l’homme qui plantait des arbres

[dom] 9 de março de 2014

hoje (9/3) : uma sugestão de jacinto noé kahler caro. O homem que plantava árvores ( “L’homme qui plantait des arbres”, de 1987), vencedor do Oscar de Melhor Animação de 1988. Baseado em um conto do romancista francês Jean Giono, de 1953, e dirigido por Fréderic Back, o desenho conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas silencioso e persistente.

ontem (8/3) 20h55. enfim chega o ônibus que faz a linha córrego grande no ponto que estou, refugiando-me desta chuva fina que esperou que eu cumprisse todo o ritual/roteiro e chegasse ao ponto – o começo do retorno à solidão comunitária.

e na viagem, retomo a leitura – interrompida por quase um mês – de antes de nascer o mundo. livro que me levou à extremos, do riso ao choro, do contentamento à angústia, do fascínio ao estado de perplexidade…

abaixo um fragmento…

«Para atravessar contigo o deserto do mundo / Para enfrentarmos juntos o terror da morte / 
Para ver a verdade para perder o medo / Ao lado dos teus passos caminhei / Por ti deixei meu reino meu segredo / Minha rápida noite meu silêncio / Minha pérola redonda e seu oriente / Meu espelho minha vida minha imagem / E abandonei os jardins do paraíso / Cá fora à luz sem véu do dia duro / Sem os espelhos vi que estava nua / E ao descampado se chamava tempo / Por isso com teus gestos me vestiste / E aprendi a viver em pleno vento / Sophia de Mello Breyner Andersen [página 227]

