a barca sob a bruma

[seg] 17 de novembro de 2014

ali fora, ao relento, uma obra me espera… e é uma espera entre jovens árvores que crescem milimetricamente por dia… é uma espera em um cenário de pós-guerra. eu habito ruínas, ainda.

e os materiais da escola também esperam algo de mim… e a janela para fechar todas essas notas e tudo mais que é necessário está fechando-se, absurdamente rápida. segunda-feira será um dia bem puxado.

e cá dentro, sob o teto da casa, tento extrair toda a poeira da sala, dos livros amontoados, da televisão abandonada… mas a vontade, cá dentro, sob o teto da casa, é de fazer nada – suspender o tempo e só ficar mofando… mas, qualquer coisa alheia – compromissos? deveres? expectativas? – me anima o suficiente para não entrar em estado de decomposição acelerado. mantenho-me lentamente…

e deixo o rádio tocar aleatoriamente qualquer coisa para que haja alguma voz humana, ou qualquer ruído mesmo, a me fazer companhia. e movimento-me entre a poeira pelo canto, uma vida sem sentido e a vontade de nada da tarde.

e agora, cá dentro, sob o teto, no universo virtual, limpo as palavras do computador… como se eu precisasse desmemoriar-me ao rememorar… deleto-me, aos pouco.

e lá na sala a rádio toca: «(…) a barca segue seu rumo lenta como quem já não quer mais chegar, como quem se acostumou no canto das águas, como quem já não quer mais voltar (…)»

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