acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres

[dom] 13 de dezembro de 2009


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“Um intelectual é alguém que se recusa a fazer compromissos com os dominantes.”

Herbert  Marcuse

“(…)…..Hitler já definiu a essência da arte como ‘utilidade’. A utilização da arte nacional-socialista consiste em reconciliar o ser humano com mundo como ele é. A arte baniu todos os elementos de protesto e estranhamente se tornou parte integrante da vida quotidiana das massas manipuladas: adorna as fábricas onde as pessoas trabalham dez ou mais horas nos suprimentos de guerra, as salas de reuniões onde os líderes mapeiam a estratégia do terror, os ministérios que planejam a conquista e a destruição. A arte nacional-socialista confere a este mundo a grandiosidade de uma harmonia natural.
……..A  domesticação da arte segue o mesmo padrão da domesticação do sexo. A arte, ajustada a um mundo hostil, a suas promessas originais, altera seu conteúdo e suas funções: faz de si mesma uma alavanca para ajustar o homem às forças que governam sua vida social e política. As belas mulheres nuas e as paisagens coloridas nos quadros dos artistas nacional-socialistas encaixam-se perfeitamente com as salas de reuniões e as fábricas, máquinas e uniformes embelezados. Transformam os estímulos ao protesto e rebelião em estímulos à coordenação. Amalgamam-se na imagem de uma ordem que conseguiu coordenar até as mais recônditas zonas de perigo da sociedade individualista, além de induzirem o indivíduo a amar e a perpetuar um mundo que o usa somente para a opressão.
…….Chegamos ao final de nossa pesquisa inicial. Procuramos mostrar que a sociedade nacional-socialista tende a ser tornar o governo direto dos grupos sociais mais poderosos que conquistaram ou aboliram todas as instituições legais e políticas que se interpunham entre seus interesses particulares e a comunidade. Seu regime, longe de suprimi-lo, emancipou o individuo humano em seus instintos e aspectos mais sinistros. O nacional-socialismo não é uma revolução absolutista, nem socialista, nem niilista. A Nova Ordem possui um conteúdo bastante afirmativo: organizar a forma mais agressiva e destrutiva de imperialismo que a era moderna jamais viu”.

(Estado e Indivíduo sob o Nacional-socialismo. In: Marcuse, Herbert. Tecnologia, guerra e fascismo, São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 135-136)

Me incomoda muito uma reflexão (ainda muito intuitiva) que tendo desenvolvido quando da leitura de jornais, e da observação de noticiários na TV, e/ou refletindo sobre o cotidiano e o comportamento social de universitários, em particular, e outros grupos sociais, em geral. É toda essa idéia que no tempo presente alguns paradigmas comportamentais que Marcuse, neste texto acima, expõe sobre Nazi-fascismo encontram eco no modo de ser e estar dos indivíduos, da massa e da sociedade tecnológica atual. Como se o potencial (racional e sensível) critico humano fosse canalizado para uma perversão agressiva dos caracteres artísticos-sexuais (a libido, criativa e criadora, humana)  na  reprodução alienada da ordem (do aparato – em Marcuse – ou sistema – em Galeano -, como queiram) tanto na sua forma direta, e explicita, enquanto mercadoria [racionalidade tecnológica] industrializada [ver depois o conceito de indústria cultural, da mesma escola de frankfurt], quanto, e também,  nas suas formas indiretas, e implícitas, de barbárie escancarada, terror declarado e tátil. Há uma tremenda homogenização [massificação] de comportamentos compulsivos quanto a arte, aos relacionamentos individuais e entre grupos sociais, etc. Tudo, ou quase tudo, é encarado absurdamente de uma forma superficial e naturalizada  por uma massa facilmente ‘adestrável’. As vezes eu sinto muito medo disso tudo que vejo (…).

[Estou com dois livros dele para ler nestas férias: One-Dimensional Man, 1964 (Ideologia da Sociedade Industrial, Editora Zahar, Rio de Janeiro), e Counter-revolution and Revolt, 1972 (Contra-revolução e revolta, Zahar, RJ, 1973)].

