vida loka

[qui] 4 de setembro de 2014

charge27 imagem extraída daqui: omnibiociencia

abaixo o resumo e um excerto do trabalho ‘Como é bom ser vida loka’ de Liana Roxoa Vieira. Vale leitura integral. Excelente texto

«Como é bom ser vida loka: Juventude, escola e o consumo musical do funk – Liana Roxoa Vieira
O trabalho constitui-se em uma pesquisa sobre juventude e consumo musical do estilo funk. Analisa como os jovens significam o consumo de tal estilo em suas vidas e principalmente como percebem a relação da escola com esse gênero musical. Tem como objetivo compreender o que o funk representa para os jovens pesquisados e problematizar os aspectos do consumo desse estilo musical dentro da escola. A pesquisa é do tipo qualitativa com características de estudo de caso e teve como instrumentos de análise observações e entrevistas realizadas com jovens alunos em idades entre 12 e 16 anos de uma escola pública de Porto Alegre/RS. As análises dos dados estão ancoradas nos estudos de Dayrell (2002; 2007), Giroux (2009), entre outros. A partir da interação com os jovens foi possível identificar que consumo, sexualidade, pertencimento, entre outros temas estão presentes na cultura do funk. A pesquisa também identificou que o consumo do estilo musical funk é marginalizado na escola, sendo inclusive ponto de conflito entre alunos e professores. Ou seja, essa cultura juvenil não é bem vinda na escola.»

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«3 ESCOLA, JUVENTUDE E O CONSUMO DO FUNK
A escola, desde sua criação, teve papel fundamental no campo histórico e político do país. Os múltiplos aspectos e funções colocados sobre ela: moralizadora, socializadora, transmissora de conhecimentos, têm sido centrais nos debates e estudos produzidos por teóricos educacionais. Segundo Silva, Silva e Freitas

a instituição escolar configura-se, na atualidade, como um locus primordial na educação dos indivíduos, além de ser, ela mesma, um espaço sociocultural onde convivem grupos em um processo contínuo de construção e reconstrução de suas identidades. Em outras palavras, a escola não apenas transmite conhecimentos historicamente acumulados, ela também produz identidades culturais
(SILVA, SILVA e FREITAS, 2012, p. 3).

As identidades produzidas pela escola não são quaisquer identidades, o que a teoria educacional tem apontado é que tais identidades são marcadas pela seleção de determinados valores e saberes, de acordo com padrões e normas relacionados à classe social, ao gênero e a raça/etnia, entre outros
marcadores sociais. De acordo com Meyer e Soares (2012):

Desde sua constituição, a escola moderna é marcada por diferenças e está implicada, também, com a produção dessas diferenças. Embora não seja possível atribuir a ela toda a responsabilidade pela construção das identidades sociais, ela continua sendo, para crianças e jovens, um local importante de vivências cotidianas específicas e, ao mesmo tempo, plurais. (MEYER e SOARES, 2012, p.43).

Apesar desses temas não serem recentes não significa que sejam temas fáceis. Ao contrário, operar com a diversidade cultural é cada vez mais umtema que se complexifica no decorrer da história. Por diversos motivos, a escola encontra dificuldades em integrar suas práticas educativas cotidianas com a diversidade cultural trazida por seus alunos. Louro (1995) aponta que as práticas educativas e de poder que se desenvolvem em nossa sociedade se dão também entre gerações: adultos e crianças, jovens e velhos. Porém, a cultura juvenil é outro aspecto que parece não ser bem-vindo à escola. As condições culturais em que vivem os jovens, como coloca Giroux (1996), são  quase totalmente ignoradas por professores e professoras.

Nesse sentido, incorporar essas diversas culturas e acima de tudo, respeitá-las torna-se um desafio para a escola que “ainda domina uma determinada concepção de aluno gestada na sociedade moderna” (DAYRELL, 2007, p. 1119).
A cultura juvenil, vista pela escola como uma ameaça à ordem, muitas vezes é caracterizada como perigosa, tornando-se um problema social.uma tendência de se realizar um controle moral, uma repressão preventiva e uma interminável vigilância para amenizar os possíveis estragos cometidos pela juventude. Há também a tentativa de cuidá-los e mantê-los sempre ocupados para que não se desviem daquilo que lhes é imposto. Green e Bigum (1995) trazem um retrospecto da visão de juventude:

a juventude era, antes, vista como algo do qual, ao final, a pessoa acabava se livrando, como um estágio temporário no movimento em direção à normalidade, a ser superado na totalidade, na completude da fase adulta. Essa passagem tornou-se agora carregada de uma incerteza arbitrária. Cada vez mais alienados/as, no sentido clássico, os/as jovens são também cada vez mais alienígenas, cada vez mais vistos como diferentemente motivados/as, desenhados/as e construídos/as (GREEN e BIGUM, 1995, p. 212).

Desde a época em que eu lecionava para esses jovens, algo me inquietava. Era nítido que a escola reprimia o funk, proibindo que os alunos escutassem esse gênero musical na escola, argumentando que as letras das músicas eram “indecentes”. Eu ficava pensando como a escola legitima certas atitudes, preferências e hábitos e exclui outros, nesse caso, o funk. Por que “menosprezar” um estilo musical apreciado pelos jovens? Por que tentar evitar que o funk seja consumido pelos jovens? Por que não incorporar a cultura popular dos jovens na escola a fim de viabilizar um planejamento contextualizado e significativo aos alunos? Por que reprimir ao invés de compreender os fatores culturais que os levaram a consumir esse estilo musical?

A escola deveria ser um espaço de liberdade de expressão, de trocas de idéias, de debates de assuntos pertinentes aos alunos, mas “é comum que a realidade cultural desses alunos seja invisibilizada pelas práticas educativas” (SILVA, SILVA e FREITAS, 2012, p.2). Tais práticas esquecem o “jovem” existente no aluno, como se os alunos fossem seres sem cultura, sem um tempo histórico, sem um contexto de vida. Cada vez mais se torna necessário a imersão do professor na vida do aluno, a fim de estimulá-lo a sentir prazer de estudar, buscar conhecimento e ver a escola como significativa e parte constituinte de sua vida, mas o que percebemos é que

para os jovens, a escola se mostra distante dos seus interesses, reduzida a um cotidiano enfadonho, com professores que pouco acrescentam à sua formação, tornando se cada vez mais uma “obrigação” necessária, tendo em vista a necessidade dos diplomas
(DAYRELL, 2007, p. 1106). »

***

continuará.

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