hypomnemata 73

[qua] 24 de maio de 2006

O texto abaixo não é meu, ele éum texto coletivo extraído Boletim eletrônico mensal do NU-SOL Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-graduados em CS da PUC-SP
no. 73, maio de 2006

«Fronteiras invisíveis, massa e a iminente multidão.

Primeiro foi a massa da torcida uniformizada do Corinthians, que insatisfeita com a derrota iminente para um time argentino, tentou invadir o campo de futebol para interromper a partida. A massa da torcida, por meio de seus próprios intérpretes e líderes, não suportou mais uma derrota e decidiu pôr fim ao jogo, mandando às favas as regras, os demais torcedores e a festa que ela promovia até o início do segundo tempo.

Em instantes, derrubaram o portão de acesso ao gramado; imediatamente, alguns policiais se aproximaram distribuindo borrachadas e mantiveram a massa a uma certa distância, a cada ameaça de confronto físico. De repente a polícia estoura as repetitivas bombas, aciona os tiros com balas de borracha e a massa desgovernada sai do estádio e atira sua ira contra móveis e imóveis das redondezas. Helicópteros, carros de polícias, corre-corre, prisões e no meio da madrugada tudo havia cessado e um silêncio mortal caía sobre a cidade de São Paulo. Restavam ainda as lembranças dos pronunciamentos das mídias, durante aquele episódio elogiando a contundente ação da polícia. Restava, também, uma inquietação: por que a massa de torcedores que tão facilmente destruiu o portão que dá acesso ao gramado recuou diante de tão poucos policiais?

Desde o final do século XIX, as massas foram alvo de estudos de pensadores de direita e de esquerda. Eles mostraram os processos de anulação do indivíduo na sociedade industrial, a emergência do líder condutor destes seres abúlicos, a irrupção surpreendente da violência em certas massas que correspondia, na mesma velocidade, aos seus recuos diante de uma autoridade superior. Os estudiosos de direita falavam da massa como produto do socialismo e exigiam medidas de autoridade estatal para dissipá-las, e democracia política para evitar novas explosões. Os pensadores de esquerda pretendiam mostrar que faltava à massa uma direção política consciente que a levasse a ultrapassar a condição de alienação em que se encontrava; assim, pela revolução socialista, dirigida pelos verdadeiros condutores, o indivíduo viria a ser livre e autônomo.

As massas, entretanto, permanecem, com ou sem democracia e socialismo, com ou sem totalitarismo. Os escritos de Freud, Gabriel Tarde, Gustave Le Bon, Ortega y Gasset, Albert Camus, Hannah Arendt, Elias Canetti, Zygmund Bauman, entre tantos, permanecem atuais. As massas contemporâneas foram e são governadas em campos de concentração. Na primeira metade do século XX eram confinadas como rebanhos para o abate em espaços fechados como Clevelândia, no Amapá-Brasil, na década de 1920 para anarquistas, os Gulags revolucionários soviéticos que atualizavam os depósitos humanos czaristas, o terrível holocausto nazista… os campos de concentração para japoneses nos Estado Unidos durante a II Guerra Mundial, e os por japoneses no sudeste asiático no mesmo período…

Os campos de concentração sempre foram campos de extermínio. Apesar das pequenas sublevações que ali ocorreram, o que mais surpreendia era a maneira obediente como as pessoas na massa obedeciam às ordens de confinamento controlado por tão poucos carcereiros e policiais, muitas vezes esperando a morte chegar, com resignação. Ao final de cada um destes acontecimentos políticos trágicos restou a esperança de não haver repetições. Vã esperança. Não muito distante de cada um de nós, apareciam novos campos de concentração e extermínio, indignando humanistas e redesenhando osmeios justificando os fins.

As massas também não cessaram. As democracias não restauraram a liberdade do indivíduo; os socialismos não libertaram o indivíduo da massa. Mas as massas agora estão acomodadas em redimensionados campos de concentração, nas periferias, nas favelas, lugares onde muitas vezes a população local festeja seu próprio assujeitamento. É lá que as pessoas se matam, que policiais e bandidos se apartam por circunstâncias extraordinárias, que se acusam, guerreiam e glorificam instituições alheias, e piedosamente esperando pela morte.

Elas pagam suas penas e esperam que os demais delas tenham pena. Elas temem a autoridade superior, seus símbolos, uniformes, sua força e obedecem. Reconhecem que a autoridade superior castiga e mata, usa a lei e se esquece da lei, sentencia, aprisiona, escraviza e mata, mas obedecem. Quando explodem, mostram um fio de sua ira e quase instantaneamente interrompem suas tentativas de devastações, mediante a aparição da autoridade hierárquica. São pessoas na massa, que compõem diversas massas, que clamam por um condutor para levá-la adiante. Na sua ausência, explodem e recuam. Cessam diante da fronteira invisível construída pelas autoridades hierárquicas.

Uma semana depois do episódio no Estádio do Pacaembu, uma massa de prisioneiros é dirigida pelo PCC (Primeiro Comando da Capital ou Partido do Crime) para convulsionar prisões e executar o seu programa de ação na cidade, matando policiais e intimidando civis. A massa de encarcerados e dos asseclas obedece ao comando do PCC. Confrontos nos presídios, nas ruas e negociações com autoridades governamentais sucedem simultaneamente. A ordem de cessar a rebelião é emitida pela direção deste Estado PCC. Segundo tempo: hora da polícia procurar os culpados pelas ruas, porque os demais culpados já estão presos! Horas de indiscerníveis atuações. Ela responde à boa sociedade que se está limpando as ruas, as favelas, as periferias. Então, o campo de concentração mostra sua face de campo de extermínio e os suspeitos são executados rapidamente pelos policiais.

As autoridades governamentais justificam os excessos, os intelectuais protestam contra os excessos, até autoridades religiosas aparecem para dizer que nestas ocasiões o excesso policial é justificável. A sociedade aplaude e festeja a punição desses corpos-para-a-morte como pretensa afirmação de sua própria segurança. Tudo caminha para um final, cujo tema é a contenção de excessos, expressão-símbolo das negociações legais e ilegais, em nome da legitimidade. Tudo caminha para novas medidas punitivas, mais recrudescimento nos regimes disciplinares de encarceramentos, construções de mais prisões, e um tanto de programinhas sociais, aqui ou ali… e uma vontade incontrolável de matar.

Há pensadores que falam hoje em dia da multidão, estes arranjos descentralizados de pessoas e grupos que protestam contra centralidades de poder e que aparecem, de tempos em tempos, sinalizando outras maneiras de existir fora das massas e do regime das autoridades superiores. Recusam as melhores intenções, a pletora de direitos e políticas afirmativas com seus ongueiros de ocasião administrando os campos de concentração. A multidãopoderá surpreender não por ser o povo desgovernado, mas por estar composta por pessoas autogovernadas. Para estas, a democracia não é um regime político salvador, como o é nesta globalização que uniformiza conservadores e sociais-democratas, mas um meio para liberdades.»

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