dos canibais

[dom] 11 de outubro de 2015

estou com muita raiva. frustado. e sentindo todas aquelas ideias de ir embora. descontruindo todas as precarias certezas e duvidando profundamente de mim. estou há um ponto de dar um tiro em alguém ou me matar.

esta casa, estas pessoas, essa família… as vezes eu me enveneno de vocês. as vezes, volto a ter dez anos de idade e toda aquela fúria, mágoa, dor… e tenho tanto medo e me sinto tão só.

e eu não consigo ir mais fundo… sempre pensando em partir, eu não estar, não ser, não ficar… não gostar de ninguém. eu não consigo confiar nem em mim, e duvida tanto nisto que alguns dizem ver em mim. no fundo só sinto isto… esse corte que não sara… e mágoa, essa dor, esse medo… essa dificuldade de lidar com os outros e com meus próprios sentimentos.

estou com raiva dessa vida. eu vivo com raiva de mim. e não há nada que se orgulhar… no fundo, cedo ou tarde, vou mágoa e machucar que perto de mim chegar.

estou há um ponto de matar alguém… sinto novamente uma vontade absurda de morrer e me calar.

que sufoco…

***

 

 

 

 

DOS CANIBAIS
Michel de Montaigne (1533-1592)
Capítulo XXXI do Livro 1 dos Ensaios
Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada
Fonte: Clássicos Jackson
Quando o rei Pirro passou à Itália depois de ter reconhecido a organização do exército com que os Romanos iam defrontar o seu: “Não sei, disse, que género de bárbaros são estes (pois assim chamavam os Gregos a todas as nações estrangeiras) mas a disposição do exército que vejo não é de forma alguma bárbara”. O mesmo disseram os Gregos daqueles que Flamínio introduziu no seu país, bem como Filipe ao contemplar do alto de um cerro, a ordem e a distribuição do acampamento romano, em seu reino, sob Públio Sulpício Galba. Isto prova que nos devemos guardar das opiniões vulgares e julgar pelo caminho da razão e não pela voz geral.
Tive muito tempo comigo um homem que vivera dez ou doze anos nesse outro mundo que foi descoberto no nosso século, num lugar onde Villegaignon tocou terra, que denominou a França Antárctica. Esta descoberta de um país infinito parece ser coisa de muita consideração. Ignoro se, no futuro, outras se farão, visto que tantas pessoas que valem mais do que nós se têm enganado nisto. Receio que tenhamos os olhos maiores que o ventre, e mais curiosidade que capacidade. Abarcamos tudo, mas abraçamos apenas vento. Platão aprésenta-nos Solon contando haver sido informado pelos sacerdotes da cidade de Sais, no Egito, que, em tempos remotos de antes do dilúvio, existia uma grande ilha chamada Atlântida, à entrada do estreito de Gibraltar, que continha mais território que a Africa e a Ásia juntas; os reis daquele país, que não possuíam apenas essa ilha, mas cujos domínios por terra firme se estendiam tanto para o interior que eram senhores da largura da África até ao Egipto, e da longitude da Europa até à Toscana, quiseram chegar à Ásia e subjugar as nações banhadas pelo Mediterrâneo até ao golfo do Mar Negro: para isso, atravessaram as Espanhas, a Gália e Itália, chegando até à Grécia, onde foram detidos pelos Atenienses, mas que, pouco tempo depois, os mesmos Atenienses, a própria ilha e os seus habitantes foram tragados pelo dilúvio. É muito verossímil que essa extrema devastação das águas tenha produzido estranhas alterações nas diferentes regiões da terra, e diz-se que o mar separou a Sicília da Itália:
Hoec loca, vi quondam et vasta convulsa ruina, Dissiluisse ferunt, cum protinus utráque tellus Una foret;1
Chipre da Síria, a Ilha de Negroponto2 da terra firme de Beoce3; e, por outra parte, juntou terras que estavam separadas, cobrindo de limo e de areia os fossos intermédios,
sterilísque diu palus aptáque remis Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum.4
