estive cansado e faço colagens na tarde ensolarada…

[ter] 7 de outubro de 2014

primeiro… há várias citações aguardando serem colocadas por cá – por este blogue serve para isto… guardar coisas, memórias, intenções… momentos vividos. mas elas vão ter que esperar porque eu me sinto cansado – e quando pensei nesta palavra, traduzindo essa sensação, minha memória afetiva remeteu-me a esta canção… até deu vontade de ouvir…

«Soul Parsifal // Renato Russo // Legião Urbana // Ninguém vai me dizer o que sentirMeu coração está desperto / É sereno nosso amor e santo este lugar / Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom / Eu tive o teu veneno / E o sopro leve do luar / Porque foi calma a tempestade / E tua lembrança, a estrela a me guiar / Da alfazema fiz um bordado / Vem, meu amor, é hora de acordar / Tenho anis / Tenho hortelã / Tenho um cesto de flores / Eu tenho um jardim e uma canção / Vivo feliz, tenho amor / Eu tenho um desejo e um coração / Tenho coragem e sei quem eu sou / Eu tenho um segredo e uma oração / Vê que a minha força é quase santa / Como foi santo o meu penar / Pecado é provocar desejo / E depois renunciar / Estive cansado / Meu orgulho me deixou cansado / Meu egoísmo me deixou cansado / Minha vaidade me deixou cansado / Não falo pelos outros / Só falo por mim / Ninguém vai me dizer o que sentir / Tenho jasmim tenho hortelã / Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã / Com a saudade teci uma prece / E preparei erva-cidreira no café da manhã / Ninguém vai me dizer o que sentir / E eu vou cantar uma canção p’rá mim.»

não sei o que me deixou cansado assim… se foram todos esses pensamentos pós-eleição ou tudo mais… às vezes penso que sou sensível demais e há toda uma sensação angustiante – as vezes de leve – quase o tempo todo. ver tanta gente de direita, tanto preconceito, tanta violência e tanta ignorância me sufocam. me sinto um estranho neste mundo e sinto tanta falta dos meus… sozinho é tão fácil enlouquecer.

***

mas intuo que há um pouco deste frio na barriga diante do salto… que quando breco – e paralisado pela excitação/medo danado de ir [e vai que é para gente ser feliz?!] eu acabo ficando aqui nesta zona cinzenta¹. é a contradição que mata. só o amor liberta. eu me enoso – mesmo que eu não tenha encontrado o verbo enosar. e quedo triste. o mundo gira ali fora, queria ficar um cadinho mais por cá, dentro. ‘bora andar de ônibus para poder pensar…

***

1. Abaixo extrai o texto do blogue [http://zonacinzenta.blog.terra.com.br/] que sumiu… recordo-me que já havia posto um link para lá em outro momento/postagem nesta vida. «Zona Cinzenta é uma expressão literária para descrever a indescritível experiência de Auschwitz, empregada por Primo Levi, escritor italiano e sobrevivente do Holocausto. Também é uma releitura feita por Giorgio Agamben, pensador italiano e teórico do Estado de Exceção e do Homo Sacer, feita com propriedade para os tempos atuais, uma espécie de experiência moderna do holocausto produzida por técnicas de poder mais sutis e não menos inumanas. Para Agamben, a Zona Cinzenta é o espaço onde acontece o cruzamento de fundamentos dos saberes e das leis para fundar uma nova experiência política que tem a função de matar para gerir a vida e gerir a vida para matar – a Biopolítica. Entre sistemas de exclusão dos direitos políticos, racismo, indeterminação entre oprimidos e opressores, práticas de extermínio da vida, a Biopolítica, como dizia Foucault, legitima-se sob os fundamentos do racismo – no qual se uma raça quer viver, deve matar a mais fraca (seja no sentido mais literal da expressão, seja no sentido político dela). Racismo que se torna válido nas prescrições científicas dos saberes (medicina social, sociologia, etc) e que corrobora sua prática, principalmente, nos produtos que essas técnicas discursivas alinham para o perfeito funcionamento de seu sistema: na distinção, qualificação e hierarquização das raças, para garantir o modo de vida, combate e domínio do bando soberano. Esse é um blog que se destina a reunir apontamentos, observações e investigações de temas que se conectam à Zona cinzenta. É mais um diário de pensamentos e anotações que farei das minhas leituras e releituras de Foucault, Deleuze, Agamben, Kafka, Maurice Blanchot, entre outros. Mais para além de um diário virtual que tenta descrever os fatídicos fatos corriqueiros de uma vida que quer se tornar privada-pública. Uma guerrilha cultural, talvez. E para aqueles que crêem que o racismo é apenas uma balela, um lembrete do maravilhoso psicanalista Jacques Lacan – “O futuro do mundo é o racismo”. Não quero ser voz na multidão, nem luz na escuridão. Mais que ser negra como a noite ou claro como o dia, essas palavras serão cinzas como a fumaça dos corpos queimados que sobe aos céus. André Campos»

%d blogueiros gostam disto: