Archive for the '11' Category

keep

[qua] 11 de outubro de 2017

A letra morta naquele quadro:

É minha.

registrei assim, no keep.

o nativo relativo

[seg] 11 de setembro de 2017

«A ideia antropológica de cultura coloca o antropólogo em posição de igualdade com o nativo, ao implicar que todo conhecimento antropológico de outra cultura é culturalmente mediado. Tal igualdade é, porém, em primeira instância, simplesmente empírica ou de fato: ela diz respeito à condição cultural comum (no sentido de genérica) do antropólogo e do nativo. A relação diferencial do antropólogo e o nativo com suas culturas respectivas, e portanto com suas culturas recíprocas, é de tal ordem que a igualdade de fato não implica uma igualdade de direito ¾ uma igualdade no plano do conhecimento. O antropólogo tem usualmente uma vantagem epistemológica sobre o nativo. O discurso do primeiro não se acha situado no mesmo plano que o discurso do segundo: o sentido que o antropólogo estabelece depende do sentido nativo, mas é ele quem detém o sentido desse sentido ¾ ele quem explica e interpreta, traduz e introduz, textualiza e contextualiza, justifica e significa esse sentido. A matriz relacional do discurso antropológico é hilemórfica: o sentido do antropólogo é forma; o do nativo, matéria. O discurso do nativo não detém o sentido de seu próprio sentido. De fato, como diria Geertz, somos todos nativos; mas de direito, uns sempre são mais nativos que outros.» (excerto, do texto ‘o nativo relativo‘ de eduardo viveiros de castro).

 

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estou lendo também:

images (1)

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ps: não fiz nada hoje. tempo corre… parar tudo agora e ir corrigir trabalhos dos terceiros anos. pra ontem.

 

exercício sobre o desejo da palavra

[ter] 11 de outubro de 2016

Sou a porra de um viciado…

viciado em dor.

dê tempos em tempos

me pego olhando algumas fotos dela,

relembrando aquele amor tão curto

vivido… anos atrás.

sou um cara esperto,

pra sacar que eu não sou nada esperto

esperto porra nenhuma,

e que estou um bocado perdido

nesta loucura toda que é a minha vida.

cara sério, bom moço, aparentemente normal,

não cumpro quase nenhum requisito,

um desajustado sob a casca

do um tudo bem, ‘tá tudo certo…

não há nada certo, e tudo é um tanto injusto.

e sabe esses artigos de auto-ajuda

dizendo pra voce ficar longe dessas pessoas

vampirescas, sugadoras de nossas energias…

e dia sim, dia não, eu me pergunto:

como ficar longe desta

parte significativa de mim,

que nesses dias tristes e ansiosos,

me envolve por inteiro,

o evapora toda minha energia vital.

***

talvez seja por ai,

eu ficar longe de todo mundo,

sou a porra de um cara viciado em dor,

um zé mané narcisista,

e tímido ao extremo,

inconstante, suicida em potencial…

***

eu ando triste por estes dias,

e tudo sem motivo aparente…

ontem, apenas foi quase impossível sair da cama,

cheguei a inventar uma dúzia de desculpas

para faltar ao unico compromisso do dia…

meu trabalho.

mas

quase todas as segundas são assim,

dificeis de levantar…

***

e agora mudando de assunto: estou pensando em fazer vestibular… letras? o fetiche de fazer letras… todas as minhas segundas opções, nos cinco vestibulares que prestei…

ou serviço social? reaproximar-me da teoria… e num novo local de atuação… me parece ser mais palpável e sensata essa opção.

mas porra… eu não sou sensato…

***

exercício sobre o desejo da palavra

e o poema não brota de minha boca. / ele não tem som. / ele não traduz nada. / tão pouco decifra o indizível. / ele apenas não está ali. / não há raiz. //  só o que resta é essa ansia de recebe-lo. / de tê-lo por perto, / e não importa se a curto tempo, / de passagem, estrangeiro,  / como os olhos desconhecidos / que se esbarram / num infinito atômo de tempo… / e mergulham-se, insanos e negros, / quanticamente ao nada. // esse poema que não está… / e que nunca será, / e que um dia padeceu disto… / de estar e ir-se qual o vento / , as palavras, / o toque suave, / a saudade, / o pó, / o aroma quente… / o gosto esvaecido dos lábios da coisa amada. // é só isto, / esse resto de homem / sozinho pela rua… / trinta e poucos, / alguns pelos brancos, / um medo de amar…  / uma noite longa…  // já sinto saudades tuas, / ó poema que nunca vinha… / e agora já era.

[sobre os dois meses que fiquei procurando um poema… anotei até algumas coisas em folhas soltas… mas nada, não havia um mote. e eis que o mote surge… a dificuldade de escrever um poema… há uma duzia desses pelo blogue. esse exercício acima, fiz agora. e vai assim, cru]

 

 

 

 

procura-se um amigo para o fim do mundo

[dom] 11 de setembro de 2016

 

envelopes vermelhos.

como um espectador projeta-se nas emoções alheias, aquelas de cinema. tudo que pensa é na sua contradição. como é sentir todas as emoções, por extensão, compartilhar os encontros e desencontros de cada personagem… ele ri, ele, as vezes, chora. na fantasia sente-se como um personagem cinematrográfico. mas o mundo interno é um caos, um sobrevivente… e o exterior uma procrastinação, aleatoriedades… uma couraça.

tem andando muito tempo noutra dimensão. mas não está triste, apesar de um tristeza recorrente, aparecer dia sim dia não. encarar o mundo, as vezes é pesado… é dificil sair desse local. desse ponto que ninguém além dele mesmo tem acesso. ás vezes na solidão há uma segurança, uma certa paz.

mas, compartilhando esse universo de emoções alheias, há um gosto doce.. ele gosta de filmes doces. mas, as vezes há um amargo… uma melancolia.

***

‘bora começar um dia, além do filme matinal. sem sonhos hoje, apenas um dia solitário, e grato, pelas companhias que o dia me dará, apenas por hoje.

«Sometimes, all I need is the air that I breathe»

 

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«Quem pode ser alguém neste vazio funcional? Quantos salários vão calar a sua opinião? Normas de conduta, sem respirar… Acomode a angústia só mais uma vez. Quando controlado, esconde a frustração, Mas em controle impõe as mesmas condições» Dead Fish

«…instituição como órgão regulador, que canaliza as ações humanas quase da mesma forma como os instintos canalizam o comportamento animal. Em outras palavras, as instituições proporcionam métodos pelos quais a conduta humana é padronizada, obrigada a seguir por caminhos considerados desejáveis pela sociedade. E o truque é executado ao se fazer com que esses caminhos pareçam ao indivíduo como os únicos possíveis.» (BERGER, Peter; A perspectiva sociológica – A sociedade no homem; p. 96; 1976). citações extraídas de MOSTRA DE PROTOCOLOS VERBO-IMAGÉTICOS

exercícios sobre as faltas e o excesso de ausências

[qua] 11 de maio de 2016

o mundo é uma tempestade pesada
e incrivelmente cinza que se achega
é ventania que vem arrastando folhas,
árvores, marés e todos os corpos frágeis pela frente
é uma tormenta encharcando meu corpo exausto…

e as palavras dela, olho no olho,
mistura de canto, lamento e berros
vão cravando… ecoam aos gritos
no meu ouvido mudo e incapaz

quem sabe eu acorde
deste sono profundo
quem sabe eu escape
deste buraco fundo
quem sabe eu mude
e desvista-me dessas rimas baratas
desse adiamento de paixões raras
dessa salmora de medos e desculpas
desse lamento cínico e plástico

o mundo visto pela minha janela
é um tempestade pesada
e de chumbo que me leva para tão fundo
é ventania que rasga e despedaça
é tormenta que afunda
palavras que cortam
olhos em pranto
eu, um bocado dela
sangro…

e é tudo ao mesmo tempo
e falta algo…

***
apenas
não sou constante
não consigo.
prefiro,
ferir-me,
na solidão
empoeirada
das estantes.

e o poema não tinha
consigo
qualquer arma
apenas armava…

a falta e o excesso de ausências.

uprising!

[seg] 11 de abril de 2016

3h06

Quem quer que se iluda de ter compreendido de uma vez por todas os fenômenos da natureza e da sociedade à base de um conhecimento, mesmo que vasto e profundo, do materialismo dialético necessariamente retrocederá da dialética viva para a rigidez mecanicista, recuará do materialismo totalizador à unilateralidade materialista. O materialismo dialético, a doutrina de Marx, deve ser conquistado, assimilado, dia a dia, hora a hora, partindo-se da práxis. Por outro lado, a doutrina de Marx, na sua inatacável unidade e totalidade, constitui o instrumento para a intervenção prática, para o domínio dos fenômenos e de suas leis. Se separarmos desta totalidade um só elemento constitutivo (ou, simplesmente, se o descurarmos), novamente teremos a rigidez e unilateralidade. Se não apreendermos, nesta totalidade, a relação entre seus momentos, perderemos o chão da dialética materialista. Lenin afirma: “Toda verdade, quando exagerada, quando ultrapassa o limite de sua validade, pode se converter num absurdo; quando isso ocorre, aliás, é inevitável que se converta num absurdo”.

[…] na época que se segue à de Marx, a tomada de posição em face de seu pensamento deve representar o problema central de todo pensador que se leva a sério e que o modo e o grau em que ele se apropria do método e dos resultados da pesquisa de Marx condicionam o seu lugar no desenvolvimento da humanidade. Esta evolução é determinada pela posição de classe; porém, não se trata de uma determinação rígida, mas, sim, dialética. A nossa posição na luta de classes determina amplamente o modo e o grau da nossa apropriação do marxismo; mas, por outro lado, todo aprofundamento desta apropriação fomenta cada vez mais nossa adesão à vida e à práxis do proletariado e esta adesão, por seu turno, resulta num aprofundamento da nossa relação com a doutrina de Marx.

Gyorgy Lukács in “Meu Caminho para Marx”

22h19

a mais nova criatura da família

[sex] 11 de dezembro de 2015


chipsDepois de ser abandonado, quase atropelado, e viajar 21km clandestinamente (dois ônibus, dois terminais), 1km de caminhada, 2km de carona… um jantar apetitoso para matar a fome… e algumas brincadeiras… o descanso merecido.chips2 

em processo…

[qua] 11 de novembro de 2015

e de repente o sono se foi e só restou essa confusão de pensamentos.

90% do meu tempo no piloto automático…

e nos dias quatro, cinco, seis e sete fiz uma porção de exercícios de poesia… mas a preguiça de registrá-los aqui é enorme… e talvez eu ainda não sinta vontade de expô-los porque todos estão no calor da hora e estão em processo…

 

 

dos canibais

[dom] 11 de outubro de 2015

estou com muita raiva. frustado. e sentindo todas aquelas ideias de ir embora. descontruindo todas as precarias certezas e duvidando profundamente de mim. estou há um ponto de dar um tiro em alguém ou me matar.

esta casa, estas pessoas, essa família… as vezes eu me enveneno de vocês. as vezes, volto a ter dez anos de idade e toda aquela fúria, mágoa, dor… e tenho tanto medo e me sinto tão só.

e eu não consigo ir mais fundo… sempre pensando em partir, eu não estar, não ser, não ficar… não gostar de ninguém. eu não consigo confiar nem em mim, e duvida tanto nisto que alguns dizem ver em mim. no fundo só sinto isto… esse corte que não sara… e mágoa, essa dor, esse medo… essa dificuldade de lidar com os outros e com meus próprios sentimentos.

estou com raiva dessa vida. eu vivo com raiva de mim. e não há nada que se orgulhar… no fundo, cedo ou tarde, vou mágoa e machucar que perto de mim chegar.

estou há um ponto de matar alguém… sinto novamente uma vontade absurda de morrer e me calar.

que sufoco…

***

 

 

 

 

DOS CANIBAIS
Michel de Montaigne (1533-1592)
Capítulo XXXI do Livro 1 dos Ensaios
Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada
Fonte: Clássicos Jackson
Quando o rei Pirro passou à Itália depois de ter reconhecido a organização do exército com que os Romanos iam defrontar o seu: “Não sei, disse, que género de bárbaros são estes (pois assim chamavam os Gregos a todas as nações estrangeiras) mas a disposição do exército que vejo não é de forma alguma bárbara”. O mesmo disseram os Gregos daqueles que Flamínio introduziu no seu país, bem como Filipe ao contemplar do alto de um cerro, a ordem e a distribuição do acampamento romano, em seu reino, sob Públio Sulpício Galba. Isto prova que nos devemos guardar das opiniões vulgares e julgar pelo caminho da razão e não pela voz geral.
Tive muito tempo comigo um homem que vivera dez ou doze anos nesse outro mundo que foi descoberto no nosso século, num lugar onde Villegaignon tocou terra, que denominou a França Antárctica. Esta descoberta de um país infinito parece ser coisa de muita consideração. Ignoro se, no futuro, outras se farão, visto que tantas pessoas que valem mais do que nós se têm enganado nisto. Receio que tenhamos os olhos maiores que o ventre, e mais curiosidade que capacidade. Abarcamos tudo, mas abraçamos apenas vento. Platão aprésenta-nos Solon contando haver sido informado pelos sacerdotes da cidade de Sais, no Egito, que, em tempos remotos de antes do dilúvio, existia uma grande ilha chamada Atlântida, à entrada do estreito de Gibraltar, que continha mais território que a Africa e a Ásia juntas; os reis daquele país, que não possuíam apenas essa ilha, mas cujos domínios por terra firme se estendiam tanto para o interior que eram senhores da largura da África até ao Egipto, e da longitude da Europa até à Toscana, quiseram chegar à Ásia e subjugar as nações banhadas pelo Mediterrâneo até ao golfo do Mar Negro: para isso, atravessaram as Espanhas, a Gália e Itália, chegando até à Grécia, onde foram detidos pelos Atenienses, mas que, pouco tempo depois, os mesmos Atenienses, a própria ilha e os seus habitantes foram tragados pelo dilúvio. É muito verossímil que essa extrema devastação das águas tenha produzido estranhas alterações nas diferentes regiões da terra, e diz-se que o mar separou a Sicília da Itália:
Hoec loca, vi quondam et vasta convulsa ruina, Dissiluisse ferunt, cum protinus utráque tellus Una foret;1
Chipre da Síria, a Ilha de Negroponto2 da terra firme de Beoce3; e, por outra parte, juntou terras que estavam separadas, cobrindo de limo e de areia os fossos intermédios,
sterilísque diu palus aptáque remis Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum.4
Mas não é muito provável que essa ilha fosse o mundo novo que acabamos de descobrir; tocava quase com a Espanha e seria uma convulsão incrível que a inundação a fizesse retroceder tanto, estando a mais de mil e duzentas léguas de distância; além disso, as navegações modernas já demonstraram que não se trata de uma ilha, mas de terra firme formando um continente com a Índia oriental de um lado e os territórios que ficam sob os dois pólos, do outro; ou que, se alguma separação há, o estreito ou intervalo é tão pequeno que não merece o nome de ilha.
Parece que há movimentos, uns naturais e outros febris, nesses grandes corpos como no corpo humano. Quando considero a pressão que o meu rio da Dordonha faz actualmente sobre a margem direita do seu curso, e que, em vinte anos, comeu tanto terreno que chegou a absorver os alicerces de alguns edifícios, avalio bem quão extraordinária foi aquela comoção, que, a continuar assim, ou a aumentar de intensidade, modificaria a configuração do mundo. Mas esses acidentes tanto se produzem numa direcção como em outra, como ainda se contêm. Não falo das inundações repentinas, cujas causas conhecemos. Em Medoc, ao longo do mar, meu irmão, o Senhor de Arsac, viu uma de suas terras engulida pelas areias vomitadas pelo mar; ainda se vêem os restos de algumas construções; suas rendas e domí nios são hoje miseráveis terras de pasto. Dizem os seus habitantes que, de algum tempo a esta parte, o mar tem avançado tanto que já perderam quatro léguas de ter reno. As areias formam as vanguardas; e vêem-se grandes montões de areia movediça, a meia légua do mar, que se vão acumulando sobre a região.
Outro testemunho da antiguidade, que alguns pretendem relacionar com esta descoberta, vamos encontrá-lo em Aristóteles, se é que esse livrinho das raras maravilhas a ele se deve. Conta-se nessa obra que alguns Cartagineses, lançando-se através do mar Atlântico, fora do estreito de Gibraltar, e depois de muito navegar, acabaram por descobrir uma grande ilha fértil, povoada de bosques e banhada de grandes e profundos rios, • a enorme distância da terra; e que esses Cartagineses e outros que se lhes seguiram, atraídos pela benignidade e exuberância do terreno, para lá se foram com suas mulheres e filhos começando a aclimatar-se ao país.
Vendo os senhores de Cartago que seu território se ia despovoando a pouco e pouco, proibiram expressamente, sob pena de morte, que ninguém mais se dirigisse para a ilha, e expulsaram os novos habitantes, receando, ao que se diz, que, andando o tempo, estes se multiplicassem tanto que os suplantassem e arruinassem seu Estado. Esta narrativa de Aristóteles também não está de acordo com as nossas novas terras.
O homem que eu tinha comigo era simples e rude, condição própria de um verdadeiro testemunho, porque os espíritos finos, conquanto observem com maior cuidado e maior número de coisas, costumam glozá-las; e, para tornar válida e persuasiva a sua interpretação, não resistem ao prazer de alterar um pouco a História; jamais apresentam as coisas puras e sempre as modificam e desfiguram conforme a aparência em que as viram; e para dar base de crédito à sua opinião e dela convencerem, adulteram a matéria de bom grado, alongando-a e ampliando-a. É preferível um homem de grande fidelidade ou tão simples que não tenha por que fantasiar e sacrificar o verdadeiro aspecto das coisas às suas falsas invenções; e que seja imparcial. Assim era o meu, e, para mais, fez-me conhecer em várias ocasiões marinheiros e comerciantes, que encontrara nessa viagem. Limito-me, pois, às suas informações sem me valer dos relatos dos topógrafos.
Necessitaríamos de topógrafos que nos descrevessem circunstanciadamente os lugares que visitaram. Mas, esses topógrafos, pelo facto de terem visto, por exemplo, a Palestina, julgam gozar do privilégio de nos dar notícias do resto do mundo. Gostaria que todos escreves sem do que sabem e tudo que sabem, não somente de viagens, mas de todos os outros assuntos. Acontece que alguns podem ter especial ciência e experiência da natureza .de um rio ou de uma fonte, e não saber do resto senão o que todos sabemos. Todavia, para divulgar esse pequeno quinhão de conhecimentos, aventuram-se a escrever toda a física. Deste vício decorrem vários e grandes inconvenientes.
Voltando ao meu assunto, creio que não há nada de bárbaro ou de selvagem nessa nação, a julgar pelo que me foi referido; sucede, porém, que classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes; dir-se-ia que não temos da verdade e da razão outro ponto de referência que o exemplo e a ideia das opiniões e usos do país a que pertencemos. Neste, a religião é sempre perfeita, perfeito o governo, perfeito e irrepreensível o uso de todas as coisas. Aqueles povos são selvagens na medida em que chamamos selvagens aos frutos que a natureza germina e espontaneamente produz; na verdade, melhor deveríamos chamar selvagens aos que alteramos por nosso artifício e desviamos da ordem comum. Nos primeiros, as verdades são vivas e vigorosas, e as virtudes e propriedades mais úteis e naturais do que nos últimos, virtudes e propriedades que nós abastar damos e acomodamos ao prazer do nosso gosto corrom pido. E, todavia, em diversos frutos daquelas regiões, que se desenvolvem sem cultivo, o sabor e a delicadeza são excelentes ao gosto, comparando-os com os nossos.
A arte não vence a nossa mãe natureza, sempre grande e poderosa. Temos sobrecarregado tanto a beleza e a riqueza das suas obras com as nossas invenções que a- destruímos completamente. Assim, ali, onde a sua pureza resplandece, ela constitui uma espantosa desonra para as nossas vãs e frívolas empresas,
Et veniunt ederae sponte sua melius, Surgit et in solis formosior arbutus antris, Et volucres nulla dulcius arte canunt. 5
Todos os nossos esforços juntos não podem reproduzir sequer o ninho do mais insignificante passarinho, sua contextura, beleza e utilidade, nem mesmo o tecido de uma mesquinha teia de aranha. Diz Platão que todas as coisas são obra da natureza, do acaso ou da arte; as maiores e as mais belas, produto de uma das duas primeiras; as mais insignificantes e imperfeitas, da última. Essas nações parecem, pois, bárbaras, simplesmente porque mal acusam ainda o rastro do espírito humano e estão muito próximas da sua ingenuidade original. As leis naturais que as regem estão ainda muito pouco adulteradas pelas nossas; mas há nisso tal pureza que lamento às vezes’ que delas não houvesse conhecimento antes, nos tempos em que existiam homens que as sabiam julgar melhor do que nós. Sinto que Licurgo e Platão não as tivessem conhecido, pois se me afigura que o que nós por experiência vemos nessas nações ultrapassa, não apenas todas as pinturas com que a poesia embelezou a idade de ouro da humanidade e tudo quanto se possa imaginar para tornar feliz a condição humana, mas ainda a concepção e o próprio objectivo da filosofia. Não imaginaram eles ingenuidade tão pura e simples como a que nós vemos nesse país; nem acreditaram que uma sociedade se pudesse manter com tão pouco artifício e tão pouca soldadura humana. É uma nação, diria eu a Platão, em que não existe género de tráfico, conhecimento de letras, ciência de números, nome de magistrado ou de outra dignidade que indique superioridade política, servidão, riqueza ou pobreza, contratos, sucessões, partilhas; de ocupações, apenas as agradáveis; de relações de parentesco, só as comuns; nem vestimentas, nem agricultura, nem metais; não bebem vinho nem cultivam cereais. Da mentira, da traição, da dissimulação, da avareza, da inveja, da maledicência, do perdão ignoram até a palavra. Quão distante desta perfeição julgaria ele a república que imaginou!
“viri o diis recentes”.6
“Hos natura modos primum dedit”7.
Vivem numa região do país muito aprazível e tão saudável que, segundo me dizem meus testemunhos, é raro encontrar-se lá uma pessoa doente; e asseguram–me também que nunca lá viram gente com tremuras, nenhum remelento, desdentado ou vergado sob o peso da velhice. Estão estabelecidos ao longo do mar, e defendidos do lado da terra por grandes e altas montanhas que se estendem a distância de cem léguas do mar aproximadamente. Têm em abundância carne e peixes, que em nada se assemelham aos nossos e que comem sem condimento, apenas assados. O primeiro homem que lhes apareceu montado a cavalo, embora já se tivessem relacionado com ele em várias viagens anteriores, causou-lhes tanto horror naquela postura que o mataram a setadas antes de o reconhecerem. Suas casas são muito compridas, com capacidade para duzentas ou trezentas almas. Cobrem-nas com a casca de grandes árvores, estão fixas à terra por um extremo e apoiam-se dos lados umas contra as outras, como algumas das nossas granjas; a parte que as cobre chega até ao solo, servindo-lhes de flanco. Têm madeira tão dura que a usam para cortar, e com ela fazem espadas e grelhas para assar os alimentos. Os leitos, feitos de tecido de algodão, estão suspensos do tecto como os dos nossos navios, e cada um ocupa o seu, porque as mulheres dormem separadas dos maridos. Levantam-se ao nascer do sol e comem logo depois, para todo o dia; porque não fazem outra refeição. Durante esta não bebem, como ‘ outros povos do Oriente, os quais, segundo Suidas, só bebem fora das comidas, mas várias vezes ao dia e abundantemente. Sua bebida é feita de certa raiz, e tem a cor dos nossos vinhos claretes. Só a bebem morna. Não se conserva senão dois ou três dias, tem o gosto um pouco picante, não sobe à cabeça, é boa para o estômago, e tem o efeito de um laxante para os que não estão habituados a ela, mas para os outros é muito agradável. Em vez de pão, comem determinada substancia branca, uma espécie de coentro açucarado. Provei-a; é doce e um tanto insípida. Passam o dia a dançar. Os mais moços dedi-cam-se à caça grossa, armados de arcos, enquanto uma parte das mulheres trata de esquentar a bebida, sua principal ocupação. H;á sempre um ancião que, de manhã, antes da comida, faz prédicas em comum a todos os habitantes da granjaria, passeando de um lado para o outro, e repetindo várias vezes a mesma exortação até dar a volta à casa (porque são construções que medem uns bons cem passos de comprimento). Só lhes recomenda duas coisas: valor para se defrontarem com os inimigos e amizade para as mulheres. E jamais deixam de ponderar esta última obrigação, repetindo sempre que são elas que lhes conservam a bebida morna e bem temperada. Pode-se ver em certos lugares, e entre eles em minha casa, onde tenho alguns, a forma de seus leitos, de seus cordões, de suas espadas e dos braceletes de madeira com que cobrem os punhos nos combates, bem como das grandes canas abertas em uma das extremidades e ao som das quais marcam a cadência da dança. Trazem a cabeça rapada e fazem a barba muito melhor do que nós, sem necessidade de outra navalha que não seja a madeira e a pedra. Crêem na eternidade das almas: as que merecem bem dos deuses repousam no lugar do céu onde o sol nasce, e as malditas no lado do Ocidente.
Têm não sei que espécie de sacerdotes e profetas que raras vezes se apresentam diante do povo e que vivem nas montanhas. Quando eles chegam, celebra-se uma grande festa, e uma assembleia solene, da qual participam vários povoados (cada granjaria, como já descrevi, forma um povoado, que fica distante do mais próximo uma légua francesa aproximadamente). O profeta fala-lhes em público, exortando-os à virtude e ao dever; mas toda a sua ciência ética se resume em dois artigos: resolução para a guerra e afecto às esposas. Fazem-lhes prognósticos sobre as coisas do futuro e os acontecimentos que devem esperar de suas empresas, encaminhando-os ou desviando-os da guerra. Mas, se falham no adivinhar, se acontece o contrário do que predizem, são presos, esquartejados em mil pedaços e condenados. como falsos profetas. Assim, o que uma vez se engana desaparece para sempre.
