pergunte pro seu orixá / amor só é bom se doer

[ter] 4 de abril de 2017

exercício noturno (enantiomorfo)

por um truque de luz
na noite longa
pela janela do trem
olho nos olhos
daquele que sente dor

e a sua dor, ali, exposta,
diante de mim, refletida,
é tão nua, é tão minha.

minha dor, meus olhos,
minha jornada adentro
num estranhamento poético.

quiserá que fora só dele,
do homem de olhos castanhos,
essa dor d’alma
essa dor de dente
essa dor do peito
essa dor de se ser gente…

e saber que o outro,
é a dor que tu sentes

Santo Antônio de Lisboa/TISAN. 4 ABRIL.

***

 

exercícios sobre a percepção

I
o poeta contempla poemas
uns grafitados na pedra,
no papel, na parede
outros ainda na fluidez
de sua mente
e uns tantos ainda
não descobertos,
não inventados,
alheios ao letramento

*
II
o poeta, às vezes,
é como um desses
zumbis do cotidiano

o corpo está ali,
quase inerte,
enquanto a mente…

essa viaja
e conecta-se…
presa na rede
imaginária.

Vargem Grande/TICAN – Santo Antônio de Lisboa/TISAN. 4 ABRIL.

***

dessas aleatórias, que alguém canta no busão… e ainda indica para xs amigxs. eu só escuto… e penso: há vida no busão, saravá.

“Pergunte pro seu Orixá / Amor só é bom se doer”

CANTO DE OSSANHA / Vinicius de Moraes, Baden Powell

O homem que diz “dou” não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz “vou” não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou”
O homem que diz “estou” não está
Porque ninguém está quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amorVai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá
Amor só é bom se doer

Vai, vai, vai, vai amar
Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar
Vai, vai, vai, vai dizer
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

sobre Os afro-sambas de Baden e Vinicius: É, não sou: “Canto de Ossanha” e a Dialética em Forma de Canção, de Isabela Morais
Dialética
É claro que a vida é boa / E a alegria, a única indizível emoção / É claro que te acho linda / Em ti bendigo o amor das coisas simples / É claro que te amo / E tenho tudo para ser feliz / Mas acontece que eu sou triste… (Vinicius de Moraes)
e essa passagem citada em texto de Túlio Ceci Villaça,

Vale conhecer um mito yorubá, contado pelo historiador Reginaldo Prandi, que explica e motiva a afirmação se é canto de Ossanha não vá, que muito vai se arrepender:

Um rei decidiu casar a sua filha mais velha. Dá-la-ia em casamento ao pretendente que adivinhasse o nome de suas três filhas. Ossaim aceitou o desafio. À tarde, Ossaim saiu sorrateiro por trás do palácio. Subiu no pé de obi [nogueira] e se escondeu entre seus galhos. Quando as três princesinhas saíram para brincar, foram surpreendidas por um canto que vinha daquela árvore. Era o canto de pássaro irresistível, de um passarinho das matas de Ossaim. Mas o canto era de Ossaim, imitando o pássaro. O passarinho brincou com as três princesas e conseguiu saber o nome delas: Aio Delê, Omi Delê e Onã Iná, eram estes os nomes das filhas do rei. Sua esperteza havia dado certo. No dia seguinte Ossaim foi ao rei e declamou a ele o nome das princesas. Ossaim, então, casou-se com a mais velha. Sua esperteza havia dado certo. Ossaim desde então é identificado com o pássaro.

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