leituras cotidianas

[ter] 4 de novembro de 2014

«Não é favor algum ao povo propor-lhe uma literatura assimilável sem esforço, passivamente, como quem vai ao cinema ver filmes de caubóis. O que se deve fazer é educá-lo, e isto numa primeira etapa é tarefa pedagógica e não literária. Para mim, foi uma experiência reconfortante ver em Cuba como os escritores que mais admiro participavam da revolução dando o melhor de si sem cercear parte de suas possibilidades em prol de uma suposta arte popular que não será útil a ninguém. Um dia Cuba contará com um acervo de contos e romances que conterá, transmutada ao plano estético, eternizada na dimensão atemporal da arte, sido escritas por obrigação, por palavras de ordem do momento. Seus temas nascerão quando chegar a hora, quando o escritor sentir que deve plasmá-los em contos ou romances ou peças de teatro ou poemas. Seus temas conterão uma mensagem autêntica e profunda, por que não terão sido escolhidas por um imperativo de caráter didático ou proselitista, mas por uma força irresistível que se imporá ao autor, e que este, lançando mão de todos os recursos de sua arte e de sua técnica, sem sacrificar nada a ninguém, haverá de transmitir ao leitor como se transmitem as coisas fundamentais: de sangue a sangue, de mão a mão, de homem a homem.» ‘Alguns aspectos do conto’, de Júlio Cortázar, em Obra crítica/2, organizada por Jaime Alazraki, nas páginas 362-363. Editora Civilização Brasileira. 1999

*

«A análise de um romance – o literário por excelência a partir do século XIX – mostra que, se reduzirmos o alcance do termo a instâncias verbais, de linguagem, o estilo romanesco consiste num compromisso do romancista com dois usos idiomáticos peculiares: o científico e o poético. Rigorosamente falando, não existe linguagem romanesca pura, porque não existe romance puro. O romance é um monstro, um desses monstros que o homem aceita, alenta, mantém ao seu lado; mistura de heterogeneidades, grifo transformado em animal doméstico.Toda narração comporta o emprego de uma linguagem científica, nominativa, com a qual se alterna, imbricando-se inextricavelmente, uma linguagem poética, simbólica, produto intuitivo em que a palavra, a frase, a pausa e o silêncio transcendem a sua significação idiomática direta. O estilo de um romancista (considerando-o ainda deste ponto de vista apenas verbal) decorre da dosificação entre os dois usos da linguagem, da alternância entre sentido direto e indireto que ele dê às estruturas verbais no curso de sua narração.  Prefiro qualificar aqui de enunciativo o uso científico, lógico, se quiserem, do idioma. Um romance comportará então uma associação simbiótica do verbo enunciativo com o verbo poético, ou melhor, uma simbiose dos modos enunciativos e poéticos do idioma.» ‘Notas sobre o romance contemporâneo (1948), de Júlio Cortázar, em Obra crítica/2, organizada por Jaime Alazraki, na página 133. Editora Civilização Brasileira. 1999

 

***

diário: minha cabeça está se descolando dos meus pés… a vontade é voar enquanto meus pés de chumbo me puxam para dentro da terra, para o estômago do vulcão. há um descompasso entre desejo e ação. e tudo oscila… há coisas concretas a serem feitas. é preciso objetivar essas ideias… mas em derivações vou liquidamente deslizando num reguero de cabos sueltos… 

normalmente evito estabelecer metas a serem atingidas… sonho, mas metas são coisas que exigem investimentos de ordem mental e emocional – e há uma resistência absurda em investir-me em algo ou alguém. o hábito é recuar-me até um porto de segurança e aguardar os barcos do imponderável chegarem e partirem-se. sonhando-se com o mar enquanto molha-se os pés na água fria e salgada na beira do abismo – algo como morrer na praia sem ter ido ao mar, morre-se antes de partir. mas sonha-se… quereria algo assim: «O primeiro homem a pisar no sol… só pra ver o gelo da dor derreter». a crônica nativa narra o desejo transcendente, a viagem que parte do ordinário ao extra-ordinário… o além-mar, o sonho, essa extra-ordem…  e neste movimento o naufrago percebe-se: chegar e partir são coisas da ordem do imponderável, no sentido do imprevisível.

mas enquanto etnógrafo, é preciso atentar-se à cotidianidade e seus acontecimentos, como o cozer, as refeições, os confrontos, os laços e as disputas, os dramas e as trivialidades, a doença e os medos. é preciso mergulhar no imaginário nativo para entender este movimento, suas contradições e seus significados. é preciso  atentar-se aos imponderáveis da vida

***

O sentido não nasce da vontade repentina de um sujeito enunciador. O discurso tem uma memória, ou seja, ele nasce de um trabalho sobre outros discursos que ele repete, ou modifica. Essa repetição ou modificação não é necessariamente intencional, consciente, nem imediata […] Ao contrário, pode ser oculta ao sujeito enunciador. (MITTMANN, 1999, p. 272)

O curso de um rio, seu discurso-rio, chegararamente a se reatar de vez; um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez.
(MELO NETO, [1975])

***

«Proust disse: “Nesse nosso mundo onde tudo fenece, tudo perece, há uma coisa que se deteriora, que se desfaz em pó até de forma mais completa, deixando para trás ainda menos traços de si do que a beleza: a saber, a dor”.»

***

interesssante: http://cargocollective.com/xilocoletivo

%d blogueiros gostam disto: