capítulo 7 e outras coisas.

[seg] 17 de setembro de 2001
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
O Jogo da Amarelinha – Capítulo 7 [Júlio Cortázar. tradução de Fernando de Castro Ferro.]


no vacúo. eu

nossos desejos e nossas intenções. [como escrever ao avesso num papel qualquer.] estou com frio. sigo meu raciocínio [i]lógico. ando descalço. olhe pro céu. como és tão bela… como é grande o vazio que provocas.

há tantos blocos de concreto. há tantos gritos e tantos espaços…. abertos. [sinais fechados e corações dilacerados]. terríveis são os segundos… transportem os gráficos… sigam os mísseis teleguiados. mísseis fissíveis.esperando sentado. lunáticos. matenham suas cabeças na lua. na lua. na lua. neste silêncio catastrófico, flechas cúpidas. ou torpedos humanos. [fazem] homens tochas. mísseis sem sentido, sem lógica. balas de cereja alojadas no peito de tão doce criatura.

desejos de morte. passos inversos e teríamos sorte. um sorriso ao encontro da morte. no vacúo.
[você não respira… você morre… você… você… morre.] palavrasfrasesoraçõessoltas.

trilha sonora loshermanos(blocodoeusozinho)+bideoubalde+pearljam(unplugged).

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