Adivinhar é um dom que só a Deus cabe dar; eis por que comete impostura digna de ser punida o que desse dom abusa. Entre os Citas, os adivinhos que se enganavam eram postos, de mãos e pés agrilhoados, em cima de carros de bois cheios de mato, e ali queimados. Nos que regem as coisas sujeitas à condição humana é per doável que façam tudo quanto podem para cumprir sua missão. Mas os outros, os que nos enganam com a infa libilidade de uma faculdade extraordinária que cai fora do nosso conhecimento, por que não castigá-los quando não mantêm o efeito de suas promessas, e pela temeridade de suas imposturas?
Fazem as guerras às nações situadas do outro lado das montanhas, terra a dentro; vão a elas completamente nus, levando como únicas armas arcos e espadas de madeira aguçadas na ponta, como as línguas dos nossos venábulos. É coisa de maravilhar a firmeza de seus costumes, que acabam sempre em mortandade ou em efusão de sangue, pois não sabem o que seja fuga ou pânico. Cada qual traz por troféu a cabeça do inimigo a quem deu morte, e pendura-a à entrada de sua casa. Depois de terem dado por algum tempo bom trato aos prisioneiros, facilitando-lhes todas as comodidades ao alcance de sua imaginação, o chefe congrega seus amigos em uma grande assembleia; ata uma corda a um dos braços do prisioneiro, segurando na outra ponta, a alguns passos de distância, com medo de ser ferido, e dá o outro braço a segurar, da mesma forma, ao melhor de seus amigos; então ambos o abatem a golpes de espada, perante toda a assembleia. Feito isto, assam-no e comem-no entre todos e enviam alguns pedaços aos amigos ausentes. Isto não é, como se poderia imaginar, para alimento, como os antigos Citas, mas sim para levar a vingança ao último extremo. E a prova é que, sabendo que os Portugueses, que se tinham aliado com os seus adversários, aplicavam outra espécie de morte aos canibais quando estes caíam prisioneiros, morte que consistia em enterrá-los até à cinta e assestar à parte descoberta grande número de setas, enf orcando-os depois, pensaram que, como eram gente do outro lado do mundo, e tinham propagado o conhecimento de muitos vícios entre os povos seus vizinhos e os avantajavam na mestria de toda a sorte de malícias, não realizavam sem razão aquele género de vingança mais dura que a sua, começaram a abandonar seu antigo método para adoptar aquele. Não me pesa acentuar o horror bárbaro que tal acção (significa, mas sim que tanto condenemos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas. Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos, que o mordem e martirizam (como vimos recentemente, e não lemos, entre vizinhos e concidadãos, e não entre antigos inimigos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e de religião) que em o assar e comer depois de morto. Crisipo e Zenon, chefes da seita estóica, opinavam que não havia mal nenhum em nos servirmos dos nossos semelhantes como alimento, se a necessidade a tal nos obrigasse; sitiados nossos antepassados por César na cidade de Alésia, resolveram obviar a fome do assédio com os corpos dos anciãos, mulheres e outras pessoas inúteis para o combate.
Vascones, fama est, alimentis talibus usi Produxere animas8
E os médicos não vacilam em usá-los de toda a sorte para a nossa saúde, quer pela aplicação externa, quer interna; mas não há opinião tão relaxada que desculpe a traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade, que são os nossos pecados de todos os dias.
Podemos, pois, achá-los bárbaros em relação às regras da razão, mas não a nós, que os sobrepassamos em toda a espécie de barbárie. Sua guerra é toda nobre e generosa e tem tanta desculpa e beleza quanta se pode admitir nessa calamidade humana; seu único fundamento é a emulação pela virtude. Não lutam para conquistar novas terras, pois ainda desfrutam dessa liberdade natural que, sem trabalhos nem penas, lhes dá tudo quanto necessitam e em tal abundância que não precisam de alargar seus limites. Encontram-se ainda nesse estado feliz de não desejar senão o que as suas necessidades naturais reclamam; o que for além disso é para eles supérfluo. Geralmente, entre os da mesma, idade, chamam-se irmãos; filhos, os mais novos, e os velhos consideram-se pais de todos. Estes deixam a seus herdeiros a plena posse dos seus bens em comum, só com o título todo puro que a natureza concede a suas criaturas ao depositá-las no mundo. Se seus vizinhos transpõem as montanhas para os atacar e são vencidos, o único lucro do vitorioso é a glória e a mercê de os haver dominado em valor e virtude; aliás, de nada lhe serviriam os bens dos vencidos, porque quando regressa ao seu país nada lhe falta do que necessita, nem mesmo essa grande qualidade de se saber felizmente conformar com a sua con dição e viver contente com ela. O mesmo se dá com os outros. Para o resgate dos prisioneiros exigem-lhes apenas a confissão e o reconhecimento da derrota; mas não se encontrou um em todo um século que não preferisse a morte a quebrantar, de ânimo ou palavra, um só ponto da grandeza da sua invencível coragem, ou que não preferisse ser morto e comido a pedir clemência. Dão-lhes todas as comodidades imagináveis para que a vida.lhes seja mais grata, mas, ameaçam-nos frequentemente com a morte futura, com os tormentos que os esperam, com os preparativos feitos para tal fim, com a destruição dos seus membros e o festim que celebrarão à sua custa. Fazem tudo isso para lhes arrancar da boca alguma palavra de fraqueza ou de humilhação, ou os induzir a fugir, vangloriando-se então de os terem amedrontado e quebrantado a sua firmeza. Porque, em verdade, só nisto consiste a verdadeira vitória:
Victoria nulla est,
Quam quae confessos animo quoque subjugat hostes. 9
Os Húngaros, mui bélicos combatentes, depois de reduzido o inimigo à sua mercê não o perseguiam mais. Logo que lhe arrancavam semelhante confissão, deixavam-no ir sem lhe fazer mal ou pedir resgate; somente — e era o máximo a que chegavam — lhe exigiam palavra que, de futuro, jamais se levantaria em armas contra eles.
Das vantagens que alcançamos sobre nossos inimigos, muitas são méritos alheios e não nossos. Mais próprio é de um carregador que da virtude ter braços e pernas rijas; a boa disposição para a luta é uma qualidade corpórea sem valor; da sorte depende fazer fraquejar o nosso inimigo e deslumbrá-lo com o sol da vitória; ser perito em esgrima é virtude da arte e da ciência que pode estar ao alcance de qualquer covarde ou de pessoa de insignificante valia. A estimação e o preço de um homem consiste no coração e na vontade; é aí que reside a sua verdadeira honra; a valentia é a firmeza, não das pernas e dos braços, mas da coragem e da alma; não consiste no valor do nosso cavalo, nem das nossas armas, mas no nosso. O que cai obstinado em sua coragem, “si siicciderit, de genu pugnat” 10; o que, apesar do perigo da morte próxima, não descuida um só ponto de sua segurança; o que, ao exalar o último suspiro, ainda fita o inimigo com vista firme e desdenhosa, será batido, não por nós, mas pela sorte; será morto, mas não vencido.
Os mais valentes são às vezes os mais desafortunados.
Assim, há derrotas triunfantes que equivalem a vitó rias. Nem mesmo essas quatro vitórias gémeas, as mais formosas que jamais se deram à luz do Sol, a de Sala-mina, Plateia, Micala e Sicília, se poderiam opor, com toda a sua glória conjunta, à derrota do rei Leónidas e dos seus no passo das Termópilas.
Quem, triunfando em combate, obteve glória tão viva e invejável como o capitão Iscolas em sua derrota? Quem preparou a sua salvação com tanto engenho e cuidado como ele a sua ruína? Estava incumbido de defender contra os Arcádios certa passagem do Peloponeso. Sentindo-se de todo incapaz, dada a natureza do lugar e a desigualdade das forças, e convencido de que o inimigo tinha todas as vantagens a seu favor; julgando, por outra parte, indigno da sua própria virtude e da magnanimidade do nome de lacedemónio falhar em sua missão, adoptou entre os dois extremos o meio termo seguinte: reservou os mais moços e decididos de seu exército para a defesa e serviço de seu país, ordenando-lhes que par tissem; e preparou-se para defender o desfiladeiro com aqueles cuja falta não era tão importante, fazendo, à custa da sua morte, pagar a passagem ao inimigo o mais caro possível, o que aliás aconteceu. Vendo-se rodeado por toda parte pelos Arcádios, entre os quais fez terrível carnificina,’ele e todos os seus foram passados à espada. Onde existe troféu de vencedor que não fosse mais digno destes vencidos? O papel de quem verdadeiramente vence é lutar, e não salvar a vida; a honra consiste em bater-se, e não em bater.
Voltando à nossa história, os prisioneiros, longe de se renderem diante do que se lhes faz, conservam um ar alegre nos dois ou três meses que estão em poder do inimigo; incitam seus donos a apressar-lhes a morte; desafiam-nos, injuriam-nos, lançam-lhes em rosto a sua covardia e o número de batalhas por eles perdidas contra os seus. Conservo uma canção feita por um desses prisioneiros, onde se encontra este lance: “Que venham todos quanto antes, e se reúnam a comer minha carne, porque comerão ao mesmo tempo a de seus pais e avós, que outrora alimentaram e nutriram meu corpo. Estes músculos, diz ele, esta carne e estas veias são as vossas, pobres loucos; não reconheceis que a substância dos membros dos vossos antepassados ainda está em mim’? Saboreai-os bem, que acháreis o gosto da vossa própria carne”. Nesta composição não se adverte por forma alguma a barbárie. Os que os pintam moribundos e os representam no momento do sacrifício, pintam o prisioneiro cuspindo na cara de seus matadores e fazendo-lhes visagens. Em verdade, não deixam até ao último suspiro de os insultar e desafiar por palavras e obras. Eis aqui, sem mentir, homens completamente selvagens em contraste conosco; porque ou eles o são na realidade, ou o somos nós. Há uma enorme distância entre a sua maneira de ser e a nossa.
Os homens possuem várias mulheres, e tantas mais quanto maior for a sua reputação de valente. Entre os casados, é coisa bela ,e digna de nota que o zelo, que nossas mulheres põem em nos evitar a amizade e a benevolência das demais, põem as deles em lhas adquirir. Prezando a honra dos maridos sobre todas as coisas, usam da maior solicitude em agenciar o maior número possível de companheiras, pois quanto maior for o número destas melhor será o testemunho das virtudes do marido.
Para as nossas mulheres, isto poderá parecer absurdo; mas não, é uma virtude própria do matrimónio e do mais alto grau. Já na Bíblia, Lia, Raquel, Sara e as mulheres de Jacob entregaram aos maridos suas formosas criadas; e Lívia secundou os desejos de Augusto em proveito próprio. Estratónice, mulher do rei Dejótaro, não so mente deu para uso do marido uma belíssima moça de câmara que a servia, como educou os filhos de ambos com suma diligência, e ainda os ajudou a herdar os Estados do pai.
E, para que não se pense que tudo isto obedece a uma simples e servil obrigação a que estão ligadas, ou a qual quer espécie de antiga submissão à autoridade dos maridos, à falta de discernimento e cordura, ou a terem a alma tão entorpecida que não são capazes de mais, mostremos alguns traços da sua inteligência. Além do que já citei de uma de suas canções guerreiras, conservo outra, amorosa, que começa assim: “Detém-te, cobra; detém-te, para minha irmã tirar do padrão de tuas cores o modelo e o desenho de um rico cordão que quero dar a minha amiga; que a tua beleza e condição sejam sempre louvadas entre todas as serpentes”. Esta primeira estrofe é o estribilho da canção. Ora, eu tenho bastante convívio com a poesia para julgá-la, e parece-me que não somente nada há de barbárie em sua inspiração, mas que é também completamente anacreôntica. A linguagem, aliás, é doce e de som agradável, parecenclo-se nas terminações com a língua grega.
Três daqueles homens, ignorando o quanto pesará um dia em seu repouso e felicidade o contacto com as nossas corrupções, e que do conhecimento destas nascerá a sua ruína, — o que, de resto, já deve ter acontecido, visto a loucura de se deixarem iludir pelo desejo de verem coisas novas, abandonando, pelo nosso, a doçura do seu céu, — chegaram a Ruão quando ali se encontrava Carlos IX. O Rei departiu com eles longo tempo. Mostraram-lhes os nossos costumes, nosso luxo, o que era uma bela cidade. Depois, alguém pediu-lhes a opinião sobre o que mais os havia surpreendido. Responderam que três coisas, das quais esqueci a terceira, o que muito lamento; mas duas ficaram-me na memória. Disseram que, em primeiro lugar, achavam muito estranho que tantos homens importantes, de grandes barbas, fortes e bem armados como aqueles que rodeavam o Rei (é muito provável que se referissem aos Suíços da guarda real) rendessem obediência a uma criança em vez de escolher entre eles um para os comandar. Em segundo lugar (têm uma forma de falar que divide os homens em duas partes), tinham reparado que havia entre nós pessoas cheias e fartas de comodidades de toda ordem, enquanto a outra metade mendigava a suas portas, descarnada de fome e de miséria; e que lhes parecia também singular como essa outra metade podia suportar tamanha injustiça sem estrangular os demais e lançar fogo a suas casas.
Falei com um deles durante muito tempo; mas tinha um intérprete que me seguia tão mal, e cuja estupidez velava tanto as minhas ideias, que pouco prazer recebi de tal conversa. Ao perguntar-lhe que vantagens lhe dava a superioridade que tinha sobre os seus (porque era um Capitão, a quem nossos marinheiros chamavam Rei), respondeu-me que a de ser o primeiro a partir para a guerra; inquirindo-o sobre o número de homens que o seguiam, marcou com o dedo um espaço da cidade para significar que tantos quantos ali cabiam, isto é, entre quatro a cinco mil homens; se, fora das lides da guerra, toda a sua autoridade cessava, disse que ainda lhe ficava. o privilégio, quando visitava os povoados que dele dependiam, de-se lhe abrirem os caminhos através do matagal dos bosques, por onde podia passar muito à vontade.
Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções.
1 “Diz-se que essas terras foram separadas por violenta convulsão, e que até então formavam um sô continente”. (Virgílio, En., III, 414).
2 A Eubeia.
3 Beócia.
4 “E uma laguna, muito tempo estéril e navegável, alimenta hoje as cidades vizinhas e suporta o peso do pesado arado”. (Horácio, Arte Poética, 65).
5 A hera cresce melhor sem cultivo, e o medronho brota mais formoso nos lugares solitários, e o canto das aves, por não ter artifício, não é menos doce”. (Propércio, I, II, 10).
6 “Homens que acabam de sair das mãos de Deus”. (Sêneca, Ep., XC).
7 “Eis as primeiras leis que a natureza deu”. (Virgílio, 10, Georg., II, 20).
8 “É fama de que os Vasconços prolongaram suas vidas nutrindo-se de tais alimentos”. (Juvenal, XV, 93).
9 “A única verdadeira vitória é aquela que, dominando a alma do
inimigo, o força a confessar-se vencido”. (Claudiano, De sexto Consulatu
Honorii, 248).
10 “Se caíres, combate de joelhos”. (Séneca, De providentia, c. 2).
Texto em francês

Discurso Sobre a Servidão Voluntária Etienne de La Boétie

tangram

[sex] 11 de setembro de 2015

2h01′ vamos jogar? mentira, vou dormir… acordar cedo, para mais um dia de formação. ontem gastei demais… comida, um tangram de madeira (na única banca que tinha sentido na feira do congresso comercial-educacional) e a reprodução do bourdieu e passeron, e currículo, território em disputa, do arroyo (eu e esse vício, essa compulsão por livros).

2h04′ e eu só estou acordado e escrevendo aqui é porque descobri que fecharam o janela de por notas no sistema do professor online, e eu não preenchi as notas bimestrais de três turmas. espero não me incomodar com isto. mas enfim… respirar, relaxar, apagar, porque é preciso acordar cedo logo mais para um longo dia de formação.

6h56′ a secretária irá abrir pela noite. primeira noticia boa da manhã. e tomo meu mate e me organizo… mais um dia longo pela frente…

notas do dia:

[preencher aqui com – transcrever  – as notas, ideias e pontos do dia… fazer quando der]

***

Um Salve ao camarada Salvador Allende! Resistir, Resistir sempre!

Dia também que me faz lembrar de outro ser humano importante nesse cenário histórico… Aniversário de nascimento de Theodor Adorno.

a primeira flor de ipê

[ter] 11 de agosto de 2015

entre o dia oito (sábado) e hoje (terça-feira)… a primeira flor de ipê amarelo irrompeu, abriu-se e despencou.

hoje jaz no chão a primeira flor de ipê.

a minha pequena, presente de noé, que seu nei (meu pai) quase matou, sobreviveu, cresceu, vai maior que eu, lá para os três metros de altura, e agora floriu… agora é esperar o próximo ipê para descobrir qual é a sua cor…

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uma semana mensurando o silêncio…

[sáb] 11 de julho de 2015

Meu último texto foi feito na segunda. minha vó faleceu as 23:45 de domingo. Após tudo isto houve um turbilhão de sentimentos…

Logo depois do meu texto, comuniquei minha mãe. É doloroso ver sua mãe perder a mãe dela. E lá pelas 3:00 estava, eu, já na estrada… e foram 250 Km de estrada e volante, para chegar até Arroio do Silva.

Foi um dia de dor e de reencontros. Não me recordava quando foi meu último velório. Ela estava serena.  Pensei muito na transitoriedade da vida… E lembrei de momentos bons. Enterro às 17:00, e pé na estrada…

Mais 250 Km de estrada.

Enquanto tudo isto rolava, estava meu irmão no centro cirúrgico, extraindo um fragmento de seu cérebro.

Na terça-feira, meu irmão já estava saindo da UTI.

Na quarta-feira, ainda no hospital, mas já sem o dreno.

Na quinta-feira, ele teve alta. Foi dia de andar por mais de 10 farmácias atrás de medicamento. Eu, vestido com roupa de mexer na terra, toda surrada, e com as unhas com terra, já exausto de tanto dirigir, na última farmácia, e a atendente da farmácia flertou comigo – para registro, achei aquilo muito engraçado. Eu estava sujo, desarrumado, exausto, com pressa… e a mulher ali na minha frente brincando comigo… Surreal. Neste dia andei mais de 50 Km.

Na sexta-feira, tirei o dia para mim. E fui fazer as podas… Plantar grama. Enfim, reencontrar parte de mim.

Hoje, sábado. Estou a subir fotos ao flickr, e fui limpar o arquivo morto do gmail… E voltei mais uma vez no tempo. Há tanta história lá que o tempo vai borrando… Pessoas, momentos, situações, projetos, amores e desamores, brigas, reencontros e desencontros, atas, projetos, fichamentos, viagens e algumas fotos. Me descolei do tempo presente e senti saudade de parte de mim, e de um futuro que talvez eu nem venha a viver…

O certo, é hoje me sobram umas 10 horas, e amanhã será domingo, momento chave para por o trabalho e a cabeça no lugar.

E o pensamento é: algumas mortes são repentinas, outras lentas. algumas são jovens, outras bem vividas. algumas são inevitáveis, outras inexplicáveis. algumas mortes cerram a ponte repentinamente… outras guardam-se como promessa de algo que passou e a gente ainda não entendeu…

que essa vida é mais complexa do que nos parece. e há uma determinada aleatoriedade que somos incapazes de apreender na sua totalidade.

lento pero avanzo

[qui] 11 de junho de 2015

há apenas uma tênue noção de que as coisas estão serenas… mesmo quando tu miras ao redor e tudo está completamente caótico – tuas contas, tua casa, teus planejamentos futuros, a fila de notas soltas esperando serem publicadas… as aulas por serem dadas, os teus horários.

talvez a grande sacada é que neste momento o que importa realmente não é ter tudo exatamente planejado, e catalogado… o que importa é o vir a ser sendo… o estar aqui agora de forma aberta.

o enfrentar o medo de viver… vivendo.

as vezes tu passas tempo demais duvidando de ti mesmo… e as pessoas batem a tua porta e dizem: acorda! e tu estás cansado demais.

neste momento eu estou desperto.

e para esta tarde, dois canções de renato que brotaram enquanto escrevia este verbo e um poema de brecht – que me inspirou a abrir uma janelinha e a escrever aqui.

«Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
Espero, acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim» Se fiquei esperando o meu amor passar. In: As quatro estações. 1989. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo

***

«Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom (…)
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado» Soul Parsifal.  In: A tempestade ou O livro dos dias. 1996. Composição: Marisa Monte / Renato Russo.

***

«Ouvimos dizer. Por Bertold Brecht

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

extraído daqui: http://ocheirodailha.blogspot.com.br/2009/03/brecht-ainda-e-sempre.html

***

lento-pero-avanzo

esta imagem me sintetiza bem. quando eu era pequeno uma forma que meu pai tinha de atacar-nos, e a mim, principalmente, era verbalmente chamando-me de lento, é claro que ele não utilizava a palavra lento… mas sinônimos agressivos e extremamente nocivos para uma criança e adolescente. até o hoje, ele tenta, mas depois de anos de terapia, um faculdade de ciências sociais, de militar em movimentos políticos, e da poesia de manoel de barros… aprendi que a “lentidão” dos caracóis é sábia. e se as vezes, quase o tempo todo, eu sou como estes caracóis… esta é minha dádiva,

«Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou.» Bocó, por Manoel de Barros.

e vale a leitura deste texto aqui: Diálogo entre seres uma aproximação ontológica ao animal na poesia de Manoel de Barros, por Claudia Quiroga Cortez

***

notas soltas: Como Cortar um Chip Para Que Vire um MicroSIM; comentar também sobre o hambúrguer vegetariano de grão-de-bico. e montei minha cama… depois de cinco anos acampando dentro de meu humilde barraco, por opção emocional… agora tenho uma cama. estou me desentocando.

limpeza pesada…

[dom] 11 de janeiro de 2015

janeiro começou…
e vai longe…
a embaúba¹ que {re}plantei dia primeiro deu seu primeiro sinal de vida… brotaram folhas novas. ontem choveu e a terra que andei a revirar para instalar a piscina inflável tornou-se lama… e ainda falta mais uma semana, no mínimo, de pequenas intervenções… cava aqui, aterra ali, planta grama lá, organiza acolá… e não fiz o texto sobre a diversidade como problema pedagógico, até tentei… mas o que é para uma semana levo um mês… e ainda tenho que ler os cadernos de estudo e mandar a proposta de aula… até dia 18… esse negócio de ficar estudando nas férias e com um monte de gente na casa… não é fácil.

e das coisas de izabel, na sexta-feira noite ela teve uma crise de ciúmes… esse negócio de ser gente é complicado. E esse negócio de ser pai é complicado… hoje entendo minha mãe, e a impotência que sentimos, de sentir um dos nossos passando por dolores que somente eles poderão lindar.

todo mundo tem o coração meio partido neste mundo… a vida vai fazendo isto com a gente… desgastando a nossa bruteza e nos lapidando… vai nos afiando tanto que, as vezes sem percebemos, nos cortamos em nós mesmos.

mas enfim, percebo nela algumas dores que eu sentia e sinto ainda… e é tão difícil lidar com tudo isto… que o tão pouco que eu consigo fazer não basta… não conseguimos arrancar o mal pela raiz.

e mais sobre izabel… enfim pintei o quarto dela sexta-feira. segunda ou terça comprarei cortinas e uma armário.

e quanto a mim: esse quantidade de gente circulando pela casa – meu primo, com sua família, está se hospedando por cá – não deixa eu perceber a minha solidão. e ontem foi dia de limpar a casa. mexer as coisas do lugar e lavar chão e paredes… até o teto. e ainda assim eu ainda não me sinto limpo. dê o tempo ao tempo… lide com o que der para lidar, sem sobrecarregar. e hasta…
notas de roda pé

¹ ãba’ib – e dessa lista… acho que a primeira coisa que consegui cumprir foi a embaúba.

o molho de chave

[ter] 11 de novembro de 2014

notícias de cá, da ilha de um homem só.

ontem…estupendo… 3 primeiras aulas vídeo. e na 4 subi uma, e juntei duas turmas no pátio coberto… um caos. mas o barato foi o bate-papo após a realização do exercício de auto-avaliação. [urgente… não construir instrumentos avaliativos/questionários/ na última hora… corrigir todos os erros].

e nessa… levei/trouxe um molho de chave para casa.

saldo: gastei três horas para devolver cedo… mais de oito reais em passagem e outros oito reais em lanche. e no final do dia serão duas viagens ao rio vermelho… ah se o já houvesse a duplicação… iria eu de bicicleta todos os dias. e assim emagrecia um pouco pois já estou a estourar. aproveitei e passei nas escolas para deixar meu nome… vai que estejam precisando de um professor de sociologia. mas acredito ser difícil. o cenário é: menos turmas, menos aulas, salário menor… meritocracia… asfixia… morte… não, ‘pera, a vida é dialética.

happy: você é feliz?

[sáb] 11 de outubro de 2014

fragmentos.

e passei o dia pintando tudo de verde limão.

agora só falta fechar todas as mais de trezentas médias, produzir os exercícios do curso e fichar o livro para o outro curso. e arrumar grama no quintal, aterrar umas partes e tanta coisa… dar entrada nos papeis da paternidade, formatar o tablet, marcar dentista… pagar a conta de luz. fora inúmeras outras coisinhas diárias…

mas hoje eu não estou feliz porque foi um dia solitário e verde limão. talvez essa sensação venha da discussão de ontem, e dessa dificuldade de pedir desculpas, e nenhuma desculpa ameniza o que já foi feito. e isto me deixa um tanto triste… esse nosso pequeno inferno diário.

 

 

ninguém faz ideia de quem vem lá

[qui] 11 de setembro de 2014

as vezes eu me sinto jovem. ‘trocando uma ideia’ com os jovens, as vezes, penso que eles são alienígenas. ou sou eu?

mas há algumas ideias bacanas e papos que fluem: tatuagem é a vez. outro dia foi vida loka…

eles tiram algumas coisas da cartola que me fazem pensar…

***

“ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá…”

***“

“nós não somos os criadores de nossas idéias, mas apenas seus porta-vozes; são elas que nos dão forma (…)
e cada um de nós carrega a tocha que no fim do caminho outro levará.”
carl gustav jung.

quando sinto que já sei

[seg] 11 de agosto de 2014

 

http://www.quandosintoquejasei.com.br/

só porque eu falei não quer dizer que eu não posso estar errado

[sáb] 12 de julho de 2014

a loja do tempo

[ter] 11 de março de 2014

chovia. perdi o dentista. não chove agora, mas o tempo vai fechado. a manhã voa. mate amargo e leitura matutina lista.

«[…] Logo que chegou a Cincinnati, vindo de Nova Harmonia, Warren iniciou sua primeira experiência, à qual deu o nome de Loja do Tempo. Nela,  [Josiah] Warren vendia mercadorias a precço de custo, solicitando aos clientes que o recompensassem pelo seu trabalho, com vales nos quais prometiam doar, trabalhando em seu próprio ofício, um tempo equivalente àquele que Warren gastara para servi-los. Por esse meio, Warren esperava levar seus clientes a aceitar a ideia da troca, baseada no trabalho, e recrutar adeptos dispostos a participar do seu projeto de criação de uma cadeia de cidade mutualistas. A Loja durou três anos, e Warren saiu da sua experiiência convencido de que seu plano poderia funcionar. […] Em 1834, Warren e um grupo de discípulos adquiriu uma extensão de terras no Estado de Ohio, criando a Vila Igualdade, integrada por meia dúzia de famílias que ali construíram suas casas e que operavam uma serraria em bases coletivas de troca de trabalho-por-trabalho. A estrutura hierárquica das comunidades owenista e fourieristas foi abandonada, em favor de um sistema de acordos mútuos. Foi esta a primeira comunidade anarquista surgida em qualquer país desde a aventura de Winstanley em St. George’s Hill, quase dois séculos antes. […] Na primavera de 1848, Warren escrevia: Durante o tempo que durou o nosso empreendimento, tudo foi conduzido em bases tão próximas ao individualismo, que nunca fizemos uma reunião para tratar da crianção de leis. Não havia organização, nenhum indefinido poder delegado, nenhuma ‘Constituição’, nem leis, nem decretos, nem regras ou regulamentos senão aquelas que o próprio indivíduo criava para seu uso ou para seus negócios. Não houve necessidade de recorrer a funcionários, sacerdotes ou profestas. Promovemos algumas reuniões, cujo único objetivo era manter uma conversa amigável, ouvir música, dançar, ou qualquer outra forma de agradável passatempo social. Não houve uma única palestra para discurtir os princípios que norteavam nossas ações. Não era preciso, pois (como observou ontem um senhora), “uma vez declarado e entendido, não há mais nada a dizer sobre o assunto. Depois disso, só nos resta agir”» [páginas 245-246-247] [Woodcock, George. História das ideias e movimentos anarquistas – v.2: tradução de Júlia Tettamanzy. – Porto Alegre: L&PM, 2008. 280 p.

e depois de olhar meu cabelo no espelho… brotam em mim aquelas palavras [que são sempre fragmentos de música que minha memória dispersa é incapaz de recordar a letra da canção por inteira – sou assim, fragmentos, digressões, coisas aleatórias] e saio a cata daquela voz do lenine na minha cuca cantando ‘medusa’ e chego cá… DOIS OLHOS NEGROS // Queria ter coragem de saber / O que me prende, o que me paralisa / Serão dois olhos negros como os seus / Que me farão cruzar a divisa / É como se eu fosse pro Vietnã / Lutar por algo que não será meu / A curiosidade de saber / Quem é você… / Dois Olhos Negros! (2x) / Queria ter coragem de te falar / Mas qual seria o idioma? / Congelado em meu próprio frio / Um pobre coração em chamas / É como se eu fosse um colegial / Diante da equação, o quadro giz / A curiosidade do aprendiz / Diante de Você… / Dois Olhos Negros! (2x) / O ocultismo, o vampirismo, o voodoo / O ritual, a dança da chuva / A ponta do alfinete, o corpo nú / Os vários olhos da Medusa / É como se estivéssemos ali / Durante os séculos fazendo amor / É como se a vida terminasse ali / No fim do corredor…

na busca um achado incidental… o «Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas» no jornal do porão. e redescubro o lamento de paulinho da viola. saudade deste belo rapaz.

e agora… agora… vou voltar a estudar, sistematizar e organizar o material das aulas de hoje. e é repeti-los na quarta e sexta.

ideias para mais tarde:

#1. organizar umas plaquinhas com o nome científico, nome popular e o nome carinhoso para cada árvore no quintal – desenvolver uma aula de botânica com as marias. [outro dia, não hoje]

#2. organizar as finanças… planejar como pagar minhas dívidas que chegam na casa dos dois mil reais. ‘tá tenso. hoje.

un cambio de mirada…

[qua] 11 de dezembro de 2013

um cambio de mirada…

« … o desafio não é ganhar uma batalha, é conseguir aceitar que existem processos que têm tempos diferentes do que se espera… »

polaco loco paca…

[seg] 11 de novembro de 2013

DIA 9/11. vem disto aqui… http://www.youtube.com/watch?v=vUUfmF7fUgY

que é profundo pacas…

“A linguagem dá um barato fundamental no ser humano. Não é preciso justificar isto a luz de nada. Isso ai que é fundamental, as outras coisas é que têm que ser justificadas”.

DIA 11/11 Eu pretendia publicar isto dia 9, mas a internet ‘tá uma bosta (é que agora eu compartilho o wifi e o custo dela, positivo isto, negativo é o modem ficar tão longe, mas é a tática nesta minha luta para sobreviver com menos de um salário mínimo). Mas não faz mal… Caminho lentamente para um refazer-me, e me desfaço da tevê, minimizo a vida por cá (no espaço virtual), e sobra mais tempo para leituras (aquela  pilha enorme de livros esperando que eu vá pôr em alguma aleatória ordem… cá em minha cuca), e sobra mais tempo para meus projetos de escavações e empilhamentos de pedras (eta hôme besta! o sol ali fora e tu com a cara metida dentro da terra feito avestruz)… sobra mais tempo para finalizar o preenchimento dos diários de classe e encerrar minhas aulas de 2013¹ (que tem sido um misto de doce e amargo) e reaprender xadrez (e jogar com izabel… mas ela é toda séria, trágica, dolorosa, e um cadinho triste… não puxou toda de mim, já que peguei ela a meio caminho andado… mas acredito que esse pé na dor é daqueles que compartilham cedo os sofrimentos desta vida) e ouvir música… NO VOLUME MAIS ALTO QUE SE POSSA IMAGINAR (mas calma, moro no mato, e além, as músicas têm qualidades agradáveis…)

Mas eu pretendia publicar… e não é por nada disto acima que não publiquei… é que fiquei matutando um poema, e das 20 folhas rabiscas saiu nada definitivo… tudo ainda é um rascunho, apenas isto aqui é certo:

DIA 9/11

Calo este silêncio todo

Que estronda meu oco

Calo este silêncio todo

E te ouço, polaco loco!

DIA 11/11 nota de rodapé

¹ hoje, passei umas duas aulas num ótimo bate-papo tete à tete com um estudante (que estava matando aula de outros dois professores), e quando chego em casa, recebo recado de um outro estudante, aluno de 2012, um dos mais críticos e engajado que já conheci, dizendo que sente saudades de minhas nossas aulas críticas e sensatas (agora a professora de sociologia parece ser conservadora). E são momentos assim, porque prefiro mais o papo com os estudantes (aqueles poucos que a gente consegue sensibilizar, tocar com o argumento sociológico) do que com os professores, quase todos cheios de seus moralismos. eu acho a escola tão chata, tão absurdamente sufocante, que os poucos momentos de lucidez em sala que conseguimos ter são tão intensos, e isto é o doce, mas são tão raros, e isto é o amargo… como a juventude pode sonhar se todos os adultos referenciais vão zumbizando. E também, muitas vezes me sinto como se estivesse falseando, me sinto capenga nos meus desenvolvimentos… como abordar coerentemente e criticamente conteúdos, temas, tópicos, conceitos se me distancio deles, se na minha prática política me distancio do movimento real? como posso desarticular tanto assim teoria e prática? isto me leva a questionamentos se o que estou fazendo tem algum sentido, e são nessas conversas ou alguns momentos em algumas aulas ou recados e mensagens como esta do gui, que me dizem que há algum sentido, que não está tudo perdido… que a minha existência e meu ofício faz uma mínima diferença… mas o ponto correto, e sei disto, não é questionar a docência e sim a ausência de militância. mas minha cabeça é tão torta… preciso bater mais um pouquinho ela no chão para ver se os parafusos de acertam. animo meu rapaz, animo. lembra do mantra: paciência e coragem, paciência e coragem. Levanta essa bunda e vai lá…

blind

[qua] 11 de setembro de 2013

postagem em movimento… vinte e tantas horas de edição e revisão (13 até agora).

01h10′ – ¡No lo creo! Que bosta! Colocaram um OUTDOOR no meu canto. WordPress com banners, sem graça. É um Coup d’État. Deu vontade de ir embora… Mas qual seria a nova casa?

01h59′ – trechos coletados. Diego El Khouri “Rimbaud dizia que “o poeta é mesmo ladrão de fogo”. Octavio Paz já acreditava que “a poesia é a subversão do corpo”. Breton afirmava que “poesia é a orgia mais fascinante ao alcance do homem”. Álvares de Azevedo dizia que “o fim da poesia é o belo” e Baudelaire que “a arte é prostituição”. Pra você o que é poesia?” Glauco Mattoso “Ja defini a poesia como “uma metralhadora na mão dum palhaço”. Pode ser inoffensiva, mas nada nem ninguem está blindado contra ella,
principalmente si o “blind” é o proprio poeta… (risos)

9h44‘ – Dora me liga Dora esquece que eu só completo lá Eles dizem que eu posso pedir demissão  e ainda escolher vaga Pela situação assim toda assim assada Mas sinceramente não queria nova vaga Não agora Queria continuar aqui e não lá Simples assim Dora irá lá novamente Dora me ligará Dora me acorda E aquela ansiedade de dar nos nervos domina Desde aquela quinta lá E continuará por mais algumas horas Dora não me dá nada novo. Pois a certeza do não lá eu já possuía Com desgosto As dúvidas sobre próximo passo continuam Se posso pedir demissão e escolher vaga O que fazer? Ou mais precisamente Como devo fazer?

10h02′ – O dia ‘tá lindo, quente, repleto de pássaros e flores. É quase tudo verde ao meu redor. A bicicleta da filha está a caminho, o ultimo livro que comprei também. Estou sem um tostão. Reduzir gastos pelos próximos meses é necessário. Tenho dormido pouco nos dias, a cerveja acabou, o vinho acabou, essa incerteza devora por dentro. Missão inicial do dia, lavar a louça acumulada. Cambio. Fim.

12h19′ – “Los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad.” (Alejandro Jodorowsky)

alejandro Jodorowsky

12h45′ – Por enquanto. Tarde voa. Três horas entre coisas da casa, filha, videos de arte, leituras sobre a política nacional e geopolítica inter_ nacional. O mate acabou, e agora é estudar para hoje à noite. E continuo aguardando…

14h48′ – http://dinamicadebruto.wordpress.com/ e http://arquivopessoa.net/

e eu aqui enjoado. o almoço não caiu bem. o chá não ajudou. e ando com uma vontade, ou melhor, sem qualquer vontade para alguma coisa. humor péssimo. minha indisciplina é absurda neste exato momento. pareço um animal enjaulado.

20h45′ – a diretora te chama. e eu me pergunto… será que é uma luz para essa agonia, será que ela vai mencionar algo… e nada, era só para saber se eu viria na sexta-feira, para a gincana da escola, e que nesse dia, ela irá distribuir os tablets para os acts. ah, e eu que nem sei se sexta serei professor ainda. que agonia. não poder falar, não saber o que será amanhã. se as atividades, os trabalhos, os projetos que estou desenvolvendo cessarão hoje ou poderão ser desenvolvidos… mas ao menos, sem saber, me despedi de todos (quase todos) com muito amor no coração.

00h25′ –  TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR. MARSHALL BERMAN. meu cabelo e minha barba estão quase assim: [clique aqui]

angustia

[dom] 11 de agosto de 2013

“O isolamento em companhia de uma pessoa era mais opressivo que a solidão completa.”

Angústia (p. 196) de Gracialiano Ramos.

***

o sensação depressiva é leve. ainda tento, às vezes.

***

hoje, levei minha vó para passear. visitei meus tios. e bebi uma garrafa de vinho barato sozinho. as pessoas estão próximas, mas me sinto só.

***

e pergunto… é possível explicar a falibilidade?

 

exercício sobre o ofício de empilhar pedras-palavras

[qui] 11 de julho de 2013

de repente no meio do nada surgiu o desejo de empilhar palavras
umas sobre
as outras
ora bem presas
ora quase soltas
e de repente era um muro
e mais que de repente já era uma muralha

assim, no meio do nada,
fizeste das palavras
pedras lapidadas

mas não se descuide nesta arte de empilhar pedras-palavras

pois de repente no meio do nada
o desejo tornou-se cativo
nesta muralha de palavras empedradas.

florianópolis, 9h25. 11/7/2013.

meu amigo nietzsche

[qui] 11 de julho de 2013

como um zumbi, fechando notas… corrigindo atividades… anotar: próximo ano, ou trabalho no período noturno ou no período matutino… em ambos ferra.

mas o humor cambiou… não sei se é o fim do bimestre chegando e um recesso de uma semana e saber que metade do ano já foi… ou se é o’tra cousa. as aulas de terça e quarta foram boas, fiquei animado.

e ademais… preciso realizar uma faxina na casa. agora volta lá… tem o segundo ano. e hoje é dia de paralisação geral.

nota de rodapé mental… não faltar mais. cinco faltas alternadas é demissão, e mais… é buscar nova profissão pelos próximos três anos. tenso.

e isto aqui é um ótimo: http://www.youtube.com/watch?v=s2Kscxjt7KY

amiúde

[ter] 11 de junho de 2013

novo projetim e ele é amiúde. em verdade, o amiúde é apenas o registro diário de minha intenções cambiadoras, que começam por: acordar cedo, ler mais, atividades diárias de exercício físico… e ficar menos em internet/tv. estava me sentindo muito cansado, desanimado e entediado… e há quase um mês estou com uma dor violenta nas costas próxima à omoplata esquerda. saúde-corporal-mental em baixa… e além, o pré-aula estava um saco/uma angústia porque estava ficando tudo para a última hora – e ai não dá muita vontade de ir trabalhar. estava pensando demais e isto angustia ‘pacas’. enfim, mudar pequenas rotinas [e ter a disciplina para mante-las] é o começo de um horizonte mais ‘sussa’.

é, talvez escreva mais por cá.

cosmos e caos

[seg] 11 de março de 2013

O que caracteriza as sociedades tradicionais é a oposição que elas subentendem entre o seu território habitado e o espaço desconhecido e indeterminado que o cerca: o primeiro é o “mundo”, mais precisamente, “o nosso mundo”, o Cosmos; o restante já não é um Cosmos, mas uma espécie de “outro mundo”, um espaço estrangeiro, caótico, povoado de espectros, demônios, “estranhos” (equiparados, aliás, aos demônios e às almas dos mortos). À primeira vista, essa rotura no espaço parece consequência da oposição entre um território habitado e organizado, portanto “cosmizado”, e o espaço desconhecido que se estende para além de suas fronteiras: tem-se de um lado um “Cosmos” e de outro um “Caos”. Mas é preciso observar que, se todo território habitado é um “Cosmos”, é justamente porque foi consagrado previamente, porque, de um modo ou outro, esse território é obra dos deuses ou está em comunicação com o mundo deles. O “Mundo” (quer dizer, “o nosso mundo”) é um universo no interior do qual o sagrado já se manifestou e onde, por consequência, a rotura dos níveis tornou-se possível e se pode repetir. É fácil compreender por que o momento religioso implica o “momento cosmogônico”: o sagrado revela a realidade absoluta e, os mesmo tempo, torna possível a orientação – portanto, fundo o mundo, no sentido de que fixa os limites e, assim, estabelece a ordem cósmica. pp. 32-33

O espaço sagrado e a sacralização do mundo. O Sagrado e o Profano. A essência das religiões. Mircea Eliade. Tradução Rogério Fernandes, Martins Fontes. 1999. SP.

 

***

‘tá tudo confuso nessa semana. o corpo estranhamente exausto e a cabeça… distante, avoada, com pensamentos tristes. são os ciclos, as euforias e os desalentos. meus olhos estão verdes e minha barba gigantesca. estou sem grana e preciso ir ao dentista. a casa espera uma arrumada e só consigo ir de lá para cá deixando um monte de coisas por acabar… queria ficar dormindo, mas sei que isto é a última coisa que devo fazer nesta hora. não seria saudável. não é o remédio. e o que tenho nem sono é. respirar fundo e ir… hoje tem aula.

Super 8

[dom] 11 de novembro de 2012

Ufa. Intenso dia. Muito mate, algumas conversas, pequenos afazeres de jardinagem, um filme no telecine, um tanto do bom e velho rock’n’roll na vitrola, uns vinte minutos treinando com o saco de pancadas, um quilometro corrido, e um futebol com os alunos no domingo à noite. exausto.

ontem, sábado, levantei cedo e fui ao passeio da escola… premio aos vencedores da gincana. E o professor de sociologia, as vezes, fica “meio autista”. Fomos até balneário camboriú. foi bacana, apesar da chuva. cheguei exausto… e no fim da noite ainda teve… o preço do amanhã (in time)… fiquei pensado sobre como trabalhar filosoficamente este filme, o tempo e a mais-valia…

e um Postscriptum… porque lembrei que terminei a leitura do livro do Cortella hoje, “Qual é tua obra“, e  sou mortal… o tempo voa e as coisas como estão hoje necessitam serem relativizadas… já aconteceram dias piores, assim como, já acontecera dias melhores. diário de campo é bom exemplo de um destes momentos de pleno dilema.

act

[sáb] 11 de fevereiro de 2012

semana corrida. sou professor agora. trabalhando a semana toda em duas escolas e ontem peguei mais 20 horas no CEJA. estou feliz.

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