Archive for the '28' Category

greve geral

[sex] 28 de abril de 2017

#GreveGeral

sube la montaña, mañana quizás bajará

[ter] 28 de março de 2017

era 1h22. anotei isto antes de dormir:

ok. deu. resolve esse teu dedo ai bicho… um ano bichado não né… maio ‘tá chegando.

hoje pela manha/tarde

faça as contas

6 horas preparando o material para uma aula de 60 minutos (ou duas aulas de 30). isto sem contar que o tempo gasto lendo, e mentalmente montando, articulando, encadeando as ideias, até começar a operacionalizar.

trilha sonora desses ultimos dias>: rie chinito. la copla / Vals de la Quebradaperota chingó.

«Sopla las cañas / Sube la montaña, mañana quizás bajará / Se hace de día el sol lo encandila / Los vientos descansa y el chino se amansa…»

***

notas de um dia agradável de chuva. quando sai, não chovia, apenas havia um céu cinza. era como se o que há cá por dentro estivesse por fora, climatizando o universo. sai no horário. não cheguei atrasado. uma aluna falou que gostava de ouvir minha voz, assim, ela tomando conta do espaço todo. outro, resolveu mostrar um de seus poemas… suas rimas sobre a desilusão, sobre a dor. escreve bem o rapaz.

o carnaval acabou. fevereiro acabou

[ter] 28 de fevereiro de 2017

o carnaval acabou. fevereiro acabou.

e eu cansei…

agora é dormir, descansar os pés.

que a quarta-feira de cinzas… será longa e terá trabalho docente.

mas antes que o mundo ali na frente chegue…

fiz o meu último (e único) poema desse carnaval

eu sou o homem que passou no tempo
a pés ligeiros me demorei anos
errei tantas vezes e mais vezes
e noutras apenas fui versos ao avesso, de improviso.

eu sou o homem que passou no tempo
em alguns momentos parei basbaque, sem rima
e mirei o mundo como um velho monumento
noutras flanei desmotando-me das dez mil coisas necessárias…

eu sou o homem que passou no tempo
das gravatas floridas, das casas amarelas,
das flores vermelhas, das pequenas grandes coisas da vida
e inesquecíveis – uma lágrima negra, um amor não vivido.

eu sou o homem que passou no tempo
entre mergulhos em amores agridoces,
e ressacas que dilaceram as víceras
e desnorteam qualquer cabeça, um bobo dessa corte.

eu sou o homem que passou no tempo
e as vezes grito pra não esquecer a minha loucura
noutras emudeço a tormenta que sou por dentro
e sendo assim, sou o que passou, um passista do carnaval que acabou.

nina

[sáb] 28 de janeiro de 2017

1h30 (primeira edição) organizando as coisas aqui… e se deliciando com nina simone. hoje é dia de acordar cedo. seis horas estarei de pé para um dia longo.

.

7h30 (segunda edição) no meio do sono ele levanta. um banho morno rápido. um café quase-amargo. uma fatia de pizza fria. ele não está pronto pro dia, mas lá vai.

.

12h05 (segunda edição) em busca dos girrasois caminho adentro… os pés submersos na areia, o dia me envolvia.

e ali na frente, horas de caminhada, duna após duna, a ilusão, que após a próxima montanha de areia se alcançaria o marulho distante.

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18h45 (segunda edição) a chuva tomou conta do corpo do homem, fez dele criança.

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notas de roda pé:

Ain’t Got No, I Got Life // lyrics by James Rado and Gerome Ragni and music by Galt MacDermot /// Ain’t got no home, ain’t got no shoes / Ain’t got no money, ain’t got no class / Ain’t got no skirts, ain’t got no sweaters / Ain’t got no faith, ain’t got no beard / Ain’t got no mind / Ain’t got no mother, ain’t got no culture / Ain’t got no friends, ain’t got no schooling / Ain’t got no name, ain’t got no love / Ain’t got no ticket, ain’t got no token / Ain’t got no God / What have I got? / Why am I alive anyway? / Yeah, what have I got? / Nobody can take away / I got my hair, I got my head / I got my brains, I got my ears / I got my eyes, I got my nose / I got my mouth, I got my smile / I got my tongue, I got my chin / I got my neck, I got my boobs / I got my heart, I got my soul / I got my back, I got my sex / I got my arms, I got my hands / I got my fingers, Got my legs / I got my feet, I got my toes / I got my liver, Got my blood / I’ve got life, I’ve got my freedom / I’ve got the life / I got a headache, and toothache, / And bad times too like you, / I got my hair, I got my head / I got my brains, I got my ears / I got my eyes, I got my nose / I got my mouth, I got my smile / I got my tongue, I got my chin / I got my neck, I got my boobies / I got my heart, I got my soul / I got my back, I got my sex / I got my arms, I got my hands / I got my fingers, Got my legs / I got my feet, I got my toes / I got my liver, Got my blood / I’ve got life, I’ve got my freedom / I’ve got life, I’m gonna keep it / I’ve got life, I’m gonna keep it» Nina Simone, Nuff Said! (1968)

O-o-h Child /// Stan Vincent /// O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / Someday we’ll get it toghether and we’ll get it undone / Someday when the world is much brighter / Someday we’ll walk in the rays of a beautiful sun / Someday when the world is much lighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / O-o-h child things are gonna get easier / O-o-h child things ‘ll get brighter / Right now right now» Nina Simone, Here Comes the Sun (1971)

exercício sobre a segunda-feira

[ter] 28 de junho de 2016

se eu não tivesse perdido
você, hoje,
nessa segunda-feira,
jamais saberia
das coisas agridoces,
do vento frio na face,
da brisa sobre as árvores
do balé do bando que avoa
da arrevoada dos pássaros
da coreografia dos doces cães
das cores quentes
que banham o céu
quando da morte do sol.

se eu não tivesse perdido
jamais saberia
da caminhada solitária
descalço pela praia
sal pela barba áspera
e mar de folhas ocres
escondendo as pedras no chão.

se eu não tivesse perdido
jamais saberia
que em mim há
uma lenta necessidade
de deixar-se qual nuvem a esvaecer
pela noite que envolve toda a vida…

e que não há fogo
que me ascenda
ou frio que me congele.
apenas me é doce
essa morte, sem você,
em plena segunda-feira.

contrarrelógio

[seg] 28 de março de 2016

4h20′

e o feriado perdeu-se numa maratona com o mestre marco polo; dublai khan, o khan dos khans; e sifu, o cem olhos…

mas agora, poucas horas antes de voltar para a rotina… 10hs.

  1. plano de ensino
  2. planos de aula (3 – estados socialistas; 1 – augusto comte e o positivismo; durkheim e o método funcionalista; 2 – cultura e antropologia – do evolucionismo social ao estruturalismo; 3 – mulheres invisíveis e o feminismo.
  3. reunião conselho deliberativo
  4. tarefas de casa.

8h22′

“Na experiência do absurdo, o sofrimento é individual. A partir do movimento da revolta, ele ganha a consciência de ser coletivo, é a aventura de todos. O primeiro avanço da mente que se estranha é, portanto, reconhecer que ela compartilha esse sentimento com todos os homens, e que a realidade humana em sua totalidade, sofre com esse distanciamento em relação a si mesma e ao mundo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o homem da solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos.”  Albert Camus, O homem revoltado, 1996 [1951], p. 35.

15h28”

 
«Solidão, que poeira leve / Solidão, olha a casa é sua / Na vida, quem perde o telhado / Em troca recebe as estrelas / Pra rimar até se afogar / E de soluço em soluço esperar / O sol que sobe na cama / E acende o lençol / Só lhe chamando / Solicitando / Solidão, que poeira leve / Solidão, olha a casa é sua / O telefone chamou / Foi engano / Solidão, que poeira leve / Solidão, olha a casa é sua / E no meu descompasso o riso dela / Se ela nascesse rainha / Se o mundo pudesse aguentar / Os pobres ela pisaria / E os ricos iria humilhar / Milhares de guerras faria / Pra se deleitar / Por isso eu prefiro cantar sozinho / Solidão, que poeira leve / Solidão, olha a casa é sua / O telefone chamou, foi engano / Solidão, que poeira leve / Solidão, olha a casa é sua / E no meu descompasso passo o riso dela / Solidão…» TOM ZÉ
. ..
a cabeça dói. dormi demais/de menos. não terminei nada. nem comecei direito.  e que mania é essa de querer entrar em desespero…

je ne sais quoi

[sáb] 28 de novembro de 2015

eu não sei ao certo… mas…

aprendo algo importante. algo que ser mais gente… ser um tanto, pouquinho ainda, diferente.

há uma pilha de notas para por no sistema. há dias para cumprir tabela… há sábados para repor… mas o que importa é que há sonhos, desejos e gestos. os monstros continuam aqui me habitando, mas aos poucos resisto… insisto. há que se caminhar rumo ao instante em que eu me perceba diferente… há que se caminhar… porque tudo pode cessar, extinguir, terminar…

e para inspirar… um reflexão de silvio pedrosa:

“O COMPROMISSO BÁRBARO

Numa conversa com Michel Foucault em 1972, Deleuze disse: “se as crianças conseguissem que fossem ouvidos seus protestos (…) isso bastaria para ocasionar uma explosão no conjunto do sistema de ensino”. Foi essa a epígrafe do plano de estudos que apresentei recentemente à seleção do mestrado. Meus alunos talvez não saibam (alguns agora saberão), mas todos os dias quando saio de casa, estou mais interessado neles do que em ensinar-lhes ‘história’. Cumpro a função prescrita pelo estado (como eles bem sabem de tanto ler e escrever sobre os assuntos do currículo), sofro do mesmo stress que meus colegas com a ‘indisciplina’ de muitos deles, mas nunca deixo o terreno da pesquisa — de uma certa etnografia, talvez — quando convivo com eles em sala (e talvez por isso seja um recordista de notificações e chamada de responsáveis). Essa co-pesquisa talvez me diga se estou certo, mas desconfio de forma otimista que nessas crianças e jovens (na sua figuração enquanto encarnação de uma alma comum à infância e à juventude) haja uma potência radical capaz de produzir outras formas de viver consigo e em comum.

As escolas em que trabalhamos tantos de nós, com afinco e dedicação, não são compatíveis com essas crianças e jovens e a escuta atenta ao que eles tem a dizer são capazes de explodir o conjunto do sistema de ensino estruturado, pelo menos, nas nossas cabeças. Para toda indisciplina há uma pedagogia professoral. Para todo mau aluno há uma ordem de disciplinas e saberes imposta de cima pra baixo. Para toda sala desorganizada há uma arquitetura educativa do século XVI. Pois para toda barbárie há um espelho civilizador que não se reconhece na sua própria criatura.

Quando vejo as escolas de São Paulo transformarem-se em usinas de produção de outra educação, experiências de (auto-)formação que não são simulacros de autonomia (programada), noto que mais do que um grande evento político, trata-se apenas da superfície quente e brilhante de um magma que corre subterrâneo e que subverte todos os dias uma educação imposta de cima pra baixo seja pelas indisciplinas e mesmo violências com que nos defrontamos – policiais que somos, nós professores -, e resta reforçada em mim a urgência em se recuperar a escola como lugar de tempo livre (a skholé grega) – tal como já o disse Jan Masschelein -, como terreno capaz de fecundar iniciativas de democracia para além da estrita igualdade, construindo autonomia real no trato com os saberes e as práticas do mundo. A escola como lugar de desobediência aos imperativos dos aparelhos de captura que nada produzem.

O trabalho de toupeira, que os teólogos da revolução esperam como os preparativos do juízo final que antecede a entrada no reino dos céus, mudou tanto que mais do que fazê-lo, as esquerdas não sabem sequer mais identificá-lo (e correm a recobrir a organizada rebeldia do estudantes com suas marcas e símbolos). Apenas um ‘compromisso bárbaro’ (como o que propôs Guattari num texto sobre a subjetividade maquínica) com essas crianças e jovens (bem como outras figuras do ‘devir-universal da juventude’) pode sustentar uma oposição real ao abismo que nos cerca. “É claro que nada disso está ganho!”, ressaltou Guattari nesse mesmo texto. Mas o que é que já esteve ganho para nós, os malditos?”

pifei

[qua] 28 de outubro de 2015

tanto que fiz… que fiquei doente.

começou com o estresse na terça… toda aquela confusão de sentimentos… a dor, as lembranças, a raiva e aquela sensação de injustiça e indignação pela estupidez e intolerância que há neste mundo… nestas pessoas; e o dormir pouco na quarta-feira… tudo remoendo por dentro; e dormir mais um dia pouco e os pés encharcados desde as 9 da manhã na quinta-feira até as 23h – fora o rever tanta gente, e sentir-se em casa, querido… fechando a noite com uma reflexão coletiva entre professores de que é possível fazer algo diferente, mas dai tu ouve as palavras e olha para o lado percebe que: quem ali vai se mexer para fazer isto tudo?!; e o acordar cedo e dormir pouco na sexta-feira… dia de construção da rede no cras, e sentir-se fazendo esse pouco.. e conselho escolar – há tantas contradições… e reunião na amorv (uma janela?)… e aquela sensação de que as coisas sempre são mais complexas do que imaginamos – porque quando dizemos no plano teórico que a democracia burguesa é uma falácia estamos corretos, mas quando vivenciamos diariamente isto no plano empírico… é chocante e aterrador; e idem sábado, reposição sem estudante… que cheguei no domingo e pifei. segunda, terça e hoje… cama, cansaço, dor de cabeça… coriza. e aquela vontade de mudar o mundo…  tá fraquinha, fraquinha.

o glorioso retorno de quem nunca esteve aqui

[dom] 28 de junho de 2015

#nota 1 [1:24]

o dia inteiro ouvindo… os de ontem, do criolo…

e começando agora… a ouvir:

e hoje/ontem (ou o sábado) foi o dia de por em dia todas as avaliações, notas, frequências… para zerar o primeiro bimestre, neste primeiro semestre. e o ano voou. e o dia também e nem comecei direito.

e assim estou exausto. mas muita coisa ainda falta. falta eu ir ai. falta eu estar aqui. mas de uma coisa eu sei: o saldo está sendo positivo!

#nota 2 [?:??]

pela manhã eu te conto.

metá metá… sozinho.

[qui] 28 de maio de 2015

hoje é dia de voltar ao movimento.

***

na madrugada transcrevi do novo ep do metá metá – me passado pelo juniores – a letra da canção sozinho [composição: Douglas Germano].

sozinho eu chego bem mais tarde
sozinho eu nunca fui covarde
sozinho eu leio o meu jornal
sozinho eu pulo na geral
sozinho eu não vou sofrer

sozinho meu café é forte
sozinho se eu temesse a morte
sozinho eu faço a minha paz
sozinho todo amor é mais
sozinho eu nunca vou sofrer

eu nunca pedi nem um pouco a mais do que já mereço
e eu quis demais
eu não escolhi o que essa vida faz
mas sempre vivi do que se desfaz

sozinho, minha trilha é Blanc*

sozinho não tem quem me arranque
sozinho eu paro onde eu quiser
sozinho, chopp, gim, fernet
sozinho para não mais sofrer
sozinho acordo bem mais cedo
sozinho sem pensar em medo
sozinho, eu nunca estive só
sozinho todo mal é pó
sozinho, eu sei bem mais viver

eu nunca pedi nem um pouco a mais do que já mereço
e eu quis demais
eu não escolhi o que essa vida faz
mas sempre vivi do que se desfaz

sozinho eu leio o meu jornal
sozinho eu pulo na geral
sozinho eu não vou sofrer

sozinho eu faço a minha paz
sozinho todo amor é mais
sozinho eu nunca vou sofrer

sozinho eu paro onde eu quiser
sozinho, chopp, gim, fernet
sozinho para não mais sofrer

sozinho eu nunca estive só
sozinho eu todo mal é pó
sozinho eu sei bem mais viver

*Correção feita. “O verso correto é: ‘Sozinho, minha trilha é Blanc’ Se trata de uma reverência direta ao compositor Aldir Blanc”.

meta_ep_capa_alta

PS: OUÇA: Luiz Tatit, “Rodopio” (2007)

 

a desumanização

[ter] 28 de abril de 2015

lendo esta aqui… caiu a ficha. já que eu estou cansado de não fazer nada porque chove direto ou porque durmo durante metade do dia… e busco desesperadamente fugas que me entorpeçam (tv, war online, leituras sobre coisas aleatórias e inúteis…). chegou a hora de ler algo interessante, e nada melhor do que revisitar valter hugo mãe.

então fiz assim, já que eu era obrigado a sair de casa e ir até a escola assinar uns documentos e sabedor que haveria fila, pela interminável duplicação da sc-403, decidi ler. a ida e a volta, algo totalizando duas horas, e lá se foram 40 páginas. como o anterior, o filho de mil homens, a leitura/escrita de valter é muito boa. vontade de devorar o livro rápido. aproveitei e fiz notas de algumas passagens que me chamaram atenção.

a desumanização mae

,

«o inferno não são os outros, pequena halla. eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. a humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. sem ninguém no presente nem no futuro, o individuo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. perece como uma coisa qualquer. [p.15]

(…) aprender a solidão não é senão  capacitarmo-nos do que representamos entre todos. talvez não representemos nada, o que me parece impossível. qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. e se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. estamos sempre à conversa com deus. a solidão não existe. é uma ficção das nossas cabeças.  [p.15]

(…) quando for grande, halla, não quero ser cozinheira das baleias. não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. quando for grande, quer ser de outra maneira. quero ser longe. eu respondia: ninguém é longe. as pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. a minha irmã dizia: são. algumas pessoas são longe. quando for grande quero ser longe. [p. 22]

(…) sobre a beleza o meu pai também explica: só existe a beleza que se diz. só existe a beleza se existir interlocutor. a beleza da lagoa é sempre alguém. porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. a beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. ele afirmava: o nome da lagoa é halla, é sigridur. ainda que as palavras sejam débeis. as palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. usamo-lo por pura ilusão. deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. para que um veja e o outro ouça. sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. a esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança.é o que todos almejamos. que acreditem em nós. dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente. [p.27]

(…) quando falo, não entrego nada. deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. quando falo, o que faço é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. como se falando pudéssemos fazer tudo. o que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. não podemos navegar numa palavra. não podemos ir embora. falar é ficar. se falo é porque ainda não fui. ainda aqui estou. preciso de me calar, pai. preciso de aprender a calar-me. quero muito fugir. [p. 34]»

leia o livro você também: a desumanização. valter hugo mãe. editora cosac naify. 2014.

***

a trilha de fundo desta postagem é o disco Kassin+2 – Futurismo.

agitpop!

[sáb] 28 de março de 2015

uma nota breve para refletir e ponderar, um respiro no meio desta ansiedade danada que estou a sentir agora.

a vontade é sair corrente e ir até paula… desenrolar-me, soltar-me… aprender a ser par… e acalmar meu peito. e não pensar nestas tarefas todas, mas vamos lá… mais algumas horas e termino por hoje:

nestes últimos dias tem sido bem intensos… de mobilização, agitação e organização. é greve.

ontem… ao final da minha fala na assembleia regional senti que minhas mãos tremiam – como falar diante de um grande público ainda me deixa nervoso. e não era o frio por estar com os pés molhados.

mas voltamos a ativa! e como organizar uma assembleia de pais é algo tenso e complicado… carro de som ok, contato com professores do diurno ok.

e entre as filas e horas no busão para sambaqui-centro-trindade-rio vermelho… ando a ler e reler ensaios sobre a consciência e emancipação, mauro iasi.

as vantagens de ser invisível

[sáb] 28 de fevereiro de 2015

meu caro, somos infinito… um filme. um bom filme. um filme bonito e duro. não escolhemos nosso passado, mas podemos escolher o que faremos no nosso futuro. e quando fazia terapia, minha terapeuta falou isto, também. identifico-me muitas vezes com charlie. e por vezes sinto uma revolta e um nojo tão grande deste mundo… quanta violência sofremos. e sinto-me um sobrevivente diante do abuso sexual que sofri na infância, das constantes e sistemáticas violências psicológicas que aguentei em minha infância e adolescência… dos pensamentos diários suicidas na adolescência e a sensação de deslocamento do mundo… minha introspeção… minhas dificuldades de interação social… este meu despertencimento latente… essa percepção de ser um desajustado. sei que muitos dos meus demônios vem deste buraco gigantesco. sei também que sou um homem que aprendeu a resignificar-se, cresci… e entre uma depressão e outra, ousei viver. eu ainda insisto… mas antes deste filme, e deste texto acima… eu pensava um pouco sobre estes dias – o filme só me fez mergulhar um pouco mais profundo – a respeito de minhas oscilações de humor… aprendi duas coisas importantes nos últimos anos: não dar tantas desculpas por ser quem eu sou – sou o que sou e isto não é um erro; e verbalizar/textualizar o que sinto porque isto torna mais claro para mim mesmo e me permite cumprir o efeito libertador… a coisa mais terrível é sentir e ter que manter em segredo o horror que se sente. mas nem sempre se consegue escapar destas armadilhas: o sentir-se um nada, e medo de comunicar isto. mas não me sinto assim agora. não agora. quando voltava da escola, hoje, mirando a lua âmbar borrada pela noite úmida, pensava nestes mecanismos psíquicos que nos prendem e que demora para nos darmos conta de que entramos no círculo vicioso… sofrer é quase como um narcótico, um droga. cresci dentro de uma família desestruturada emocionalmente… e a pouca luz que tenho sei que venho de minha mãe, essa mulher sofrida nesta sociedade machista, racista, e capitalista. e eu poderia tecer aqui todo um receituário sociológico identificando histórica e socialmente as condições, tão análogas a inúmeras outras famílias brasileiras. hoje, como disse bourdieu sobre a mensagem sociológica, posso me desculpar… meu sofrimento não é minha culpa. há uma estrutura social que nos molda, da forma e deforma… o momento, gatilho desta reflexão, foi, após trocar ideia com uma ex-aluna, por acaso, no terminal. e a reflexão foi esta: «bacana essa camaradagem que vamos construindo com essas pessoas que passam por um momento pela nossa vida nessa relação estudante-professor. um dia estão ali, no outro ano já não… mas não sei quanto ensino. sei o quanto aprendo diariamente. e quero crer que algo fica nessa história toda… se não é a inspiração por um olhar mais crítico e atento sobre o real – tão necessário -, ao menos é um espírito de abertura, de generosidade e respeito. posso ser um professor que fala complicado, mas sou um ser humano que age buscando sempre o diálogo franco e uma empatia genuína… porque eu gosto muito de estar em sala e vivenciar essa sensação que tenho de que quase sempre estou nu, livre… enfrentando medos, assumindo erros, criando diálogos e aprendendo a ser mais humilde. posso não ter sido o melhor professor, mas fiz alguns amigos para a vida». depois que anotei isto acima, fiquei pensando no mal estar que senti desde quarta-feira… e como as conversas nada ida e na volta, e as aulas… e como isto me faz bem porque não me sinto inútil. e acredito que quase todos os seres humanos tem um pouco disto, desta necessidade de ser aceito e bem quisto, e sofre quando sente-se em débito ou não atinge o que esperava-se. pois, eu sou extremamente sensível a isto. queira-me ver iluminado, me permita estar em paz e num ambiente onde eu me sinta um pouco valorizado. por outro lado… meu lado mais obscuro e sombrio vem destes momentos onde sinto que não cumpri aquilo que deveria ter feito, e eu me exijo muito. e fiquei pensando no fato de terça-feira eu ter faltado ao compromisso e como isto me rendeu dois dias de fossa, leve… mas rendeu. e nessas horas eu ainda me sinto aquele garoto que se sente um merda e que quer morrer – mesmo que muitas vezes eu não consiga pensar sobre isto na hora. a sensação está ali. quantas vezes eu quis morrer nessa vida… e quantas vezes me matei em silêncio e sozinho. e fico pensando em paula, izabel, a faculdade, a militância, os projetos… quantos anos passei me sentindo uma merda e querendo morrer, desistindo de tudo. tanto tempo perdido… tantos machucados feitos, em mim e nos que amo e quem me ama… tantas chances perdidas… tanto sofrimento e abandono… tanta solidão. mas hoje não. hoje eu quero dizer que eu amo a vida. eu quero me sentir infinito. nem que seja por um milésimo de tempo… eu quero me sentir infinito. e isto não se sente sozinho.

*** trilha sonora do filme

It Could Be Another Change (The Samples)
Come On Eileen (Dexy's Midnight Runners)
Tugboat (Galaxy 500)
Temptation (New Order)
Evensong (The Innocence Mission)
Asleep (the Smiths)
Low (Cracker)
Teenage Riot (Sonic Youth)
Dear God (XTC)
Pearly Dewdrops' Drops (Cocteau Twins)
Charlie's Last Letter (Michael Brook)
Heroes (David Bowie)

ps: As Vantagens de Ser Invisível (no original, The Perks of Being a Wallflower). Direção: Stephen Chbosky; Produção: Russell Smith; Lianne Halfon e John Malkovich; Roteiro: Stephen Chbosky; Baseado em “As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky; Elenco: Logan LermanEmma WatsonEzra Miller e outros; Música: Michael Brook; Gênero: Drama; 2012 • cor • 102 min.

o corpo ainda é pouco

[dom] 28 de dezembro de 2014

#01:23′ e lá se vão dez dias…
mas como diz o oráculo: se a palavra é de prata o silêncio é de ouro.

mudo quando as minhas contradições e incoerências transbordam… e a narrativa se perde. não há memória.

***

#00:18′ essa ventania cega e surda que bate nas folhas do calendário… vai levando-as uma a uma. e as percepções do cotidiano, os fragmentos de leituras, os estranhamentos afetivos, as contradições entre realidade e desejo/medo… a fúria, a saudade do futuro, a dor presente ad aeternum... tudo se esvai no tempo.

resta apenas essa intuição oblívia e diluída no ir cotidiano…

o frio contraste

[qui] 28 de agosto de 2014

um dia frio e idiota.

ontem a marreta era simbólica, alegórica… criativa… um sonho/diálogo/ por um mundo diferente, feito por sujeitos conscientes.  ontem, valeu muito.

hoje, é a fúria do desespero… a bruta fundura da mágoa… a incapacidade de pensar de forma consciente, e apenas esmurrar até espatifar qualquer coisa… porque não se pode ainda por as mãos lá por dentro e arrancar o coração arrebentado. hoje não valeu nada, só deixou esse gosto de querer sumir deste povo daqui. é necessário qualquer distância para não deixar-se apodrecer.

mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia para alguém ou alguma coisa que está dentro de nós.

[seg] 28 de julho de 2014

que tal um mergulho no tempo? nesse vazio, que no fundo não é tão vazio assim… senti vontade de uma trilha sonora dos meus dezesseis… ouça no volume máximo.

«quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui»

***

estou a ler o filho de mil homens – como a casa está mais vazia, já que meu primo viajou pois sua mãe está hospitalizada e algum dos filhos precisa cuidar dela. e estou de recesso. entre cuidar das marias (filha e sobrinha) – e como é profundo o abraço e o riso de uma criança. é tempo sem pressão… calmo estou a esperar… e nenhuma das passagens [selecionadas nos livros] anotarei por cá… nem do findo saramago ou do veloz hugo-mae. colo abaixo imagens retiradas da rede. ótima história.

titânico

[qua] 28 de maio de 2014

mais um dia daqueles que se dependesse só de mim teria eu passado o dia dormido e submerso na inércia. mas depois de uma noite mal dormida, ansiosa, e curta; contando com um pouco de solidariedade alheia para ir ao centro em um dia sem transporte coletivo – de justa e necessária greve dos rodoviários.

e mesmo o compromisso assumido ser apenas as dez horas da matina, optei por não abusar da hospitalidade e seguir, ir mais cedo, e também para ver se tomava coragem… se investia mais em mim. e foi uma caminhada longa de seis quilômetros, cabelos ao vento, e frio. mas aproveitei o frio, o sono, a fome, a ansiedade para pensar e repensar… andar oxigena o cérebro… espanta pensamentos tristes. assim, depois desta longa caminhada dei mais um passo em direção a um compromisso assumido em 2012 e que se encaminha para a reta final – voltar a ter um sorriso, voltar a sorrir como lá pelos sete anos de idade com todos os dentes na cara. e as nove já estava no centro e disposto a desembolsar mais de mil, e horas, e dias, para passo a passo, fragmento a fragmento, reconstruir meu corpo violado tantas vezes. e cumprindo o motor do dia, já as dez, o depoimento diante de uma comissão de inquérito administrativo promovida pelo estado contra professores foi tranquilo – e assim, a manha terminada – me restava a tarde. como a tarde seria ao implante dental, restava me entupir de medicamentos pré operatório, almoçar uma refeição que resultou na descoberta de um filé de peixe com coco ralado delicioso. e no fazer hora pelo centro, revirando sebos, um cortázar, algumas revistas e um clássico da sociologia. e lá nas quatorzes horas, uma micro-cirurgia – sou um homem titânico, já era, agora sou duplamente. e nessa sensação de conquista, estou gostando de mim hoje, por ter tido essa coragem, pequena para uns, uma passo enorme para mim. nesta necessidade cotidiana de reafirmação e construção de paciência e coragem, de um amor resiliente. talvez as minhas asas neste momento ainda estejam feridas um cadinho para alçar voo, mas isto de desistir é tão lugar comum, é tão cotidiano… que é isto que me mata, morto vivo. mas há dias em que é preciso viver vivamente.