[poema que abre o  antepenúltimo capítulo desta história de Mwanito, Marta, Silvestre, Dordalma e outros] […] E durante semanas, todos os dias à mesma hora, conduzi meu pai à escadaria da igreja, momentos antes das afinadas vozes subirem aos céus. De cada vez que fiz questão em me retirar, o seu braço me segurava. Calado e sem mover um dedo, queria partilhar aquele momento comigo. Queria refazer a varanda onde deitávamos o nosso silêncio. Até que, um dia, percebi que ele balbuciava as palavras dos hinos. Mesmo sem voz, Silvestre fazia coro com os cantantes. Sem que ninguém mais desse conta, as palavras de Vitalício subiam ao céu. Era um céu rasteiro, sem fôlego. Mas era o início de um infinito. *** Despertei com o ruído de vozes femininas. Pela janela espreitei. Dezenas de pessoas enchiam a rua e [página 232] paralisavam o trânsito. Gritavam palavras de ordem, empunhavam cartazes em que se lia: “Parem com a violência contra a mulher!”. Entre a multidão, vislumbrei Zacaria Kalash que abria caminho para se aproximar da nossa residência. Abri a porta e ele, sem pausa para licença, irrompeu casa adentro, como se buscasse abrigo. – O barulho que essas gajas fazem! Noci está lá, toda agitada. […] [página 233] […] Passaram-se dias em que não fui mais do que pai de meu pai. Cuidava dele, o conduzia por lugares para os quais ele sempre respondia como um cego. Até que um dia recebi um envelope. Reconheci a letra de Marta. Era a primeira carta que alguém, alguma vez, havia escrito para mim. [ página 237] […] [penúltimo capítulo] Escrevo-te esta carta, caro Mwanito, para que a nossa despedida se faça sem nenhum adeus.  No último dia em que estivemos juntos contaste-me o sonho em que o teu pai me salvava de morrer afogada no rio. Se pensarmos que a vida é um rio, o teu sonho é verdadeiro. Eu fui salva em Jesusalém. Silvestre me ensinou a encontrar Marcelo vivo em tudo o que nasce. […] Noci ofereceu-me essas fotos preto e branco. Não eram, como pensava, imagens de garças e paisagens. Era a reportagem do seu próprio fim, um diário pctórico da sua decadência. Por [ página 239] esse registro percebemos que ele desejava alonjar-se de si mesmo. Primeiro, andando desgrenhado e sem roupas. Depois cada vez mais próximo dos bichos, bebendo água de poças, comento carne crua. Quando abateram, Marcelo foi tomado por um animal bravio. Não foram os da guerra que o mataram. Foram caçadores. O meu homem, caro Mwanito, escolheu essas espécie de suicídio. Quando a morte chegasse ele já teria deixado de ser pessoas. E assim se sentiria morrer menos. Não foi um continente que engoliu Marcelo. Foram os seus demónios interiores que o devoraram. Esses demónios arderam quando, momentos antes do regresso a Lisbia, queimei todas as fotografias que Noci me tinha dado. *** A vida só sucede quando deixamos de entender. Nos últimos tempos, meu querido Mwanito, estou longe de qualquer entendimento. Nunca imaginei viajando para África. Agora, não sei como regressar à Europa. Quero voltar para Lisboa, sim, mas sem memória de alguma vez já ter vivido. Não me apetece reconhecer nem gente, nem lugares, nem sequer a língua que nos dá acesso aos outros. É por isso que me dei tão bem em Jesusalém: tudo era estranho e não prestava contas sobre quem era, nem que destino devia escolher. Em Jesusalém, a minha alma se tornava leve, desossada, irmã das garças. [página 240] Tudo isto devo a teu pai, Silvestre Vitalício. Condenei-o por ele vos ter arrastado para um deserto. A verdade, todavia, é que ele inaugurou o seu próprio território. Ntunzi responderia que Jesusalém se fundava num logro criado por um doente. Era mentira, sim. Porém, se temos que viver na mentira que seja na nossa própria mentira. Afinal, o velho Silvestre não mentia assim tanto na sua visão apocalíptica. Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. [grifos meus] E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes, é um acto de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida. *** […] [página 241] […] Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Excepto amar. Contudo, não é para falar de mim que te escrevo. Mas de tu mãe Dordalma. Falei com Aproximado, com Zacaria, com Noci, com os vizinhos. Todos me contaram pedaços de uma história. É meu dever devolver-te esse passado que te foi roubado. Dizem que a história de uma vida se esgota no relato de sua morte. Esta é a história dos dias finais de Dordalma. De como ela perdeu a vida, depois de se ter perdido da vida. *** Era uma quarta-feira. Nessa manhã, Dordalma saiu de casa como nunca o fez em sua vida: para ser olhada e invejada. O vestido era de cegar um mortal e o decote era de fazer um cego ver o céu. Estava vistosa que poucos deram conta da pequena mala que transportava com o mesmo desamparo de uma criança no primeiro dia de escola. Começo assim porque tu, Mwanito, não fazes ideia de como a tua mãe era linda. Não era o rosto, nem a cintura, nem as pernas ágeis e torneadas. Era ela, toda inteira. Em casa, Dordalma nunca era mais do que cinza, apagada e fria. Os anos de solidão e descrença a habilitaram a ser ninguém, simples indígena do silêncio. Infinitas vezes, porém, em frente ao espelho ela se vingava. E ali, na penteadeira, se enchia de aparências. Parecia, sei lá, um cubo de gelo num copo. Disputando [página 242] a superfície, reinando no cimeiro lugar até o tempo voltar a ser água. E regresso aos inícios: nessa quarta-feira, a tua mãe saiu de casa, vestida para semear devaneios. Os olhares da vizinhança não eram de cumprimentos perante a beleza. E suspiravam: de inveja, as mulheres; de desejo, os homens. Raiavam nas pupilas dos machos as mesmas dilatadas veias que enchem os olhos dos predadores. Eis os factos, nus e crus. Nessas manhã a tua mãe entrou no chapa-cem e espremeu-se entre os homens que enchiam a viatura. O autocarro partiu, entre fumos, animado de estranha pressa. O chapa não seguiu o rumo habitual. O motorista desconduziu-se, distraído, quem sabe, pelo espelho que lhe entregava as retrovisões da bela passageira. Por fim, o autocarro parou num esconso e escuro baldio. O que se passou a seguir até me dói escrever. […] [página 243] […] [último capítulo] […] – Quero que procures uma caixa que está na minha bolsa. Trouxe essa caixa para ti. Entrei, a medo. Noci estava-se limpando na toalha e eu podia entrever ora o seu peito ora as suas longas pernas. Retirei uma caixa de metal e ergui, tremendo. Ela entendeu o meu gesto. – É essa mesma. Lá dentro está dinheiro. É todo teu. E ela foi explicando a origem daquele pequeno tesouro. Noci fazia parte de uma associação de mulheres que lutava contra a violência doméstica. Há uns meses silvestre interrompeu uma dessas sessões e atravessou a sala, em silêncio. – Foi muito estranho o que ele fez – lembrou Noci. – Não leve a mal – acudi eu. – Meu pai sempre teve uma ideia negativa sobre as mulheres, peço que lhe perdoe… – Ao contrário, eu… aliás, todas nós ficámos muito gratas. O que sucedera fora o seguinte: Silvestre curzara a sala e deixara sobre a mesa uma caixa com dinheiro. Era a sua contribuição para a causa daquelas mulheres. A associação, entretanto, fechara. Ameaças diversas semearam o medo entre as associadas. O que Noci fazia era devolver o gesto solidário de meu pai. […] [página 260] […] – quem te ensinou a amar as mulheres? Devia ter respondido: foi a falta de amor. Mas nenhuma palavra me acudiu. Desarmado, vi Noci abotoando o vestido em preparos de despedida. No último botão ela se deteve e disse: – Quando nos entregou a caixa de dinheiro o teu pai não sabia que, no meio das notas, havia um bilhete com ordens. – Ordens? De quem? – De tua mãe. Meu pai nunca percebera mas a falecida esposa deixara um bilhete explicando a origem e o propósito daquele dinheiro. Eram poupanças de Dordalma e ela legava essa herança para que nada faltasse aos seus filhos. – Foi a tua mãe. Foi ela quem te ensinou a amar. Dordalma esteve sempre aqui. E a sua mão aberta pousou sobre o meu peito. […][ página 261] »

