anajoaninhas da gramática expositiva do chão

[qui] 22 de novembro de 2012

e ela, no alto dos seus poucos anos, disse assim:

“não sou uma flor… sou um canteiro”.

e dos registros vespertinos:

ardo… e ainda fico bobo de como fico bobo ao teu lado (bem que sou capaz de ficar horas e horas mirando-te) – e é assim algo como “estás a un año luz de mí”sinto um contentamento danado por estar, por estares por cá, por existires… ó pequena flamboiaiã.

hoje o sol da tarde,ardentemente, irradiou uma tal vontade de lutar mais, hablar más, ouvir mais, ler mais, viver mais, tornar-me poesia novamente

e das palavras que deliram…

O homem (³)

é recolhido como destroços

de ostras, traços de pássaros

surdos, comidos de mar

O homem

se incrusta de árvore

na pedra

do mar.

(³) O NOSSO HOMEM – … Como Akaki Akakievitch, que amava só o seu capote, / ele bate continência para pedra! / Ele conhece o canto do mar grosso de pássaros, / a febre / que arde na boca da ostra / e a marca do lagarto na areia. / Esse homem / é matéria de caramujo.

O homem de lata

O homem de lata
arboriza por dois buracos
no rosto

O homem de lata
é armado de pregos
e tem natureza de enguia

O homem de lata
está na boca de espera
de enferrujar

O homem de lata
se relva nos cantos
e morre de não ter um pássaro
em seus joelhos

O homem de lata
traz para a terra
o que seu avô
era de lagarto

o que sua mãe
era de pedra
e o que sua casa
estava debaixo de uma pedra

O homem de lata
é uma condição de luta
e morre de lata

O homem de lata
tem beirais de rosa
e está todo remendado de sol

O homem de lata
é um iniciado em abrolhos
e usa desvio de pássaro
nos olhos

No homem de lata
amurou-se uma lesma
fria
que incide em luar

Para ouvir o sussurro
do mar
o homem de lata
se increve no mar

O homem de lata
se devora de pedra
e de árvore

O homem de lata
é um passarinho
de viseira:
não gorjeia

Caído na beira
do mar
é um tronco rugoso
e cria limo
na boca

O homem de lata
sofre de cactos
no quarto

O homem de lata
se alga
no Parque

O homem de lata
foi atacado de ter folhas
e se arrasta
em seus ruídos de relva

A rã prega sua boca
irrigada
no homem de lata

O homem de lata
infringe a lata
para poder colear
e ser viscoso

O homem de lata
empedra em si mesmo
o caramujo

O homem de lata
anda fardado de camaleão

O homem de lata
se faz um corte
na boca
para escorrer
todo o silêncio dele

O homem de lata
esta a fim
de árvore

O homem de lata
é uma caso
de lagartixa

O homem de lata
é rosto amoroso
de pessoa

O homem de lata
está todo estragado
de borboleta

O homem  de lata
foi marcado a ferro e fogo
pela água.

Manoel de Barros
(1916)

Mais sobre Manoel de Barros em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros

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