Mas não é muito provável que essa ilha fosse o mundo novo que acabamos de descobrir; tocava quase com a Espanha e seria uma convulsão incrível que a inundação a fizesse retroceder tanto, estando a mais de mil e duzentas léguas de distância; além disso, as navegações modernas já demonstraram que não se trata de uma ilha, mas de terra firme formando um continente com a Índia oriental de um lado e os territórios que ficam sob os dois pólos, do outro; ou que, se alguma separação há, o estreito ou intervalo é tão pequeno que não merece o nome de ilha.
Parece que há movimentos, uns naturais e outros febris, nesses grandes corpos como no corpo humano. Quando considero a pressão que o meu rio da Dordonha faz actualmente sobre a margem direita do seu curso, e que, em vinte anos, comeu tanto terreno que chegou a absorver os alicerces de alguns edifícios, avalio bem quão extraordinária foi aquela comoção, que, a continuar assim, ou a aumentar de intensidade, modificaria a configuração do mundo. Mas esses acidentes tanto se produzem numa direcção como em outra, como ainda se contêm. Não falo das inundações repentinas, cujas causas conhecemos. Em Medoc, ao longo do mar, meu irmão, o Senhor de Arsac, viu uma de suas terras engulida pelas areias vomitadas pelo mar; ainda se vêem os restos de algumas construções; suas rendas e domí nios são hoje miseráveis terras de pasto. Dizem os seus habitantes que, de algum tempo a esta parte, o mar tem avançado tanto que já perderam quatro léguas de ter reno. As areias formam as vanguardas; e vêem-se grandes montões de areia movediça, a meia légua do mar, que se vão acumulando sobre a região.
Outro testemunho da antiguidade, que alguns pretendem relacionar com esta descoberta, vamos encontrá-lo em Aristóteles, se é que esse livrinho das raras maravilhas a ele se deve. Conta-se nessa obra que alguns Cartagineses, lançando-se através do mar Atlântico, fora do estreito de Gibraltar, e depois de muito navegar, acabaram por descobrir uma grande ilha fértil, povoada de bosques e banhada de grandes e profundos rios, • a enorme distância da terra; e que esses Cartagineses e outros que se lhes seguiram, atraídos pela benignidade e exuberância do terreno, para lá se foram com suas mulheres e filhos começando a aclimatar-se ao país.
Vendo os senhores de Cartago que seu território se ia despovoando a pouco e pouco, proibiram expressamente, sob pena de morte, que ninguém mais se dirigisse para a ilha, e expulsaram os novos habitantes, receando, ao que se diz, que, andando o tempo, estes se multiplicassem tanto que os suplantassem e arruinassem seu Estado. Esta narrativa de Aristóteles também não está de acordo com as nossas novas terras.
O homem que eu tinha comigo era simples e rude, condição própria de um verdadeiro testemunho, porque os espíritos finos, conquanto observem com maior cuidado e maior número de coisas, costumam glozá-las; e, para tornar válida e persuasiva a sua interpretação, não resistem ao prazer de alterar um pouco a História; jamais apresentam as coisas puras e sempre as modificam e desfiguram conforme a aparência em que as viram; e para dar base de crédito à sua opinião e dela convencerem, adulteram a matéria de bom grado, alongando-a e ampliando-a. É preferível um homem de grande fidelidade ou tão simples que não tenha por que fantasiar e sacrificar o verdadeiro aspecto das coisas às suas falsas invenções; e que seja imparcial. Assim era o meu, e, para mais, fez-me conhecer em várias ocasiões marinheiros e comerciantes, que encontrara nessa viagem. Limito-me, pois, às suas informações sem me valer dos relatos dos topógrafos.
Necessitaríamos de topógrafos que nos descrevessem circunstanciadamente os lugares que visitaram. Mas, esses topógrafos, pelo facto de terem visto, por exemplo, a Palestina, julgam gozar do privilégio de nos dar notícias do resto do mundo. Gostaria que todos escreves sem do que sabem e tudo que sabem, não somente de viagens, mas de todos os outros assuntos. Acontece que alguns podem ter especial ciência e experiência da natureza .de um rio ou de uma fonte, e não saber do resto senão o que todos sabemos. Todavia, para divulgar esse pequeno quinhão de conhecimentos, aventuram-se a escrever toda a física. Deste vício decorrem vários e grandes inconvenientes.
Voltando ao meu assunto, creio que não há nada de bárbaro ou de selvagem nessa nação, a julgar pelo que me foi referido; sucede, porém, que classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes; dir-se-ia que não temos da verdade e da razão outro ponto de referência que o exemplo e a ideia das opiniões e usos do país a que pertencemos. Neste, a religião é sempre perfeita, perfeito o governo, perfeito e irrepreensível o uso de todas as coisas. Aqueles povos são selvagens na medida em que chamamos selvagens aos frutos que a natureza germina e espontaneamente produz; na verdade, melhor deveríamos chamar selvagens aos que alteramos por nosso artifício e desviamos da ordem comum. Nos primeiros, as verdades são vivas e vigorosas, e as virtudes e propriedades mais úteis e naturais do que nos últimos, virtudes e propriedades que nós abastar damos e acomodamos ao prazer do nosso gosto corrom pido. E, todavia, em diversos frutos daquelas regiões, que se desenvolvem sem cultivo, o sabor e a delicadeza são excelentes ao gosto, comparando-os com os nossos.
A arte não vence a nossa mãe natureza, sempre grande e poderosa. Temos sobrecarregado tanto a beleza e a riqueza das suas obras com as nossas invenções que a- destruímos completamente. Assim, ali, onde a sua pureza resplandece, ela constitui uma espantosa desonra para as nossas vãs e frívolas empresas,
Et veniunt ederae sponte sua melius, Surgit et in solis formosior arbutus antris, Et volucres nulla dulcius arte canunt. 5
Todos os nossos esforços juntos não podem reproduzir sequer o ninho do mais insignificante passarinho, sua contextura, beleza e utilidade, nem mesmo o tecido de uma mesquinha teia de aranha. Diz Platão que todas as coisas são obra da natureza, do acaso ou da arte; as maiores e as mais belas, produto de uma das duas primeiras; as mais insignificantes e imperfeitas, da última. Essas nações parecem, pois, bárbaras, simplesmente porque mal acusam ainda o rastro do espírito humano e estão muito próximas da sua ingenuidade original. As leis naturais que as regem estão ainda muito pouco adulteradas pelas nossas; mas há nisso tal pureza que lamento às vezes’ que delas não houvesse conhecimento antes, nos tempos em que existiam homens que as sabiam julgar melhor do que nós. Sinto que Licurgo e Platão não as tivessem conhecido, pois se me afigura que o que nós por experiência vemos nessas nações ultrapassa, não apenas todas as pinturas com que a poesia embelezou a idade de ouro da humanidade e tudo quanto se possa imaginar para tornar feliz a condição humana, mas ainda a concepção e o próprio objectivo da filosofia. Não imaginaram eles ingenuidade tão pura e simples como a que nós vemos nesse país; nem acreditaram que uma sociedade se pudesse manter com tão pouco artifício e tão pouca soldadura humana. É uma nação, diria eu a Platão, em que não existe género de tráfico, conhecimento de letras, ciência de números, nome de magistrado ou de outra dignidade que indique superioridade política, servidão, riqueza ou pobreza, contratos, sucessões, partilhas; de ocupações, apenas as agradáveis; de relações de parentesco, só as comuns; nem vestimentas, nem agricultura, nem metais; não bebem vinho nem cultivam cereais. Da mentira, da traição, da dissimulação, da avareza, da inveja, da maledicência, do perdão ignoram até a palavra. Quão distante desta perfeição julgaria ele a república que imaginou!
“viri o diis recentes”.6
“Hos natura modos primum dedit”7.