E me faltaram sete páginas para terminar o livro. Ficará para amanhã. Em vários momentos do livro fiquei com aquele gosto de encantamento… É muito poética a escrita de Mia Couto. Mas em outros momentos é como se eu sentisse um nó no peito, um engasgo, um soco no estômago… Pelo sentimentos narrados… por serem tão próximos… por senti-los, cá. Um lágrima brotou da leitura de hoje, e me fez recordar uma canção que estava cantarolando na semana anterior a do carnaval…. A canção é Clarisse, Legião Urbana, e o trecho é este «Clarisse sabe que a loucura está presente / E sente a essência estranha do que é a morte / Mas esse vazio ela conhece muito bem / De quando em quando é um novo tratamento / Mas o mundo continua sempre o mesmo / O medo de voltar p’rá casa à noite / Os homens que se esfregam nojentos / No caminho de ida e volta da escola / A falta de esperança e o tormento / De saber que nada é justo e pouco é certo / De que estamos destruindo o futuro / E que a maldade anda sempre aqui por perto / A violência e a injustiça que existe / Contra todas as meninas e mulheres / Um mundo onde a verdade é o avesso / E a alegria já não tem mais endereço […] »

20h25. a chuva começa. chego no ponto. vejo o relógio. anoto teu endereço. e espero.

20h20 aproximadamente. tieta-preta me lambe, me late, num misto de felicidade e ferocidade. não decifro ela… talvez ela meu queira [ou a rua, que tenho] que chega a beira da loucura/revolta. mas enfim… te chamo.. uma, duas, três vezes… tudo fechado. de deixo um cartinha. é, eu ando bem enferrujado… pois foi por ti que meu coração bateu pela ultima vez… depois ele hibernou, me recolhi, me guardei para o futuro. aprendi a viver na solidão. mas viver muito tempo na solidão nos vai distanciando das coisas do mundo… vamos nos amalgamando ao silêncio dos seres sós, vamos afinando os silêncios

[No ínterim]«só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Te deixo meu número. Espero tua chamada. E narro um trecho do livro que tenho lido… «A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros . Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. – Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado. Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia: – Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito. Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.»

Talvez eu queira dizer que sou cria dos silêncios, mas que tua existência, tua força [desde lá… 2005], tua presença, foram e são fundamentais.. tua mãozinha e teu coraçãozão contribuíram  na modelagem deste homem-barro que sou… tão próximo daquele rapaz que eu era, mas ao mesmo passo tão distante, tão mais velho… assim, como imagino, talvez não tão docemente, eu tenha contribuído um cadinho… e me recordo da canção de caetano… somos e já não somos os mesmos de antes. e o novo é o aventura de nos descobrirmos… de praticarmos o carinho, de não deixarmos o mundo terminar – como dizia o texto de mia couto. enfim, lhe quero.

17h01. estou a 20 passos de sua casa. e recebo um telefonema [o que sempre é extraordinário, no meu caso] e suspeito que seja tu, mas não é… é o cara da loja de árvores avisando que ela chegou… que posso passar hoje ou segunda… quero te contar isto. tudo fechado. chamo… nada. eu demorei. eu sempre demoro. eu sou lento e atravessado nesta vida… mas vou dar uma volta e depois te deixo um recado.

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