«mon triste cœur bave à la poupe…» ou rimbaud e cortázar

[qui] 6 de novembro de 2014

«Agora sabemos que Arthur Rimbaud é um ponto de partida, uma das fontes por onde se lança ao espaço a árvore líquida da nossa Poesia. (…) Acontece que Rimbaud (e daí sua diferença básica com Mallarmé) é antes de mais nada um homem. Seu problema não foi um problema poético, e sim o de uma ambiciosa realização humana, da qual o Poema, a Obra, deviam constituir as chaves. Isto o aproxima mais que qualquer outra coisa de nós, que vemos na Poesia uma espécie de desenfreamento total do ser, sua apresentação absoluta, sua enteléquia. E além disso intuímos nessa conquista uma recompensa transcendente, uma graça que responde à necessidade inevitável de uns poucos corações humanos. (…)  Há uma diferença nem sempre notada entre o Rimbaud que escreve a ‘Lettre du Voyant’ e o Rimbaud dos anos posteriores, até a hora do silêncio. Toda reflexão de ordem estética, todo método explicitamente revelado, transmutam-se diretamente em Obra. Nem sempre esta corresponde àqueles. É como se ele, mesmo possuindo a chave, se lançasse pela janela. Os poemas, a partir de então, são diários de viagem. E que viagem! Não me parece, contra a opinião de  Marítain e outros, que Rimbaud buscasse um absoluto de Poesia. Sempre pensei que sua descida aos infernos — “Je me crois en enfer, donc j’y suis” — era uma tentativa de encontrar a Vida que sua natureza lhe exigia. O desespero, o insulto, a amargura, tudo o que o faz rebelar-se diante da existência burguesa que é obrigado a suportar são provas de que há nele um homem ansioso por viver; do contrário, teria adotado um procedimento eliminatório ou estóico, a retirada e o silêncio desdenhoso. Tudo isso desmorona no dia em que uma crise moral — elemento até então deliberadamente desprezado por ele, e que de repente vai à forra — leva-o a escrever ‘Uma temporada no inferno’, cuja leitura seria muito mais proveitosa que este ensaio para medir a profundidade  de uma alma e o fracasso de uma ambição. Findo esse dilacerante resumo de viagem, Rimbaud irá despertar para a sua nova existência de derrotado que admitiu a necessidade da resignação. Por que Rimbaud não se matou? É que, na verdade, ele se matou. O que resta dele é um costume de viver, de viajar; uma lembrança corporizada, um retrato vivo. Mas Arthur Rimbaud, poeta, havia morrido em seu quartinho de Roche, com suas últimas linhas: “et il me sera loisible de posséder la verité dans une âme et un corps”. Este paradoxal otimismo que resulta do balanço final não passa de um estímulo necessário para prosseguir a caminhada. (…)  O homem continua a sua passagem, mas agora é o homem à medida das coisas; não o ‘homem Rimbaud’ que ele, em sua boêmia tormentosa, alguma vez sonhou com o nariz grudado na janela, a mão mergulhada no cabelo rebelde e o “perfeito rosto de anjo no exílio” contraído num ricto de colérica esperança. (…) A aventura de Rimbaud é um ponto de partida para a dilacerada poesia do nosso tempo, que supera em consciência de si mesma qualquer outro momento da história espiritual; agora, sendo mais modestos, somos ao mesmo tempo mais ambiciosos; agora conhecemos a grandeza e a miséria dessa Poesia, intuímos suas fontes e buscamos suas camadas. Somos, neste sentido, os ‘voyants’ que ele reclamava. Será que o homem deixa por isso de correr o risco de ícaro? Não creio. Em todo poeta há uma fatalidade que o arrasta, uma “mania”. E se a tentativa nesta ordem está destinada a fracassar, se o absoluto não lhe pode ser dado, se o conhecimento poético, como o místico, é inexprimível, sua passagem nunca será vã.» Denis, Julio (pseudônimo). 1. Rimbaud (1945). In: Cortázar, Julio. Obra crítica, volume 2 / Julio Cortázar; organização de Jaime Alazraki; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. – Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1999. p.13-20.

***

LE CŒUR SUPPLICIÉ

Mon triste cœur bave à la poupe…

A. R.

%d blogueiros gostam disto: