exercício aos vestígios do prazer na memória

[seg] 21 de março de 2016

madrugada, 2h52

porque nossa memória é tão seletiva? vi um fragmento de vídeo e brotou em minha mente algumas memórias tão intensas de coisas já vividas e outras coisas tão simples e delicadas percebi que esqueci…

e desse estranhamento percorri duas horas fabricando um poema. poemas são produtos que nascem de algum estranhamento… este vem dos vestígios de prazer contidos na memória. ou da fragmentação e esquecimento…

exercício aos vestígios do prazer na memória

entre teu nome
e tua face de mulher,
a memória trai o ser insaciável.
e o tempo seca
o corpo sedento
do homem qualquer e ordinário.
mas na saliva e na saudade
o poema narra-se
em vestígios de um prazer
profundamente sentido
no teu sexo quente e úmido
deslizando vertiginosamente
sob meus dedos ásperos
que vão e voltam,
em flashbacks,
de um tresantontem,
noturno encontro juvenil,
ou numa manhã, de casamento real,
estirado sob um colchão surrado,
num frenético gozo casual.
mas amnésico e nu,
há tempos percebi
que tua boca
havia sido borrada
e que meus pelos
já não recordavam
a eletricidade de tua pele
deslizando voluptuosamente
sobre os poros meus…
como posso esquecer
a textura do teu sexo
e o gosto ácido e salgado
nos músculos intrínsecos
de minha língua?
como posso olvidar
o encontro de nossas curvas,
os gemidos pela rua
ou ao pé do ouvido,
e o interpenetrar tenso
que engolia meu corpo dentro do seu?
como posso desgravar
o tumulto devastador
que o mergulho nos olhos,
corpo sobre corpo,
podiam produzir,
devorando até o âmago?
e o arrepio desvairado quando
dos dentes encravados
por toda a carne?
como posso destramar
a tecitude de tua pele
sob minhas mãos suaves em sua face
ou seguras em teu corpo
descontroladamente extasiado
enquanto tragavas-me?
como teu nome, teu corpo
e tua face extinguiram-se,
assim mansamente?
e de nossos encontros
restaram apenas esses vestígios,
ruínas de um tesão
e de uma delusão?

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