está se sentindo normal hoje?

[qua] 24 de setembro de 2014

«Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.» — Caio Fernando Abreu. Existe sempre alguma coisa ausente, in: Pequenas Epifanias

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muquém as escuras. 10 horas sem energia e nada por parte do estado… no fim… alunos e professores para casa. escola fechada. e posso rever um vídeo sobre caio fernando abreu.

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isto foi ontem. hoje… Texto/poema do camarada Fábio Aquino, que traduz esse sensação aqui dentro que tenho

«Ai você acorda e olha para os lados, é o momento em que nota que é o ultimo passageiro (consideravelmente embriagado) a descer do ônibus madrugadão norte numa terça-feira.
De qualquer modo a noite borrará algumas memórias
O dia seguinte jogará de novo o peso da vida em suas costas.
Como se fosse normal
O sol se levantará e homens e mulheres despertarão com apitos de relógios e irão trabalhar fora como se fosse normal.
Tomarão o transporte público como se fosse normal
Crianças irão para a escola como se fosse normal
Pessoas tomarão decisões por você como se fosse normal
Você não pensará nisso como se fosse normal
Você tentará ser normal
Desejará a normalidade
Rir, amar, odiar e transar sendo normal
Irá fugir como se fosse normal
E a violência será normal
O desprezo, a indiferença
A polícia, os juízes, os senhores
O ódio normal, o medo normal
E por fim
Sem que ninguém note
Morreremos todos
Afogados no mar da normalidade

Está se sentindo normal hoje?»

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compilação de intuições… ando com uma dificuldade tremenda em escrever poesia. tudo é um tanto insuficiente. como falar da beleza ou da coragem se não sinto-me tão pouco bonito ou nenhum pouco corajoso. e como falar do amor… se exausto e descrente não me permito ousar? e amar-te… e como falar da revolta… que não materializada em ação coerente torna-se impotente, cínica, queixa… lamúria… lamento. e neste pântano putrefato da vida nenhuma poesia brota… elas apodrecem cá dentro antes de sentirem o sol. ontem, quase… quase… tentava versar sobre esse sensação de não ser um bom moço, um homem respeitável, um pai de família, um cidadão bem sucedido… e que só há um revolta cega e louca que me devora por dentro… como se eu precisasse não me prender a ninguém e vomitar minha existência disforme, errante, precária na normalidade alheia. normalidade tão estúpida e violenta. então sinto-me profundamente conectado com todos os que são marginalizados, violentados, invisibilizados, alienados cotidianamente… mas o poema/revolução não sai. estou trancado.

fábio traduziu com sua narrativa esse espírito presente de estranhamento e e necessária desnaturalização da nossa barbárie cotidiana, essa normalidade a que estamos submetidos.

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