ven, cura esta herida, este blues de incierto final

[qui] 25 de junho de 2015

o tempo do ponteiro gira…
drexler repete-se indefinidamente na vitrola.
é vício, esse cara.
e já não me impaciento por supostamente perder meu tempo.

almocei com minha filha ontem. relaxei, entre um berro e outro, pela tarde. me diverti nas aulas… como eu me divirto em sala. e na ida diante da incapacidade de continuar a leitura, e preso em mais um dia nos intermináveis engarrafamentos da sc-403, me pus a atentar a poesia…

na ida foi um exercício:

exercício sob o que há para além dos olhos de um cão

da profundidade
do olhar canino
me crava uma ideia
para além da carne
e dos ossos:

como deixar o coração latir
se estou aqui
já pensando em partir?

***

na volta, um fragmento… reelaborado neste começo de madrugada:

exercício sobre o transeunte

na primeira cena,
a pele dele
seca como o vento
confunde-se no azul
do lápis-lazúli.

na segunda,
a barba rala
é áspera e ao mesmo tempo morna
como o vapor da terra.

na terceira,
a solidão em suas mãos
presente e dura
como um meteoroide.

na quarta,
os pés, semi-nus,
tão velozes
que ultrapassam o tempo.

na quinta,
o olhar distante
como uma árvore
ou uma montanha.

na sexta,
um corpo estranho
entre os pensamentos.

na sétima arte,
apenas mais um que passa,
mudo, na noite interminável,
decupando-se¹,

em terminais
rodoviários.

e para fechar a noite, exercício de juntar palavras

a noite
alinegra
uma epítome
poética.

__________________________________

e para ter uma noção, porque eu ri de mim mesmo quando percebi em que caos estou: ontem, quarta-feira, um colega me avisou que perdi o segundo encontro do curso de formação. estranhei, estava eu crente que seria hoje, quinta-feira, o terceiro encontro. que para mim eu já havia perdido esse segundo encontro na quarta-feira passada… e para surpresa minha quando chego em casa e vou olhar o cronograma… caio no riso, o foda-se eu já tinha dado na semana passada. e o que sobra para hoje é saber que não vou ter que acordar as 5 da manhã e passar o dia inteiro fora de casa, ufa. mas a ideia de ir ao centro, e de quebra comprar um quilo de erva, miou.

e chego a conclusão que eu estou só um pouco perdido… só um pouco. um pouco menos do que isso eu diria que é normal: a minha normalidade é este estado entre o precário, o provisório, o imperfeito, o falível… sempre inacabado, inconcluso…

por isso que eu digo: tudo é mais caótico do que podemos imaginar.

_________________________________________________________________–

notas de rodapé:

¹ permito-me aqui esse transbordar do verbo. Faço ele delirar e o resignifico.

Citando coisas…

#1

«Justamente aqueles produtos da atividade humana que não podem ser apreendidos enquanto tais sem que haja uma peculiar cooperação do receptor (intérprete), cooperação tornada possível apenas porque há uma anterior conexão que liga o fruidor (intérprete) e a obra.”(GOMES,1996,p.102)

Talvez com certa folga possamos propor o entendimento desta dimensão larga, e quase arqueológica, do termo poesia como criação que faz, produz, alguma coisa.

Numa nota de pé de página, Gomes (108), nos traz a definição de poiesis, do Banquete, de Platão: “Sabes que poiesis é algo múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do não-ser ao ser é poiesis. De modo que as confecções de todas as artes são poiesis e todos seus artesãos, poetas…» Extraído daqui ó. Por Roberto Lyrio Duarte Guimarães.

***

#2

«Ven, cura esta pena, quítame estas ganas de ti. Ven, que está frío fuera y hace tanto calor aquí.  Te ví
cruzar la calle y algo crujió dentro de mí…  Ven, que ya se hace tarde y este tren se está por ir.  Muy señora mía ten piedad de un simple mortal. Ven, cura esta herida, este blues de incierto final.  Tu piel
traerá perfumes, reflejos de estrella fugáz…  Ven, ya no lo dudes, no hará falta nada más.  Tan sólo: uuu nosotros dos…» Jorge Drexler.

 

 

%d blogueiros gostam disto: