Флейта-позвоночник

A flauta vertebrada
Dedicado a Lila Brik(*)

PRÓLOGO

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

(Abaixo a tradução de Emílio Carrera Guerra)

A todas vós
que já fostes ou que sois amadas
como um ícone guardado
na gruta da alma
qual uma copa de vinho
à mesa de um banquete
ergo meu crânio repleto de versos.

Freqüentemente me indago:
talvez fosse melhor
dar à minha vida
o ponto final de um balaço.
Todavia
hoje
dou meu concerto de despedida.

Memória!
Junta na sala do cérebro as fileiras
das inumeráveis bem-amadas.
Derrama o riso em todos os olhos!
Que de passadas núpcias
a noite se paramente
Derrama alegria em todos os corpos!
Que ninguém possa esquecer esta noite.
Hoje tocarei a flauta
de minha própria coluna vertebral.

I

Meu passo esmaga ruas e verstas.
Que fazer, com o inferno no peito?
Que Hoffmann celestial
te pôde inventar, maldita?
Alegria tempestuosa invade as ruas.
A festa transborda de gente feliz.

Eu medito.
Os pensamentos, coágulos de sangue,
enfermos, ardendo,
porejam de meu crânio.
Eu,
criador de tudo que é festa,
não tenho com quem ir à festa.
Agora mesmo irei atirar-me
de cabeça
no empedrado da avenida Nevski.
Eis aí. Acabo de blasfemar.
Por toda a parte
andei dizendo que Deus não existe
e Deus, de tórridas profundezas,
fê-la sair,
aquela diante de quem
a montanha se perturba e treme,
e me ordenou: Ama-a!

Deus ficou contente.
No fundo do abismo
que há sob o céu
um homem atormentado
como um selvagem definha.
Deus esfrega as mãos
A si mesmo diz:
Hás de ver, Vladímir!
E ainda, ainda lhe ocorre,
para que ninguém possa advinhar quem és,
a invenção de te dar um verdadeiro marido
e de pôr sobre o piano música humana.
Se, de repente,
assomasse à porta de teu quarto,
faria o sinal da cruz sobre as cobertas, –
eu sei
sentir-se-ia um cheiro de lã chamuscada,
fumaça sulfurosa da carne do diabo.

Em vez disso me vou
horrorizado
de que tenham te levado para te amar.
Entro pela madrugada
talhando gritos em versos
ourives já quase louco.
Ou então: a jogar cartas!
De vinho
encher a goela do coração resseco
de gemer.
Não me fazes falta!
Não quero!
Dá tudo no mesmo.
Sei
que me despedaço.

Se é verdade que tu existes,
Senhor,
Senhor Deus,
se és tu que teces o manto das estrelas,
se este sofrimento
cada dia maior,
se este martírio
por ti me foi enviado,
Senhor, põe-me então as cadeias de condenado.
Aguarda minha visita.
Serei pontual.
Não me atrasarei nem um só dia.
Escuta,
Supremo Inquisidor.

Lábios cerrados,
nem um grito soltará minha boca
mordida até sangrar.
Amarra-me a um cometa,
como à cauda de um cavalo
e chicoteia!
Que meu corpo se estraçalhe
nos dentes das estrelas.
Ou então: quando minh’alma migratória
franzindo o cenho carrancudo
estiver diante de teu tribunal,
atira a Via Láctea,
faz dela uma forca
e dependura-me se quiseres,
qual um criminoso.
Faze o que quiseres.
Preferes me esquartejar?
Eu mesmo te lavarei as mãos,
a ti que és justo.
Mas – ouves? –
afasta de mim aquela maldita,
aquela que tu fizeste minha amada!

Meu passo esmaga ruas e verstas.
Que fazer, com o inferno no peito?
Que Hoffmann celestial
te pôde inventar, maldita!

II

Ao céu enfumaçado
esquecido de ser azul,
à nuvens fugidias
como um bando de maltrapilhos,
eu os abrasarei
com meu derradeiro amor,
ardente como um rubor de um tísico.

De alegria
suplantarei os gritos das hordas
que esqueceram a doçura de um lar:
Homens,
escutai!
Saí das trincheiras!
Mais tarde acabareis a guerra!

Mesmo quando
bêbados de sangue como Baco
uma batalha se fere,
as palavras de amor não murcham.

Alemães, queridos!
Eu o sei.
Tendes sobre os lábios
a Gretchen de Goethe.

O Francês,
trespassado pela baioneta,
sorri;
Com um sorriso nos lábios tomba
o aviador abatido,
se se lembra
do beijo de tua boca,
Traviata.
Mas que é para mim
essa blandície rosada
mastigada pelos séculos?
Tombai a outros pés!
Hoje
é a ti que canto,
pintada
e ruiva.

Talvez destes dias terríveis
como cargas de baionetas,
quando os séculos
branquearam as barbas,
talvez nada mais reste
senão tu
e eu
a te seguir de cidade em cidade.

Ainda que estejas
do outro lado do mar,
mesmo que te escondas
no nicho escuro da noite,
beijar-te-ei
através do nevoeiro de Londres
com os lábios de fogo dos lampiões.

Se no deserto tórrido
estenderes caravanas,
lá onde os leões estão de guarda,
pousarei a teus pés
sob a areia fustigada pelo vento
o Saara escaldante de meu rosto.

Floresça um sorriso em teus lábios,
apenas diga teu olhar:
– Que belo é o toureiro!
E logo num assomo
na arena dos ciúmes estarei
como olhos de touro moribundo.

Se uma ponte passares distraída
pensando:
– Que bom deve ser lá embaixo!
Sou eu
que sob a ponte corro,
eu sou o Sena,
eu te chamo
mostrando meus dentes estragados.

Se com outros acendes
o fogo dos galopes
nos parques de Striélka ou Sokólniki
sou eu que, grimpando o céu,
no alto te espero
lânguida lua nua.

Sou forte.
Faço-lhes falta.
Poderiam ordenar-me:
“Mata-te na guerra.”
Teu nome
será o último coágulo de sangue
em meus lábios rasgados
pelas balas.

Morrerei coroado?
Em Santa Helena?
Das tormentas da vida
cavalgando as vagas
tanto sou candidato
ao trono do universo
quanto a um par de algemas.

Fosse eu czar
e a imagem de teu rosto
sobre o ouro solar das minhas moedas
ordenaria a meu povo: Gravai!

E lá
onde o mundo na tundra se acaba,
onde o vento Norte congela os rios,
gravaria em meus ferros de condenado
o nome de Lila
e meus grilhões beijaria
nas trevas do exílio.

Ouvi pois!
Vós que esquecestes que o céu é azul
e que como feras vos eriçais.
Este é talvez
o derradeiro amor do mundo
ardente como o rubor de um tísico.

III

Esquecerei o ano, o dia, a data.
Encerrar-me-ei, solitário,
frente à branca folha de papel.
Que nasça a magia sobre-humana das palavras
iluminadas de dor!

Hoje, apenas entrei,
senti
a casa estranha.
Algo ocultavas em teu vestido de seda.
No ar flutuava um perfume de incenso.
-Feliz?
Um frio:
– Muito!
De angústia rompeu-se-me o dique da razão.
Ardendo, febril, resisto à desgraça.

Escuta,
por que esconder o cadáver?
Faze cair sobre a minha cabeça
a avalanche
da terrível palavra,
pois cada um de teus músculos
como um alto-falante grita:
Ele está morto, morto, morto!
Não!
Responde! Não mintas!
(Como poderei ir-me embora assim?)
Teus olhos em tua face escavaram
as fossas de dois túmulos.
Fossas profundas. Sem fundo.
Despenhar-me-ei
dos altos andaimes dos dias?

Por cima do abismo
estende-se minh’alma
tensa como um cabo
onde me equilibro,
malabarista de palavras.

Sei.
O amor dele te gastou.
Adivinho-te o tédio por inúmeros sinais.
Remoça-te em minh’alma!
Sei.
Todos pagam pela mulher.
Não importa
se, por ora,
em vez do luxo de um vestido parisiense
visto-te apenas com a fumaça de meu cigarro.

Levarei meu amor
como um apóstolo d’outrora
através de todos os caminhos.
Uma coroa te ofertarão os séculos
e nela minhas palavras compõem
um arco-íris de frêmitos.
Assim como os elefantes
com sua dança de cem toneladas
festejaram a vitória de Pirro,
assim a marcha de meu gênio
ressoará em tua fronte.
É em vão.
Não te posso arrancar.

Alegra-te,
alegra-te,
me venceste, afinal!
Sinto-me tão mal
que só quero correr ao canal
e mergulhar a cabeça nas águas.

Teus lábios…
Como és grosseira com eles.
Se os toco, um frio me tolhe
como se beijasse,
com lábios hereges,
a pedra fria da cúpula de um mosteiro.

As portas bateram.
Entrou ele
orvalhado pela alegria das ruas.
Foi como se um gemido
me tivesse partido
em dois.
Gritei-lhe:
“Bem, já me vou!
Fique com ela.
Dá-lhe roupas
para que suas asas tímidas
sob a seda se enredem.
Cuidado, para que não voe!
Amarra-lhe,
como uma pedra ao pescoço,
colares de pérolas!”

Ah! Aquela noite!
Do desespero se apertava o nó.
Vendo meus risos e prantos
o rosto de meu quarto
se torceu de horror.
Como um espectro diante de mim
teu semblante se erguia,
teus olhos iluminavam as alfombras
como se um novo Bialik (**) te sonhasse.
Ó deslumbrante e hebréia
rainha de Sião!

Dourai-vos ao sol, flores e ervas!
Sede primaveris, elementos da natureza!
Eu apenas quero um veneno:
embebedar-me de versos.

Ladra de meu coração,
tu que tudo me tomaste
atormentando minh’alma de delírios,
aceita minha oferenda, querida,
pois talvez nunca mais eu invente nada.

Tenha colorido de festa a data de hoje.
Nascei, palavras
crucificadas de magia.
Vedes?
Com palavras como cravos
estou cravado ao papel.

(1915)

(*) Lila Brik foi o mais intenso e constante amor de Maiakóvski.
(**) Bialik, famoso poeta hebreu.

vladímir vladimirovich mayakovski (bлади́мир bлади́мирович mаяко́вский)

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