mas no saldo do dia foi tudo positivo, o ir e vir por alguém, e vários outros por mim. e o mais importante… eu por mim. e a noite foi toda cheio de dor, ou dopado, e sorvete e iogurte gelado. nem posso falar direito. amanhã é descanso total e calcular o gasto de hoje. mas só o fato de não precisar mais esconder o sorriso – que ainda virá… que ainda virá nos meus passos.

zona cinza

[sex] 28 de março de 2014

imagine a situação, o indivíduo está naquele naquela zona cinza, que é o abismo entre o pensar e sentir/fazer. sabe, ele, o que deve ser feito mas a sua força de vontade, sua gana, lhe deixa a quilômetros do que é almejado… e fica essa contradição, esse buraco insolúvel, entre o que “se” espera e o que, de fato, consegue ser realizado.

sente necessidade de hibernar uns dias… mas os deveres éticos e profissionais chamam, ordenam… mexa-se, movimente-se. e vai-se porque o mês teima em terminar e começar ansiosamente… o mundo ali fora ainda pulsa…

pré

[ter] 28 de janeiro de 2014

tenso. ansioso. expectativa.

claro-escuro epistemológico

[sáb] 28 de dezembro de 2013

dois pontos para um dia todo: caetano e companhia pela tarde (cê e onqotô, das série «re»descobertas sonoras). michael löwy e companhia pela manhã e tarde (das «re»leituras diárias).

http://www.youtube.com/watch?v=84MlvAffIe8

http://www.youtube.com/watch?v=tXdi4yUqSYs

http://www.youtube.com/watch?v=yEDZcIu9T3o

e abaixo excertos sobre as aventuras de karl marx contra o barão de münchhausen – compreendendo as páginas 114-130 abordando a relação entre ideologia e ciência sob uma perspectiva de marxista.

O marxismo ou o desafio do «princípio da carruagem»

(…) Enquanto visão de mundo, o marxismo é uma utopia revolucionária – no sentido em que precisamos anteriormente: a utopia é toda Weltanschauung que aspira a um estado de coisas ainda inexistente – mas nos Estados pós-capitalismo ele assume um caráter ideológico (o estalinismo); procuraremos examinar as implicações cognitivas destas duas possiblidades.

Ideologia e ciência segundo Marx

(…) Mais tarde, no Prefácio à Contribuição à crítica da economia política (1859), ele emprega uma significação mais ampla do termo: «as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até o fim».

(…) Como Marx concebia a contradição – ou articulação – entre ciência e ideologia no conhecimento social? Em que medida considerava a obra de seus predecessores ( e especialmente dos economistas clássicos ) como científica e/ou ideológica? A fórmula de « corte epistemológico entre ciência e ideologia » corresponderia à maneira pela qual o próprio Marx compreendia a inovação radical de sua obra? Estas questões delimitam um certo campo teórico que procuraremos explorar e que nos parece constitutivo da visão marxista da relação entre sociedade e conhecimento.

Em nossa opinião, é em algumas passagens do Dezoito Brumário que se encontra a definição marxista mais precisa, mais concreta e mais fértil das ideologias e das visões de mundo enquanto expressão de uma classe social determinada ( o conceito utilizado por Marx é o de « superestrutura » ). Trata-se de célebre parágrafo que analisa a relação entre representantes do partido democrático e sua classe, a pequena burguesia. Examinemos algumas das ideias que Marx sugere – explícita ou implicitamente – nesse texto de uma surpreendente riqueza.

a) É a classe que « cria e forma » as visões sociais de mundo ( « superestruturas »), mas estas são sistematizadas e desenvolvidas por seus « representantes políticos e literários », isto é, seus ideólogos ( ou utopistas ). A visão social de mundo (ideológica ou utópica) com seus diversos componentes corresponde não somente aos interesses materiais de classe mas também à sua situação social – conceito mais amplo, que permite superar a tentativa reducionista que relaciona as ideologias apenas ao « interesse » ( economicamente definido ).

b) Os intelectuais são relativamente autônomos com relação à classe. Eles podem ser separados dela por um « abismo » social e cultural; sua « situação pessoal » não deve ser de todo necessariamente a mesma que aquela da classe que ele representa. O que os faz representantes desta classe é a ideologia ( ou utopia ) que eles produzem.

c) O que define uma ideologia ( ou utopia ) não é esta ou aquela ideia isolada, tomada em si própria, este ou aquele conteúdo doutrinário, mas uma certa « forma de pensar », uma certa problemática, um certo horizonte intelectual ( « limites da razão »). De outro lado, a ideologia não é necessariamente uma mentira deliberada; ela pode comportar ( e comporta geralmente ) uma parte importante de ilusões e de auto-ilusões.

(…) A primeira observação que se impõe é a seguinte: o caráter « de classe » de um escrito de economia política não é, em si, uma indicação suficiente de seu valor, ou de sua ausência de valor, científico. Mais concretamente, para Marx a obra de um economista pode ser fundamentada sobre certas pressuposições ideológicas burguesas e ter, contudo, uma grande importância científica. Em outros termos: a problemática da autonomia relativa da ciência é, nos escritos de Marx, um complemento essencial (em geral implícito) à sua crítica das limitações ideológicas da economia política.

É nesta ótica que é necessário compreender a célebre distinção entre « clássicos » e « vulgares » que atravessa o conjunto de seus trabalhos econômicos e que define, no interior de uma mesma perspectiva burguesia, um polo autenticamente científico e um polo superficial e apologético ( desprovido de valor do ponto de vista do conhecimento ) (…).

Como explicar esta diferença capital, do ponto de vista da profundidade e da qualidade científica, entre economistas que se situam apesar de tudo no mesmo horizonte ideológico, em uma mesma « posição de classe »? Acham-se em Marx dois tipos de explicação bastante diversas para esta clivagem. Uma é de caráter primordialmente psicológico e moral (…) Entretanto, esta explicação não é senão uma aspecto de uma análise de conjunto mais profunda e mais rigorosa do problema, aspecto que seria falso e enganoso isolar de seu contexto global.

Isso nos conduz ao segundo tipo de explicação avançada por Marx para dar conta da diferença científica entre os « clássicos » e os « vulgares », explicação que reabilita o materialismo histórico. Trata-se de uma análise que relaciona o desenvolvimento da economia política e o desenvolvimento da da luta de classes; ela não é contraditória com a análise psicológica, mas a supera e a integra como um momento subordinado.

É no Posfácio à segunda edição alemã de O Capital (1873) que Marx formula de forma mais precisa esta explicação:

« Na medida em que é burguesa… a economia política não pode continuar sendo uma ciência senão quando a luta de classes permanece latente ou não se manifesta senão por fenômenos isolados. Tomemos a Inglaterra, o período onde esta não havia ainda se desenvolvido, e é também este o período clássico da economia política ». Pelo contrário, após 1830, « na França e na Inglaterra a burguesia se apodera do poder político. Desde então, na teoria como na prática, a luta de classes reveste-se de formas mais e mais acentuadas, mais e mais ameaçadoras. Ela faz soar a hora da economia burguesa científica » (…)

Se nós retornamos à distinção marxista entre os clássicos e os vulgares, percebemos, portanto, que a explicação psicológica que ele avança (…) reconduz a uma explicação sociológica que ele desenvolve em outro lugar. As duas explicações não são contraditórias: mas é o social que esclarece e explica o psicológico. (…)

Evidentemente, há uma dose considerável de simplificação nesta análise de Marx ( que não deveria ser extrapolada de seu contexto histórico); mas a pesquisa metodológica, a forma rigorosa e ousada de ligar o desenvolvimento da economia política à marcha da história social, nos parece fundamental para dar conta da concepção marxista da dialética ciência/ideologia e de sua relação com a luta de classes.

Marx não ignorava que a sucessão cronológica das duas etapas da burguesia não era a única explicação social da oposição entre clássicos e vulgares; ela podia também se relacionar – especial no caso de Malthus, que é contemporâneo de Ricardo – à clivagens entre classes ou frações de classes no seio das camadas sociais dominantes. (…) Se os escritos de Ricardo são científicos, como poderiam estar ao mesmo tempo carregados de ideologia burguesa? (…) A constatação principal que se extrai daí é esta: apesar de sua boa-fé, de sua imparcialidade, de sua honestidade, de seu amor à verdade, a economia política clássica é burguesa, e sua ideologia de classe impõe limites à cientificidade. (…)

Trata-se, como o enfatizava o Dezoito Brumário, de um sistema de ilusões e atitudes, de uma certa forma de pensar, de uma certa problemática e de um certo horizonte intelectual ( aspectos inseparáveis que se condicionam reciprocamente, momentos diversos de uma mesma totalidade ideológica ).

É antes de tudo pela problemática que a ideologia ( burguesa ) se manifesta no terreno do conhecimento científico entre os clássicos. Realmente, a problemática, isto é, o sistema de questões, define o campo cognitivo de uma ciência. Ora, Ricardo e os clássicos não colocaram certas questões – que são para Marx essenciais.

Os clássicos descobriram que o valor era a expressão do tempo de trabalho, mas eles jamais se colocaram a questão de saber por que o trabalho tomava a forma de valor de objeto produzido. Por qual razão eles jamais levantaram esta questãos? De acordo com Marx, porque para eles « esta forma que demonstra claramente que ela pertence a uma sociedade na qual a produção domina o homem e não o homem a produção era para sua consciência burguesa uma necessidade tão evidentemente natural quanto o próprio trabalho produtivo ». Tocamos aqui uma clivagem decisiva, que expõe a diferença essencial entre a economia política e Marx: « a economia política clássica/científica é burguesa sobretudo porque para ela a produção burguesa é a produção em geral. Uma forma específica, historicamente dada, da produção – o capitalismo – é considerada por ela como absoluta, eterna, a-histórica, natural, e as contradições do modo de produção capitalista são explicadas como contradições naturais da produção enquanto tal ».

Isso nos conduz ao conceito de horizonte intelectual que se articula diretamente com o conceito de problemática, e que constitui em nossa opinião uma das imagens mais férteis e mais interessantes do campo teórico marxista que exploramos aqui ( mesmo que ele não tenha sido de maneira alguma desenvolvido). Este conceito nos permite localizar, de forma mais precisa, o papel da ideologia na constituição de um saber científico: ela lhe circunscreve os limites.

(…)

Sem dúvida alguma, estamos aqui diante de um conceito de ideologia que não tem nada a ver com a mentira, a falsificação ou a mistificação: não é vontade de conhecer a verdade por parte dos clássicos que está colocada em questão, mas a possibilidade de conhecê-la, a partir de sua problemática e no quadro de seu horizonte de classe. Isso não impede que, no interior destes limites, sua busca possa produzir conhecimento científicos importantes: a ideologia burguesa não implica a negação de toda ciência, mas a exigência de barreiras que restringem o campo de visibilidade cognitiva.

A respeito de certas ideias de Ricardo e de seus discípulos, Marx comenta: « Isto é o nível mais elevado que se pode atingir a partir do ponto de vista (Standpunkt) capitalista ». Existe assim, segundo ele, uma espécie de máximo de conhecimento possível além do qual sua ideologia de classe não permite à economia política burguesa chegar.

Horizonte, perspectiva, ponto de vista, campo de visibilidade: estas metáforas óticas não devem evidentemente ser compreendidas em um sentido literal; simplesmente elas permitem colocar em evidência que o conhecimento, o saber (« a visão ») estão estreitamente ligados à posição social (« altura ») do observador científico.

Ricardo personifica o máximo de saber possível no seio da perspectiva burguesa na medida em que ele representa os setores mais revolucionários, mais avançados, mais progressistas da burguesia industrial. Isso significa que para Marx o progressismo é sempre o ponto de vista mais favorável ao conhecimento? (…)

Na realidade, Marx está longe de partilhar este tipo de evolucionismo reducionista ou de « progressimo » vulgar. Suas análises sobre certos economistas « passadistas », críticos do modo de produção industrial/capitalista, em especial Sismondi, o demonstram. Já no Manifesto comunista, criticando inteiramente os aspectos « reacionários » contidos na utopia do « socialismo pequeno-burguês », Marx e Engels não deixavam de reconhecer o valor de Sismondi que « analisou, com uma grande perspicácia, as contradições inerentes às condições modernas de produção ».

(…)

Retomando nossa metáfora ótica, poderíamos dizer que para Marx, Sismondi não representa um ponto de vista « mais elevado », um horizonte científico mais vasto que Ricardo, mas uma perspectiva diferente, um ângulo de observação distinto, assentado sobre uma posição de classe diferente, que lhe permite perceber toda uma dimensão da realidade social invisível a partir do observatório ricardiano – ao preço de uma cegueira sobre aspectos essenciais desta realidade perceptíveis no campo de visibilidade teórica da economia política clássica. Este jogo de claro-escuro epistemológico, esta dialética paradoxal entre utopia « reacionária », ideologia « progressista » e a ciência social – presentes em Marx como sugestão ou corolário implícito – indicam a necessidade de superar toda visão linear e evolucionista do desenvolvimento da ciência social e sua relação com o campo da luta de classes.

(…)

A partir de 1830, como vimos, abre-se um novo período. Em seu livro Miséria da filosofia (…) Marx acrescenta: « Mas à medida que a história avança e com ela a luta do proletariado se delineia mais claramente, eles (os socialistas e comunistas) não têm mais necessidade de procurar a ciência em seu espírito, mas apenas devem se dar conta do que se passa diante dos seus olhos e expressá-lo…. A partir deste momento, a ciência produzida pelo movimento histórico, e se associando a ele com plena consciência de causa, deixou de ser doutrinária: ela se tornou revolucionária ». Não há dúvida que Marx considerava a sua própria obra e de Engels como pertencente a esta ciência revolucionária que se associa às lutas do proletariado com plena consciência de causa. Mas é importante enfatizar que esta ciência foi, na sua opinião, « produzida pelo movimento histórico ». Em outras palavras, o que permitiu a Marx e Engels superar os limites do socialismo ricardiano e/ou « doutrinário » foi a nova etapa histórica da luta de lasses que começa a partir de 1830 – em particular, o avanço do movimento operário e de seu combate contra o capital.

No Posfácio de 1873, Marx expressa de forma mais concreta e explícita a posição de classe que reivindica para si: « Na medida em que esta crítica [da economia política burguesa – Michael Löwy] representa uma classe, esta não pode ser senão aquela cuja missão histórica é derrubada (umwälzung) do modo de produção capitalista e a abolição final das classes – o proletariado ». A expressão « na medida em que esta crítica representa uma classe » é altamente significativa: em nossa opinião, ela remete à problemática da autonomia relativa da ciência, isto é, Marx indica por isso que seu livro não deveria ser reduzido à dimensão « representação de classe », mesmo se ele reivindica para si, sem hesitação, um ponto de vista probletário.

Pode-se agora procurar resumir a concepção que tinha o próprio Marx da relação entre sua obra e a de seus predecessores: não um « corte epistemológico » entre « a ciência » e « os ideólogos », mas uma Aufhebung dialética que nega/conserva/supera os momentos anteriores. Mais precisamente, a clivagem com Ricardo é, ao mesmo tempo, uma radical ruptura de classe e uma separação/continuidade ao nível científico. Sobre o terreno das visões sociais de mundo, os dois são representantes de posições de classe rigorosamente contraditórias, mas do ponto de vista científico existe, ao mesmo tempo, uma diferença essencial e um encadeamento parcial entre elas. Enquanto «homem de ciência », Marx reconhece sua dívida para com Ricardo ( assim como para com Sismondi etc.), dívida que o corte de classes não aboliu ( a diferença com os socialistas ricardianos representou mais, como procuramos demonstrar, dois momentos diferentes na evolução do mesmo ponto de vista de classe). A démarche de Marx tem a grande vantagem de evitar os dois recifes onde o marxismo posterior encalhará ( bastante frequentemente ), com uma vontade e uma obstinação sempre renovadas: o reducionismo sociológico ( ou ideológico ou econômico ) que não percebeu os confrontos teóricos e científicos senão em termos de interesse de classe, e o positivismo vergonhoso, que pretende dissociar inteiramente o desenvolvimento da ciência social ( e o marxismo em particular ) da luta de classe e dos conflitos ideológicos.”

um debate

[sáb] 28 de dezembro de 2013

http://ssociologos.com/2013/06/27/el-memorable-debate-entre-foucault-y-chomsky/

alice não me escreva…

[qui] 28 de novembro de 2013

o mar parece calmo… mas é a ilusão da distância. de perto você vê o movimento… os altos e baixos.

eu fico besta como consigo oscilar de comportamento… num dia êxtase noutro um enfadar-se sem tamanho. num dia super-homem noutro o nã0-ser. devo ter um ‘q’ de bipolaridade (em algum grau) não diagnosticado ainda. minha família  paterna é bem problemática neuropsicologicamente falando… vai saber né… quem sabe ai eu encontro uma possível explicação para esse tumulto todo de um vida sem tamanho.

e como diz aquela canção pop dos anos (19)80: “Tudo atrapalha o que eu faço Mas pros outros parece tão fácil“.

e ps: este é o post 1000. pouco para um blogue que existe há anos.

um grito em filme mudo (ou o umbigo do universo)

[seg] 28 de outubro de 2013

o mote é o umbigo

o mote é o universo

o mote é nada novo

começo, as vezes, [raramente] sabendo o quero falar, e ai vou cambiando palavra por palavra até tudo ficar inexplicavelmente diferente e nesse jogo há alguns prazeres… a estética, o escondido/codificado, o inexplicável/transcendental… esse ar estranho quando tudo é familiar ou seu inverso… mas até aí nada novo.

e do nada novo [é, cada palavra é uma chave múltipla para multiversos] é o jogo vivente e eu jogo a toalha uma vez… demolido pela brutal impossibilidade de continuar e o jogo continua comigo demolido pela brutal impossibilidade de continuar que nunca acaba.  e jogo a toalha mais uma vez… novidade? nada novo. eu cheguei na perfeição: um filme mudo.

referência um:

o umbigo do universo é o nosso umbigo.

referência dois… essa coisa bonita de caio amaral falcão que não encontrei letra alguma e transcrevi [é, deve haver inúmeros erros]

vez em quando quando meu umbigo dói e eu já nem sei quem foi que fui eu já nem sei de cor porque fui eu o meu algoz que me calei perdi a voz e o r(p)iso e as pare(de)s e me fui sem fé nem fogo sem faca ou foice quem traiu quem pergunto ao mundo e me responde o meu umbigo essa saudade que me encharca qual carranca frente a poa que me cura do sal e a sina me ensina assim que não foi nada e não foi nada e não foi nada fora a fúria do mar calada qual um grito em filme mudo um grito em filme mudo grito em filme mudo em filme mudo em filme mudo

(enfim me mudo)…

referência três: “num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação” (charles chaplin)

guerra e universo

[qua] 28 de agosto de 2013

tive uma “sacada”. amenizei a dor de não ser o que eu insisto. ser não ser.

passei o “pois agora” e delirei sobre memórias vivas… [afinal, o blábláblá histórico-filosófico é importante, mas sem um exerciciozinho prático, um pouco de poises na história toda… fica meio sem graça]. que o conhecer seja um processo de apropriação e resignificação do concreto, que seja [auto]criação.

e ai faltou luz – e tudo virou um caos. ai pensei… um dia [tudo e todos] vamos nos desfazer. e ai… tanto fez, e nem as cicatrizes na minha face restarão. ossos e códigos.

voltei e li mais um tanto de Maiakóvski: O Poeta da Revolução sob a luz de velas.

***

Prólogo

Tenéis suerte.
La vergüenza no alcanza a los muertos.
Apaga pues
tu odio por los difuntos asesinos.
El líquido más puro
ha lavado el pecado del alma emigrada.
¡Tenéis suerte! Pero yo,
a través de las líneas del frente,
a través del estrépito,
¿cómo sostendré mi amor de ser vivo?
Un paso en falso
y la migaja del más insignificante
de los amores rodará para siempre
al abismo del humo.
¿Qué es
para los que vuelven tu pena? ¿Qué es
para ellos la línea de los poemas?
¡Parados con piernas de madera
ellos ya no querrán otra cosa
que seguir cojeando hasta
el fin de sus días!
¿Tienes miedo?
¡Cobarde!
¡Te matarán!
Tú podrías vivir,
aunque esclavo,
una buena cincuentena de años.

¡Mentira! Sé
que bajo la lava de los ataques seré
el más corajudo el más arrogado.
¡Ah!
¿Qué valiente se negaría a responder
a la llamada del clarín de los tiempos futuros?
Y yo soy en esta tierra
el único heraldo de las verdades en marcha.
¡Hoy exulto!
Sin beber ni una gota
he llegado a la meta de mi alma.
Mi solitaria voz humana
se eleva
entre gritos
entre llantos
en el día naciente.
¡A ver! ¡Vamos, animaos!
Fusiladme, ponedme contra el paredón!
¡No seré yo quien cambie de colores!
¿Queréis
que me pegue un as en la frente para que brille más la meta?

daqui ó: http://gatopistola.blogspot.com.br/2011/02/la-guerra-y-el-universo-por-vladimir.html

***

outros links sobre volodia maiak

http://paxprofundis.org/livros/vladimir/mayakovsky.htm

http://www.culturapara.art.br/opoema/maiakovski/maiakovski.htm

http://www.mauxhomepage.net/desenterrandoversos/desenterrandoversos/maiakovski.htm

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=2244

https://garapuvu.wordpress.com/dossiemayakovski/

paranorman

[dom] 28 de julho de 2013

ideias… Acabei de assistir o filme Paranormal. Dá para extrair bastante coisas dele. Vamos lá:

Enredo básico do filme: “Animação ‘ParaNorman’ faz uso do sobrenatural para falar sobre bullying” [Texto extraído de Cinema.terra.com.br] ou “Na trama, escrita por Chris Butler, o menino Norman tem a habilidade de falar com os mortos e precisa salvar sua cidade de uma invasão de zumbis, fantasmas, bruxas e adultos idiotas. Butler e Sam Fell são os diretores” [Texto extraído de Omelete.com.br].

Desdobramentos em atividade:

1) Assistir o filme em sala, com os alunos, com questionário-roteiro para identificar personagens, enredo e conceitos abordados.

1.1) Dividir o filme em partes, para cada aula, e abordar os conceitos de Violência, Bullying, Tolerância, Intolerância Religiosa, Amizade, Medo, Trabalho em equipe, Confiança etc.

2) Pesquisar Sobrenatural nas diferentes religiões [elencar quais]

3) Elaborar redações, histórias, desenhos e debates em sala a partir das temáticas abordadas no Filme.

4) Produzir um zine, em quadrinhos, em sala com a participação coletiva.

PS: Sobre os últimos dias: Tenho passado, como uma avestruz, com a cabeça na terra, mexendo e fuçando no quintal. é terapêutico. Também tenho passado com as meninas, fizemos arte, um painel de colagens, e elas foram até brincamundi, brincaram até tarde.

PS2: Tenho refletido bastante sobre essa vontade de não sair, de ficar por cá mesmo… Neste autoexílio. E acho que ando mal acostumado, nesta solidão [velha amiga] que dá um puta medo de mergulhar na vida novamente… E fico por cá, mofando, neste amontoado de papéis, de livros não lidos, de paredes por pintar, de casa por terminar, de quintal por florir… mas sei lá… sei não.

regras básicas de convivência

[dom] 28 de abril de 2013

mei me ajudou a pensar. paulo me ajudou a pensar. josé e pilar me ajudaram a pensar hoje. izabel e luiza me ajudaram a pensar. e pensei bastante… e tudo deve ser mais ou menos assim, levante a bunda da cadeira e vá fazer coisas… coisas incríveis. coisas mágicas… coisas de gente como tu assim boni-tá!

porque esse caminhão de coisas te pressionando estão só ai na tua imaginação.

e a cada dia tente poemas…

referências:

“Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso, agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.”

bertoldo brecht

_____

Uma razão a mais para ser anticapitalista

“Te amo
e odeio tudo que te deixa triste.
Se o mundo com seus horários e famílias
e fábricas e latifúndios e missas
e classes sociais, dores e mais-valia
e meninas com hematomas
no lugar de sua alegria

insistir em te deixar triste,
apertando tua alma
com suas garras geladas,
teremos, então, que mudar o mundo.

Nenhum sistema que não é capaz
de abraçar com carinho a mulher que amo
e acolher generosamente minha amada classe
é digno de existir.

Está, então, decidido:
Vamos mudar o mundo,
transformá-lo de pedra em espelho
para que cada um, enfim, se reconheça.

Para que o trabalho não seja um meio de vida
para que a morte não seja o que mais a vida abriga
Para que o amor não seja uma exceção,
façamos agora uma grande e apaixonada revolução.”

Mauro Iasi

análise infinitesimal i

[sex] 28 de dezembro de 2012
“Deja pasar
esta falta de fé,
este disco rayado que hoy
tiene sólo
cara B“.

cotidianidades
fundo sonoro. cara b. e todos outras de victor jara, silvio rodrigues e jorge drexler.

as crianças brincam de bola no quintal. árvores caem dentro de minha cabeça. minha nova amiga de casa que não sei o nome ainda, mas é quase uma renite alérgica tomou conta de minhas narinas, garganta e olhos nos últimos três dias… é, há poeira pelos cantos. meu colega locatário chegou, meio estressado pelo estado das coisas… é, há materiais particulados pelos cômodos da casa e a bagunça de sempre… e eu já estava me acostumando a ficar só na casa vazia… e no meu emaranhado de coisas inacabadas .. solução foi ir deitar (é essa vontade de não falar muito por não ter muito ou quase nada a dizer… é só deixar os “nãos” ditos e não ditos por cá dentro).

árvores caem dentro de minha cabeça. os planos para hoje foram adiados… o dentista me espera há uma semana, as contas dos outros atrasarão… e entrei em modo repetitivo (fazer o mesmo sempre e sempre e sempre…

talvez escreva histórias infantis um dia. talvez faça nada um dia. talvez as árvores caiam dentro de minha cabeça. mas a renite voltou pois visitei uma caixa de papeis amontoados há anos. reencontrei velhas cartas, velhos amigos, velhos amores, velhas dores, um velho lado b… e algo me diz que este momento cá não é o fim, é apenas, sei lá… uma curva…

agora qual… sei não:

talvez desenhe funções:

http://www.google.com/search?ie=UTF-8&q=x%2F2%2C+(x%2F2)%5E2%2C+ln(x)%2C+sin(pi*x%2F3)

talvez faça nada.

terráqueos

[sáb] 28 de maio de 2011

hoje não quis sair da casa. mas saiu. e não quis voltar para casa. mas voltou. força do hábito. e quis te’vê. te ve[r] não há. então comeu. quis escrever. e não sabia o quê.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

…………………………………………………………………………………………. então ouviu:

O que será (À flor da pele)

Composição – Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

dropar

[qui] 28 de abril de 2011

«não tenho a força que tens e se me vejo infeliz quase sempre exijo um talvez…» e um abraço curou tudo. como é diferente esse tempo que faz um gritar, agredir e constranger, e o outro, apesar do mesmo sofrimento que recebe, ainda ter tempo para um abraço e para dizer «calma, tudo passa. tudo tem jeito nessa vida porque a vida é assim».

e a porrada de segunda me deixou tonto e com a moral baixa e eu fiquei por algumas horas sem saber onde era o chão e o que fazer – se tentava revidar ou se aceitava. Depois de algumas horas consegui levantar e pegar a estrada na terça e quando volto – após um pedal cheio de adrenalina, belas fotografias e com prazer –  levo outra porrada bem no ego.

na terça fui à lona e só percebi que perdi e o que perdi na quarta, depois deste abraço.

perdi o que ficou ali no tempo… perdi o que podia ter feito e não fiz. perdi meu tempo e o tempo de outros. perdi porque não sabia e não podia fazer diferente… mas o que virá não é perdido [todavia entendo que perder é da própria da condição do existente – tudo muda o tempo todo como um onda no mar já diz o zen]… ou para ser mais preciso… o que virá já [ou ainda] não foi perdido… o que virá está em aberto e neste devir que devo me concentrar… evitar o drama e esperar, mas não numa espera sem entrega… mas devo mergulhar nessa espera do momento certo de dropar a onda.

essa espera de hoje é parte do mergulho de amanhã, da remada de mais tarde, do prazer de estar sobre a onda e do sufoco de sequências de «vacas» na cabeça. ânimo, que os dias são longos e a vida vale a pena e o mergulho profundo.

tema para un tapiz

[seg] 28 de março de 2011

mas antes de ir voltei e deixo um abstrato presente [aleatório na escolha].

o texto é de julio. em seu livro histórias de cronópios e de famas. página 88 da editora punto de lectura.

“El general tiéne solo ochenta hombres, y el enemigo, cinco mil. En el su tienda el general blasfema y llora. Entoces escribe un proclama inspirada, que palomas mensajeras derraman sobre el campamento enemigo. Doiscientos infantes se passan al general. Sigue una escaramuza, que el general gana fácilmente, y dos regimentos se pasan a su bando. Tres días después el enemigo tiene sólo ochenta hombres y el general cinco mil. Entoces el general escribe otro proclama, y setenta y nueve hombres se pasan a su bando. Sólo queda un enemigo, rodeado por el ejército del general, que espera en silencio. Transcurre la noche y el enemigo no se ha pasado a su bando. El general blasfema y llora en su tienda. Al alba el enemigo desenvaina lentamente la espada y avanza havia la tienda del general. Entra y lo mira. Él ejército del general se desbanda. Sale el sol.”

porque gosto das letras femininas que me inspiram para além do meu mundo imediato. e de cortázar porque é genial.

 

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