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Cambiando, como os dias. Desde ontem mergulhei profundamente nas narrativas-confissões de Joana [perto do coração selvagem] novamente. Havia lido clarice pela primeira vez há mais de dez anos., e assim como cristovão tezza e outros, mexerá profundamente comigo. [o título deste tópico vem disto aqui – que ainda não li, por enquanto] . /// Como se fosse ontem ou amanhã, mas  tudo isto a dias atrás como se fosse um ano ou talvez mais, veio-me à lembrança, tão exausta, o riso do sol (…) entre silêncios e soluços, e o sal, de nossos corpos nos páss(ar)os de ícaro. // E nesse processo, talvez terapêutico, de tentar encontrar o sopro latente que me faz viver revirei tudo e não me achei ainda. Mas arrumo a casa outro dia… Abaixo fotogramas captados no final da tarde do dia ontem, ou agora pouco, como queiram.

Sambaqui, final de tarde nublado!

Início da noite! (12 dez. 2009)

e para encerrar este registro, um artigo interessante. LEIA!

A educação para além do capital

por István Mészáros [*]

“A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender”.
Paracelso

“Se viene a la tierra como cera, – y el azar nos vacía en moldes prehechos. – Las convenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales: – es necesario que sean esenciales . La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiritual. … La escuela y el hogar son las dos formidables cárceles del hombre”.
José Martí

“A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esquece que elas são alteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado. Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais [os educadores] é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias e da actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida e racionalmente entendida apenas como prática revolucionária”.
Marx

Escolhi estas três epígrafes a fim de antecipar alguns dos pontos principais deste discurso. A primeira, do grande pensador do século XVI, Paracelso; a segunda, de José Martí e a terceira de Marx. A primeira diz, em contraste agudo com a concepção actual tradicional e tendencialmente estreita da educação, que ” A aprendizagem é a nossa vida, da juventude à velhice, de facto quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender [1] . Relativamente a José Martí, ele escreve, podemos estar certos, com o mesmo espírito de Paracelso quando insiste que ” La educación empieza com la vida, y non acaba sino con la muerte “. Mas ele acrescenta algumas qualificações cruciais, criticando rigorosamente os remédios tentados na nossa sociedade e também conclamando à tarefa maciça pela frente. É assim que ele perspectiva o nosso problema: “Se viene a la tierra como cera, – y el azar nos vacía en moldes prehechos. – Las convenciones creadas deforman la existencia verdadera… Las redenciones han venido siendo formales; – es necesario que sean esenciales. La liberdad política no estará asegurada, mientras no se asegura la libertad espiritual. …La escuela y el hogar son las dos formidables cárceles del hombre.” [2] E a terceira epígrafe, escolhida de entre as “Teses sobre Feuerbach” de Marx, põe em evidência a linha divisória que separa os socialistas utópicos, como Robert Owen, daqueles que no nosso tempo têm que ultrapassar os graves antagonismos estruturais da nossa sociedade. Porque estes antagonismos bloqueiam o caminho para a mudança absolutamente necessária sem a qual não pode haver esperança para a própria sobrevivência da humanidade, muito menos para a improvisação das suas condições de existência. Estas são as palavras de Marx: “A doutrina materialista relativa à mudança de circunstâncias e à educação esquece que elas são alteradas pelo homem e que o educador deve ser ele próprio educado. Portanto, esta doutrina deve dividir a sociedade em duas partes, uma das quais é superior à sociedade. A coincidência da mudança de circunstâncias e da actividade humana ou da auto-mudança pode ser concebida e racionalmente entendida apenas como prática revolucionária”. [3] A ideia que pretendo sublinhar é a de que não apenas na última citação mas à sua maneira em todas as três, durante um intervalo temporal de quase cinco séculos, se sublinha a imperatividade de se instituir – tornando-a ao mesmo tempo irreversível – a mudança estrutural radical. Uma mudança que nos leve para além do capital no sentido genuíno e educativamente viável do termo.


1- A lógica incorrigível do capital e o seu impacto sobre a educação
2- Os remédios não podem ser só formais; eles devem ser essenciais
3- “A aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice”
4- A educação como a “transcendência positiva da auto-alienação do trabalho”

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