a caderneta do poeta e suas contradições

[dom] 6 de abril de 2014

Trilha sonora desta postagem…

Comecei com isto: Bolívia de Drexler com Caetano Veloso, um bela canção de seu novo album Bailar en la cueva… E me perdi por estas bandas… Blue (de Lisandro Aristimuño) por Lisandro e Paulinho Moska; e  Sueño Con Serpientes  de Silvio Rodriguez; Un Vestido Y Un Amor (Te Vi) de Fito Páez; Canción de amor de Lisandro Aristimuño; Como La Cigarra (composição de María Elena Walsh) por Pedro Aznar; A Primera Vista (Pedro Aznar e Chico César) por Pedro Aznar; Carta a Francia de Fernando Delgadillo; Quien FueraTe Doy Una Canción e Ojalá, todas de Silvio Rodriguez; La cancion mas hermosa del mundo e Contigo (de Joaquin Sabina e Pancho Varona) por joaquin sabina…

 

Abaixo um fragmento (páginas 428-429) sobre o poeta:

«Mas o ano de 1927 em nada ameaçava Maiakovski. Apesar do cansaço acumulado, ele tinha que batalhar em duas frentes, porém o trabalho o absorvia por inteiro e ele redodobrava as forças.. Umas das frentes era a Revolução, seus ideais (poemas “Bom!”, “À nossa juventude”, “A voz da Praça Vermelha”, “Pelas cidades da URSS”, “Os primeiros comissários”, “Lenin está conosco!”), a segunda frente era a sátira, os golpes nos costumes pequeno-burgueses e na burocracia. Parafraseando o próprio Maiakovski, ao falar do poema “Os doze” de Blok, pode-se concluir que em tudo o que ele escreveu durantes estes anos, de um lado, estava a glória à Revolução, e do outro, a sátira sobre a sua continuação. Ainda voltaremos a essa trágica bifurcação da consciência de Maiakovski. O mundo realmente, como afimar Heine, partiu-se em duas matades e a rachadura atravessou o coração do poeta. Diante dele surge de forma mais crítica a questão: em quem acreditar?
Sobre a mesa do escritório, bastava levantar a cabeça, estava a fotografia de Lenin, que continuava a personificar para Maiakovski o ideal de líder e de ser humano, a sua crença. Nos corredores do poder Maiakovski encontra pessoas bajuladoras, burocratas, corruptas e pomposas. A elas o poeta contrapõe a imagem ideak e pura do revolucionário. O poeta se orienta e se apoia em Lenin na sua luta com as mazelas do cotidiano “Soviético”. Olha o retrato e revive a imagem: milhões de pessoas passando diante dele, um mar de bandeiras, as mãos erguidas…. Apesar do difícil cotidiano do Estado – extração de carvão e minério, a luta contra a pobreza, contra os burocratas, os bajuladores, os sectários e os bêbados, seus poemas tem força lírica. Em seus versos agrega à figura de Lenin a figura de Dzerjinski, e a de Teodor Nette, que morreu no seu posto do corpo diplomático (“Quero encontrar a minha morte como a encontrou o companheiro Nette”)… É muito significativo que associe o seu ideal somente àqueles que já estão mortos e a nenhum dos vivos.
Mas entre os vivos está o camarada Ivanov, que se intromete “em tudo e em todos os lugares”, “ensaboado com o sabonete escorregadio dos bajuladores”. Mas está vivo o “mosqueteiro do partido”, o jovem que decorou manuais do comunismo e “acabou para sempre com as ideias do comunismo”. Está vivo o “todo pomposo cidadão soviético” que pensa que “para sempre poderá protelar e mandar”, já que é membro do Comitê Central. Está vivo o companheiro Popov, que acredita que a “crítica vinda de baixo era veneno. Vinda de cima era remédio!” E isso era o “pilar” do sistema. Estão vivos o “lambujeiro”, o “fofoqueiro” – uma galeria inteira de tipos que terminava como o companheiro Podebonosikov, da peça Os banhos, uma galeria de anti-heróis.
E se enfileirarmos todos os poemas satíricos de Maiakovski sobre temas internos e acrescentarmos a eles as peças O percevejo e Os banhos, o quadro é completamente triste. Nenhum poema e nenhum verso de propaganda, como em “Monumento aos operários de Kursk” ou “Conto do fundidor Ivan Kozirev sobre a mudança para o apartamento novo”, ou o trecho final do poema “Bom!”, esclarecem o cenário da realidade soviética dos anos 1920. Quase tudo é positivo, tudo deve ser expressado como realização do sonho revolucionário, e o poeta expressou em declarações, em palavras de ordem e em lemas. Sobre isso nos dizem também os títulos dos poemas “Produza pão!”, “Prepare-se! Pare! Construa!”, “Companheiros administradores!”, “Pra frente, Komsomol!”, “Produza automóveis!”, Crave a autocrítica!”, “Votamos pela não-interrupção!”, “Produza a base material!”, “A marcha das brigadas de vanguarda!” etc.
Por um lado, o momento político pouco atraente e que acabaca com as esperanças, por outro – Produza! Pra frente! Construa! E as estes lemas, palavras de ordem e marchas animadas…. Qual era o caminho de volta? Era bem diferente daquele que o impaciente Maiakovski desejava.
Seria possível construir o comunismo com os companheiros Ivanov, Petrov, Prisipkin, Pobedonosikov? Provavelmente, Maiakovski já se fazia esta pergunta. Mas ele não podia renunciar a seus ideiais, não podia viver sem a crença que praticamente o pregava aos jornais de propaganda: já que era um contato direto com as massas. Vãs esperanças, auto-ilusão futurística e crença na força das palavras….”
Nessa fenda, nessa “rachadura” entre as crenças (“Produza!”) e a decepção (“Abaixo!”) podia ter surgido a crise espiritual como premissa da tragédia. Tal crise cresceu gradativamente e já pudemos observar como deprimia o poeta…»

***

Leituras extras: O Amor, Maiakóvski, Morin, Caetano e PicassoO Suicídio de Maiakovsky – Leão Trotsky

***

Um dia” vou morar fora… Aprender Russo [para ler toda literatura e poesia] ou espanhol [para viver em uruguay o por latinoamerica]… Nestes últimos anos, vivo por cá “meio a contragosto“. São esses imperativos morais – ser pai, ser filho, ser trabalhador que se sustenta… É uma mescla de impotência para o delírio profundo e transmutador, e um sentido manso de dever e abnegação – mas acho que já escrevi sobre isto e não vou me repetir.

Dentes, línguas, pedras e poemas me aguardam – antes de minha morte…

Um dia hei de engendrá-los em mim…

E fiquei pensando no seu projeto – nesses sonhos que tive, e ainda aqui, lá no fundo, tenho – que me fez ver o quanto ainda estou pequeno e tudo em mim é tão mínimo por enquanto… ando tão preso neste momento e tão distante deste  “um dia“… ando tentando ser prático, mesmo que isto me afaste da práxis revolucionária, daquela rebeldia contra esse mundo, e o partido-coletivo é apenas uma imagem, algo distante de minha prática cotidiana.  Hoje, as aspirações são um cadinho “pequenos burguesas” de estabilidade, de “fazer minha casa”, de melhorar as condições de minha família, da filha, dos pais… E vou conciliando as limitações econômicas, as exigências familiares, buscando um lugar no espaço/tempo deste mundo que não me deprima tanto, que não alimente essa sensação-suicida-crônica que era constante… busco tanto ter paciência e coragem para prosseguir… sobreviver… enquanto guardo este sonho com carinho de um dia ir-me… virar-me do avesso, curar as cicatrizes… mas por hoje continuo, por cá, com mais um chá, envolvo-me nestes meus deveres de professor-aprendiz, de pai-aprendiz, de homem que sonha solitário, distante de sua classe e da utopia revolucionária. Minhas contradições… Estas minhas algemas, algemas de elefante. Isto que me faz tão distante e tão menor, de todo o amor que sangra neste peito.

abaixo, alguns fragmentos de poesia da semana:

exercício sobre o chá

esquece
e evapora
o líquido
que aquece.

embora,
lírico,
espera…

um chá
um chão,
pés líquidos,
uma hora,
um vão
na nuvem…

pero,
lírico,
emperra
e espera…

o que aquece
o que esquece
o que evapora
o que embora
lírico ainda é um poema
perro.

entre 4-6/abril/2014.

***

exercício sobre as palavras de izabel

o céu é vazio
azul e vazio
eu sou o céu
vazio e azul

e isto é poesia izabel.

3/abril/2014.

***

e agora fico devendo o poema sobre o tema-desenho que recebi de lucas, filho do meu primo. Todos os sábados ele traz os filhos, já que está morando temporariamente por aqui. E então e aquela correria de crianças pela casa… o tema-desenho é uma árvore verde com um fruto em forma de interrogação.

 

***

E hoje eu precisava tanto ficar só. Submerso no meu vazio interior. Ontem foi tão cheio de gente e tão longo o dia, as crianças acordam cedo – eu também tenho acordado todo dia cedo – e para fechar a noite izabel dormiu aqui em casa, porque a mãe dela saiu para namorar… E eu fui dormir tarde e num colchão tão duro… Ah, eu me cansei demais. Quintas e domingos são os dias mais tranquilos, onde estou mais em paz. O restante da semana é tão trabalhoso… Dias de semana são dias de trabalho e no Sábado são de izabel… E sempre são tantos humores e tantas cobranças que me consomem tanta energia espiritual e física – tenho andado sempre um tanto exausto.

 

Uma resposta to “a caderneta do poeta e suas contradições”

  1. mei Says:

    bonitas poesias 🙂

    Curtir


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