Vivem numa região do país muito aprazível e tão saudável que, segundo me dizem meus testemunhos, é raro encontrar-se lá uma pessoa doente; e asseguram–me também que nunca lá viram gente com tremuras, nenhum remelento, desdentado ou vergado sob o peso da velhice. Estão estabelecidos ao longo do mar, e defendidos do lado da terra por grandes e altas montanhas que se estendem a distância de cem léguas do mar aproximadamente. Têm em abundância carne e peixes, que em nada se assemelham aos nossos e que comem sem condimento, apenas assados. O primeiro homem que lhes apareceu montado a cavalo, embora já se tivessem relacionado com ele em várias viagens anteriores, causou-lhes tanto horror naquela postura que o mataram a setadas antes de o reconhecerem. Suas casas são muito compridas, com capacidade para duzentas ou trezentas almas. Cobrem-nas com a casca de grandes árvores, estão fixas à terra por um extremo e apoiam-se dos lados umas contra as outras, como algumas das nossas granjas; a parte que as cobre chega até ao solo, servindo-lhes de flanco. Têm madeira tão dura que a usam para cortar, e com ela fazem espadas e grelhas para assar os alimentos. Os leitos, feitos de tecido de algodão, estão suspensos do tecto como os dos nossos navios, e cada um ocupa o seu, porque as mulheres dormem separadas dos maridos. Levantam-se ao nascer do sol e comem logo depois, para todo o dia; porque não fazem outra refeição. Durante esta não bebem, como ‘ outros povos do Oriente, os quais, segundo Suidas, só bebem fora das comidas, mas várias vezes ao dia e abundantemente. Sua bebida é feita de certa raiz, e tem a cor dos nossos vinhos claretes. Só a bebem morna. Não se conserva senão dois ou três dias, tem o gosto um pouco picante, não sobe à cabeça, é boa para o estômago, e tem o efeito de um laxante para os que não estão habituados a ela, mas para os outros é muito agradável. Em vez de pão, comem determinada substancia branca, uma espécie de coentro açucarado. Provei-a; é doce e um tanto insípida. Passam o dia a dançar. Os mais moços dedi-cam-se à caça grossa, armados de arcos, enquanto uma parte das mulheres trata de esquentar a bebida, sua principal ocupação. H;á sempre um ancião que, de manhã, antes da comida, faz prédicas em comum a todos os habitantes da granjaria, passeando de um lado para o outro, e repetindo várias vezes a mesma exortação até dar a volta à casa (porque são construções que medem uns bons cem passos de comprimento). Só lhes recomenda duas coisas: valor para se defrontarem com os inimigos e amizade para as mulheres. E jamais deixam de ponderar esta última obrigação, repetindo sempre que são elas que lhes conservam a bebida morna e bem temperada. Pode-se ver em certos lugares, e entre eles em minha casa, onde tenho alguns, a forma de seus leitos, de seus cordões, de suas espadas e dos braceletes de madeira com que cobrem os punhos nos combates, bem como das grandes canas abertas em uma das extremidades e ao som das quais marcam a cadência da dança. Trazem a cabeça rapada e fazem a barba muito melhor do que nós, sem necessidade de outra navalha que não seja a madeira e a pedra. Crêem na eternidade das almas: as que merecem bem dos deuses repousam no lugar do céu onde o sol nasce, e as malditas no lado do Ocidente.
Têm não sei que espécie de sacerdotes e profetas que raras vezes se apresentam diante do povo e que vivem nas montanhas. Quando eles chegam, celebra-se uma grande festa, e uma assembleia solene, da qual participam vários povoados (cada granjaria, como já descrevi, forma um povoado, que fica distante do mais próximo uma légua francesa aproximadamente). O profeta fala-lhes em público, exortando-os à virtude e ao dever; mas toda a sua ciência ética se resume em dois artigos: resolução para a guerra e afecto às esposas. Fazem-lhes prognósticos sobre as coisas do futuro e os acontecimentos que devem esperar de suas empresas, encaminhando-os ou desviando-os da guerra. Mas, se falham no adivinhar, se acontece o contrário do que predizem, são presos, esquartejados em mil pedaços e condenados. como falsos profetas. Assim, o que uma vez se engana desaparece para sempre.
Adivinhar é um dom que só a Deus cabe dar; eis por que comete impostura digna de ser punida o que desse dom abusa. Entre os Citas, os adivinhos que se enganavam eram postos, de mãos e pés agrilhoados, em cima de carros de bois cheios de mato, e ali queimados. Nos que regem as coisas sujeitas à condição humana é per doável que façam tudo quanto podem para cumprir sua missão. Mas os outros, os que nos enganam com a infa libilidade de uma faculdade extraordinária que cai fora do nosso conhecimento, por que não castigá-los quando não mantêm o efeito de suas promessas, e pela temeridade de suas imposturas?
Fazem as guerras às nações situadas do outro lado das montanhas, terra a dentro; vão a elas completamente nus, levando como únicas armas arcos e espadas de madeira aguçadas na ponta, como as línguas dos nossos venábulos. É coisa de maravilhar a firmeza de seus costumes, que acabam sempre em mortandade ou em efusão de sangue, pois não sabem o que seja fuga ou pânico. Cada qual traz por troféu a cabeça do inimigo a quem deu morte, e pendura-a à entrada de sua casa. Depois de terem dado por algum tempo bom trato aos prisioneiros, facilitando-lhes todas as comodidades ao alcance de sua imaginação, o chefe congrega seus amigos em uma grande assembleia; ata uma corda a um dos braços do prisioneiro, segurando na outra ponta, a alguns passos de distância, com medo de ser ferido, e dá o outro braço a segurar, da mesma forma, ao melhor de seus amigos; então ambos o abatem a golpes de espada, perante toda a assembleia. Feito isto, assam-no e comem-no entre todos e enviam alguns pedaços aos amigos ausentes. Isto não é, como se poderia imaginar, para alimento, como os antigos Citas, mas sim para levar a vingança ao último extremo. E a prova é que, sabendo que os Portugueses, que se tinham aliado com os seus adversários, aplicavam outra espécie de morte aos canibais quando estes caíam prisioneiros, morte que consistia em enterrá-los até à cinta e assestar à parte descoberta grande número de setas, enf orcando-os depois, pensaram que, como eram gente do outro lado do mundo, e tinham propagado o conhecimento de muitos vícios entre os povos seus vizinhos e os avantajavam na mestria de toda a sorte de malícias, não realizavam sem razão aquele género de vingança mais dura que a sua, começaram a abandonar seu antigo método para adoptar aquele. Não me pesa acentuar o horror bárbaro que tal acção (significa, mas sim que tanto condenemos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas. Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos, que o mordem e martirizam (como vimos recentemente, e não lemos, entre vizinhos e concidadãos, e não entre antigos inimigos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e de religião) que em o assar e comer depois de morto. Crisipo e Zenon, chefes da seita estóica, opinavam que não havia mal nenhum em nos servirmos dos nossos semelhantes como alimento, se a necessidade a tal nos obrigasse; sitiados nossos antepassados por César na cidade de Alésia, resolveram obviar a fome do assédio com os corpos dos anciãos, mulheres e outras pessoas inúteis para o combate.
Vascones, fama est, alimentis talibus usi Produxere animas8
E os médicos não vacilam em usá-los de toda a sorte para a nossa saúde, quer pela aplicação externa, quer interna; mas não há opinião tão relaxada que desculpe a traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade, que são os nossos pecados de todos os dias.
Podemos, pois, achá-los bárbaros em relação às regras da razão, mas não a nós, que os sobrepassamos em toda a espécie de barbárie. Sua guerra é toda nobre e generosa e tem tanta desculpa e beleza quanta se pode admitir nessa calamidade humana; seu único fundamento é a emulação pela virtude. Não lutam para conquistar novas terras, pois ainda desfrutam dessa liberdade natural que, sem trabalhos nem penas, lhes dá tudo quanto necessitam e em tal abundância que não precisam de alargar seus limites. Encontram-se ainda nesse estado feliz de não desejar senão o que as suas necessidades naturais reclamam; o que for além disso é para eles supérfluo. Geralmente, entre os da mesma, idade, chamam-se irmãos; filhos, os mais novos, e os velhos consideram-se pais de todos. Estes deixam a seus herdeiros a plena posse dos seus bens em comum, só com o título todo puro que a natureza concede a suas criaturas ao depositá-las no mundo. Se seus vizinhos transpõem as montanhas para os atacar e são vencidos, o único lucro do vitorioso é a glória e a mercê de os haver dominado em valor e virtude; aliás, de nada lhe serviriam os bens dos vencidos, porque quando regressa ao seu país nada lhe falta do que necessita, nem mesmo essa grande qualidade de se saber felizmente conformar com a sua con dição e viver contente com ela. O mesmo se dá com os outros. Para o resgate dos prisioneiros exigem-lhes apenas a confissão e o reconhecimento da derrota; mas não se encontrou um em todo um século que não preferisse a morte a quebrantar, de ânimo ou palavra, um só ponto da grandeza da sua invencível coragem, ou que não preferisse ser morto e comido a pedir clemência. Dão-lhes todas as comodidades imagináveis para que a vida.lhes seja mais grata, mas, ameaçam-nos frequentemente com a morte futura, com os tormentos que os esperam, com os preparativos feitos para tal fim, com a destruição dos seus membros e o festim que celebrarão à sua custa. Fazem tudo isso para lhes arrancar da boca alguma palavra de fraqueza ou de humilhação, ou os induzir a fugir, vangloriando-se então de os terem amedrontado e quebrantado a sua firmeza. Porque, em verdade, só nisto consiste a verdadeira vitória:
Victoria nulla est,
Quam quae confessos animo quoque subjugat hostes. 9
Os Húngaros, mui bélicos combatentes, depois de reduzido o inimigo à sua mercê não o perseguiam mais. Logo que lhe arrancavam semelhante confissão, deixavam-no ir sem lhe fazer mal ou pedir resgate; somente — e era o máximo a que chegavam — lhe exigiam palavra que, de futuro, jamais se levantaria em armas contra eles.
Das vantagens que alcançamos sobre nossos inimigos, muitas são méritos alheios e não nossos. Mais próprio é de um carregador que da virtude ter braços e pernas rijas; a boa disposição para a luta é uma qualidade corpórea sem valor; da sorte depende fazer fraquejar o nosso inimigo e deslumbrá-lo com o sol da vitória; ser perito em esgrima é virtude da arte e da ciência que pode estar ao alcance de qualquer covarde ou de pessoa de insignificante valia. A estimação e o preço de um homem consiste no coração e na vontade; é aí que reside a sua verdadeira honra; a valentia é a firmeza, não das pernas e dos braços, mas da coragem e da alma; não consiste no valor do nosso cavalo, nem das nossas armas, mas no nosso. O que cai obstinado em sua coragem, “si siicciderit, de genu pugnat” 10; o que, apesar do perigo da morte próxima, não descuida um só ponto de sua segurança; o que, ao exalar o último suspiro, ainda fita o inimigo com vista firme e desdenhosa, será batido, não por nós, mas pela sorte; será morto, mas não vencido.
Os mais valentes são às vezes os mais desafortunados.
Assim, há derrotas triunfantes que equivalem a vitó rias. Nem mesmo essas quatro vitórias gémeas, as mais formosas que jamais se deram à luz do Sol, a de Sala-mina, Plateia, Micala e Sicília, se poderiam opor, com toda a sua glória conjunta, à derrota do rei Leónidas e dos seus no passo das Termópilas.
Quem, triunfando em combate, obteve glória tão viva e invejável como o capitão Iscolas em sua derrota? Quem preparou a sua salvação com tanto engenho e cuidado como ele a sua ruína? Estava incumbido de defender contra os Arcádios certa passagem do Peloponeso. Sentindo-se de todo incapaz, dada a natureza do lugar e a desigualdade das forças, e convencido de que o inimigo tinha todas as vantagens a seu favor; julgando, por outra parte, indigno da sua própria virtude e da magnanimidade do nome de lacedemónio falhar em sua missão, adoptou entre os dois extremos o meio termo seguinte: reservou os mais moços e decididos de seu exército para a defesa e serviço de seu país, ordenando-lhes que par tissem; e preparou-se para defender o desfiladeiro com aqueles cuja falta não era tão importante, fazendo, à custa da sua morte, pagar a passagem ao inimigo o mais caro possível, o que aliás aconteceu. Vendo-se rodeado por toda parte pelos Arcádios, entre os quais fez terrível carnificina,’ele e todos os seus foram passados à espada. Onde existe troféu de vencedor que não fosse mais digno destes vencidos? O papel de quem verdadeiramente vence é lutar, e não salvar a vida; a honra consiste em bater-se, e não em bater.
Voltando à nossa história, os prisioneiros, longe de se renderem diante do que se lhes faz, conservam um ar alegre nos dois ou três meses que estão em poder do inimigo; incitam seus donos a apressar-lhes a morte; desafiam-nos, injuriam-nos, lançam-lhes em rosto a sua covardia e o número de batalhas por eles perdidas contra os seus. Conservo uma canção feita por um desses prisioneiros, onde se encontra este lance: “Que venham todos quanto antes, e se reúnam a comer minha carne, porque comerão ao mesmo tempo a de seus pais e avós, que outrora alimentaram e nutriram meu corpo. Estes músculos, diz ele, esta carne e estas veias são as vossas, pobres loucos; não reconheceis que a substância dos membros dos vossos antepassados ainda está em mim’? Saboreai-os bem, que acháreis o gosto da vossa própria carne”. Nesta composição não se adverte por forma alguma a barbárie. Os que os pintam moribundos e os representam no momento do sacrifício, pintam o prisioneiro cuspindo na cara de seus matadores e fazendo-lhes visagens. Em verdade, não deixam até ao último suspiro de os insultar e desafiar por palavras e obras. Eis aqui, sem mentir, homens completamente selvagens em contraste conosco; porque ou eles o são na realidade, ou o somos nós. Há uma enorme distância entre a sua maneira de ser e a nossa.
Os homens possuem várias mulheres, e tantas mais quanto maior for a sua reputação de valente. Entre os casados, é coisa bela ,e digna de nota que o zelo, que nossas mulheres põem em nos evitar a amizade e a benevolência das demais, põem as deles em lhas adquirir. Prezando a honra dos maridos sobre todas as coisas, usam da maior solicitude em agenciar o maior número possível de companheiras, pois quanto maior for o número destas melhor será o testemunho das virtudes do marido.
Para as nossas mulheres, isto poderá parecer absurdo; mas não, é uma virtude própria do matrimónio e do mais alto grau. Já na Bíblia, Lia, Raquel, Sara e as mulheres de Jacob entregaram aos maridos suas formosas criadas; e Lívia secundou os desejos de Augusto em proveito próprio. Estratónice, mulher do rei Dejótaro, não so mente deu para uso do marido uma belíssima moça de câmara que a servia, como educou os filhos de ambos com suma diligência, e ainda os ajudou a herdar os Estados do pai.
E, para que não se pense que tudo isto obedece a uma simples e servil obrigação a que estão ligadas, ou a qual quer espécie de antiga submissão à autoridade dos maridos, à falta de discernimento e cordura, ou a terem a alma tão entorpecida que não são capazes de mais, mostremos alguns traços da sua inteligência. Além do que já citei de uma de suas canções guerreiras, conservo outra, amorosa, que começa assim: “Detém-te, cobra; detém-te, para minha irmã tirar do padrão de tuas cores o modelo e o desenho de um rico cordão que quero dar a minha amiga; que a tua beleza e condição sejam sempre louvadas entre todas as serpentes”. Esta primeira estrofe é o estribilho da canção. Ora, eu tenho bastante convívio com a poesia para julgá-la, e parece-me que não somente nada há de barbárie em sua inspiração, mas que é também completamente anacreôntica. A linguagem, aliás, é doce e de som agradável, parecenclo-se nas terminações com a língua grega.
Três daqueles homens, ignorando o quanto pesará um dia em seu repouso e felicidade o contacto com as nossas corrupções, e que do conhecimento destas nascerá a sua ruína, — o que, de resto, já deve ter acontecido, visto a loucura de se deixarem iludir pelo desejo de verem coisas novas, abandonando, pelo nosso, a doçura do seu céu, — chegaram a Ruão quando ali se encontrava Carlos IX. O Rei departiu com eles longo tempo. Mostraram-lhes os nossos costumes, nosso luxo, o que era uma bela cidade. Depois, alguém pediu-lhes a opinião sobre o que mais os havia surpreendido. Responderam que três coisas, das quais esqueci a terceira, o que muito lamento; mas duas ficaram-me na memória. Disseram que, em primeiro lugar, achavam muito estranho que tantos homens importantes, de grandes barbas, fortes e bem armados como aqueles que rodeavam o Rei (é muito provável que se referissem aos Suíços da guarda real) rendessem obediência a uma criança em vez de escolher entre eles um para os comandar. Em segundo lugar (têm uma forma de falar que divide os homens em duas partes), tinham reparado que havia entre nós pessoas cheias e fartas de comodidades de toda ordem, enquanto a outra metade mendigava a suas portas, descarnada de fome e de miséria; e que lhes parecia também singular como essa outra metade podia suportar tamanha injustiça sem estrangular os demais e lançar fogo a suas casas.
Falei com um deles durante muito tempo; mas tinha um intérprete que me seguia tão mal, e cuja estupidez velava tanto as minhas ideias, que pouco prazer recebi de tal conversa. Ao perguntar-lhe que vantagens lhe dava a superioridade que tinha sobre os seus (porque era um Capitão, a quem nossos marinheiros chamavam Rei), respondeu-me que a de ser o primeiro a partir para a guerra; inquirindo-o sobre o número de homens que o seguiam, marcou com o dedo um espaço da cidade para significar que tantos quantos ali cabiam, isto é, entre quatro a cinco mil homens; se, fora das lides da guerra, toda a sua autoridade cessava, disse que ainda lhe ficava. o privilégio, quando visitava os povoados que dele dependiam, de-se lhe abrirem os caminhos através do matagal dos bosques, por onde podia passar muito à vontade.
Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções.
1 “Diz-se que essas terras foram separadas por violenta convulsão, e que até então formavam um sô continente”. (Virgílio, En., III, 414).
2 A Eubeia.
3 Beócia.
4 “E uma laguna, muito tempo estéril e navegável, alimenta hoje as cidades vizinhas e suporta o peso do pesado arado”. (Horácio, Arte Poética, 65).
5 A hera cresce melhor sem cultivo, e o medronho brota mais formoso nos lugares solitários, e o canto das aves, por não ter artifício, não é menos doce”. (Propércio, I, II, 10).
6 “Homens que acabam de sair das mãos de Deus”. (Sêneca, Ep., XC).
7 “Eis as primeiras leis que a natureza deu”. (Virgílio, 10, Georg., II, 20).
8 “É fama de que os Vasconços prolongaram suas vidas nutrindo-se de tais alimentos”. (Juvenal, XV, 93).
9 “A única verdadeira vitória é aquela que, dominando a alma do
inimigo, o força a confessar-se vencido”. (Claudiano, De sexto Consulatu
Honorii, 248).
10 “Se caíres, combate de joelhos”. (Séneca, De providentia, c. 2).
Texto em francês

Discurso Sobre a Servidão Voluntária Etienne de La Boétie

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