meu caminho / Tirar das cinzas alguma chama / E não ficar assim no mundo sem carinho /// 06. CORAÇÃO IMPRUDENTE // 2’00” | Composição: Paulinho da Viola e Capinan // O quê que pode fazer / Um coração machucado / Senão cair no chorinho / Bater devagarinho pra não ser notado / E depois de ter chorado / Retirar de mansinho / De todo amor o espinho / Profundamente deixado // O que pode fazer / Um coração imprudente / Se não deixar um pouquinho / De seu bater descuidado / E depois de cair no chorinho / Sofrer de novo o espinho / Deixar doer novamente /// 07. PECADO CAPITAL // 3’10” | Composição: Paulinho da Viola // Dinheiro na mão é vendaval / É vendaval! / Na vida de um sonhador / De um sonhador! / Quanta gente aí se engana / E cai da cama / Com toda a ilusão que sonhou / E a grandeza se desfaz / Quando a solidão é mais / Alguém já falou… / Mas é preciso viver / E viver / Não é brincadeira não / Quando o jeito é se virar / Cada um trata de si / Irmão desconhece irmão / E aí! / Dinheiro na mão é vendaval / Dinheiro na mão é solução / E solidão! / Dinheiro na mão é vendaval / Dinheiro na mão é solução / E solidão! / Dinheiro na mão é vendaval / É vendaval! / Na vida de um sonhador / De um sonhador! / Quanta gente aí se engana / E cai da cama / Com toda a ilusão que sonhou / E a grandeza se desfaz / Quando a solidão é mais / Alguém já falou… / Mas é preciso viver / E viver / Não é brincadeira não / Quando o jeito é se virar / Cada um trata de si / Irmão desconhece irmão / E aí! / Dinheiro na mão é vendaval / Dinheiro na mão é solução / E solidão! / Dinheiro na mão é vendaval / Dinheiro na mão é solução / E solidão! / E solidão! E solidão! / E solidão! E solidão! / E solidão! E solidão! /// 08. TUDO SE TRANSFORMOU // 3’41” | Composição: Paulinho da Viola // Ah, meu samba / Tudo se transformou / Nem as cordas  / Do meu pinho / Podem mais amenizar a dor / Onde havia a luz do sol / Uma nuvem se formou / Onde havia uma alegria para mim / Outra nuvem carregou / A razão desta tristeza / É saber que o nosso amor passou // Violão, até um dia / Quando houver mais alegria / Eu procuro por você / Cansei de derramar / Inutilmente em tuas cordas / As desilusões deste meu viver / Ela declarou recentemente / Que ao meu lado não tem mais prazer /// 09. SINAL FECHADO // 3’12” | Composição: Paulinho da Viola // – Olá! Como vai? / – Eu vou indo. E você, tudo bem? / – Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você? / – Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo… / Quem sabe? / – Quanto tempo! / – Pois é, quanto tempo! / – Me perdoe a pressa – é a alma dos nossos negócios! / – Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem! / – Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí! / – Pra semana, prometo, talvez nos vejamos…Quem sabe? / – Quanto tempo! / – Pois é…quanto tempo! / – Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira dasruas… / – Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança! / – Por favor, telefone – Eu preciso beber alguma coisa, rapidamente… / – Pra semana…– O sinal… / – Eu procuro você… / – Vai abrir, vai abrir… / – Eu prometo, não esqueço, não esqueço… / – Por favor, não esqueça, não esqueça… / – Adeus! / – Adeus! / – Adeus! /// 10. AINDA MAIS // 4’08” | Composição: Eduardo Gudin e Paulinho da Viola // Foi como tudo na vida que o tempo desfaz / Quando menos se quer / Uma desilusão assim / Faz a gente perder a fé / E ninguém é feliz, viu / Se o amor não lhe quer / Mas enfim, como posso fingir / E pensar em você como um caso qualquer / Se entre nós tudo terminou / Eu ainda não sei mulher / E por mim não irei renunciar / Antes de ver o que eu não vi em seu olhar / Antes que a derradeira chama que ficou / Não queira mais queimar // Vai, que toda verdade de um amor / O tempo traz / Quem sabe um dia você volta para mim / E amando ainda mais /// 11. BELA MANHÃ // 3’49” | Composição: Paulinho da Viola // Quando o sol iluminou / a bela manhã do dia / sobre o leito revirado / em teu corpo perfumado / a luz descia // Eu então rezei / agradecendo ao criador / o prazer de conhecer / por um momento / a felicidade deste amor // Havia no teu sorriso / um sinal tão claro de satisfação / que o bem que tanto eu queria // finalmente não era mais uma ilusão / E peço a Deus / que nada mais possa nos separar / pois eu não saberia mais viver / sem poder te amar /// 12. TALISMA // 2’30” | Composição: Paulinho da Viola / Marisa Monte / Arnaldo Antunes // Eu não preciso de um talismã / Nem penso em meu amanhã / Vou remando com a maré / Eu não preciso de patuá / Nem peço ao meu orixá / Não vou na igreja, não sei rezar / Mas tenho fé / Pois agora quem eu quis / Também me quer // Por muito tempo / Eu batalhei o seu amor / Porém, você me desarmava / E só me dava o seu desdém // Quando me olhava parecia nem me ver / Eu era ninguém / Mas hoje em dia eu posso dizer / “Meu amuleto é meu bem” /// 13. VAI DIZER AO VENTO // 4’08” | Composição: Paulinho da Viola // Saudade, vai dizer ao vento / Que a dor da desilusão passou / E saiba que não há tormento tão intenso / Como aquele que você me provocou / Saudade, tudo tem seu tempo / E o seu já terminou / Espero que depois de tudo que eu passei / Você me faça esse favor // Andei revendo tanta coisa em minha vida / E hoje posso controlar a emoção / Fui apagando cada sombra de amargura / Que havia dentro do meu coração // Agora, vou seguir outro caminho / Quem sabe esquecer o que passou / Saudade, diga ao vento que a tristeza deu um tempo / E não esqueça que você já me deixou /// 14. NERVOS DE AÇO // 2’34” | Composição: Lupicínio Rodrigues // Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / Ter loucura por uma mulher / E depois encontrar esse amor, meu senhor / Nos braços de um outro qualquer / Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / E por ele quase morrer / E depois encontrá-lo em um braço / Que nem um pedaço do seu pode ser // Há pessoas de nervos de aço / Sem sangue nas veias e sem coração / Mas não sei se passando o que eu passo / Talvez não lhe venha qualquer reação // Eu não sei se o que trago no peito / É ciúme, despeito, amizade ou horror / Eu só sei que quando a vejo / Me dá um desejo de morte ou de dor /// 15. EU CANTO SAMBA // 2’57” | Composição: Paulinho da Viola // Eu canto samba / Por que só assim eu me sinto contente / Eu vou ao samba / Porque longe dele eu não posso viver / Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade / Se fico sozinho ele vem me socorrer / Há muito tempo eu escuto esse papo furado / Dizendo que o samba acabou / Só se foi quando o dia clareou // O samba é alegria / Falando coisas da gente / Se você anda tristonho / No samba fica contente / Segure o choro criança / Vou te fazer um carinho / Levando um samba de leve / Nas cordas do meu cavaquinho ///

não é o medo da loucura que nos forçará a largar a bandeira da imaginação

[ter] 1 de julho de 2008

Não é o medo da loucura que nos forçará a largar a bandeira da imaginação“. André Breton.

______——

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

Arnaldo Antunes in Tudos

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